120.10

Guanambi x Leônico: o dia em que o sertão ganhou de dez a zero da capital

Rogério Othon Teixeira Alves

Antes de qualquer coisa, aviso ao leitor que esta história é verídica, ambientada no “meu mundo” do futebol e, por isso, escrita em primeira pessoa. Explico! Diante dos fatos narrados adiante, me apego ao testemunho intransferível da minha individualidade, ainda que o episódio em questão tenha sofrido com diversos julgamentos injustos, oficiais e pessoais.

O ano era 2007, nada emblemático nem marcante em princípio. Foi num final de semana qualquer do mês de setembro, curtindo alguns dias de folga em minha cidade natal, Guanambi-BA, celebrando e revendo amigos e familiares, que, num dado momento, entre cervejas e petiscos, ao atualizar sobre os acontecimentos locais, soube da partida de futebol mais importante do ano, jogo em que o Guanambi Atlético Clube (GAC), equipe existente desde os meus tempos de futebol infanto-juvenil, iria disputar uma vaga na final do campeonato baiano da segunda divisão. Ao saber do grande feito do GAC até aquele momento, emergiu um repentino sentimento de orgulho e, sem pestanejar, talvez estimulado por mais um gole de cerveja, decidi ir ao jogo com os amigos, pois tal oportunidade poderia não mais existir para mim, morador que sou de outra cidade, em outro Estado.

Símbolo do Guanambi Atlético Clube, o GAC. Foto: Reprodução/Facebook.

Cabe um adendo para o cenário da partida: a “minha” jovem cidade, Guanambi, nordestina, sertaneja, fincada no sudoeste baiano. Enquanto crescia junto com ela, me ensinou que era pujante, moderna, digna de diferenciação entre as demais vizinhas baianas. Se era verdade, sinceramente não interessa, foi o que aprendi desde criança. Ela, mesmo significativamente distante de qualquer capital brasileira (Salvador, Belo Horizonte e Brasília são as mais próximas), todas com cerca de 700 quilômetros de distância, não se sentia isolada. Ao contrário, talvez essa (des)localização fosse um privilégio, porque dessa forma seu povo podia, e ainda pode, ser influenciado em várias frentes e vertentes culturais. A saber: refletimos o Norte do país através do “mundo” nordestino, com suas angústias e altivezes tão marcantes em seu povo; sentimos e usufruímos do vasto e bonito Litoral, capitaneado por Salvador, sua capital, Ilhéus e Porto Seguro (também aprendemos que o Brasil “nascera” na Bahia); o contato com o Sul é fronteiriço com Minas Gerais, região de troca de influências mútuas, observadas no clima similar, na culinária de gostos e sabores da mesma cozinha, de sotaques e trejeitos “baianeiros”, definição ideal para uma região que surge dos dois grandes Estados; por fim, a Oeste, a região se mistura com a cultura goiana e brasiliense. No quesito identidade, sem o rigor de uma análise sócio-histórico-antropológica, Guanambi é isso, emergente de uma faixa de transição geográfica, reflexo da cultura de várias regiões brasileiras. E com o futebol não seria diferente.

Não há necessidade de expor a importância do futebol e suas nuanças no Brasil, em suas mais diferentes regiões. Na cidade de Guanambi, a efervescência provocada pela bola é nítida e o pertencimento clubístico é notório, destacando-se a torcida pelos times cariocas (notadamente Flamengo e Vasco da Gama), dividindo a atenção com equipes paulistas e com os dois baianos de Salvador. Nesse panorama futebolístico, e sem a pretensão de quantificar o torcer em Guanambi, a tal partida local citada anteriormente teve o poder de reunir os guanambienses em torno do seu próprio time, o GAC, sem ter que recorrer ao televisor, rádio ou internet para acompanhar jogos de equipes do Rio, São Paulo ou Salvador. Não, o jogo seria no Estádio 2 de Julho, campo de futebol que na infância eu havia participado da sua reinauguração, atuando como gandula no jogo festivo da seleção da cidade contra um combinado master que representava a seleção brasileira. Lembro que o goleiro era Felix, tricampeão no México em 1970, mas havia outros craques do passado que não me recordo. Um festão nos idos de 1988, acredito.

Estádio 02 de Julho, Guanambi/BA. Foto: Wikipedia.

Nesse turbilhão de lembranças, e retornando à 2007, seguimos em direção ao estádio. No caminho, a cada esquina, via-se a torcida orgulhosa e esperançosa se juntando para o jogo, com camisas do GAC se destacando no horizonte. O entorno do 2 de Julho era o nosso Maracanã, regado à batucada estilo Olodum, ambulantes oferecendo bebidas e churrasquinho esfumaçado, afinal, todos os aspectos formando o ambiente típico do futebol festivo do interior. Em seguida, na fila para comprar o ingresso, entre empurrões e palavrões, fiquei sabendo do detalhe principal: para seguir vivo no campeonato, o GAC teria que golear o adversário para disputar com o Feirense (equipe de Feira de Santana) a única vaga para a primeira divisão. Assim, o jogo contra o Leônico (agora eu sabia quem era o adversário ao ler no ingresso) era uma final, e se quisesse ter chance de acesso, a goleada deveria ser de muitos gols. Quantos? No adentrar da arena do “meu sertão” percebi que a tarefa seria hercúlea, pois deveriam “os nossos” ganhar por 10 gols de diferença! Confesso que arrependi subitamente. Aguentar tanto sofrimento, cansaço, suores compartilhados, empurrões e cutucões a ermo me desanimaram diante da empreitada improvável. Para piorar, naquele momento, tornara-se impossível sair do estádio contrariando a multidão. Então, nos abalroamos no alambrado logo atrás do banco de reservas do GAC, num canto do estádio, uma posição complicada para ver o jogo, mas privilegiada para comprar cerveja, algo até então prioritário.

Ingresso da partida Guanambi 10 x 0 Leônico, Foto: Arquivo pessoal.

A festa estava pronta, público gigantesco, a difusora local irradiando a peleja para quem quisesse acompanhar a distância, e finalmente as equipes adentraram o campo, obedecendo a liturgia da FIFA, perfilados, com hino nacional e cumprimentos civilizados, um orgulho danado. Em meio ao nervosismo coletivo do início, outra experiência inédita: a torcida, no contorcer e disputas por um espaço junto ao alambrado, quase leva abaixo o cercado do campo, um episódio que provocou a reação da Polícia Militar, que para dispersar a assistência inquieta, dispensou uma baforada generosa de spray de pimenta, sensação de ineditismo para mim. O ocorrido foi a uns 30 metros de distância da nossa turma, por isso não preocupei; porém, os atingidos pela nuvem ardida saíram correndo formando uma confusão dos diabos e, para piorar, o gás de pimenta não se dissipou facilmente. Ao ser também atingido, pude perceber o estrago que ele faz nas vias respiratórias, boca e olhos. Pronto, estava eu “batizado”. Na dúvida, todos correram, atropelando tudo pela frente, enquanto o efeito da pimenta vagarosamente diminuía.

Preciso informar que a história até aqui foi fácil de ser contada, pois disse respeito aos fatos que me circunscreveram. O mais difícil é falar do jogo. Convenhamos que aplicar uma fragorosa goleada era possível, mas dez gols de diferença era demais. Então o jeito era bater papo e tomar cerveja, enquanto curtíamos a festa. Para continuar o texto, diante das parcas lembranças, recorri a vídeos postados na internet e pude sentir novamente o calor (em todos os sentidos) que fazia naquela tarde em Guanambi. Quanta alegria, quanta gente reunida em função do futebol, um evento único na minha história, na história da minha cidade.

Relembrado que fui, via net, voltei no tempo para vibrar com um primeiro tempo promissor, pois o placar marcava quatro a zero ao final dos primeiros 45 minutos. Almejar dez ainda era impraticável, mas quem sabe no segundo tempo? Reiniciado o jogo, logo aos sete minutos o quinto gol, que fez explodir a torcida em esperança. Era a metade! A partir daí o tempo foi cruel, “voou” paralelo a uma seca inclemente de gols e, pasmem, o GAC se deu ao luxo de perder um pênalti, um balde de água fria capaz de calar a torcida. Mas, “quem acredita sempre alcança”, bradou um esperançoso guanambiense, momento em que aos 30 do segundo tempo, possuídos pelos deuses goleadores do futebol, nossos rapazes, impiedosos “matadores”, municiados com os dons extraterrenos de Zico, Roberto Dinamite, Pelé, Romário, entre outras divindades, marcaram cinco gols em sequência. Foi uma saraivada de ataques e contra-ataques certeiros que os adversários não tiveram tempo nem de pestanejar. O placar estava feito.

Quando o juiz findou a partida, a torcida vibrou sem acreditar que o objetivo havia sido atingido. Foram dez gols marcados e nenhum sofrido e, de lambuja, um pênalti desperdiçado. O GAC era o melhor e credenciava-se a disputar a cobiçada vaga para a primeira divisão. Conquista árdua, na bola, no jogo. Obviamente, da minha parte, o jogo, que começara como um mero pretexto para estender a farra, tornara-se motivo para continuar noite adentro.  

Orgulhoso, regressei no outro dia para a cidade que residia, no estado de Minas Gerais. Devido a distância e afazeres profissionais, não me ative aos desdobramentos do jogo. Mas agora eu conto! Apesar de o delegado da federação estadual de futebol ter endossado o resultado, do árbitro (da FIFA) ter ratificado a partida, ainda assim, o jogo foi anulado. Que frustração! Sabe bem o leitor que esta história só tem uma versão, a minha. Pois é! Em virtude do justo placar de dez a zero, houve achincalhamento da imprensa soteropolitana, como se o GAC, time do interior longínquo, inóspito, tivesse comprado os paupérrimos adversários da capital. Em suma, se comprou, deve ter sido bem baratinho, ainda que eu duvide que havia dinheiro para tal corrupção.

Piada nacional, como ápice, o jogo serviu para o goleiro do Leônico ser convidado para entrevista no programa de Jô Soares, da TV Globo, onde alegou os motivos para o desastre do seu time. Segundo ele, o primeiro foi um aviso da torcida, que o alertava atrás do gol: “não queira complicar meu jogo não”. Logo pensei: que torcida educada e elegante aquela, ao invés de ameaçá-lo com os mais indizíveis palavrões, apenas o advertiu que não complicasse o jogo. Não acostumado com torcedores tão ordeiros, o goleiro deve ter se assustado com o singelo pedido dos ferozes interioranos, em troca, toda bola que fosse em sua direção, deveria ele saltar para o outro lado; o segundo motivo, e mais interessante, foi o fato de que na cidade fazia muito calor; jogar com 40 graus não é fácil, afirmou o bom arqueiro ao Jô Soares. Certamente não era acostumado a temperaturas tão elevadas. E pensar que o Leônico é de Salvador, conhecida cidade de clima ameno e temperado onde residia o atleta promissor.

Tentando concluir, devo conjecturar que o espaço em questão, Guanambi, é extremamente influenciado pela história que tenho com ele, assim como o contrário. Posso admitir, então, que as relações ali vivenciadas, compartilhadas com as pessoas que compuseram a minha rotina, forjaram representações muito próprias de quem viveu no e o local. Hoje, passados mais de 10 anos do fatídico “dez a zero”, compreendo os fatos por mim vividos num contexto de abstração só possível na atual conjuntura, onde posso acessar sensibilidades para compreensão da influência que o ambiente exerce sobre nós, e vice-versa. Digamos que o episódio, na prática, ancorado nas teorias socioantropológicas do futebol, refletiu o aspecto cultural emergido no derredor de um esporte, reconhecendo a sua capacidade de mobilização coletiva.

Por fim, a admissão de uma possível “marmelada” nos “dez a zero” ultrapassa a dureza dos fatos e impregna os possíveis argumentos de significados muito íntimos, emoções somente compreendidas por quem está ligado àquele lugar. Assim, o significado social do futebol, seja observado pelo viés antropológico de Roberto DaMatta ou pela música de Luiz Gonzaga, é revelado na função que ele exerce no espaço, que podem ser: alegria, decepção, consternação, aflição, orgulho, divertimento, abstração… A partida pode ter sido anulada, mas ela foi muito maior do que supunha o resultado na súmula. Foram dez gols capazes de fomentar muita conversa, de muita gente, por muito tempo.