94.14

Hoje tem festa dionisíaca no Horto

Gustavo Cerqueira Guimarães

Contexto

Este é o segundo texto da série El Minero na Libertadores: o atleticano, enfim, conhece a América Latina, cuja publicação se dará a cada jogo da equipe mineira na competição de 2017, como ocorreu no ano passado. A princípio, serão seis espetáculos que originarão seis textos, publicados no dia do jogo ou nos dias subsequentes – na melhor das hipóteses, chegaremos a quatorze.

Pretendo estar presente em todos os jogos, além, é claro, dos realizados em Belo Horizonte contra esses mesmos adversários, e escrever textos híbridos, por vezes fragmentados, “espatifados”, que incorporem outras artes e tensionem os gêneros textuais (diário de viagem, crônica, ensaio, carta, pesquisa, reportagem – hiperlink –, narrativa, poesia etc.).

Dessa forma, creio contribuir para o alargamento da produção discursiva acerca do clube e sua comunidade de incríveis torcedores que já acordaram para fazer de hoje um dia mais poético, mais festivo ao exibir o escudo estampado nas camisas e agitar fervorosamente suas bandeiras. Esses atos performativos de pertencimento clubístico, incluindo evidentemente a presença nos estádios a entoar o hino e os cânticos, contribuem para a perpetuação da vasta memória cultural do clube, que se solidifica cada vez mais como uma marca de reconhecimento internacional.

13 é Galo, porra!

Hoje, 13 de Abril, o Galo estreia em casa na Copa Libertadores da América, contra o Sport Boys Warnes, equipe que participa pela primeira vez da competição, apesar de ter sido fundada há mais de 50 anos, em 1964, em Warnes, cidade próxima a Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia. O técnico Roger Machado escalou o time da seguinte maneira para o rito dionisíaco que o Atlético promoverá logo mais, às 19h30, no Independência: Giovanni; Rocha, Léo Silva, Gabriel e Fábio Santos; Carioca, Elias, Luan e Otero; Fred e Robinho. As opções de substituições do treinador são as seguintes: Uilson, Carlos César, Felipe Santana, Danilo, Adílson, Cazares e Rafael Moura.

BELO HORIZONTE/ MINAS GERAIS / BRASIL (03.02.2013) Atlético x São Paulo - no Independência - Copa Libertadores 2013 - foto: Bruno Cantini

Estádio Independência antes de partida do Atlético-MG pela Copa Libertadores. Foto: Bruno Cantini/Clube Atlético Mineiro.

Tudo indica que será um jogo fácil para os mineiros, porque além da inexperiência dos bolivianos em Libertadores, o Atlético vem se tornando um time tarimbado ao disputá-la pela quinta vez consecutiva. Desde quando se sagrou campeão, o time realizou quarenta e uma partidas, a metade delas, obviamente, em Belo Horizonte; três em terras paulistanas contra o São Paulo, com supremacia mineira ao somar os confrontos; uma em Porto Alegre ao enfrentar o Inter; e dezessete partidas fora do país: quatro na Argentina, três na Colômbia, duas no Chile, Paraguai e México e uma partida no Peru, Equador, Bolívia e Venezuela. Só o Uruguai não viu o Atlético ainda. Ou seja, os atleticanos e admiradores se acostumaram a assistir ao El Minero na competição mais importante do continente. “Meu filho tem acompanhado suas crônicas no Ludopédio e se interessado muito por todos nossos hermanos”. Disse-me, ontem, um senhor numa livraria no Centro.

Daquele plantel campeão de 2013, liderado por Ronaldinho Gaúcho, Réver e Tardelli, figuram ainda seis jogadores, ou apenas seis, a depender do ponto de vista: os goleiros Victor e Giovanni, os laterais direitos Marcos Rocha e Carlos César, o zagueiraço Leonardo Silva e o polivalente Luan. No entanto, desde a última temporada, os quatro ídolos sofreram sérias contusões e vêm desfalcando sistematicamente o grupo.

“São Victor do Horto”, cujos milagres executados o levaram a integrar o grupo da seleção brasileira na última copa, não disputou uma partida este ano, pois sofreu uma contusão no ombro em partida beneficente ao sair de férias em dezembro. Tudo indica que até o final do mês ele estará de volta.

Marcos Rocha, formado na base, melhor lateral direito dos campeonatos brasileiros de 2012 e 2014, segundo o Bola de Prata, assumiu a camisa 2 do clube a partir dessa época e não deixou mais escapar; com exceção do ano passado, devido ao sucessivo edema na coxa, além de uma luxação no cotovelo, o “Menino de Sete Lagoas” realizou menos partidas do que Carlos César em 2016.

Leonardo Silva, o “Zagueiro-artilheiro”, rompeu um tendão do músculo da coxa em outubro e vem voltando a jogar aos poucos. O experiente capitão, de 37 anos, faz muita falta à equipe, pois além de sua estatura avantajada, 1,92m, aliada a sua liderança, segurança e raça – joga duríssimo –, ele é o zagueiro que mais meteu gols a favor do Galo, são vinte e oito. O seu tento de cabeça aos 41min da etapa final contra o Olimpia do Paraguai, no Mineirão, levou o Atlético à disputa de pênaltis e consequente ao máximo título interclube da América, sem dúvida, um dos mais importantes da história do clube, cuja fundação remonta ao ano de 1908, no Parque Municipal de Belo Horizonte – tocaremos neste assunto mais adiante.

Neste ano, se tudo transcorrer dentro da normalidade, Victor, Rocha e Léo chegarão a 300 jogos pelo clube, marca bastante expressiva, uma vez que somente os jogadores identificados com seus clubes atingiram. Ambiciono escrever até o último desses três jogadores abandonar a bem-sucedida carreira. Afinal, apenas vinte jogadores estiveram tantas vezes com a camisa alvinegra em campo, do primeiro para o último, são eles: João Leite, Wanderley Paiva, Murilo, Luisinho, Vantuir, Paulo Roberto, Grapete, Reinaldo, Cerezo, Paulo Isidoro, Marques, Heleno, Éder Lopes, Éder, Sérgio Araújo, Kafunga, Jorge Valença, Willian, Zé do Monte e Danival. Os jogadores em destaque eu os vi jogar, pois atuaram a partir de 1981, quando começo a construir sistematicamente minhas primeiras memórias futebolística.

A presente fase atleticana situa o clube das alterosas na melhor posição de um time brasileiro no ranque da Federação Internacional de História e Estatística do Futebol, desde sua criação em 1991, com 212 pontos. Veja-se o posicionamento dos dez primeiros brasileiros: Atlético Mineiro (13º), Grêmio (34º), São Paulo (36º), Corinthians (44º), Palmeiras (45º), Chapecoense e Flamengo (94º), Santos (132º), Coritiba (159º) e Cruzeiro (168º). Hoje é dia 13 e 13 é…? 13 é galo no jogo do bicho! 13 é Galo, porra!

Vale lembrar que os atleticanos, acostumados apenas a ganhar títulos caseiros, apegaram-se sempre aos ritos, invencionices, mandingas, prezando os ranqueamentos, cálculos, as estatísticas e “histórias do longe” que só atleticanos sabem, como ser proprietário do melhor Centro de Treinamento da América Latina, onde a Argentina de Messi treinou durante a copa, ou se orgulhar de obter a 2ª melhor média anual de público do Campeonato Brasileiro, em dez edições (1971, 1977, 1990, 1991, 1994, 1995, 1996, 1997, 1999 e 2001), atrás unicamente do Flamengo, com doze.

O Atlético, também atrás dos cariocas, é detentor da 2ª maior média de público do Brasileirão, cerca de 55.000 torcedores em 1977, ano no qual se sagrou o único vice-campeão invicto da competição. Nada mau para uma torcida bem inferior a do Mengão em termos numéricos, afora Belo Horizonte possuir menos da metade de habitantes. No entanto, desde 2010, o Galo manda seus jogos em estádios abaixo dos 20.000 espectadores, mormente no Independência, e, infelizmente, saiu do páreo por essa disputa. Mas, por outro lado, gozou neste período da maior série invicta como mandante da história do futebol brasileiro, foram 54 partidas entre 2011 e 2013.

Vale ainda recordar que quando o Galo levantou o caneco da Série B, em 2006, ele obteve a melhor média de espectadores do ano, cerca de 32.000, superando o Grêmio, o melhor da Série A. No último jogo desse campeonato, já campeões por antecipação, o Atlético colocou cerca de 75.000 pagantes na festança no Mineirão. Porque atleticano comemora tudo! Nós comemoramos tudo! Comemoramos Série B, torneios europeus e centenários, copas municipais, estaduais e do gelo… Comemoramos o Campeonato Brasileiro de 1971, as dezesseis vezes que estivemos entre os quatro primeiros colocados nessa competição, bem como todas as ocasiões que escapamos do rebaixamento. Comemoramos a Copa Conmebol, hoje, Sul-Americana, e valorizamos muito sermos os líderes do ranque dessa competição. Atleticano comemora tudo!

Afinal, o que conta é ou não é o povo nas arquibancadas a evocar os deuses dionisíacos para esta festa que transborda performatividades?! Neste quesito, o Galão da Massa é mesmo altaneiro, além de levar bastante gente no estádio, seus cânticos são muito especiais. O hino, composto por Vicente Motta, em 1969, é, sem dúvida, o mais cantado em estádios brasileiros. Já foi considerado o mais belo do mundo em um concurso de hinos de futebol na Itália, em 1976. Você saberia entoá-lo?

Nós somos do Clube Atlético Mineiro / Jogamos com muita raça e amor / Vibramos com alegria nas vitórias / Clube Atlético Mineiro / Galo forte vingador // Vencer, vencer, vencer / Este é o nosso ideal / Honramos o nome de Minas / No cenário esportivo mundial // Lutar, lutar, lutar / Pelos gramados do mundo pra vencer / Clube Atlético Mineiro / Uma vez até morrer // Nós somos Campeões do Gelo / O nosso time é imortal / Nós somos Campeões dos Campeões / Somos o orgulho do esporte nacional // Lutar, lutar, lutar / Com toda nossa raça pra vencer / Clube Atlético Mineiro / Uma vez até morrer / Clube Atlético Mineiro / Uma vez até morrer.

 

Outra música cantada com efervescência impressionante pela Massa, porque se consagrou nas arquibancadas como o segundo hino do clube, é a “Vou festejar”, de Jorge Aragão, Neoci e Dida, gravada por Beth Carvalho em De pé no chão (1978).

Chora, não vou ligar / Chegou a hora / Vais me pagar / Pode chorar, pode chorar // É, o teu castigo / Brigou comigo / Sem ter porquê / Vou festejar, vou festejar / O teu sofrer, o teu penar // Você pagou com traição / A quem sempre lhe deu a mão / Você pagou com traição / A quem sempre lhe deu a mão.

Veja, leitor, o vídeo de Beth Carvalho no centro do Mineirão ao celebrar a conquista do Campeonato Brasileiro da Série B e faça o seguinte teste: “você é ou não é atleticano?” Se você se emocionar, está aprovadíssimo. Caso contrário, tente outras vezes… uma hora dá certo. É fatal! É uma espécie de transe. Todo mundo é atleticano ao comungar a alegria (e a melancolia) transmitida por essa canção.

A outra opção seria a de escalar a equipe desse jogo em três… dois… um… Diego Alves; Luisinho Netto, Lima, Marcos e Thiago Feltri; Márcio Araújo, Bilu, Márcio e Danilinho (Tchô); Marinho (Galvão) e Éder Luís (Roni). Todos liderados por Levir Culpi, nunca esqueçamos, ao menos, desse cara.

“Vou festejar” foi utilizada de maneira desvirtuada em manifestações políticas de direita no ano de 2015. Segundo declarações da própria cantora ao portal Pragmatismo Político, essa música “sempre representou movimentos de esquerda e de abertura política como as Diretas Já e o segundo turno de Lula contra o Collor em 1989”. Para rematar a dissonância, continua Beth Carvalho, “os maiores mestres culturais da minha vida são em sua maioria negros e pobres – Nelson Cavaquinho, Cartola, Candeia. E, não tolero a homofobia que vem sendo explicitada nestas passeatas”. Portanto, essa música tem história e ela é mesmo de batalha. Que a gente cante, brinque, enlouqueça, estremeça e lute, meus companheiros, porque são tempos sombrios estes de agora.

Atlético, 109 anos de história: regido por Áries

Em Áries, podemos encontrar espontaneidade e uma energia impulsiva que promove um forte anseio por existir. Este signo tem uma forte tendência a realizações instantâneas, pois vive sua vida no agora”.

Gostaria de registrar outros festejos atleticanos, dionisíacos em menor escala, pois não se dão nos estádios. Na véspera do aniversário do clube, no último 24 de março, os torcedores se encontraram à noite no Parque Municipal, onde o clube foi fundado, para celebrar seus 109 anos. Por volta das 21h, o grupo se deslocou a pé em direção à sede social do clube, em Lourdes, passando pela Praça Sete e pela Praça Raul Soares. O trajeto tem cerca de dois quilômetros e meio e os torcedores costumam percorrê-lo com suas bandeiras a cantar, vociferar, gritar, conversar, paquerar e beber. Muitos convivas estavam por ali sem motivo aparente, simplesmente vivenciavam a festa e a camaradagem (e a estranheza) promovidas pela torcida do Galo.

A farra entre os quarteirões ao redor da sede já conta com trio elétrico, ambulantes, banheiros químicos, barracas de cerveja e tropeiro. Compareceram cerca de cinco mil pessoas para aguardar o momento no qual se cumpriria mais um rito, a contagem regressiva um pouquinho antes da meia-noite. E contaram: 10, Ronaldinho; 9, Tardelli; 8, Donizete; 7, Sérgio Araújo; 6, Cincunegui; 5, Pierre; 4, Réver; 3, Leonardo Silva; 2, Marcos Rocha; e 1, Victor! Feliz aniversário, Galôôôôô! Logo depois disso, eu fui embora para casa, mas soube que a folia varou pela madrugada. Ao que tudo indica, a festança atleticana já entrou definitivamente para o calendário de Belo Horizonte, como a celebração de São Victor do Horto, cuja realização se dá às voltas do Independência no Dia 30 de Maio para celebrar o milagre operado pelo goleiro ao defender o pênalti que mudou definitivamente as narrativas atleticanas.

No dia seguinte, 26 de março, foi o dia da festa oficial promovida pelo clube no Independência, onde cada jogador entraria em campo pelo Campeonato Mineiro com o nome de um ídolo do passado estampado nas costas, como, por exemplo, Mário de Castro na camisa de Robinho, Elias com o nome de Cerezo e o Fred com a 9 emblemática de Reinaldo.

Mas o maior presente recebido pelos atleticanos foi o retorno do polivalente Luan aos gramados. Depois de um primeiro tempo morno, com o placar de 0 a 0, ele entrou no segundo tempo estampando o nome do Éder [Aleixo], o “doidão, o terror do Mineirão”, como gritavam os torcedores. Muitos não acreditavam que ele nunca mais jogaria futebol, mas o “Menino Maluquinho” vem apresentando melhoras significativas em seu rigoroso tratamento no joelho, demonstrando a mesma força que o consagrou dentro de campo.

O Galo venceu a URT, adversário do próximo domingo pelas semifinais do Mineiro, pelo placar de 2 a 0, com gols do artilheiro Fred e Luan, que incendiou o estádio e foi eleito o melhor da partida. Que alegria poder assistir a esse cara no time! Ele chorou ao comemorar o gol e levantou os ânimos da torcida. “A gente realmente precisa do Luan”, disse a voz do povo após o jogo. E ele responde pelas ondas das rádios, sem falsa modéstia: “Eu sei o que o Atlético, eu sei o que é o Galo. Eu sei de minha importância para o grupo”. E diz também: “Eu não sou o Robinho”, “Brigo por cada bola”, “Marcos Rocha, vamos, vamos”, “Eu não consigo dosar, nem em treino e nem em jogo”. Os jogadores também sabem disso, pois ele é contagiante. “O Luan é um cara que flutua dentro de campo, que incendeia a gente, um cara muito especial dentro do grupo”, disse o lateral esquerdo Fábio Santos.

Luan modifica o estado anímico do jogo. Ele foi o melhor jogador ao longo de toda a campanha vitoriosa do Atlético na Copa do Brasil de 2014, basta lembrar os seus gols nas duas partidas contra Palmeiras, o primeiro gol na goleada contra o Corinthians no jogo decisivo pelas quartas de final, o quarto gol feito em cima do Flamengo, que levaria o Galo a sua primeira decisão, e o gol que abriu as portas para a conquista inédita diante do Cruzeiro na final. O “Maluquinho” foi o artilheiro do Atlético com cinco gols, além de ter sido o mais brilhante durante toda a competição.

Por fim, para finalizar com o astral lá em cima, ao lado dos deuses que pairam nos estádios de futebol, segue abaixo o sensacional gol do Luan, contra o Flamengo, narrado por Willy Cover, locutor que homenageia o Willy Gonser, narrador presente no livro dos recordes por conta de suas onze participações em copas do mundo – “o mais completo do Brasil”. Veja abaixo.