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“Armários de Gelo”: (homo)sexualidade nos Jogos de Inverno

Wagner Xavier de Camargo

Um dos saldos mais positivos dos Jogos Olímpicos ocorridos no Rio de Janeiro, em 2016, foi a quantidade de atletas que saiu do “armário”, anunciando sexualidades fora das prerrogativas heteronormativas: 53 atletas se posicionaram, abertamente, sobre suas homossexualidades e bissexualidades durante o período de competição, sendo que cerca de 23 já tinham se assumido em Londres-2012, com predomínio feminino (ROMANELLI, 2013). A partir do Rio-16 a surpresa para a opinião pública foi tanta, que os Jogos passaram a ser conhecidos como “a Olimpíada mais gay da história” (AVENDAÑO, 2016).

Eis que, nem bem transcorridos dez dias dos XXIII Jogos Olímpicos de Inverno, em Pyeongchang, Coreia do Sul, o “armário de gelo” da sexualidade de alguns/mas atletas trincaram e de outros/as derreteram completamente no calor das polêmicas acerca de suas orientações sexuais.[1] O mais controverso caso foi o do patinador artístico Adam Rippon, o primeiro atleta estadunidense abertamente gay a se qualificar para os Jogos de Inverno e que, mesmo antes de desembarcar na Coreia, havia criado um imbróglio com o vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence, acerca de suas ideias de “terapias de conversão” para homossexuais.

Rippon

Rippon em uma de suas apresentações de patinação no gelo. Foto: labbradolci (CC BY-NC 2.0).

A questão da “saída do armário” não é exatamente inédita nos Jogos Olímpicos de Inverno, uma vez que em Sochi-2014 se fizeram presentes sete atletas sob orientação homossexual/bissexual.

No entanto, apesar disso, o barulho na época foi maior devido às oposições ao governo de Vladmir Putin, que fazia questão demarcar a rigidez do sistema político (heterossexual) russo, amparado legalmente por leis antiterrorismo e “antipropaganda homossexual”. Várias democracias do mundo Ocidental, líderes de distintos países, representantes de direitos humanos e uma plêiade de atletas afinaram suas vozes contra o que denominavam “barbárie” à perseguição às identidades sexuais dos/as competidores/as que estariam em Sochi. Como escrevi na época, para alguém atento ao noticiário internacional, entre uma prova da patinação de velocidade ou uma manobra radical do snowboard, protestos, prisões e manifestações de diversas naturezas contra a política de Estado instituída em Sochi invadiam boletins informativos de vários meios de comunicação. Sochi-2014 sempre será lembrada pela “homofobia institucionalizada pelo Estado russo” (CAMARGO, 2014).

putin

Protestos contra Putin durante Jogos Olímpicos de Inverno em Sochi-2014. Foto: Adam Groffman.

Na desenvolvida e mais educada Coreia do Sul, a tônica da política parece ser diferente e os holofotes recaem, portanto, mais sobre atletas, seus comportamentos e as competições em si. Gus Kenworthy, que em 2014 ainda permanecia no “armário”, chegou em Pyeongchang com o namorado a tiracolo. Bastou o amigo Rippon ganhar uma medalha de bronze por equipe na modalidade, que Kenworthy postou em seu Twitter: “We’re here. We’re queer. Get used to it!” (Estamos aqui. Somos queer. Acostumem-se!”). Tal manifestação pública (e para milhares de pessoas) é importante porque não só vislumbra que sujeitos não alinhados com a heteronorma estão, sim, inseridos no esporte, como também mostra que o rendimento esportivo não tem relação com a sexualidade. Esse último aspecto ficou claro quando em dezembro, também via Twitter, Rippon escreveu sarcasticamente: “I was recently asked in an interview what its like to be a gay athlete in sports. I said that it’s exactly like being a straight athlete. Lots of hard work but usually done with better eye brows” (Recentemente fui perguntado numa entrevista como é ser atleta gay no esporte. E eu disse que é exatamente a mesma coisa que para um atleta hetero. Muito trabalho árduo, mas geralmente, feito com sobrancelhas mais bem feitas) (AVERY, 2018).

A brincadeira de Rippon e seu sarcasmo faz com que ele e Kenworthy não se assemelhem muito. Ao passo que o primeiro encampa uma estética queer, insubmissa, errática, cheia de trejeitos, desessencializada, meio efeminada, Kenworthy mantém um estilo boyish (garotão), com barba por fazer, corpo musculoso e estereótipo considerado “masculino”. Penso ser interessante que se afinem no discurso neste momento dos Jogos, pois não poderia estar em pauta o que tantas vezes vi em competições esportivas entre gays e que considero pernicioso, isto é, para a afirmação da masculinidade de uns, a efeminação de outros era, em geral, alvo de críticas e preconceitos.

Kenworthy

Kenworthy e o namorado, Matthew Wilkas, em um evento social. Foto: Disney/ABC Television Group.

Como já disse certa vez, trazer a homossexualidade à tona no contexto esportivo de rendimento é, em primeiro lugar, colocar a dúvida sobre a hegemonia da heterossexualidade em voga no mundo dos esportes, que regula corpos, atitudes, comportamentos e sobre a qual nunca se desconfia (CAMARGO, 2017a). Além disso, colocar-se como sujeito desejante fora da heterossexualidade (alinhado com quaisquer outras estéticas sexuais) ressalta que não apenas corpos, mas igualmente as práticas de prazer, precisam ser reconsiderados além dos referenciais aceitos socialmente.

Talvez a rachadura no (ou o derretimento do) “armário de gelo” da sexualidade de atletas de esportes de inverno não mobilize tanto a opinião pública mundial quando polêmicas quanto à sexualidade de jogadores de futebol, por exemplo. Porém, a visibilidade de sexualidades dissonantes no meio esportivo é fundamental, seja nos esportes de inverno ou verão, tanto para o próprio campo, quanto para fãs e torcedores/as perceberem que o “pessoal é político” e que a ocupação daquele lugar por um sujeito não heterossexual é possível e não vai impactar em nada no modo de performatizar ou torcer para essa ou aquela modalidade (CAMARGO, 2017b).

Tanto Rippon quanto Kenworthy agora se estabelecem, inevitavelmente, como “pedras no sapato” de Mike Pence, o líder cerimonial da delegação estadunidense nos Jogos Olímpicos da Coreia, e no limite, da própria política conversadora e tacanha de Donald Trump, com seus amplos retrocessos em várias áreas de direitos humanos de populações excluídas – particularmente LGBT+ (lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros e demais).

Como argumenta de modo bem-humorado o jornalista Spencer Kornhaber, Rippon e Kenworthy podem ser os “mascotes gays” do sonho do movimento LGBT dentro do esporte convencional, mas parte da emoção relativa a eles é imaginar quem, nos próximos anos, pode queerizar os Jogos Olímpicos de outras maneiras (KORNHABER, 2018).

[1] São 15 atletas, declaradamente gays, lésbicas ou bissexuais: na patinação artística (Adam Rippon, Jorik Hendrickx, Eric Radford), no hóquei sobre o gelo (Emilia Andersson Ramboldt), no snowboard (Belle Brockhoff, Cheryl Mass, Simona Meiler e Sarka Pancochova), na patinação de velocidade (Brittany Bowe e Ireen Wüst), no salto com esqui (Daniela Iraschko-Stolz), no esqui cross-country (Barbara Jezeršek), no esqui de estilo livre (Gus Kenworthy), no skeleton (Kim Meylemans) e na corrida de trenó ou bobsleigh (Sophie Vercruyssen) (OUTSPORTS, 2018).

 

Referências Bibliográficas

“2018 Olympics will have a record 15 out LGBTQ Athletes”. OUTSPORTS, 2018. Disponível em < https://www.outsports.com/2018/2/6/16924846/2018-winter-olympics-pyeongchang-out-gay-lesbian-bisexual-athletes>, acesso em 17 fev. 2018.

AVENDAÑO, Tom C. “Rio 2016 se transforma na Olimpíada mais gay da história”. El País, 2016. Disponível em <https://brasil.elpais.com/brasil/2016/08/09/deportes/1470774769_409560.html>, acesso em 20 set. de 2016.

AVERY, Dan. “Figure Skate Adam Rippon becomes first out gay male to compete in the Winter Olympics”. NewNowNext.com. Disponível em <http://www.newnownext.com/adam-rippon-figure-skater-gay-winter-olympics/01/2018/>, acesso em 10 fev. 2018.

CAMARGO, Wagner X. “Justin Fashanu: jogador profissional de futebol, negro e gay!”. LUDOPÉDIO, São Paulo, v. 98, n. 6, p. 1 – 5, 06 ago. 2017(a).

__________. “A sexualidade determina o modo de torcer?”. LUDOPÉDIO, São Paulo, v. 93, n. 1, p. 1 – 5, 19 mar. 2017(b).

__________. “Esportes, Política de Estado e Homofobia institucionalizada: Sochi-2014”. Pontos de Vista, LUDENS (USP), v. 1, p. 1 – 3, 07 mar. 2014.

KORNHABER, Spencer. “The Out Olympics”. The Atlantic. 2018. Disponível em < https://www.theatlantic.com/entertainment/archive/2018/02/the-out-olympics/553196/>, acesso em 17 fev. 2018.

ROMANELLI, Amanda. “Homofobia no esporte ainda ganha de goleada”. 2013. O Estado de S. Paulo. Disponível em <http://www.estadao.com.br/noticias/esportes,homofobia-no-esporte-ainda-ganha-de-goleada,1077307,0.htm>, acesso em 10 out. 2013.