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Gay Games: a bola da vez!

Wagner Xavier de Camargo

Com o destaque que vem ganhando o esporte de pessoas LGBTI+ (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, transgêneros, intersexo e demais), tanto no Brasil quanto em outras partes do mundo, o modelo de organização internacional dos Gay Games acaba sendo alçado ao nível de referência. Afinal, bem ou mal, atletas amadores LGBTI+ que jogam, correm, pedalam, nadam, imaginam algum dia competir juntos num torneio tipo Olímpico. Esse desejo e o modelo de negócios que balizam os Gay Games o projetam como a “bola da vez”, para usar uma expressão idiomática do esporte.

Segundo boletim informativo de fevereiro de 2020, publicado pela Federação dos Gay Games (Federation of Gay Games – FGG), a intenção por sediar este evento foi recorde: 20 cidades, localizadas em cinco continentes, manifestaram seu interesse, enviando informações detalhadas pelo formulário Request for Information (RFI), cuja data de recebimento cessou em 29 de fevereiro de 2020. Elas estão, portanto, na primeira rodada para começarem o processo de escolha (bidding process) da cidade-sede dos Gay Games de 2026.

Apenas para que tenhamos material de análise, listo aqui as cidades ao lado de seus países, agrupadas por continente: Brisbane/Austrália; Auckland/Nova Zelândia (Oceania); São Paulo/Brasil; Toronto/Canadá; Guadalajara/México; Austin, Fort Lauderdale, Minneapolis, Nova Orleans, San Diego, Seattle, nos EUA (Américas); Munique/Alemanha; Dublin/Irlanda; Amsterdã/Países Baixos; Lisboa/Portugal; Valência/Espanha; Liverpool/Reino Unido (Europa); Cidade do Cabo e Durban, na África do Sul (África); Taipei/Taiwan (Ásia).

Bootsparade nos Gay Games Amsterdã 1998. Foto: Wikipedia.

O Gay Games é um campeonato multiesportivo, quadrienal, que têm uma trajetória de quase 40 anos. A primeira edição ocorreu em 1982, em São Francisco (Estados Unidos) e teve a participação de pouco mais de mil atletas. Desde os anos 2000, entretanto, o fluxo se estabilizou e tem contado com presença de cerca de 10 mil participantes por edição. Há 14 anos, tenho me dedicado a realizar pesquisas sobre essa competição e percebo mudanças em curso, tanto em seu formato, quanto numa população que, ou dele participa, ou que o tem como grande referência de evento esportivo.

A décima edição que ocorreu em agosto de 2018 em Paris, na França, gerou um impacto econômico extremamente positivo para a cidade e arredores. De acordo com o boletim citado anteriormente, tal impacto foi de U$ 117,9 milhões. Além disso, as áreas de hospedagem, restaurantes e entretenimento (como passeios turísticos e viagens) geraram renda de U$ 72,7 milhões. Isso tudo não é pouca coisa. A edição de 2014, em Cleveland-Akron (EUA), a qual acompanhei de perto, já tinha sido declarada como a “mais rentável de toda a história dos Gay Games”, atingindo uma quantia de quase 7 milhões de dólares em receita e mais de 147 mil dólares em lucro líquido (em repasses diretos e indiretos). Isso já tinha sido considerado bem-sucedido para um centro pequeno como Cleveland, naquela época.

Ora, que o modelo é exitoso no território estadunidense não se questiona – e por isso é esclarecedor perceber seis cidades dos EUA na listagem prévia. Afinal, na história recente e que tenho acompanhado, Chicago-2006 e Cleveland-Akron-2014 foram eventos que geraram lucros e benefícios de contrapartida para todos os parceiros comerciais da brand Gay Games – marca comercial registrada na América do Norte, Benelux (Bélgica, Holanda e Luxemburgo), Reino Unido e Austrália. Diria que destas seis cidades, as menores em tamanho têm mais chances (essa é a tendência depois de Cleveland-Akron). E outro argumento reforça o retorno para os EUA em 2026: a cada uma ou duas sedes fora dos EUA, os Jogos acabam voltando para lá. Em 2022, o Gay Games XI será em Hong Kong, China.

Cerimônia de encerramento dos Gay Games Chicago 2006. Foto: Wikipedia.

A dúvida é se alguma sede na Europa vai continuar dando lucro depois da experiência não tão bem-sucedida como a de Colônia, em 2010. A surpresa de Paris-2018 e seu superávit de U$ 45,8 milhões em renda local (algo equivalente a 1.429 empregos em período integral) pode não se repetir novamente. Nesse cenário, e imaginando que depois de Hong Kong o evento retorne à Europa, talvez Munique dispute com Liverpool, pois são as cidades de porte médio-grande com mais condições de sediar uma competição multiesportiva.

Caso a sede de 2022 não fosse na Ásia, minha aposta seria alguma cidade na Oceania. A única vez que houve uma competição dos Gay Games por lá foi em Sydney-2000 e a literatura trata o caso como de um “sucesso estrondoso”, haja visto que foi a primeira vez que a organização dos Jogos regulamentou a participação de transexuais e transgêneros. Porém, a chance de ocorrer dois eventos seguidos na região Ásia/Oceania (2022 e 2026) é baixíssima. Portanto, Brisbane, Auckland e Taipei estarão com chances reduzidas.

Se as questões político-econômica, moral e de direitos homoafetivos no Brasil não estivessem tão deterioradas em todos os sentidos com a crise que vivemos, apostaria certamente em São Paulo como forte candidata, principalmente por causa da visibilidade da Parada LGBTI+, que já se tornou a maior do mundo e a mais badalada no circuito turístico global de tal população. Contudo, se for para escolher uma sede na América (excetuando as cidades estadunidenses), que seja Toronto, no Canadá. Além de ter condições financeiras, é tolerante, apresenta excelentes instalações esportivas e consegue facilmente receber um contingente de 14 a 16 mil pessoas.

De outro ponto de vista, pensando em inovação e descentralização como valores das novas diretorias da FGG que assumirão nos próximos anos, mirar a África seria bastante estratégico, principalmente pela cooptação de uma região do globo praticamente excluída nesses tipos de eventos esportivos. Resta saber se há interesses das empresas que patrocinam o modelo Gay Games, e mesmo da FGG, em direcionar um evento para lá. Tanto Cape Town quanto Durban estariam em condições plausíveis, inclusive com instalações esportivas em condições de uso.

Cerimônia de abertura dos Gay Games Paris 2018. Foto: Wikipedia.

Quaisquer que sejam as cidades que seguirão para as etapas vindouras, importante lembrar que para continuar no páreo das possíveis escolhidas, taxas em dólares devem ser pagas à FGG ao longo dos próximos dois anos. Elas funcionam quase como “taxas de adesão e comprometimento”. As finalistas em fevereiro de 2022 terão desembolsado ao término do processo um total de 45 mil dólares.

Não querendo abusar das expressões idiomáticas, apenas fico preocupado com quem paga a festa e quem dança a valsa. Com a hegemonia do modelo Gay Games, as modalidades esportivas são ocupadas, majoritariamente, por homens gays (há poucas mulheres lésbicas, alguns bissexuais, pouquíssimos/as atletas intersexo ou transgênero). É, portanto, sintomático perceber que tipo de corpos são visibilizados (e, portanto, valorados) no ofício esportivo “alternativo” ali apresentado. Se homens e mulheres cisgênero, de orientação homossexual, garantem seus lugares como clones de homens e mulheres cisgênero heterossexuais do esporte convencional, equipes de voleibolistas trans, ciclistas ou corredoras intersexo, e mesmo futebolistas lésbicas, por exemplo, mantêm-se invisíveis e às margens da economia financeira em desenvolvimento sobre (e com) o pink Money.

Algo aí ainda é nebuloso para quem está de fora e não participa das decisões tomadas. O que me impressiona é a vitalidade do modelo Gay Games, que chegou a balançar quando questionado pelo concorrente World OutGames (enterrado por corrupção em 2017), mas que se mantém extremamente ativo, cooptando legião de seguidores – pessoas, associações e países – e mesmo empresas.

Uma coisa é fato frente a tudo isso: as relações estabelecidas entre mídia, empresariado e expressões esportivas LGBTI+ são distintas, peculiares e polimórficas. Por isso, nada raro ou incomum sugerir que tais ligações podem ser perigosas, claramente mais para uns do que para outros da famigerada família de siglas.