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Há momentos na história em que é importante se posicionar

Letícia Marcolan, Marcus Vinícius Costa Lage

Muito provavelmente as comemorações pela conquista da Liga Ouro de Basquete nunca tiveram tanta repercussão quanto àquelas comandadas no final de junho de 2018 por Gustavinho, armador e capitão do quinteto do Sport Club Corinthians Paulista. Dias e mais dias após o decisivo confronto, veículos de informação não se cansavam de publicar fotos e vídeos do jogador, já em final de carreira, erguendo o troféu em meio à chuva de papéis picados ou posando para as objetivas simulando a tradicional mordida na medalha de ouro conquistada. O motivo para tamanha repercussão por certo não se relacionava à importância da competição, uma espécie de segunda divisão do basquete nacional, nem tampouco ao forte apelo midiático do Corinthians. É que, ao contrário de seus companheiros, Gustavinho havia preparado, junto ao seu “amigo-artista Renato Atuati”, um traje especial para aquela ocasião. Uma camiseta que denunciava o triste aniversário de 100 dias do brutal assassinato de uma vereadora carioca, ativista dos direitos humanos, negra e homossexual. Uma camiseta que clamava por justiça, tal como ainda o fazem diversos manifestantes Brasil à fora. Uma camiseta, portanto, que estampava a pergunta: “Quem matou Marielle?”

Gustavinho ergue o troféu de campeão da Liga Ouro e veste a camiseta que pergunta: “Quem matou Marielle?”. Foto: Reprodução/Instagram.

Como seria de se esperar desse contexto de forte polarização política como o que temos vivido, a atitude de Gustavinho renderia, por um lado, apupos muito pouco afeitos às questões humanitárias, e, por outro, apoios irrestritos e apaixonados. Enquanto alguns emendavam na frase da camiseta do armador corintiano perguntas do tipo “quem foi Marielle” ou “quem esfaqueou Bolsonaro”, outros enalteciam a coragem do atleta em se posicionar diante de um episódio que deveria consternar quem quer que fosse.

Se bem sabe o leitor, passados mais de um ano, o quadro que encontramos não é lá muito distinto daquele de meados da temporada anterior. Se Gustavinho deixou as quadras para se tornar supervisor da categoria sub-19 do basquetebol do Corinthians, as investigações do assassinato de Marielle Franco pouco avançaram e a camiseta-protesto do ex-armador corintiano segue dando o que falar. Recentemente, tão logo a exposição itinerante “Corinthians Basquete”, dedicada a narrar a história da modalidade praticada no clube paulistano, foi aberta ao público, trazendo como parte de seu acervo o vestuário comemorativo de Gustavinho, o grupo denominado “Fiéis Escudeiros”, segunda chapa mais votada para o Conselho Deliberativo do clube[1] solicitou a retirada da peça e prometeu que caso a demanda não fosse atendida iria retirar a camisa “na marra”[2]. Na carta enviada ao presidente do Conselho de Orientação (CORI) os “Fiéis Escudeiros” argumentaram: 

Como apaixonados, buscamos um clube eficiente e moderno, tendo como única a identificação e representação aos mais de 30 milhões de apaixonados. Objetivamos um clube livre de amarras políticas, que nada o agregam, e pelo maior valor democrático que ele representa sendo o time do povo independente de raça, religião ou preferência política.[3]

Cedendo às pressões do grupo opositor, a diretoria do Corinthians lamentavelmente retirou o uniforme, justificando que o mesmo não havia sido usado durante a partida decisiva. Contudo, os registros das comemorações do manifestante Gustavinho junto a seus companheiros não poderiam ser apagadas. Assim, mesmo frente a ofensiva “apartidária” dos “nobres” e “fiéis” corintianos, a mensagem de protesto do ex-armador ainda figuraria em meio à exposição, como uma recordação, a um só tempo, vitoriosa, do ponto de vista esportivo, e fracassada, para a sociedade brasileira.

Mas, se você, nobre leitor, ainda não está convencido de que essa suposta posição de neutralidade em relação a assuntos de cunho político por parte dos envolvidos com o esporte tem um lado político muito claro, vamos a outro caso, mais uma vez envolvendo um dos maiores clubes do país, e possivelmente, ainda mais revelador da escalada conservadora que parece tomar conta da sociedade brasileira nos últimos tempos. No dia em que o golpe militar completou 55 anos, um grupo de torcedores do Flamengo prestou homenagem ao ex-remador do clube, Stuart Angel, que foi torturado e morto por agentes do Estado brasileiro em 1971. A diretoria do clube, por sua vez,  no mesmo dia divulgou a seguinte nota oficial: 

Em relação à nota publicada nesta segunda-feira na coluna Ancelmo Gois – do jornal O Globo – o Clube de Regatas do Flamengo esclarece que, por ser uma verdadeira Nação, formada por mais de 42 milhões de torcedores das mais diversas crenças e opiniões, não se posiciona sobre assuntos políticos. A homenagem citada na nota foi realizada diretamente por um grupo de sócios e torcedores do Clube, sem nenhuma participação da instituição – algo que,  inclusive, é estatutariamente vedado.[4]

Grupo de torcedores homenageou Stuart Angel na sede de remo do Flamengo. Foto: Reprodução/Twitter.

Stuart Angel atuava pela organização política conhecida como MR-8, Movimento Revolucionário 8 de Outubro. De acordo com informações da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, Stuart Angel foi preso às nove horas da manhã do dia quatorze de maio de 1971, na avenida 28 de Setembro, em Vila Isabel, no Rio de Janeiro, por agentes do CISA, o Centro de Informações da Aeronáutica. As circunstâncias da morte de Stuart Angel foram reveladas em uma carta enviada a mãe do atleta, Zuzu Angel. Como relata Alex Polari de Alverga, autor da carta e preso político que esteve com Stuart na Base Aérea do Galeão, o ex-remador foi preso, torturado e assassinado.

A prisão: 

Stuart entrou inadvertidamente nas proximidades do cerco, sendo detectado pelo esquema militar que tinha sido montado em muitos quarteirões à volta. […] Stuart, quando caiu, portava uma calça verde-garrafa, camisa clara e um casaco bege. Foi colocado em um porta-malas de um Opala amarelo com teto de vinil preto e levado para a Base Aérea do Galeão, onde se localiza o CISA.[5]

Tortura e assassinato: 

Em um momento retiraram o capuz e pude vê-lo sendo espancado depois de descido do pau-de-arara. Antes, à tarde, ouvi durante muito tempo um alvoroço no pátio do CISA. Havia barulho de carros sendo ligados, acelerações, gritos, e uma tosse constante de engasgo e que pude notar que se sucedia sempre às acelerações. Consegui com muito esforço olhar pela janela que ficava a uns dois metros do chão e me deparei com algo difícil de esquecer: junto a um sem número de torturadores, oficiais e soldados, Stuart, já com a pele semi-esfolada, era arrastado de um lado para outro do pátio, amarrado a uma viatura e, de quando em quando, obrigado, com a boca quase colada a uma descarga aberta, a aspirar gases tóxicos que eram expelidos.[6]

Em meio a notas oficiais, fico com tuíte do jornalista Marcelo Lins: “Há momentos na história em que é importante se posicionar. Em defesa da Democracia, sempre valerá a pena.”[7]Lembro ainda que, até hoje, cerca de 7 meses depois, poucas respostas foram dadas sobre o incêndio que matou 10 garotos no Ninho do Urubu. NÃO ESQUECEMOS!

Notas

[1] https://esporte.uol.com.br/ultimas-noticias/2019/07/30/exposicao-de-camisa-sobre-marielle-causa-protesto-e-ameacas-no-corinthians.htm

[2] https://globoesporte.globo.com/futebol/times/corinthians/noticia/conselheiros-do-corinthians-pedem-retirada-de-camisa-alusiva-a-marielle-em-memorial-do-clube.ghtml

[3] Idem.

[4] https://www.flamengo.com.br/noticias/institucional/nota-oficial-flamengo

[5] http://memoriasdaditadura.org.br/memorial/stuart-edgar-angel-jones/

[6] https://cemdp.sdh.gov.br/modules/desaparecidos/acervo/ficha/cid/164

[7] https://twitter.com/MarceloLins68/status/1112776321443221505?ref_src=twsrc%5Etfw%7Ctwcamp%5Etweetembed%7Ctwterm%5E1112776321443221505%7Ctwgr%5E363937393b70726f64756374696f6e&ref_url=https%3A%2F%2Fgloboesporte.globo.com%2Ffutebol%2Ftimes%2Fflamengo%2Fnoticia%2Fnota-do-flamengo-sobre-homenagem-a-stuart-angel-causa-polemica-nas-redes-sociais.ghtml