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Heleno de Freitas: a biografia sob o estigma da tragédia

Thiago Carlos Costa

Heleno de Freitas: entre as linhas da biografia.

A figura de Heleno de Freitas nos dias atuais é algo distante nos almanaques e estatísticas do futebol, ou quando é buscado para tratar da vida trágica de jogadores de futebol. Registrado pela imprensa esportiva brasileira e em parte da mídia como um dos gigantes do futebol brasileiro pelos seus numerosos gols tanto quanto pelas confusões que lhe renderam a fama de galã e também “craque-problema” do futebol brasileiro. A rápida e intensa trajetória de Heleno de Freitas transcendeu as linhas do campo de jogo quanto à construção de sua memória e representatividade no futebol brasileiro e sul-americano. Neste breve texto, pretendo analisar algumas narrativas produzidas em torno da figura do futebolista Heleno de Freitas por meio de trechos de crônicas escritas por autores como: Armando Nogueira[1], Eduardo Galeano[2], Gabriel Garcia Marquez[3], além de fragmentos da biografia escrita por Marcos Eduardo Neves[4] e também dialogar com o longa-metragem: Heleno: o príncipe maldito, de José Henrique Fonseca[5].

 

Heleno de Freitas, com camisa do Botafogo. Foto: Reprodução.

Para tanto, vale aqui ressaltar as relações distintas entre a produção biográfica e a metodologia de pesquisa histórica, quando no caso deste texto, a biografia serve de uma profícua fonte para o historiador. Partindo das reflexões propostas por Fraçois Dosse, em O desafio biográfico: escrever uma vida[6], o historiador francês propõe uma densa cartografia da produção biográfica ao longo da história e como foi e pode ser tratada como fonte para os historiadores:

“Gênero híbrido, a biografia se situa na tensão constante entre a vontade de reproduzir um vivido real passado, segunda das regras da mimesis, e o polo imaginativo do biógrafo, que deve refazer um universo perdido segundo sua intuição e talento criador. Essa tensão não é, decerto, exclusiva da biografia, pois a encontramos no historiador empenhando em fazer história, mas é guindada aos paroxismos no gênero biográfico, que depende ao mesmo tempo da dimensão histórica e da dimensão ficcional.” (DOSSE, 2009, p. 55).

Assim, a produção biográfica sobre Heleno de Freitas transita nesse hibridismo entre o factual e o ficcional, na tentativa de seus biógrafos de prenderem a atenção de seus leitores e ao mesmo tempo construir imagens para seu biografado, mesmo que no caso de Heleno, tendo a tragédia da sua vida como um índice para sua construção imagética. Contudo, cabe ao historiador e estudioso do tema, ao pesquisar biografias analisar o personagem biografado observando-o para além da narrativa cronológica e factual, mas também analisar o papel do biógrafo e contexto no qual foram produzidas as biografias. Portanto, neste trabalho faremos uma leitura das produções textuais e imagéticas da biografia de Heleno de Freitas e analisar os estigmas e produções de cânones em torno deste jogador de futebol.

Entre gols e confusões

Heleno Revista Esporte Ilustrado

Heleno de Freitas na capa da revista Esporte Ilustrado, n. 258, 18 mar. 1943. Foto: Reprodução/almanakdobotafogo.blogspot.com.

A biografia de Heleno de Freitas, escrita por Marcos Eduardo, quando contraposta com os textos de Armando Nogueira, João Máximo, Eduardo Galeano, Gabriel Garcia Marquez, ajuda-nos a pensar a trajetória de homem – sujeito histórico e do atleta –, um herói esportivo para além das estatísticas e almanaques. Quando Heleno faleceu na casa de repouso onde estava internado na cidade mineira de Barbacena, em 08 de novembro de 1959, aos 39 anos de idade, vitimado pela sífilis, jovem e longe dos holofotes da imprensa, passou a ser tratado como uma figura mítica do futebol brasileiro, primeiro pela intensidade e marcas expressivas que deixou nos campos ao longo de 12 anos, atuando em 360 partidas e marcando 282 gols. Ao todo entre 1940 até 1948, Heleno de Freitas disputou 233 jogos anotando 204 gols pelo time do Botafogo, tornando-se até os dias atuais o quarto maior artilheiro da história do time, atrás apenas de Quarentinha (313 gols), Carvalho Leite (261 gols) e Garrincha (245 gols). A ascensão de Heleno no time do Botafogo lhe rendeu o status de estrela principal do time já no início da carreira profissional, e seu estilo de vida boêmio e galante logo ganhava as páginas da imprensa e da vida na sociedade carioca, cidade que na época ainda centralizava os holofotes políticos, econômicos e sociais por sua condição de capital federal.

Pela seleção brasileira, Heleno de Freitas também teve carreira destacada, mas abreviada pelas constantes brigas com o técnico da seleção, Flávio Costa. No total, Heleno atuou fez 18 partidas pela seleção nacional anotando 15 gols. Seu auge foi em 1945, quando foi o artilheiro do torneio sul-americano daquele ano com 6 gols. Mesmo assim, não conseguiu evitar o vice-campeonato da equipe brasileira em uma final diante da seleção argentina. Heleno também é conhecido por ser uma das grandes ausências em Copas do Mundo. Por conta da Segunda Guerra Mundial, os mundiais que seriam disputados em 1942 e 1946 não foram realizados. Em 1950, mesmo com a Copa sendo realizada no Brasil, Heleno não foi convocado pelo seu desafeto, o treinador Flávio Costa, para quem chegou a apontar um revólver, e também por já não estar em plena forma física e técnica.

Esta outra parte da sua trajetória, que acabou por marcar sua vida, ganhou mais força ainda após a sua morte, com foco na vida boêmia, desregrada e marcada por confusões dentro e fora dos campos, criando uma aura de um dos primeiros “craques-problema” do futebol brasileiro, o que seria nos termos atuais os chamados, “bad boys”. Assim, traremos para essa análise dos trechos das crônicas destacadas adiante algumas reflexões propostas por Gumbrecht[7]: “O que é que tanto fascina os espectadores de esporte, além das vitórias, derrotas e recordes quebrados? A que eles tanto apreciam e, talvez inconscientemente, querem se apegar quando não estão pensando em estatísticas?” (GUMBRECHT , 2007, p. 108).

Em uma crônica do jornalista Armando Nogueira, intitulada Heleno, anjo e demônio, publicada no livro, O olho na Bola, de 1968, o cronista destaca essa relação angustiante na personalidade de Heleno:

O futebol, fonte de minhas angústias e alegrias, revelou-me, ao longo de vinte anos, em Heleno de Freitas, a personalidade mais dramática que conheci nos estádios deste mundo. Viveu em conflito com o universo do futebol, amado como um deus, censurado como o demônio: era o fantasma dos árbitros, o gênio da bola aos olhos dos catedráticos de futebol, o desafeto das torcidas e o galã irresistível das mocinhas de Copacabana que lhe namoravam a elegância, a rebeldia, o anel de doutor em Direito e a fama. […] Heleno de Freitas realizava todas as virtudes de crack com um toque de elegância: era, de longe, a mais vistosa postura do futebol brasileiro na década de 40. (NOGUEIRA, 1968, p. 35).

Heleno de Freitas, vestido de terno e gravata. Foto: Wikipedia.

Esta reflexão de Nogueira será uma questão recorrente por todos os cronistas que descreveram a vida e obra de Heleno nos gramados e na sociedade. Por ora, seu talento era prejudicado por seu temperamento descontrolado, como ainda descreve a seguir:

Ganhava jogos sozinho e sozinho os perdia, quase sempre, vítima da batalha sem trégua que sustentava consigo mesmo. Pobre Heleno: ao artista querendo afirmar inspiração lúdica em conflito com o homem asfixiado por obrigações de um regime – o profissionalismo – para o qual não estava psicologicamente amadurecido. Rebelava-se contra a rotina dos treinos, a concentração, o passe, a ginástica. (NOGUEIRA, 196, p. 36).

Nos trechos destacados acima, Armando Nogueira reflete sobre a figura em conflito e indomável de Heleno, que mesmo com sua genialidade não conseguia reverter isso em êxito para si, e para seu time. Mesmo que, com números individuais expressivos, o futebol sendo um esporte coletivo, e como esporte coletivo demanda uma mínima harmonia no seu grupo de atletas em prol de um objetivo comum, no caso, as vitórias e conquistas de campeonatos. Como mais adiante, o cronista destaca:

Heleno tinha futebol para ganhar títulos, mas não tinha nervos para suportar a guerra dos campeonatos. Cada domingo, era ele vencido pelo poderoso complexo de circunstâncias desajustadas que modelam o equilíbrio do nosso futebol: brigava com juízes, com o público, com os adversários e, sobretudo, brigava com o próprio Botafogo, clube que lhe deu renome e perdição também. (NOGUEIRA, 1968, p. 37).

Assim, Armando Nogueira descreve a delicada relação de Heleno consigo mesmo como anjo e demônio de si, trazendo consigo uma espécie de maldição que o aprisionava e não permitia alcançar a felicidade, no caso, a conquista do campeonato pelo Botafogo, devido a sua “falta de nervos”, para suportar o desafio das competições. Vale lembrar que quando Heleno transferiu-se do Botafogo para o Boca Juniors, ele não havia conquistado nenhum título pelo alvinegro carioca.

Heleno de Freitas, com a camisa do Boca Juniors, foi capa da revista El Gráfico, em 01 out. 1948, ed. 1525. Foto: Wikipedia.

Outro cronista encantado com o futebol de Heleno de Freitas e ao mesmo tempo angustiado pela figura indomável do jogador é o escritor uruguaio Eduardo Galeano, que, em seu livro de coletâneas de crônicas de futebol, dedica uma ao atacante brasileiro, intitulada Gol de Heleno:

Gol de Heleno

Foi em 1947. Botafogo versus Flamengo, no Rio de Janeiro. Heleno de Freitas, atacante do Botafogo, fez um gol de peito.

Heleno estava de costas para o arco. A bola chegou lá de cima. Ele parou-a com e se voltou sem deixá-la cair. Com arqueado e a bola no peito, enfrentou a situação. Entre o gol e ele, uma multidão. Na área do Flamengo havia mais gente que em todo o Brasil. Se a bola caísse no chão, estava perdido. E então Heleno pôs-se a caminhar, sempre curvado para trás, e com a bola no peito atravessou tranquilamente as linhas inimigas. Ninguém podia tirá-la sem fazer falta, e estavam na zona de perigo. Quando chegou às portas do gol, Heleno endireitou o corpo. A bola deslizou até seus pés. E ele arrematou.

Heleno de Freitas tinha pinta de cigano, cara Rodolfo Valentin e humor de cão raivoso. Nas canchas, resplandecia.

Uma noite, perdeu todo o seu dinheiro no casino. Outra noite, perdeu não se sabe onde toda a vontade de viver. E na última noite morreu, delirando, num hospício. (GALEANO, 2012, p. 89).

Mais uma vez, observa-se a confluência de Galeano e Nogueira na descrição da figura de Heleno de Freitas, sua elegância e exuberância esportiva em confronto com seu temperamento descontrolado e seu final de vida trágico.

Completando a análise de Heleno da construção imagética de Heleno, destacamos aqui um trecho da narrativa de Garcia Marquez:

O tempo passou e no domingo seguinte, depois de treinar incansavelmente com os companheiros de seu time, o dr. De Freitas deve ter chegado à conclusão de que, mais do que tais práticas esportivas, lhe seria melhor uma prática metódica e consciente da gramática castelhana. Foi assim que pôde realizar bem melhor sua segunda apresentação, mostrando-se já capaz de compreender que a gritaria vinda das tribunas não era de aprovação, mas de descontentamento. E já em sua nova apresentação em Barranquilla, de volta de Cáli, o dr. De Freitas mostrava-se capaz de conjugar perfeitamente os tempos simples do verbo “fazer”. “Farei milagres”, declarou à imprensa, ao dar-se conta de que o público queria exatamente isso. Que fizesse milagres. E, segundo me contam alguns que estiveram nesse dia no Estádio Municipal, o que o brasileiro fez foi uma milagrosa atuação. Praticamente, disseram, o dr. De Freitas – que deve ser um bom advogado – redigiu nesta tarde, com os pés, memoriais e sentenças judiciais não apenas em português e espanhol alternadamente, mas também citações de Justiniano no mais puro latim clássico. (GARCIA, 2006, p. 239).

Ao pensarmos a construção biográfica em torno de Heleno, podemos construir uma análise proposta por Pierre Bourdieu, em A ilusão biográfica, quando o sociólogo francês propõe que:

“falar de vida é pelo menos pressupor – e isso não é pouco – que a vida é uma história e que, como no título de Maupassant, Uma vida, uma vida é inseparavelmente o conjunto de acontecimentos de uma existência individual concebida como uma história ou relato dessa história.” (BOURDIEU, 2006, p. 183).

Capa biografia Heleno de Freitas

Capa da biografia de Heleno de Freitas. Foto: Reprodução.

E é justamente esta construção de uma história de vida ou de relatos que Marcos Eduardo Neves produz de forma eficiente em sua biografia sobre Heleno de Freitas. Logo no sumário do livro, cuidadosamente dividido em vinte e sete capítulos, Marcos compõe esse mosaico da trajetória de Heleno, composta por relatos, documentos, cartas, trechos de crônicas para construir seu trabalho biográfico. Em um trecho do livro, Marcos faz uma comparação entre ícones no Rio de Janeiro da década de 1940, Heleno de Freiras pelo futebol e a atriz norte-americana Rita Hayworth, que protagonizava o sucesso de Hollywood, Gilda. Compondo essa relação entre futebol e cinema, e imaginário coletivo, Marcos Eduardo apresenta a relação do título de seu livro com a relação imagética entre o jogador e a atriz:

“Se nunca houve uma mulher como Gilda, como pregava o slogan publicitário do filme, jamais surgiria, nem voltaria a aparecer, nos estádios de futebol, jogador tão carismático quanto Heleno de Freitas. Comparando-o a Rita Hayworth, as torcidas passaram a mexer com o atleta. Atordoado, caso o time estivesse perdendo, Heleno se destemperava, invariavelmente sendo expulso. Suas maiores discussões com árbitros e bandeirinhas datam dessa época. Mas Heleno de Freitas era mais que um apelido. Era o melhor jogador brasileiro do momento. Como comprovou, ao vivo e em cores, o narrador Luiz Mendes.” (NEVES, 2011, p. 159).

Ao longo do texto de Marcos Eduardo na biografia de Heleno de Freitas, podemos lançar mão da tese que o mesmo busca em seu trabalho uma espécie de biografia de reparação de Heleno. O próprio título do livro, Nunca houve um homem como Heleno, já traz ao leitor esta intenção de construção de um herói esportivo envolto em uma trajetória de sucesso nos estádios de futebol, bailes, imprensa em contraponto com as suas tragédias pessoais. Pensando em dramatização da vida em um contexto de indústria cultural, a trajetória de Heleno se torna uma película cinematográfica e com grandes possibilidades comerciais, como é atualmente explorada.

Considerações Finais

Após este breve levantamento e diálogo de textos sobre Heleno de Freitas, com produções acadêmicas sobre a biografia, podemos observar algumas construções de imagens em torno de Heleno. Estas são peças fundamentais para este quebra-cabeça das trajetórias pessoais, que vão além de narrativas cronológicas e lineares que limitam a percepção da vida social. A biografia então se apresenta como relevante fonte de pesquisa dos estudos literários e da historiografia, trazendo não somente a possibilidade de leitura do biografado, mas também a do biógrafo. Portanto, ao trazer para o debate acadêmico a trajetória de Heleno de Freitas, não esgotamos o tema, mas, sim, proporcionamos neste breve texto possibilidades de interpretação deste sujeito histórico. Para concluir, é interessante trazer a análise do historiador italiano Giovanni Levi: “a biografia constitui na verdade o canal privilegiado através do qual os questionamentos e as técnicas peculiares da literatura se transmitem a historiografia[8].” (LEVI, 1998, p. 168).


Notas

[1] NOGUEIRA, Armando. Heleno, anjo e demônio. In: PEDROSA, Milton. (org.). O olho na bola. Rio de Janeiro: Editora Gol, 1968. p. 35-40.

[2] GALEANO, Eduardo. Futebol ao sol e à sombra. Porto Alegre: L &PM Editores, 2010. p. 89.

[3] MARQUEZ, Gabriel Garcia, O doutor De Freitas. In: Obra jornalística – Vol. 1 – Textos caribenhos. Editora Record, 2006. p. 238-239.

[4] Para mais sobre a biografia de Heleno vale conferir a sua biografia: NEVES, Marcos Eduardo. Nunca houve um homem como Heleno. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2012.

[5] FONSECA, José Henrique. Heleno: o príncipe maldito. Brasil, preto e branco, 2011, 116 min.

[6] DOSSE, François. O desafio biográfico: escrever uma vida. Tradução Gilson César Cardoso de Souza. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2009.

[7] GUMBRECHT, Hans Ulrich. Fascínios. In: GUMBRECHT, Hans Ulrich. Elogio da beleza atlética. trad. Fernanda Ravagnani, São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 108-142.

[8] LEVI, Giovanni. Os usos da biografia. In: FERREIRA, Marieta; AMADO, Janaína. Usos e abusos da história oral. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006, p.167-182.