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Grêmio x Real Madrid: uma derrota anunciada

Caio Possati

Assim que o árbitro mexicano Cesar Ramos encerrou a final do Mundial de Clubes, no estádio Sheikh Zayed, um Real Madrid indiferente acabava de se tornar campeão do mundo pela segunda vez seguida. Do outro lado, um Grêmio exausto saia orgulhoso por ter perdido pela diferença mínima de 1 a 0 para o melhor time do mundo.

De nada adiantou Varane disfarçar em sua entrevista, concedida ainda no gramado, ao dizer que o Grêmio tinha dificultado o jogo para os merengues. Mera formalidade. O Real Madrid foi extremamente superior a equipe brasileira do começo ao fim. Um abismo claro em capacidade técnica, disposição tática e qualidade individual dos jogadores. Tudo isso torna-se ainda mais intrigante quando um Grêmio, que se doou ao máximo, foi facilmente dominado por um Real Madrid que jogou na base do mínimo esforço.

Mesmo sem ligar para o Mundial, tão cobiçado pelos sulamericanos, os espanhóis não deram a mínima chance. Ocupou desde o início o campo de defesa do Grêmio, teve mais de 60% de posse de bola durante todo o jogo e desferiu 20 chutes contra a meta de Marcelo Grohe. A equipe de Renato Gaúcho, independente se por opção ou circunstância de jogo, se defendeu os noventa minutos e coube apenas a Edílson finalizar a única bola do tricolor na partida em falta de longa distância – ao menos, fez o jornal esportivo Marca, da Espanha, comparar com um arremate de Roberto Carlos.

Gremio x Real Madrid RS - FUTEBOL/GREMIO X REAL MADRID - ESPORTES - Lance da partida entre Gremio e Real Madrid, disputada na noite deste sábado no estadio Zayed Sports City, em Abu Dhabi, valida pela grande Final do Mundial de Clubes FIFA 2017. FOTO: LUCAS UEBEL/GREMIO FBPA

Cristiano Ronaldo fez o único gol da partida. Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA.

Sem ter mesmo muito o que fazer, o Grêmio aceitou a condição de time periférico do mundo e se vangloria de ter suportado, ainda que bem, um clube de centro do universo do futebol. E é justamente isso o que o torneio da Fifa tem se tornado a cada ano que passa: a reafirmação de que há uma distância cada vez maior entre o centro europeu em relação aos outros lugares onde se disputam futebol, como na América, África e Ásia.

Para estes times, chegar ao Mundial e jogar contra os ganhadores da Champions League é saber que, para ter uma chance de vencer, é necessário contar com um milagre. Por mais que digam que no futebol tudo pode acontecer, sabemos que as vontades terrenas prevalecem na maioria das vezes e estão, em grande parte, à favor dos mais fortes e capacitados. Na final, para quem estava torcendo para o Grêmio, a pergunta que se fazia era: “Em que momento do jogo o milagre vai acontecer?”, uma vez que o milagre poderia ser um gol dos gremistas ou a capacidade de não levar nenhum dos madrilenhos. Mas enquanto um lutava para atingir o impossível, o outro jogava para confirmar o óbvio.

Gremio x Real Madrid RS - FUTEBOL/GREMIO X REAL MADRID - ESPORTES - Lance da partida entre Gremio e Real Madrid, disputada na noite deste sábado no estadio Zayed Sports City, em Abu Dhabi, valida pela grande Final do Mundial de Clubes FIFA 2017. FOTO: LUCAS UEBEL/GREMIO FBPA

Renato Gáucho passa instruções para sua equipe enquanto Zidane apenas observa. Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA.

É claro que a condição de superioridade não se atinge somente pela composição de excelentes atletas. O que faz um Real Madrid ser extremamente superior a um Grêmio – ou um Barcelona ser muito melhor que um Santos – pode ser explicado por um estrutura de organização, mentalidade e tratamento de futebol presentes em países como Alemanha, Inglaterra e Espanha. Mas, não se pode negar que equipes como Grêmio, Santos, Boca Juniors, River Plate, além africanos e asiáticos, contribuem para formar essas seleções mundiais espalhadas pela Europa por meio da exportação do famoso “Pé-de-obra”.    

E pelas lei natural das coisas, tratamos este domínio europeu, que não se limita ao futebol, com normalidade e compreensão. Séculos de exploração e de abuso de riqueza deixaram de herança não somente um papel secundário no mundo para países latinos, mas também a consciência de que: “levando-se em conta que vai perder, perder de pouco pode ser considerado uma vitória”.

E por parte de quem está do outro lado, 90 minutos contra um time não-europeu é o tempo necessário para reafirmar uma superioridade independente de ser um jogo amistoso ou a final de um Mundial. Ao menos era este o recado que o semblante seco dos jogadores do Real Madrid, depois de jogar o suficiente para não se desgastar para o clássico contra o Barcelona no próximo sábado (23), transparecia. O Marca destacou mais a conquista de uma quinta taça em 2017 pelo Real Madrid, do que propriamente a quinta taça.

Real Madrid vence o Grêmio e é campeão mundial de clubes. Foto Antonio Villalba

Real Madrid vence o Grêmio e é campeão mundial de clubes. Foto: Antonio Villalba.

A derrota do Grêmio não começou e nem terminou com o apito do mexicano. Ela já estava anunciada no assédio europeu por jogadores da base, na moeda, no salário em Euro com o qual não se compete – e também por toda a estrutura já citada. Era uma derrota agendada. Nem mesmo o “milagre” quis aparecer pelos lados de Abu Dhabi. Talvez até ele também já tenha sido comprado.