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Hooligans, ultras, barras. A Copa do Mundo na Rússia chegou

João Manuel Casquinha Malaia Santos

O assunto do hooliganismo nas Copas do Mundo parece passar longe das preocupações dos brasileiros durante este evento. E aqui vale uma leitura inicial para pensarmos sobre as diferentes formas de se expressarem dos torcedores mais fanáticos: os hooligans, os ultras, os barra bravas ou a torcida organizada. Cada um desses grupos têm características singulares. Mas são unidas por algumas características comuns: o fanatismo e o uso da violência.

As torcidas organizadas de clubes brasileiros não costumam acompanhar a seleção brasileira nos estádios. Nem no Brasil e muito menos fora do país. Mas esta não é a realidade de muitos dos países europeus e até mesmo de nossa vizinha Argentina.

Foto: Fabio Soares/ Futebol de Campo

Foto: Fabio Soares/Futebol de Campo.

Torcedores de clubes de países como Inglaterra, Rússia, Sérvia, Croácia, Polônia, Alemanha e outros países acompanham suas seleções e carregam com eles um já longo histórico de conflitos violentos por onde passam.

Em 2016, durante o campeonato europeu de futebol disputado na França, houve um grande confronto entre torcedores ingleses e russos, em Marselha. Os confrontos aconteceram antes do embate entre as seleções da Inglaterra e da Rússia naquela cidade e depois do jogo, dentro do estádio Velodrome. As cenas de vandalismo horrorizaram a Europa. Os relatos sobre a briga atestam um nível de organização e de violência dos torcedores russos envolvidos extremamente chocantes. Os desdobramentos políticos de toda esta trama foram enormes e a Copa do Mundo deve também ser vista por este prisma.

Antes do jogo, um confronto de enormes proporções irrompeu nas ruas de Marselha. Os torcedores russos partiram de maneira organizada e violenta para cima dos torcedores ingleses que estavam nos bares. Cadeiras, mesas e garrafas voando. Gás CS (fumaça de uso militar e policial) por todos os lados. Grupos de torcedores agredindo ingleses caídos no chão com chutes e barras de ferro.

Capa do jornal inglês Daily Mirror após a "Batalha de Marselha.

Capa do jornal inglês Daily Mirror após a “Batalha de Marselha.

Cerca de 100 ingleses foram feridos. Mais de vinte deles foram hospitalizados, cinco em coma. Andrew Bache, torcedor inglês de 51 anos foi atingido com uma barra de ferro na cabeça e ficou com uma sequela permanente: o lado esquerdo do corpo paralisado. Um outro torcedor inglês teve seu tendão de Aquiles cortado para não conseguir fugir das agressões de um grupo de russos.

Durante este verdadeiro caos, havia policiais especiais ingleses que acompanhavam os hooligans de seu país. O Chefe Superintende da polícia de Northumbria, Steve Neill, que estava em Marselha, declarou: “Nós vimos o hooliganismo do futebol em um nível diferente”.

Dentro do estádio Velodrome, após o apito final que decretou o empate em 1 a 1 entre Inglaterra e Rússia, mais problemas. Os ultras russos foram em direção a grupos de torcedores ingleses. Sem separação entre os torcedores dos dois países, os russos empurraram os ingleses para perto de uma grade de divisão de setores mais caros. Enquanto isso, espancavam quem se colocava pela frente.

Após essas cenas de selvageria, pessoas ligadas ao governo russo tomaram atitudes que surpreenderam o mundo. Igor Lebedev, influente deputado do partido nacionalista russo na Duma, usou seu perfil no Twitter para se manifestar. “Não vi nada de errado com a briga entre os fãs. Pelo contrário, muito bem rapazes. Continuem assim!”.

Tuite russo

Tuíte do deputado Lebedev elogiando os ultras russos após a “Batalha de Marselha”.

Na esteira desta escalada da violência, Lebedev apontou aquela que seria a sua solução para o problema do hooliganismo na Copa do Mundo. Lutas organizadas entre torcedores de diferentes países, em recintos fechados, com venda de ingressos e transmissão pela televisão. Os torcedores de um país chegariam à Rússia e escolheriam um adversário. Quando um outro grupo aceitasse o desafio, os torcedores marcariam dia e hora em um estádio e fariam o confronto, mas desarmados. Em sua visão, esta atividade poderia direcionar a agressão dos torcedores para uma lado mais pacífico. Seria também uma lição para os torcedores ingleses, que em Marselha demonstraram ser lutadores indisciplinados e fracos. “A Rússia seria a pioneira neste novo esporte”, disse Lebedev.

Estas declarações são apenas algumas das muitas demonstrações de apoio e mesmo de envolvimento entre pessoas do governo russo e membros dos ultras daquele país. Alexander Shprygin, um conhecido líder dos ultras de extrema-direita na Rússia, foi expulso da França. Shprygin, de 38 anos, viajava com a delegação da Federação Russa de Futebol no Euro 2016. Ele foi identificado pela Fare Network, organização que monitora o racismo nos estádios, como um dos líderes da introdução do neonazismo na cena do futebol russo nos anos 1990.

Vladimir Putin, presidente deste país, declarou na sequência deste acontecimento, que condenava a violência, mas se perguntou: “como 200 torcedores russos conseguiram bater 1.000 torcedores adversários?”. Em 2010, após o assassinato de Egor Sviridov (um tema que por si só já vale outro texto), um torcedor do Spartak Moscou, Shprygin esteve presente em seu velório. Ao seu lado, ninguém menos que Vladimir Putin, que também colocou flores no túmulo de Sviridov.

As prisões na França e as deportações de 20 ultras russos irritaram as autoridades daquele país. Sergei Lavrov, ministro das relações exteriores, colocou que outras manifestações de sentimentos “anti-russos” poderiam agravar seriamente a atmosfera das relações entre os dois países. Ao voltar para Moscou, os fãs deportados foram recebidos por uma gama completa de equipes de TV estatais. Shprygin declarou às televisões em sua chegada ao aeroporto: “Você pensaria que a nação anfitriã de uma Copa do Mundo nos teria recebido com algemas, ou pior. Mas Putin é sábio”.

Em março de 2018, um torcedor russo de 31 anos foi preso na Alemanha. Ele tentava pegar um voo de conexão para a Bilbao, Espanha, para acompanhar seu clube o Spartak Moscou em jogo da Liga Europa contra o Athletic Bilbao. Após sua prisão, ele foi enviado para Marselha, onde ficou detido e pode ficar por lá por 15 anos na prisão. O embaixador russo na Alemanha, Denis Mikerine, deu duras declarações contra o governo alemão após a deportação do torcedor russo acusado de ter cometido a agressão contra o inglês Andrew Bache. “Nós protestamos veementemente contra a detenção e deportação para um terceiro país de um cidadão russo que nunca cometeu um crime em território alemão. Consideramos este caso como um possível pretexto para exacerbar e politizar o hooliganismo no futebol momentos antes da Copa do Mundo de 2018 na Rússia”.

Imprensa inglesa deu destaque às possíveis ligações entre os ultras russos e o Kremlin.

Imprensa inglesa deu destaque às possíveis ligações entre os ultras russos e o Kremlin.

No entanto, as imagens dos confrontos de Marselha forçaram o governo russo a tomar medidas sérias contra os ultras. A polícia iniciou um processo de investigação e prisão de vários torcedores considerados líderes de ultras de clubes russos. Até mesmos cantos ofensivos racistas da torcida do Locomotiv de Moscou levaram seus líderes a enfrentar processos criminais, em uma ação sem precedentes no futebol russo. Jornalistas do inglês The Independent conseguiram entrevistar três ultras, tanto de Moscou como de São Petersburgo. Um deles declarou saber que centenas de torcedores já haviam sido presos como medida preventiva para evitar conflitos violentos na Copa do Mundo de 2018.

Autoridades russas, como Oleg Siemionow, responsável pelo órgão que aconselha torcedores na Copa do Mundo, acredita que os problemas maiores na Copa serão com os torcedores estrangeiros. Siemionowfor tenta usar rivalidades políticas e religiosas entre alguns países participantes para apostar que os problemas de hooliganismo na Copa, se acontecerem, não serão culpa dos ultras russos. Para ele, os problemas podem vir de confrontos entre torcedores alemães e poloneses, entre sérvios e croatas ou ainda entre iranianos (de maioria xiita) e torcedores da Arábia Saudita (de maioria sunita).

O fato é que torcedores de países com longo histórico de distúrbios em eventos internacionais de seleções estarão presentes em território russo: alemães, argentinos, croatas, franceses, ingleses, tunisianos, russos e sérvios estarão pelas ruas da Rússia. Os ultras russos estão em uma escalada de violência sem precedentes no futebol, inclusive com organização de lutas clandestinas em bosques nos subúrbios das grandes cidades russas. Há ainda a complicada aproximação com líderes políticos e partidos de extrema-direita, ou mesmo a formação de líderes políticos dentro das torcidas, ou ainda a apologia ao neonazismo.

Com estes elementos todos que foram aqui relatados de maneira absolutamente superficial, mais uma vez insisto no tema. Soluções mirabolantes não são a solução. Por mais que Igor Lebedev dê como solução a espetacularização e comoditização do hooliganismo, sabemos que isso não passa de um delírio de alguém que não entende nada desta temática. Como tantos outros delírios que temos visto aqui bem perto de nós. Que a Copa do Mundo sirva também para entendermos melhor este fenômeno e para mostrar que as conexões entre futebol e política são muito mais profundas do que um apresentador do Big Brother pode imaginar.