114.9

Guias-corredores no atletismo

Wagner Xavier de Camargo

A primeira vez que conheci um atleta cego foi num idílico pôr do sol, em dezembro de 1993, dia em que me impressionei com o fato de uma pessoa sem visão praticar atletismo. A confluência de destinos que provocou o encontro de um moleque estudante e de um atleta paralímpico em formação transformaria nossas vidas. Ali começava muito mais do que uma simples amizade: nossa relação era de parceria, companheirismo, de uma cumplicidade que é difícil encontrar, inclusive, em casamentos ou vínculos fraternais. Era tudo isso e muito mais,  acoplado ao prazer de correr juntos.

Wellington Santos era seu nome. “Baiano”, para os íntimos. Caminhoneiro, com uma vida pesada de trabalhos manuais e muito sofrida, acabou vindo da Bahia para São Paulo. O acidente de trânsito que o cegou quase completamente tirou sua profissão e o submeteu a uma longa reabilitação, marcada por muitas incertezas perante o futuro, como me contou certa vez. Naquele fim de tarde nos conhecemos nas dependências da Faculdade de Educação Física. Baiano era velocista e necessitava de alguém que corresse com ele. A partir daquele dia, fui me tornando seu guia-corredor, mesmo sem saber ao certo o que isso significava.

O guia é uma figura importante no universo da deficiência visual. No âmbito social, familiares são, muitas vezes, guias de pessoas cegas. No campo esportivo, por sua vez, algumas modalidades legitimam a presença de um ou mais guias-atletas, dependendo da necessidade. No atletismo é assim e, em se tratando de corridas (de pista ou de rua), guias são corredores, amadores ou profissionais, que têm por função dar suporte a atletas com cegueira parcial ou total. A parceria foi instituída nas regras adaptadas e reconhecidas pela Federação Internacional de Atletismo (IAAF). Calibram-se capacidades físicas e coordenativas entre guias e atletas e, em geral, guias de corridas de velocidade ficam com atletas desta especialidade; os das corridas de fundo ou meio fundo distribuem-se entre esportistas com estas características.

Eu corria e treinava com Baiano, mas também me disponibilizei, muitas vezes, para correr com outros/as atletas, durante campeonatos nacionais da modalidade para pessoas com deficiência visual. Houve um tempo em que eram poucos os/as guias e, num mesmo evento, chegávamos a correr com dezenas de atletas. No Campeonato Brasileiro de Atletismo da então Associação Brasileira de Desportos para Cegos em 1994, realizado no Complexo Esportivo do Ibirapuera, em São Paulo, lembro-me de correr sete ou oito vezes os 100 metros rasos, mais de uma meia dúzia de vezes o 200 metros, duas ou três provas de 1500 metros e, ao menos, um 5 km e um 10 km para fechar os dias de provas. Em vista da falta de quem corresse e da invisibilidade de tais competições naqueles anos 1990, quem tivesse se voluntariado a isso não tinha opção. Nossos quartos coletivos no alojamento cheiravam a gelol e arnica; havia medicamentos anti-inflamatórios e anestésicos por todos os lados, sendo usados no combate a dores musculares constantes e contusões ocasionais.

Baiano realizando alongamento antes de sua prova, num evento no Ibirapuera/SP, em 1994. Foto: Wagner Camargo.

Porém, a vida de guias passa por fases, por assim dizer, e elas estão vinculadas ao desenvolvimento de sua performance esportiva enquanto atleta. No meu caso, pude acompanhar Baiano em parte de sua trajetória: corremos juntos em alguns campeonatos brasileiros, vibrei quando foi convocado para os Jogos Latino-americanos de Buenos Aires, em 1995; choramos juntos mediante a desconvocação, devido a uma lesão muscular na coxa, da pré-seleção da delegação brasileira de atletismo que participaria das Paralimpíadas de Atlanta/EUA, em 1996. Depois disso, em que pese ainda treinarmos durante anos, eu não o acompanhava mais suas marcas velozes e Baiano passou a ser assessorado por outro guia em eventos oficiais.

Um guia-corredor é diferente de um “cão-guia”, mas há quem confunda. Algumas pessoas com deficiência visual possuem o chamado “cão-guia”, que é um cachorro, em geral da raça labrador, treinado para ajudá-las a executar atividades da vida diária (AVD). O guia-corredor pode fazer também a função de auxiliar nas AVD, mas sua tarefa principal é no desenvolvimento das habilidades esportivas. Na prática, no entanto, no dia a dia um guia não se diferencia muito de um cão-guia ou de uma “bengala humana”, por assim dizer. Em que pese ser difícil de acreditar, alguns/algumas atletas cegos/cegas exageram nos pedidos e exigências, transformando o trabalho voluntário de guias em algo penoso e abusivo. “Nós, guias, não passamos de uma bengala humana, vazia de significado”, bradei certa vez. Isso remetia ao fato de sempre ser lembrado ou chamado em todos os momentos por esses/as atletas, quando necessitavam comer, tomar banho, localizar uma peça do vestuário ou sair para algum lugar, tarefas aparentemente simples para quem foi bem treinado nas AVD. Por isso é importante que o guia-corredor seja diferenciado do guia-convencional, e esse limite tem que ser estabelecido a partir da clara diferenciação entre a vida diária e o meio esportivo.

O esporte paralímpico no Brasil passou por transformações muito importantes nesses anos todos. E isso afetou, obviamente, a função desempenhada por atletas guias. Ela “se profissionalizou”, por assim dizer, com guias exclusivos e patrocinados, em geral, de um/uma atleta cego/a de renome. Foi o caso de Ádria Rocha Santos e Teresinha Aparecida Guilhermina. Ádria correu anos com Gerson Knittel, depois com Jorge Luiz Silva de Souza (o Chocolate) até conhecer Luiz Rafael Krub, com quem se casou e treinou seus últimos tempos de atleta. Terezinha treinou com guia a partir das competições de Atenas-2004, em que foi reclassificada, para sua surpresa, como “cega total” e teve uma parceria extremamente bem sucedida com Guilherme Santana, com quem em Londres-2012 bateu o recorde mundial da prova de 100 m rasos na categoria T11 (cegos totais), com 12”01.

Baiano e Pedrinho gaúcho na saída da pista de atletismo do CeNARD (Centro de Alto Rendimiento Deportivo), em Buenos Aires, numa competição sul-americana em 1995. Foto: Wagner Camargo.

Guias e atletas desenvolvem uma sintonia fina. Com convívio intenso, moldam-se formas de agir, de pensar, de encarar o treinamento e a lesão, de lidar com a vida. O cadarço de tênis, usado para entrelaçar mãos durante a corrida, enlaça as almas. Com o aumento de importância associado ao esporte paralímpico na atualidade, hoje as relações são postas de modo um pouco distinto. Muitos guias se tornaram maridos. E como atletas com deficiência viraram heróis e heroínas paralímpicos/as, personificando seus e suas guias-corredores/as, não sei a quantas anda essa imbricada relação (quase afetiva). Torço para que guias-corredores não tenham se tornado mascotes, bibelôs, ou um tipo de pajem que se leva a tiracolo, pois isso seria minimizar muito suas importâncias.

Com Baiano, não apenas aprendi a ser atleta, mas a prestar atenção às coisas, mais táteis do que visuais, mais sensíveis do que racionais. Comigo ele percebeu que a vida podia ser mais divertida, menos dura e a deficiência se reduzia a um detalhe. O convívio com ele me ensinou, me formou como pessoa, me humanizou. Formamos uma dupla e tanto! Este meu texto é para lembrar desse tempo, de nossa parceria e para não deixar a história se esquecer que houve um atleta, ex-caminhoneiro, que mesmo não tendo chegado ao “estrelato” ou não ter sido um “herói paralímpico” (como atualmente jornalistas adoram classificar), teve seu lugar especial, tanto no atletismo adaptado, quanto em minha vida!