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Gilmar Mascarenhas de Jesus, presente!

Arlei Sander Damo

Era difícil não se tornar amigo do Gilmar! Fomos apresentados pessoalmente por um amigo em comum, no final dos anos 90, e desde então ficamos amigos, no âmbito acadêmico e fora dele. Antes disso nos conhecíamos por texto, acerca da Liga dos Canelas Pretas, sobre a qual ambos havíamos escrito praticamente ao mesmo tempo. Esta liga, cujas fontes documentais são escassas, foi uma associação de clubes de negros e mulatos, segregados pela elite do futebol porto-alegrense, por volta dos anos de 1920.

Gilmar chegou até os Canelas Pretas em função da sua pesquisa visando a tese de doutorado, que trata da difusão do futebol no Brasil tendo o caso do Rio Grande do Sul como paradigmático. No texto mais recente que publiquei, na revista Fulia – por ironia, Gilmar seria o organizador do próximo número – ainda fiz uma referência à tese, transformada em livro em 2014: “Gilmar Mascarenhas foi um dos pioneiros a contestar, de forma consistente, a narrativa hegemônica que até então tomava o futebol desse eixo [Rio de Janeiro-São Paulo] como um modelo nacionalmente generalizável, com cronologias, personagens e sentidos”. Acrescentaria, agora, que nos tantos livros e artigos publicados, nas incontáveis intervenções orais que realizou ou mesmo em sua militância política, Gilmar manteve-se fiel à contestação das narrativas hegemônicas.

Ter encontrado e depois se encantado com a história dos Canelas Pretas é um exemplo do que apreciava intelectualmente e de quão incansável era na busca pelo que contrariava o senso comum ou o status quo. Como passei a lê-lo praticamente ao mesmo tempo em que o conheci, nunca me pareceu contraditório a mesma pessoa formular críticas contundentes ao establishment e ser tão afável; tão incisivo na contestação aos projetos neoliberais e sempre disponível para uma história vinda dos subterrâneos mundo futebolístico. Por ocasião da realização dos megaeventos no Brasil, Gilmar foi uma das mais eloquentes e qualificadas vozes a rechaçar o projeto de atualização dos estádios e, sobretudo, de cidade e de cidadania que o acompanhou. As convicções às vezes nos custam caro e o atropelamento parece ser o preço, demasiado oneroso, que Gilmar pagou por confrontar, de corpo e alma, a gentrificação e a desumanização das cidades, cujo carrocentrismo é uma das tantas expressões.

A última vez que estive com Gilmar, em setembro de 2018, foi por ocasião do III Simpósio Internacional de Estudos Sobre Futebol, realizado junto ao Museu do Futebol, no Pacaembu. Estivemos juntos numa mesa e coordenamos um GT, discutindo justamente a questão da arenização. Entrementes as atividades acadêmicas, conversamos sobre temas políticos e pessoais, sempre que possível acompanhados de uma cerveja. Chegamos, inclusive, a vislumbrar um livro, escrito a quatro mãos, para dar conta das transformações pelas quais passaram os estádios brasileiros ao longo dos tempos. A arenização seria então uma etapa, não o fim de um processo, e Gilmar certamente vislumbrava localizar alguma resiliência, tal qual a dos Canelas Pretas, a partir da qual se pudesse afirmar que o povo ou seu espectro ainda habitava os estádios.

Tínhamos esperanças; ou ilusões, não sei. Em novembro recebi uma mensagem empolgada dizendo que o projeto teria ao menos mais duas participações – do Silvio e do Felipe – e eu fiquei de rascunhar um esboço que, amadurecido, haveríamos de submeter a uma agência de pesquisa. O projeto tinha um título provisório, “Pós-Copa 2014 – os dilemas da arenização”. Pensávamos em fazer uma história de longa duração e havia espaço para pensar, inclusive, as novidades: “Movimentos ‘anti’, estreitamente vinculados a questões de raça/etnia e gênero (fascismo, homofobia, machismo, racismo, etc.) são notados em diferentes estádios, em certos casos acoplados às antigas torcidas organizadas, noutros casos independente e mesmo em disputa. Trata-se de um cenário novo, não previsto e em que pese seja insipiente, tem levantado bandeiras até então silenciadas nesses espaços de protagonismo viril”. Por razões óbvias, o esboço do projeto que partilhamos segue adormecido no meu computador. Se um dia a esperança vencer novamente, ele haverá de ser realizado, e o geógrafo Mascarenhas, a mais destacada autoridade brasileira – talvez internacional – será nossa referência.

No texto recém-publicado ao qual me reportei anteriormente, fiz uma pequena exegese das temáticas abordadas ao longo das três edições dos simpósios realizados junto ao Museu do Futebol, para corroborar a impressão de que há mudanças em curso no espectro dos estudos esportivos, a começar pelo aumento da participação das mulheres e pela politização do debate. Me referi várias vezes no texto ao fato de que nossa produção amadurecia, porque abria-se para questionamentos, embora, paradoxalmente, isso estivesse acontecendo num momento em que a nação brasileira parecia se fechar.

Gilmar Mascarenhas durante Simpósio em Belo Horizonte, 2013. Foto: Sérgio Settani Giglio.

Ao final do texto, fiz referências à angústia, partilhada por tantos colegas e amigos naquele evento de setembro último, por estamos vivendo um momento tão delicado de nossa história. No sábado pela manhã acompanhamos o enceramento do III Simpósio, no interior no Pacaembu, com um debate instigante sobre temas atinentes à diversidade no futebol. Enquanto isso, na esplanada do mesmo estádio, agora privatizado, uma trupe fantasiada com camisetas da CBF preparava-se para proclamar o advento de uma nova era: anti-intelectual, sectária, excludente, fascista.

No que poderia ser considerada uma nota etnográfica, escrevi no final do texto publicado em Fulia:

“Apreciando da plateia o desenrolar das intervenções […], fui rememorando um percurso trilhado ao longo de mais de duas décadas, desde as incursões quase solitárias iniciadas ao longo de 1990, quando a bibliografia e a interlocução eram escassas, até aquele aprazível momento no qual partilhava com colegas e amigos o desfecho de um evento que, a meu juízo, mostrava o amadurecimento das nossas pesquisas e debates”.

E na sequência, usando outra vez um tom pessoal, complementei:

Estava entre colegas e amigos, repito, e de algum modo experimentava a sensação de que estávamos avançando coletivamente, de que nos movíamos na direção sublime, e quiçá ingênua, de alargar os horizontes do conhecimento. Se havia perdido um pouco do romantismo com o futebol de espetáculo, o havia reencontrado com os outros futebóis […]. (Os grifos foram acrescentados agora).

Gilmar não era apenas mais um dos amigos com quem partilhei aquela jornada, praticando o futebol com as palavras. Foi o amigo que me mandou fotos da manifestação #EleNão, ocorrida na tarde daquele sábado, enquanto eu retornava à Porto Alegre. O amigo que esteve, com outros amigos, nos recentes protestos contra os cortes na educação e a supressão de direitos trabalhistas. Ele certamente estaria novamente nas ruas, no dia 14 de junho, porque era um lutador, e lutador precisa estar nas ruas, em que pese elas possam se revelar hostis; por vezes, demasiadamente hostis.

Rodrigo, um dos filhos queridos de Gilmar, era meio gremista, por influência da família porto-alegrense, e meio botafoguense, por motivos óbvios. Nos últimos anos Rodrigo havia se tornado mais gremista do que botafoguense, mas Gilmar parecia resignado, pois suspeitava que o Botafogo pudesse em breve tomar os rumos da Portuguesa, do Bangu e do América/RJ. Eu, que com o tempo me tornei um gremista meio mais ou menos, aprendi a gostar do Botafogo. Não é difícil gostar do Botafogo, basta não torcer para outro clube carioca. Em todo o caso, o pertencimento clubístico não implica apenas uma questão de gosto, sendo antes uma gramática afetiva, pessoalíssima, romântica e avessa ao que se pode obter com dinheiro.

Suspeito, pois, estar o Botafogo mais distante do ostracismo. Sua legião de torcedores haverá de aumentar, porque seremos muitos a lembrar que quando o time da estrela solitária adentrar o gramado, não estará representando apenas o simpático clube de Nilton Santos, Garrincha, João Saldanha e outras feras. Será também, e sobretudo, o clube do coração do nosso amigo, o sorridente lutador, Gilmar Mascarenhas de Jesus!

Como citar

DAMO, Arlei Sander. Gilmar Mascarenhas de Jesus, presente!. Ludopédio, São Paulo, v. 120, n. 27, 2019.