127.27

Homofobia e Infância e Esporte

Wagner Xavier de Camargo

Lembro-me de um fato ocorrido em 2014 que muito me chocou. Alex, um menino de 8 anos, vivendo com um pai agressivo no Rio de Janeiro e longe da mãe que havia ficado no Nordeste, morreu estupidamente após sucessivos golpes em seu abdome, disparados pelo progenitor. O fígado foi dilacerado e uma hemorragia interna se encarregou do óbito. O motivo da agressão: como o menino dançava, tinha trejeitos e naquele dia não queria cortar o cabelo, recebeu pancadas ininterruptas de forma corretiva.

Ora, a raiva que o pai sentia dos comportamentos não normativos do garoto gerava ocasiões de violências variadas e sucessivas. Não há justificativas cabíveis frente a este claro caso de homofobia. Em que pese psicólogos/as afirmarem que a identidade sexual se conforma na adolescência (ou pelo menos, de forma mais consciente), existem, sim, crianças que desde muito cedo se desidentificam com o gênero que a elas foi designado no nascimento. Há, inclusive, pesquisas em desenvolvimento sobre crianças transgênero, intersexo e a-gênero.

O pai da situação, de sua parte, tinha histórico de intolerância frente a comportamentos que não representassem o de “um macho”. Segundo reportagem da época, “cismado com coisa de homossexual”, já havia disferido ofensas verbais contra o outro filho (mais velho), por não considerá-lo “másculo”. Comportamentos assim ainda se repetem, contra crianças, adolescentes e mesmo adultos, evocando o que hoje se define por masculinidade tóxica.

Lágrimas de tristeza de uma criança. Foto: Kat J/Unsplash.

Foi este triste acontecido que ocasionou a criação de uma homepage na rede Facebook: “Homofobia e infância”, que convoca a sociedade a ser responsável pelos seus atos e a se observar contra crimes que sejam cometidos em nome de certa normalidade.

Desconectados entre si, mas tal fato passado com o menino Alex me lembrou das humilhações ocorridas com o atleta Diego Hypolito. Em 2019, Diego trouxe à tona uma série de violências físicas, verbais e psicológicas que havia sofrido em grande parte de sua vida de atleta – e muitas delas aconteceram quando ainda era criança ou adolescente e tinham relação com sua sexualidade. Sendo bastante afeito ao universo da ginástica (artística), lembro-me de ter chorado quando li pelo que Diego passou. Fez-me recordar de outras formas de violência contra crianças e adolescentes em fase de treinamento esportivo, que muitas vezes se submetem por entenderem que “aquilo faz parte do esporte”.

Nenhum abuso deve fazer parte do esporte, nem da ação de técnicos/as, preparadores/as ou mesmo de colegas de equipe (ou de modalidade). O bullying que, comumente, se sofre dentro de um esporte (particularmente coletivo) legitima-se na fala de que “é só as boas-vindas” ao grupo. Isso nunca deveria fazer parte do mundo esportivo e de seu modo de socialização.

Num fórum de discussão acadêmica, certa vez ouvi de um pesquisador que acompanhava equipes de futebol sub-17 que havia “muito assédio” de todos os tipos (inclusive sexual), chantagens e mesmo coerção via dominação, sem qualquer possibilidade de resistência por parte dos garotos. Quando perguntado se ele divulgaria isso a partir do trabalho investigativo, respondeu-me que não.

Fernando de Carvalho Lopes, ex-técnico da seleção brasileira de ginástica, foi acusado na justiça de abuso e assédio sexual de atletas. Foto: Ricardo Bufolin/CBG.

Quando algo assim se passa, percebemos que erramos como acadêmicos/as, como sociedade e como seres humanos. Não se trata de trazer à tona a “verdade dos fatos”, nem de “justiça com as próprias mãos”, mas de usar o conhecimento científico produzido (no caso, derivado de uma vivência com o grupo em questão) como modo de denúncia, com fins éticos e humanos.

Na minha própria infância, sofri com preconceitos nas aulas de Educação Física devido ao meu corpo não normativo: magricela, desengonçado, descoordenado, meio “sensível demais” para as performances dos meninos da época. Sempre fui rejeitado nas atividades vinculadas a esportes coletivos. Professores, professoras, técnicos e colegas zombavam de mim e me ridicularizavam. No Ensino Médio (antigo “Colegial”), passei três longos anos batendo bolas de vôlei na parede, pois, segundo o professor da época, eu “precisava primeiro aprender a sacar e cortar” para depois jogar o jogo. Nunca joguei, portanto.

Demorei demais para entender o que se passava e, enquanto crescia, desenvolvia revolta, agressão a outros e, inclusive, homofobia e misoginia. Atualmente, com outro entendimento da realidade, das pessoas e de mim mesmo, penso que muito do que somos formamos a partir do nosso entorno. Rir de uma piada homofóbica, transfóbica ou racista, ou mesmo se calar totalmente diante dela(s), nos torna um pouco cúmplices disso. E, em nós, sempre fica algo dessa “coisa ruim”.

Michael (centro), que em 2011 sofreu um dos maiores coros homofóbicos do vôlei, revelou que, ainda adolescente, teve que “interpretar muito” (a heterossexualidade) para ser aceito pelos colegas. Foto: Divulgação.

Como educador e pesquisador hoje, me preocupo com corpos que não conseguem atender às demandas de uma sociedade que vive insatisfeita – com seu corpo, seu sexo, seus prazeres, sua cultura, sua economia, etc. Mais do que isso, penso que temos que ter atenção às crianças, particularmente bebês e pré-escolares, que desde cedo são classificadas como intersexo, assexuadas, transgênero, a-gênero ou algo que o valha.

O futuro destas pessoas em formação estão em minhas/nossas mãos. Dessa forma, no esporte ou não, crianças devem ser aceitas como são: um ser humano em formação!

Agradeço a Juliana Xavier de Camargo Possa, psicóloga que trabalha com crianças em situação de vulnerabilidade, pela leitura prévia deste texto!


Sobre a reportagem da violência contra o garoto Alex:

ALVES, Maria Elisa. Menino teve fígado dilacerado pelo pai, que não admitia que criança gostasse de lavar louça. Jornal O Globo (online). 5 mar. 2014. Acesso em: 15 de jan. 2019.