02.4

Hoje é dia de Derby

Marco Antunes de Lima

O último 17 de maio marcou os 90 anos de um dos encontros mais importantes entre 2 clubes brasileiros. Desde 1917, Corinthians e Palmeiras se enfrentam nos campos da cidade de São Paulo. O confronto, conhecido entre os paulistas como “O Derby”, apresenta uma das mais conhecidas e maiores rivalidades do mundo do futebol. Pelo menos em São Paulo as partidas entre as duas agremiações que ocorrem durante o ano são motivos sempre de discussão e de importância dentro do mundo do futebol. Para muitos torcedores dos dois times nada vale mais do que uma vitória contra o arqui-rival.

Infelizmente não foi dada muita atenção para a data comemorativa desse confronto. Pouco se viu ressaltando esse aniversário, e reconstruindo a memória do confronto mais tradicional do futebol paulista. Seja por causa da má fase dos dois clubes, seja pela dificuldade de resgatar a memória que temos em nosso país.

Palmeiras e Corinthians não é o único confronto conhecido ou tratado como Derby, nem dentro do Brasil nem pelo mundo. Confrontos de caráter local e regional são muito comuns no mundo do futebol e conferem uma magia a mais ao esporte mais praticado do mundo. Aliás, podemos dizer que foram e são essenciais para o desenvolvimento do jogo e das práticas humanas e das suas relações.

A origem do termo Derby não é exato. Existem algumas teorias para se explicar a origem do termo. Uma delas é que a palavra surge com a criação de uma famosa corrida de cavalos que acontece anualmente em Epson, Londres desde 1780 e que fora criada por Edward Simth Stanley, Conde de Derby. Com a freqüência da corrida passou a se chamar qualquer corrida com freqüência de Derby. O termo acabou passando para o futebol para designar encontros freqüentes entre duas equipes. Outra teoria também aceita para o nome surge a partir da prática de um futebol arcaico jogado na Terça Feira Gorda na cidade de Ashbourne no Condado de Derby na Inglaterra. Esse futebol era praticado entre as duas metades da cidade. Seja qual for a teoria o termo indica uma contenda tradicional que ocorre a cada período de tempo em um lugar específico e que existe uma espera e preparação para que essa contenda aconteça.

Quando pensamos que a palavra Derby surge a partir de uma prática de um futebol medieval já nos vem a mente a idéia de uma necessidade e de uma existência muita antiga de rivalidades locais. Ora, as práticas de futebol medievais, muitas vezes até mesmo proibidas pelo estado, nada mais representavam as rivalidades existentes entre os diferentes indivíduos, classes, regiões das cidades medievais e do início da modernidade. Os Derbis modernos de alguma forma também representam tudo isso das cidades modernas pós Revolução Industrial. Só que agora com outra forma de organização.

Quanto as motivações existentes em um Derby, elas podem ser de vários âmbitos. Podem ser religiosas, políticas, sociais, geográficas, de classe, ou até mesmo a soma de todas elas.

Uma das mais famosas rivalidades que conhecemos é a “Old Firm”, envolvendo os dois maiores clubes da cidade de Glasgow e de toda a Escócia, o Celtic e o Rangers. Quando pensamos em um Derby, esse é um dos primeiros que nos vêm à cabeça. “Old Firm”, adotado a partir de um apelido pejorativo dado pelos torcedores de outros clubes da Escócia, que possuí um simbolismo muito maior do que apenas um jogo de Futebol disputado algumas vezes por ano. Ele envolve questões religiosas grandes, entre os Católicos do Celtic e os Protestantes do Ranger, mas vai além, envolvendo questões políticas como o apoio à Irlanda por parte dos torcedores do Celtic e os Unionistas torcedores do Rangers. É comum ver nos estádios em dias de “Old Firm” bandeiras da Irlanda abertas na torcida do Celtic e bandeiras do Reino Unido na torcida do Rangers. Esse clássico escocês representa perfeitamente a divisão existente no país e seu estudo permite compreender as relações sociais e históricas da Escócia e até mesmo do Reino Unido.

Outros Derbis internacionais de importância e que envolvem grandes rivalidades, mudando a dinâmica das cidades onde se encontram, que trazem à tona disputas históricas e sociais são: Liverpool e Everton, Manchester United e Manchester City, Sheffield Wednesday e Sheffield United, Aston Villa e Birmingham City, na Inglaterra. Juventus e Torino, Milan e Internazionale, Roma e Lazio, Genoa e Sampdoria, na Itália; Barcelona e Español, Real Madrid e Atlético, Sevilla e Real Betis, na Espanha; Sporting e Benfica, em Portugal; Bayern e Munique 1860, Hamburgo e St. Pauli na Alemanha; Estrela Vermelha e Partizan em Belgrado; Slavia e Sparta em Praga; Olímpia e Cerro Porteño, no Paraguai; Peñarol e Nacional, no Uruguai; Olympiacos e Panathinaikos em Atenas, e muitos outros espalhados pelo mundo.

Outros tipos de Derbis que encontramos são os Derbis regionais, ou seja, aqueles que representam um confronto não dentro de uma cidade, mas sim de uma região. Muitas cidades possuíam apenas um clube de expressão, mas o que percebemos é que sempre existe a necessidade de se ter um rival, e esse rival acaba sendo de uma cidade próxima que rivaliza economicamente e ou politicamente com a cidade em questão. No futebol, meio importante para demonstração dessas rivalidades, se criam os derbys regionais. Shalke e Borussia Dortmund na Alemanha; Lille e Lens, na França, Athletic Bilbao e Real Sociedad; Palermo e Catania, na Sicília; Southhampton e Porthsmouth na Inglaterra.

Casos como as cidades de Londres e Buenos Aires apresentam Derbis com características muito particulares. Nestas duas cidades encontramos rivalidades dentro dos bairros ou distritos. São casos incomuns mas que demonstram uma grande divisão no sistema de relações. Na cidade portenha, além do SuperClássico entre River e Boca Juniors, que ganha âmbito nacional, encontramos vários Derbis dos “Barrios”, como Racing e Independiente, Huracan e San Lorenzo, Banfield e Lanús. Em Londres encontramos também derbys dos distritos: à norte com Arsenal e Totenham, à oeste com Chelsea e Fulham e à leste com West Ham e Millwall.

Existem também os clássicos nacionais que, muitas vezes simbolizam disputas políticas e de poder, como por exemplo Barcelona e Real Madrid na Espanha. Outros clássicos nacionais talvez não tenham tantos simbolismos fora do futebol como na Espanha mas também são de extrema importância para compreendermos as rivalidades, principalmente econômicas entre as cidades. América e Chivas no México; Olimpique Marseille e Paris Saint German na França, Dínamo Zagreb e Hadjul Split na Croácia.

No Brasil as questões dos Derbis são muito significativas e devem ser estudadas para se entender o desenvolvimento das cidades brasileiras e das mais diversas regiões do país. Não temos um grande clássico nacional, talvez porque o futebol aqui não se difundiu nacionalmente, mas sim de maneira regional, sem haver contatos muito grandes entre as diversas regiões do país (lembremos, que só a partir de 1971 temos um campeonato nacional regulamentado por uma federação nacional). Entretanto, essa falta de um clássico nacional fez do Brasil um país que possuí um dos maiores repertórios de clássicos regionais, já que esses campeonatos (estaduais e regionais) existem desde a introdução da bola nas diversas regiões brasileiras.

Nos últimos anos, no Brasil, muitos dos clássicos regionais e dos Derbis existentes têm perdido importância, principalmente na mídia. Desde a década de 90, com o engrandecimento de alguns clubes “grandes” e o apequenamento dos clubes “pequenos”, além da queda da importância dos campeonatos estaduais muitos dos Derbis espalhados pelo Brasil, principalmente os de cidades de pequeno e médio porte estão praticamente desaparecendo da memória. É claro que dentro das cidades em que são disputados ainda possuem certo glamour, mas não mais o mesmo como antigamente. Tal fato pode representar a perda de uma considerável memória existente nesse país.

Todo indivíduo tem a necessidade de criar a sua própria identidade, e ele assim o faz de modo a pertencer a algum grupo. Esse grupo pode ser religioso, político, étnico, cultural, profissional, social e muitos outros. O clube de futebol muitas vezes atua como representante institucionalizado de um desses grupos ou de uma soma deles. Logo, o indivíduo, dentro da criação de sua identidade irá escolher um clube para torcer. Parece que torcer por alguém é algo natural, principalmente em países que tem o futebol tão enraizado na cultura, mas o torcer por alguma equipe talvez possa fazer parte de uma necessidade do indivíduo de se encaixar em algum grupo, de ter uma identidade, um pertencimento.

Segundo as teorias das identidades, de nada adianta existir, se não existir o “outro”, aquele que faz oposição ao grupo a cada qual pertence. Ai que entra a questão do Derby futebolístico. Podemos supor que ele é a representação do eu e do outro dentro do mundo do futebol. Existe uma necessidade de se encontrar um outro, no futebol de forma rivalizada, para se existir. A cidade, os grupos sociais que encontramos nela, necessitam desse embate do “um contra o outro” para continuarem sobrevivendo com a sua extensa cadeia de relações. O Futebol, portanto, tem papel essencial nesse conjunto de relações urbanas. Porem, muitas vezes essas relações conflituosas das cidades se revelam através do futebol com violência.

Os Derbis podem representar várias diferenças. Podem representar questões de classe, como por exemplo clubes mais ligados à classe trabalhadora contra clubes mais ligados à burguesia; podem representar Católicos contra Protestantes, Judeus contra Católicos, pode representar os indivíduos da região Norte contra os da região Sul de um determinado local; podem representar a tradição contra o novo (muitos Derbis se dão pelo contraste entre torcedores que estão a mais tempo e torcedores que chegaram migrados às cidades); podem representar os separatistas contra os unitários; e muitas outras relações a serem estudadas.

Esse texto não tem a pretensão de encontrar respostas sobre os Derbis, mas sim de propor a importância do estudo dessas rivalidades no mundo do futebol para compreendermos esse mundo e os outros que o rodeiam. Parodiando o título de um famoso texto de Umberto Eco fica a pergunta a ser esmiuçada e estudada: “Por que ver os clássicos?”