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O caso Henrikh Mkhitaryan: a UEFA e a geopolítica europeia

Maurício Drumond

A temporada europeia 2018-2019 ficou marcada pela hegemonia do futebol inglês em suas competições internacionais. Suas duas principais competições, a Liga dos Campeões e a Liga Europa, terão em suas finais confrontos exclusivos entre equipes da Premier League. Se, por um lado, a final da Liga dos Campeões da Europa entre Tottenham e Liverpool ganhou contornos dramáticos pela classificação heroica das duas equipes no jogo de volta das semifinais; foi a final da Liga Europa, a menos badalada das duas, que ganhou os noticiários.

Mas o principal motivo dessa atenção não foi o futebol apresentado por Chelsea e Arsenal e o prospecto de uma final europeia com o clássico londrino. Mais uma vez, questões políticas se impuseram sobre o jogo e ditaram as manchetes esportivas, com a notícia de que o meia do Arsenal, Henrikh Mkhitaryan, não disputaria o jogo devido às tensões políticas entre Armênia, sua terra natal, e Azerbaijão, anfitrião da final europeia.

Localização de Armênia (em verde) e Azerbaijão (em laranja).

O caso Mkhitaryan já agitava a imprensa desde a qualificação da equipe inglesa à final, uma vez que já se repetira em duas outras ocasiões. Na Liga Europa de 2015, quando ainda defendia as cores do Borussia Dortmund, o meia não enfrentou o Gabala, equipe azerbaijana. O jogador também não viajou com a equipe em outubro de 2018 para um jogo no país contra a frágil equipe do Qarabag, ainda na primeira fase da competição. Na ocasião, o Arsenal não teve dificuldades em vencer a equipe local por 3 a 0 e a ausência do atleta não causou tanta repercussão. Gurban Gurbanov, técnico do Qarabag, chegou a afirmar que os ingleses “pouparam” Mkhitaryan da pressão de jogar perante 68 mil torcedores no Estádio Olímpico de Baku, palco da final do dia 29 (Fonte).

Selo armênio de 2019 em homenagem ao atleta Henrikh Mkhitaryan.

O fato da questão aparecer com mais força para a disputa da final não deveria ser surpresa para ninguém. No entanto, antes de prosseguirmos, devemos olhar para a história recente da relação entre os dois países, sua disputa pela região de Nagorno-Karabakh e a República de Artsaque, de forma a melhor compreender as causas desse impasse.

República de Artsaque ou Nagorno-Karabakh? Disputas e reconhecimento limitado

As atuais disputas entre Armênia e Azerbaijão se dão principalmente por disputas étnicas e territoriais em torno da região de Nagorno-Karabakh. A região, de maioria étnica armênia, era parte do Império Russo até a dissolução do mesmo após a Revolução Bolchevique de 1917, quando se tornou parte da República Democrático Federativa Transcaucasiana, formada pelas atuais Georgia, Armênia e Azerbaijão.

No entanto, após apenas três meses de vida (de fevereiro a maio de 1918) as três nações se separaram e Armênia e Azerbaijão entraram em conflito por diversas regiões, incluindo Nagorno-Karabakh. A região foi logo depois invadida por tropas otomanas em meio à Primeira Guerra Mundial, sendo defendida por grupos armênios. Seguindo o fim da guerra, a região foi colocada sob jurisdição azerbaijana, mas grupos armênios continuaram oferecendo resistência através de guerrilhas localizadas. Tal situação se manteve até o início do domínio soviético sobre a região, em 1920.

Mapa com destaque para a região de Nagorno-Karabakh.

 

Após a anexação dos dois países pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, as disputas fronteiriças foram encaminhadas pelo então Comissário do Povo para as Nacionalidades da URSS, Josef Stalin. Na ocasião, Nagorno-Karabakh foi incluída como Oblast (região administrativa soviética) autônomo da República Soviética do Azerbaijão, e os conflitos foram controlados pelo governo soviético.

O declínio da URSS na década de 1980 e sua eventual dissolução trouxeram a questão nacional da região novamente à tona, com a realização de um plebiscito que aprovou a separação da região. Dessa forma, teve início a chamada Guerra de Nagorno-Karabakh, entre forças militares do Azerbaijão e um autoproclamado governo local, apoiado pela Armênia. O conflito durou até 1994.

Após o cessar fogo, a região manteve seu governo autônomo, inicialmente com a denominada República de Nagorno-Karabakh, renomeada em 2107 como República de Artsaque. Internacionalmente, região é majoritariamente reconhecida como parte do Azerbaijão, mantendo controle de facto sobre seu território. A Armênia, apesar de não reconhecer oficialmente o Artsaque por motivos diplomáticos, mantém próxima relação com suas forças governamentais. Já o Azerbaijão continua sua luta diplomática pela retomada de controle sobre o território, e as negociações são mediadas pelo Grupo de Minsk, da Conferência sobre Segurança e Cooperação na Europa (CSCE).

Mkhitaryan e a Final de Liga Europa da UEFA

Segundo diversas reportagens, Henrikh Mkhitaryan não participaria do jogo em Baku por ser armênio, tendo em vista as tensões entre os dois países. No entanto, “Micki” entrou na lista de pessoas proibidas de entrar no Azerbaijão devido à sua visita à região de Nagorno-Karabakh como parte de uma delegação da seleção armênia em 2010 que distribuiu presentes para moradores da região. Na ocasião, a delegação foi recepcionada pelo presidente do governo local, Bako Sahakyan, e por Samvel Karapetyan, Ministro da Defesa e Presidente da então nomeada Federação de Futebol do Karabakh, que conferiu a Mkhitaryan uma medalha de “Defensor da Pátria”.

De acordo com uma reportagem armênia, o então jogador do Shakhtar Donetsk afirmou na ocasião que a iniciativa partiu dele mesmo. “Tive essa ideia no verão em que me mudei para Shakhtar. Queríamos ajudar a Armênia e a República de Nagorno-Karabakh, as famílias dos defensores da liberdade, para ser mais exato, porque acredito que eles necessitam de tais iniciativas. (…) Espero ser capaz de ajuda-los no futuro também. Estou planejando visitar orfanatos localizados em Yerevan quando retornar para a Armênia no próximo verão” (Fonte).

Pode-se perceber que a ligação de Mkhitaryan com a causa de Nagorno-Karabakh não é mera especulação azerbaijana. Sua imagem é publicamente ligada à questão, tanto que no jogo de volta contra o Qarabag, em Londres, diversos torcedores exibiram a bandeira de Artsaque nas arquibancadas, e um deles chegou a invadir o gramado exibindo o símbolo nacional, enquanto apontava para “Micki”, que estava no banco de reservas (Fonte).

À guisa de conclusão: UEFA e a geopolítica europeia

Em meio a duas finais inglesas das principais competições europeias de clubes, questões geopolíticas europeias tomam o holofote e se apresentam como um inesperado problema para a UEFA. O sistema de final em jogo único das competições da entidade, sediados em localidades definidas com grande antecedência, apresenta limitações significativas, especialmente quando realizados em regiões conturbadas como o extremo oriente europeu.

Em 2017, quando Baku foi escolhida sede da final dessa temporada, seria difícil imaginar um problema como esse. No entanto, o histórico de conflitos na região e os relatos de perseguição a ativistas de direitos humanos no país sede poderiam ser encarados como sinais de que essa não seria a sede mais adequada.

Baku Olympic Stadium. Foto: Eminn.

Ao se candidatar à sede da final da Liga Europa, o governo do Azerbaijão buscava promover a imagem do país e se dissociar da imagem de tensão e conflito. O caso Mkhitaryan pode ter posto isso a perder, trazendo ainda mais luz ao conflito pouco conhecido e, quem sabe, atiçando as brasas da diplomacia europeia sobre o caso de Nagorno-Karabakh. O Chelsea foi campeão da Liga Europa de 2018/2019 ao vencer o Arsenal por 4 a 1. Mas o resultado final desse jogo levará mais tempo para ser conhecido.

Como citar

DRUMOND, Maurício. O caso Henrikh Mkhitaryan: a UEFA e a geopolítica europeia. Ludopédio, São Paulo, v. 134, n. 55, 2020.