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Gino Bartali e o esporte no contexto fascista italiano

Wagner Xavier de Camargo

Há duas semanas, esperando numa ingrata fila de banco para pagar um boleto, conheci Dona Sônia, professora de História aposentada que, tendo formado inúmeros/as estudantes em sua carreira de docência, de modo algum se conforma com o resultado da eleição presidencial de outubro passado. Viúva e sozinha, pois seu único filho mora fora do Brasil, Dona Sônia me contou que visita frequentemente as escolas estaduais em que ministrou aulas, tentando “falar de política” no pátio e deixando “mensagens de conscientização” no mural da sala dos professores. Porém, disse estar desanimada, pois tudo “mudou muito” desde sua época: encontra professores/as desinteressados/as, estudantes “avoados” e um descompromisso geral com o ensino e com temas que lhes envolvem. Quando mencionei que também sou professor, a dúvida sobre “o que fazer” perante a situação política do país emergiu e ficamos mais de meia hora conversando sobre isso.

Tenho certeza de que essa professora não é única em sua inquietação nas atuais circunstâncias da política brasileira. Algo em sua rotina incansável de ir às escolas levando mensagens e lutando, a seu modo, contra a política do momento, lembrou-me a prática de um famoso ciclista italiano, Gino Bartali, nos anos mais duros do Fascismo italiano.

Gino Bartali. Foto: Wikipédia.

Bartali viveu grande parte do século XX (nasceu logo no início da I Guerra Mundial e faleceu na virada do milênio) e presenciou muitas transformações políticas e territoriais no continente europeu. Viu a ascensão fascista de um estado que perseguiu politicamente e matou seus cidadãos, que impôs um partido único (Partido Nacional Fascista) dissolvendo inúmeros outros, que instaurou a censura e que se vinculou ao Nazismo alemão.

Como esportista, ele atuou profissionalmente entre 1935 e 1954, tendo sido campeão do Giro d’Italia, tradicional circuito de ciclismo de estrada no país, em 1936, 1937 e 1946 (e vice-campeão em 1939, 1947, 1949 e 1950), e vencedor do aclamado Tour de France, em 1938 e 1948. Grande parte destas conquistas ocorreu durante o período mais crítico da ditadura fascista italiana de Benito Mussolini (de 1925 a 1943).

Em que pese ter sido aclamado como atleta do regime fascista e, para a opinião pública, apenas mais uma personalidade que desfrutou da fama dentro do ciclismo europeu de elite, Bartali desempenhava também outras funções, totalmente desconhecidas à época. Convocado por um padre, amigo da família, o ciclista transportava documentos falsos, fotografias e dinheiro dentro dos canos de sua bicicleta ou debaixo de seu selim, que ajudaram a salvar das câmaras de gás muitos compatriotas de origem judaica, levados constantemente para campos de concentração nazistas. Ele pedalava várias horas por incontáveis quilômetros a fim de levar, de um lado a outro, esperança para quem pudesse escapar da morte.

O ciclista guardou em silêncio este segredo até o fim da vida. Falecido em 2000, tal proeza não era conhecida nem de seus familiares e apenas veio à tona em 2010, quando jornalistas italianos, por meio de uma série de entrevistas com famílias judias sobreviventes do Holocausto e habitantes da Itália na época, descobriram o “ativismo político” do ciclista contra as forças nazistas que ocupavam seu país.

Para honrá-lo apropriadamente, a pedido do governo israelense, o Giro d’Italia foi realizado em 2018 em Jerusalém, pela primeira vez fora do território italiano, em mais de cem anos de história do circuito. Nos dias prévios ao evento esportivo, vários ciclistas da atualidade prestaram homenagem a Gino Bartali, um exímio atleta do século XX e um grande ser humano. No limite, ele nos mostrou que vida cotidiana, esporte, política não se dissociam e, sobretudo, se implicam, se sobrepõem, mantendo uma quase-íntima relação.

Não tive a oportunidade de contar tal história de Gino para minha amiga Sônia, a desolada professora da fila do banco. Talvez ainda o faça algum dia, se der sorte de encontrá-la, nos primeiros dias de dezembro próximo, quando seguindo um teimoso controle de contas pagas via autenticação mecânica (uma obsolescência que me custa tempo nos dias atuais), eu estiver novamente na famigerada fila bancária para pagar meus boletos.

Mais do que nunca temos que ser “donas Sônias” no Brasil de hoje e atuar como Bartali, levando mensagens secretas em nossas bolsas, bolsos e bocas (e mesmo em nossas bicicletas, por que não?) para salvar vidas. “Vidas” essas que não são de judeus em campos de concentração, mas de pessoas próximas ou familiares, de vizinhos negros, de amigos gays e lésbicas, de pessoas trans, que podem, de uma hora para outra, terem suas existências negadas e desaparecerem de nossas vistas, simplesmente porque não se encaixam nos padrões estabelecidos no momento. Feito algo, fiquemos no anonimato, no silêncio e puxemos conversa na próxima vez que estivermos numa fila de banco.


Para conhecer mais:

“Gino Bartali, la leyenda del ciclismo que sorprendió a todos tras su muerte”. Youtube. Disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=pPxLJ3yaHZ4>, acesso em 10 nov. 2018.

McCONNON, Aili; McCONNON, Andres. Road to Valour: Gino Bartali. Tour de France Legend and World War Two Hero. London: Weidenfeld & Nicolson, 2012.