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O mórbido futebol-negócio

Gabriel Said

“A crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer. Nesse interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparecem.”
(Antonio Gramsci)

 

Faixa da torcida do Eibar, da Espanha dizendo “não volta o futebol, volta o seu negócio”. Twitter/Reprodução.

Uma frase dita no Jornal Nacional recentemente inspira esse texto: “A história atribui glória e atribui desonra”. Esse texto pode ser uma continuação do texto que escrevi um mês atrás, Futebol em tempos mórbidos, quando os clubes brasileiros começavam a retornar os treinos presenciais e a Bundesliga ainda era o único grande campeonato a ter retornado.

A afirmação por si só não está errada, mas é irônico pensar que veio da Globo, que além de todo o apoio ao recente golpe e várias outras bandeiras que foram importantes para gerar o cenário distópico no país, apoiou a ditadura empresarial-militar no Brasil. O que de fato aconteceu com a Globo? Mesma pergunta pode ser feita sobre os militares, que nunca foram julgados e hoje voltam a formar o governo.

Quando estudamos a história do Brasil, inevitavelmente vemos a versão que diz que nossa história começa em 1500 com Cabral, trata os Bandeirantes como heróis, ignora as várias revoltas dos negros escravizados e o genocídio indígena, mas se fala em quilombos e a lista segue. Estudamos a história dos colonizadores.

Trazendo para o futebol, enquanto este texto é escrito se celebra os 50 anos do tricampeonato mundial do Brasil em 1970, no México. Durante a pandemia causada pelo Covid-19 a mesma Globo reprisou partidas da seleção brasileira naquela Copa e João Saldanha mal é lembrado. Demitido nas vésperas da Copa por ser comunista e, consequentemente, se opor ao regime ditatorial, até mesmo hoje, meio século mais tarde Saldanha não é lembrado. Ou melhor, é propositalmente ignorado.

Walter Benjamin escreveu durante o período do nazifascismo as teses sobre o conceito de história, e invoco a sexta tese para ajudar no texto:

Articular historicamente o passado não significa conhecê-lo “como ele de fato foi”. Significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela relampeja no momento de um perigo. Cabe ao materialismo histórico fixar uma imagem do passado, como ela se apresenta, no momento do perigo, ao sujeito histórico, sem que ele tenha consciência disso. O perigo ameaça tanto a existência da tradição como os que a recebem. Para ambos, o perigo é o mesmo: entregar-se às classes dominantes, como seu instrumento. Em cada época, é preciso arrancar a tradição ao conformismo, que quer apoderar-se dela. Pois o Messias não vem apenas como salvador; ele vem também como o vencedor do Anticristo. O dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer.

É muito reconfortante acreditar nos livros de história do futuro e que não iremos repetir os mesmos erros. A História, porém, como Benjamin diz, tem um lado. O lado se mostra nas “escolhas muito difíceis”, na defesa aos monumentos da barbárie das mesmas pessoas que fazem um silêncio ensurdecedor quando o que é destruído é a geral nos estádios.  

No início de junho escrevi um texto sobre o fascismo e antifascismo. Tinha uma preocupação pelo símbolo Antifa poder acabar sendo esvaziado. É claro que fiquei feliz por ver muito mais gente se posicionando antifascista do que contra os antifas, mas deve também ser entendido o quê é ser antifascista. Se fosse resumir em uma frase, traria a afirmação de Max Horkheimer: “Quem não quer falar sobre capitalismo, deveria se calar também sobre o fascismo”. O que tenho visto sobre o tema ultimamente infelizmente é a história se repetindo como farsa, pois a tragédia já aconteceu: o fascismo é explicado sem entrar no mérito do capitalismo.

Por que falar do capitalismo é tão importante? Vamos com calma. O retorno dos campeonatos de futebol é aquilo que Luiz Antonio Simas poderia chamar de perversidade do bem, que em seu extremo é matar, com cinismo, a cultura e espaços de criação de laços e nos convencer de quê isso é bom, em nome de um progresso. Na Europa, onde os campeonatos já voltaram em vários países – supostamente de forma controlada – já vemos o caso do Dynamo Dresden, na segunda divisão alemã, que foi obrigado a jogar 7 partidas em 19 dias após quarentena forçada e uma necessidade suprema de terminar logo a temporada 2019-20. Na Rússia o Rostov, que briga por classificação continental teve que ir a campo com garotos de 17 anos após o time principal ter de ficar em quarentena e a equipe do Socchi, que luta contra o rebaixamento, se recusar a adiar a partida. Dá para culpar o Socchi ou o problema é o retorno apressado do campeonato? Os resultados desses dois casos foram meros 5 pontos conquistados pelo Dresden nos 7 jogos, praticamente decretando seu rebaixamento e o Socchi atropelando o Rostov por 10 a 1.

Em meio à pandemia do Covid-19 e o estado de calamidade pública, o Campeonato Carioca foi suspenso no dia 16 de março. Fluminense e Botafogo conseguiram, naquele momento se impor diante dos interesses de Flamengo, Vasco e cia. Na época já existiam pouco mais de 200 casos de contaminação de COVID-19 confirmados no Brasil e a capital carioca já registrava transmissão comunitária. No dia 18 de junho, data do retorno do campeonato, os casos confirmados beiravam o 1 milhão, além de quase 50 mil mortes. Sobre a partida do dia 18 vale a leitura do texto do Victor Figols chamado “Futebol em tempos de pandemia – por que a pressa?“.

Flamengo de um lado e Fluminense do outro estão fazendo um Fla-Flu que não deveria existir. Os clubes estão em situações inversas; o tricolor está penando em campo nos últimos anos e mal consegue pagar os salários em dia. Já na Gávea é inegável o valor técnico e competitivo do Flamengo de 2019 para cá: campeão brasileiro e da Libertadores no mesmo ano, jogando um futebol fino e recheado de merecidos elogios. Porém, esse período vitorioso do clube divide espaço com – talvez – o maior drama do rubro-negro e uma série de atitudes que geram uma justa antipatia perante o Flamengo.

Em fevereiro de 2019 aconteceu o incêndio no Ninho do Urubu, que causou 10 mortes de meninos sob os cuidados do clube. A atual gestão ao invés de tratar o ocorrido fazendo justiça às vítimas e ao clube, preferiu – em meio a receitas recordes – arrastar a resolução com as famílias e pensar o caso com toda a frieza possível.

Durante a suspensão do Carioca o Flamengo acumulou atitudes que mancham a história do clube. Retornaram os treinos ainda em maio e sem permissão, teve reuniões em Brasília para fazer lobby pela volta do campeonato durante o pico da pandemia no país, fechou um acordo de patrocínio duvidoso, pressionou o governo federal para assinar a Medida Provisória (MP) 984, que dá o direito de arena e transmissão de jogos apenas ao time mandante de partidas. Para entender melhor sobre a MP 984, vale assistir o vídeo do Na Bancada. A diretoria rubro-negra faz a aproximação do clube com o governo federal de forma voluntária, evidente e lamentável.

Manifesto dos jogadores do Fluminense Football Club. Twitter/Reprodução.

Nas Laranjeiras o Fluminense conseguiu – junto ao Botafogo – parar o campeonato em março, se posicionou contra o retorno do futebol, entrou na justiça para que seus jogos não fossem realizados em junho e declarou que se os jogos fossem mantidos em junho não mandaria seus jogadores a campo, fez um pedido para que não seja feito jogo no Maracanã por conta do hospital de campanha ao lado do estádio e disse que se por acaso liberassem público no estádio a partir do final de julho – como está previsto – o clube manteria os jogos com portões fechados. Para completar, os jogadores do Fluminense fizeram um manifesto contra o retorno do campeonato.

 

 

 

Manifesto da Bravo 52. Twitter/Reprodução.

O texto não se trata de santificar um clube e atacar outro, mas é evidente que as posturas adotadas por Fluminense e Botafogo devem encher seus torcedores de orgulho. Eu mesmo estou, mas sei também – e faço questão de ressaltar – que muitos torcedores do Flamengo não estão satisfeitos com os caminhos políticos escolhidos pela diretoria atual.

Em um texto recente critiquei a postura da diretoria tricolor em relação a um Fla-Flu em fevereiro, assim como critiquei a demissão de Fernando Diniz em agosto de 2019. Além de apoiar, também é papel do torcedor cobrar do seu clube e não apenas por resultados em campo. Por isso tenho o maior respeito pelo movimento Flamengo da Gente, que luta por um Flamengo mais justo, correto e humano; um clube que represente de fato sua imensa torcida e que não se permite esquecer aquilo que alguns querem que seja esquecido. No lado tricolor a torcida Bravo 52 fez igual os jogadores tricolores e também fez um manifesto. Espero que esse ponto em comum entre as torcidas crie bons frutos para o futebol.

Manifesto Flamengo da Gente. Twitter/Reprodução.

A volta do futebol hoje representa mais uma vitória de um modelo de futebol voltado para o negócio. Não existe justificativa técnica ou social que dê razão para a volta do futebol em meio à pandemia em nenhum lugar do mundo, muito menos no seu epicentro. Apenas a cruel necessidade do mercado de manter os lucros explica.

Um artigo da Le Monde Diplomatique é certeiro: o quê está nos matando é o neoliberalismo. O mesmo neoliberalismo que foi posto em xeque desde o final do ano passado no Chile – e Jorge Sampaoli deu seu apoio ao povo chileno na época. O mesmo neoliberalismo que afundou a Argentina de Macri em uma crise aguda e vem fazendo o mesmo no Brasil a galopes. Nesse cenário de extrema desigualdade o vírus mostra seu caráter classista, concentrando vítimas na população negra, pobre e periférica. Pensando nisso que é possível perceber como até mesmo várias das fundações da Premier League, o campeonato mais midiático do mundo, tem suas fundações na barbárie neoliberal.

Não é de hoje que o Flamengo ignora sua grande massa de torcedores. Um antigo professor flamenguista de história costumava dizer que a camisa oficial do Flamengo é aquela comprada numa barraquinha no Centro do Rio de Janeiro. Enquanto o rubro-negro escorraçar sua torcida com ingressos caros, programa elitista de sócio-torcedor e com o New Maracanã o clube seguirá perdendo sua alma. O mesmo serve para Vasco, Fluminense, Botafogo e qualquer outro clube.

Em pesquisa feita em 2018, o Datafolha indicou que o desinteresse do brasileiro pelo futebol está crescendo, especialmente nas classes mais baixas. 45% das pessoas que pertencem a famílias com renda familiar até dois salários mínimos não tem interesse em futebol. Para entender isso, vamos falar da situação desesperadora dos salários, usando mais uma vez o Flamengo como exemplo:

Em dezembro de 2009 o Flamengo recebeu o Grêmio no Maracanã (antes da reforma para a Copa) em partida que valia o título. Os ingressos custavam entre RS30 e R$180. Uma década mais tarde o Flamengo, recém campeão, recebe o Ceará no New Maracanã e os ingressos variavam entre R$130 e R$950. Repare: em 2009 era o jogo do título enquanto que em 2019 o título já estava ganho, e mesmo assim os ingressos subiram a ponto de poderem valer praticamente o mesmo a um salário mínimo. Isso em um país que quase um quarto da população recebe até dois salários mínimos mensais.

Trago mais uma vez Walter Benjamin para nos provocar quanto a crença cega no progresso, como se nossa história fosse sempre em direção a um futuro melhor. Os dias atuais já devem ser o suficiente para mostrar que a história da humanidade é feita de avanços e recuos, mas vamos ao Benjamin:

Pessimismo em toda a linha. Sim, na verdade, e totalmente. Desconfiança quanto ao destino da literatura, desconfiança quanto ao destino da liberdade, desconfiança quanto ao destino do homem europeu, mas sobretudo desconfiança tripla diante de qualquer acomodação: entre as classes, entre os povos, entre os indivíduos. E confiança ilimitada apenas na I. G. Farben e no aperfeiçoamento pacífico da Luftwaffe.

O trecho é uma crítica à ilusão do progresso da época que naturalizava a espoliação dos fodidos na Alemanha pouco antes de Hitler tomar ao poder. Mais para frente trata com ironia a Luftwaffe – força aérea alemã da Segunda Guerra – e à I. G. Farben, companhia química que conseguiria o monopólio no país e produziria em escala industrial o gás Ziklon B, responsável pelo genocídio nazista.

Infelizmente a narrativa da história tende a favorecer o futebol negócio, a arenização dos estádios, gentrificação nos estádios, os clubes-empresa, a introdução do VAR e outras mudanças são colocadas como inevitáveis. A transformação do futebol em um grande negócio é a falência do futebol, esta é a maior doença, que nos esfacela e nos deixa a mercê para que barbaridades aconteçam com naturalidade. Não nos deixemos enganar; no futebol o gol muitas vezes é um detalhe e devemos trabalhar para que quando isso acontecer, que seja por motivos de coesão social, tensão libertadora e cultura.

A História também está em disputa. Enquanto o futebol continuar se afastando do povo, mais ele se distancia do quê nos fez amar o jogo. Será a história conivente com o quê foi feito no futebol durante a pandemia?

Pegando o ótimo costume da Revista Pelota de adicionar uma música para fazer tabela com o texto, deixo Town Called Malice de The Jam, que descreve a terra arrasada pelo neoliberalismo de Thatcher com alerta “Cause time is short and life is cruel but it’s up to us to change”.