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Houve uma vez um verão

Daniel Cassol

Confusão, juiz caseiro, toque de recolher e o início de uma idolatria severina no Chile: as histórias dentro da história após 42 anos de uma partida esquecida do Internacional.

“Oito jogadores, um pênalti inexistente (defendido), descontos (injustificados) de 11 minutos e um grande esforço do árbitro Juan Silvagno não foram suficientes para dobrar a fibra do Inter.”

No dia 14 de fevereiro de 1978, o Internacional disputava no Chile uma partida amistosa com ares de batalha, esquecida até por quem esteve em campo, mas que chama atenção por sua sinopse, como a publicada à página 16 da revista Manchete Esportiva no dia 21 de fevereiro de 78.

O jogo contra o Everton de Viña del Mar, vencido pelo Inter por 1 a 0, gol de Luisinho Lemos, despertou minha atenção quando pesquisava para um livro sobre a história colorada. Até que há alguns meses, percebendo que a efeméride completaria 40 anos, passei a investigar mais a fundo o que de fato aconteceu na data. E qual não foi minha surpresa ao descobrir o óbvio: um jogo de futebol é só um jogo, mas é sobretudo os seus significados e desdobramentos. E mesmo um jogo esquecido e desimportante como este é um manancial de histórias extraordinárias.

Pois muito bem. O aparente entrevero valia o título da Copa Viña del Mar, torneio amistoso criado pelo Everton. A ideia foi do empresário Antonio Martínez Ruiz, que assumiu a presidência do clube em 75. Concessionário do Cassino de Viña del Mar e fundador do tradicional grupo Enjoy, Martínez foi o responsável pela reestruturação do clube que tem as cores do ouro e do céu depois do primeiro rebaixamento, em 72, e do regresso à primeira divisão em 74.

Sob comando de Martínez, o Everton foi o campeão chileno de 76 depois de 25 anos. O torneio amistoso era uma forma de mostrar a potência esportiva auriazul, se não ao mundo, pelo menos à América do Sul.

Só que dentro de campo a ideia não deu muito certo. A primeira edição, em 76, teve como campeão o Fluminense. Na segunda, o título ficou com o Inter, com um time que não fazia sombra ao bicampeão brasileiro mas que resultaria, por vias tortas, no campeão invicto de 79.

Zero Hora do dia do jogo: partida para testar o novo Inter de Gainete | Fonte: Arquivo ZH

Identidade perdida

Não era uma boa fase para o Colorado. Três meses antes havia perdido a hegemonia estadual para o Grêmio na lembrada decisão em que André Catimba quase se quebrou na comemoração do gol. Carlos Gainete, treinador vermelho, não gozava de um bom ambiente para trabalhar. E a direção patinava para remontar o elenco e retomar a senda de vitórias.

“A grande diferença deste para o time que conquistou o bicampeonato brasileiro é que agora se está começando um trabalho novo, em busca de uma afirmação perdida durante a temporada passada, quando o Inter foi derrotado não só por seus adversários, mas por sua teimosia em não encarar os principais problemas”, escreveu o enviado de Zero Hora ao Chile, Emanuel Gomes de Mattos.

Já haviam saído Dario, Figueroa, Carpegiani, Lula, Escurinho, Vacaria. No Chile, o Inter não contou com Caçapava, Falcão nem Benítez. A direção contratava jogadores de balaio buscando recuperar a identidade do biênio glorioso. Por tudo isso, a vitória contra o Colo Colo na estreia do torneio chegou a surpreender.

No dia 11 de fevereiro, no Estádio Sausalito, aquele mesmo que 16 anos antes havia sediado jogos do Brasil na Copa do Mundo do Chile e sido palco de uma histórica invasão canina, o Inter bateu o popular clube chileno por 2 a 1, de virada, com gols de Severino Vasconcelos e Alcione no segundo tempo. Três dias depois, o Colorado voltaria ao mesmo estádio para enfrentar os donos da casa, na segunda das três partidas do torneio, que teria como encerramento o confronto entre as equipes chilenas, como numa final.

A sinopse de Everton 0 x 1 Inter indica se tratar de um confronto épico. Primeiro que por algum motivo o Inter entrou em campo com dez minutos de atraso, motivo de vaias da torcida local, com a formação titular que tinha Gasperin no gol, depois Lúcio, Beliato, Carlão e Dionísio na defesa, o meio campo com Batista, Jair e Vasconcelos, e Valdomiro, Luisinho Lemos e Santos no ataque. Schneider, no gol, e Alcione, na frente, ainda entrariam no decorrer da partida.

Logo aos cinco minutos do primeiro tempo Valdomiro cruzou pela direita, os zagueiros chilenos se atrapalharam para afastar e a bola sobrou para Luisinho marcar o gol que interrompeu o jejum pessoal iniciado em outubro. O time gaúcho manteve o controle da partida com a retranca que bem representava a “nova filosofia” de Gainete, até que aos 33 minutos o árbitro Juan Silvano marcou um pênalti inexistente, segundo os relatos da época. Empurrado por um adversário, o zagueiro Carlão acabou tocando a bola com a mão. Na confusão, que durou cerca de cinco minutos, Luisinho foi expulso por reclamação. Gasperin acabaria defendendo o pênalti cobrado por Salinas. No minuto final do jogo, o Inter ainda teve o próprio Gasperin e o zagueiro Beliato expulsos, numa confusão que fez parecer que a partida havia terminado. Mas, de impulso, o árbitro chileno deu 11 minutos de acréscimos, durante os quais o Inter teve de segurar a vitória com oito jogadores em campo para garantir o primeiro título da temporada de 78. Relatos na imprensa chilena indicam que os colorados expulsos teriam resistido a deixar o campo, e só o fizeram obrigados pelo policiamento.

“Foi um jogo muito difícil mesmo. O juiz era chileno. Acho que ele queria que o Everton fosse campeão e levantasse a taça”, me contou Valdomiro em uma conversa por telefone. O recordista em atuações pelo Internacional, com 805 partidas, foi um dos que mais lembrou detalhes da viagem ao Chile.

– Foi uma pressão danada. O estádio lotado mesmo. Ficamos num hotel em frente à praia e então a gente estava ali depois do jogo, alguns torcedores do Inter que estavam lá, moravam lá, foram no hotel conversar com a gente, mas o pessoal do Everton não queria perder de jeito nenhum.

Valdomiro, Beliato, Luisinho Lemos e Carlão descontraídos depois da vitória contra o Colo Colo, na foto de Adolfo Alves para ZH; cena de Everton x Inter e a capa do jornal chileno El Mercurio do dia seguinte | Fontes: Arquivo ZH e Biblioteca Nacional do Chile

Toque de recolher

O contexto político da época também contribui para uma visão dramática da coisa toda. A questão dos perseguidos políticos ganhava força com a segunda greve de fome realizada por familiares de desaparecidos em dezembro. Logo em seguida, o ditador Augusto Pinochet dava uma demonstração de força. Sob fortes suspeitas e questionamentos abafados, o governo chileno comemorava a vitória no plebiscito nacional que no dia 4 de janeiro mandou a população responder “sim” ou “não” ao seguinte enunciado: “Diante da agressão internacional contra o Governo de nossa Pátria, respaldo o Presidente Pinochet em sua defesa da dignidade do Chile e reafirmo a legitimidade do Governo da República para encabeçar soberanamente o processo de institucionalidade do país”. Acima da opção “sim”, o desenho de uma bandeira do Chile. Acima do “não”, uma bandeira negra. Resultado: 78,6% x 21,4%

Na turística Viña del Mar, que naquele mesmo fevereiro havia consagrado o cantautor Fernando Ubiergo com sua “El tiempo en las bastillas”, vencedora do 19º Festival Internacional da Canção, o único contato com a ditadura chilena que jogadores e imprensa tiveram foi com a presença de tanques militares nas ruas e o toque de recolher a partir de uma certa altura da noite. De resto, a vida parecia normal para quem não estava envolvido.

“Tanque na rua, pra mim, era uma loucura”. Laerte de Franceschi tinha 31 anos quando viajou ao Chile como repórter da rádio Guaíba e do jornal Correio do Povo. Natural da pacata Cachoeira do Sul, havia se mudado para Porto Alegre em 1972 e nunca havia presenciado uma demonstração pública de força da ditadura. Hospedado no famoso hotel O’Higgins junto com a delegação colorada, Laerte recorda do toque de recolher e de poucas saídas para a rua, a não ser para um famoso cassino que exigia gravata dos frequentadores, o que pegou muita gente de surpresa.

– O gozado é que todo mundo ficava no hotel, com medo de sair. Os jogadores foram no estádio fazer o reconhecimento, mas voltava todo mundo pro hotel. Nós que demos uma passeada, mas pouca coisa. Saímos de carro, depois de micro, só para conhecer Valparaíso. Nós fomos no cassino levados pelo Marcelo Feijó [presidente do Inter], que emprestou gravatas pra mim e pro Wianey [Carlet, comentarista da Guaíba]. O Elio Fagundes e o Ivo Corrêa Pires [narrador da Guaíba e colunista da Folha da Tarde] tinham levado. Eu não sabia que precisava. Às dez da noite os tanques saíam pra rua. O cassino ficava até as 11. Recebemos o aviso, às dez nos arrancamos. O Marcelo Feijó ficou com dirigentes, mas acabou dormindo no hotel do cassino.

O regime causou embaraços na viagem colorada. Segundo a lembrança de Laerte, Marcelo Feijó teve de ficar no aeroporto liberando os passaportes da delegação, incluindo jornalistas. Imagina-se que a presença de Ivo Corrêa Pires, tido como esquerdista à época, tenha causado problemas.

O zagueiro Elias Figueroa, já de volta ao seu Palestino, recebeu os ex-companheiros de Inter no aeroporto e os visitou no hotel, mas foi alvo de críticas dos jornais chilenos, segundo relatado por Zero Hora. Os motivos eram variados: não havia declarado para quem torceria no torneio e teria exigido assistir à partida na Tribuna de Honra, como se autoridade fosse.

No estádio, havia forte presença policial, mas quem esteva lá relata um clima normal em campo, apenas com a pressão costumeira de uma decisão contra os donos da casa. Valdomiro lembra do aparato militar e da casa cheia, mas nada digno de nota.

– Tinha bastante policial, mas era tranquilo. Não tinha problema nenhum com policial. Tinha uns torcedores que quiseram invadir o campo, depois do jogo deu alguma confusão. Claro que na época o Chile era diferente, mas não teve nada. Fomos para o hotel tranquilos, jantamos, saímos do estádio normalmente, sem problema nenhum. Só o juiz que complicou o jogo. Se tivesse apitado direitinho… Nosso time era melhor. Os jogadores do Everton até vieram falar com a gente, que a gente mereceu ganhar. Não teve briga entre jogadores, nada, só o juiz que complicou.

É um relato parecido ao do repórter da rádio Guaíba à época. Para Laerte de Franceschi, é razoável pensar que os organizadores esperassem um papel coadjuvante do Internacional — afinal de contas, a última rodada estava reservada para o confronto entre os dois chilenos, que acabou não valendo mais nada. “Mas o jogo foi normal. Não teve briga entre jogadores. Eu diria até que foi mais ‘babacada’ do juiz do que uma coisa premeditada”, disse.

– O Luisinho era tipo o D’Alessandro, meio irritadinho. O juiz já tinha chamado a atenção. Quando ele deu o pênalti, o Luisinho saiu lá do meio-campo e foi peitar o juiz. Foi o primeiro a ser expulso. E já tava 1 a 0. Os caras erraram o pênalti. Aí a coisa engrossou um pouco. Juiz caseiro, caiu, dá falta. Não acho que tenha sido uma coisa programada, foi uma coisa mais do juiz.

Em Zero Hora, Emanuel de Mattos descreveu o Estádio Sausalito como acanhado e mal iluminado, mencionando que os fotógrafos disparavam seus flashes contra os olhos do goleiro Gasperin. Tudo isso pode ter contribuido para uma atmosfera mas bélica, mas certamente tornou o jogo ruim de se ver. O correspondente do chileno El Mercurio em Viña del Mar, Alfredo Villalobos, claramente não gostou do que viu: “futebolisticamente, a melhor definição do encontro foi dada pelo apito final que despediu ambos os protagonistas”, escreveu, além de apontar que o Inter era apenas “a sombra da poderosa equipe das temporadas anteriores”.

Tudo é uma questão de ponto de vista. Para Zero Hora, o primeiro título da temporada colorada “foi ganho com garra” e “o Inter mostrou de novo que está bem em seu novo estilo”. Já a imprensa chilena teria qualificado os jogadores do Inter como “mal-educados” e “sujos”, pela resistência às ordens do árbitro.

Nunca nem vi

Colocando as coisas em perspectiva, a vitória no Chile pode ter representado uma mudança de rumos para que o Inter terminasse a temporada com o título estadual e a terceira posição no Brasileiro. No entanto, a partida caiu no esquecimento até mesmo de quem esteve em campo.

O volante Batista foi titular nas duas partidas no Chile, mas não lembra. “Lembro que fomos jogar o torneio de Viña del Mar, mas não lembro deste jogo especificamente. Como não era jogo de campeonato, não era determinante, era um torneio mais leve, não fica marcado na memória”, me disse por telefone o comentarista da Sportv.

O ex-zagueiro Beliato, que hoje curte a aposentadoria junto à família no Recife, custou a lembrar da partida, mesmo tendo sido um dos três colorados expulsos. Pediu alguns dias para tentar lembrar de alguma coisa. “Foi um amistoso que estava programado lá. Eu lembro que eu assisti ao parto da minha filha no hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, e fui direto para o aeroporto. Quando voltei, minha filha tinha quase dois meses”, contou, em uma sequência de áudios por WhatsApp.

Beliato se confunde porque inclui, na sequência da viagem ao Chile, a participação do Inter no Torneio de Mar del Plata. Na verdade, foi em 79 que o Colorado disputou a competição amistosa na Argentina, jogando contra River, Boca, Racing e seleção da Tchecoslováquia. Mas a confusão se explica: o Inter de fato emendou a viagem ao Chile com a disputa de um segundo torneio amistoso no Estado de Goiás. Jogou contra o Everton em Viña del Mar no dia 14 de fevereiro. Cinco dias depois, encarava o Fluminense em Goiânia. Anos incríveis.

Laerte, por exemplo, passou 78 mais viajando para cobrir o Inter do que em Porto Alegre. Depois do Chile, cruzou a capital gaúcha e foi direto para Goiás. A delegação colorada também. Em sua lembrança, o Inter voltou de Viña del Mar numa sexta à tarde, viajou no sábado e domingo já estava jogando de novo. Foi em Goiânia que Falcão recebeu a notícia de que não estaria na seleção de Coutinho, que convocou apenas Batista. De Goiânia Laerte foi para o Rio fazer a apresentação da seleção. De 78 ele guarda outra lembrança: as gordas diárias da empresa Caldas Júnior, que garantiram uma boa economia e encaminharam o casamento.

O mau futebol do Inter voltou a se apresentar no Planalto Central. Ou deve ter sido o cansaço. O Colorado perdeu para Fluminense e Goiás e aquele mês de fevereiro culminou com a demissão do técnico Gainete, motivado pelo desempenho ruim e por um relacionamento com os jogadores que não era dos melhores. Nas palavras do repórter Laerte de Franceschi: “Era um cara difícil de lidar e não teve muito tempo para treinar”. Na demissão, pesaram também a remontagem do elenco a rodo e a busca da identidade perdida que nunca chegava ao fim.

A solução, mais do que caseira, sairia do grupo de jogadores. A história é conhecida e igualmente fantástica. O lateral-direito Cláudio Duarte passara a temporada anterior às voltas com cirurgias no joelho. Tanto é que está na lista dos que não se lembram de o Inter ter viajado para o Chile no começo de 78. Dado como “inutilizado” para o futebol, o jovem jogador de 26 anos entrou em parafuso. “Eu desapareci do Inter. A cabeça ficou maluca. Não queria saber de nada”, conta Claudião, hoje comentarista na Band de Porto Alegre. Com a queda de Gainete, foi convidado pela direção para comandar o time enquanto a direção buscava outro treinador.

Segundo Valdomiro, a assunção de Cláudio Duarte ao cargo de técnico foi um pedido dos jogadores:

– O Marcelo Feijó queria contratar outro treinador. Nós mesmos, jogadores, chegamos e dissemos que o Cláudio não podia mais jogar, bota o Cláudio, vamos fazer o possível para ele começar a carreira como treinador.

Aos 26 anos, Cláudio Duarte encerrou precocemente a carreira de jogador e se tornou o técnico responsável pela transição que levaria à histórica temporada de 79. Sua estreia foi no Campeonato Brasileiro, com uma vitória sobre o Maringá no dia 26 de março de 78, gol do volante raiz Caçapava. O Inter terminaria o ano com uma campanha surpreendente: campeão gaúcho e terceiro lugar no Brasileirão. E, no embalo do time, o comandante ainda projetava a volta aos gramados, como contou à reportagem:

– Eu fui o que menos importou. Eu era jogador, era o presidente da caixinha, da associação dos atletas. Disse pra eles, não sou treinador, quem joga são vocês, eu ajudo aqui fora. Fiz uma parceria, simplesmente. Se eu disser que fiz isso, fiz aquilo, criei tal coisa, estou mentindo pra mim mesmo. As coisas foram acontecendo naturalmente. Eu lembro que quando chegou na hora que queriam me fixar como treinador e rescindir meu contrato de atleta, eu não queria, queria jogar. Lembro que ainda insisti. Já que estou inutilizado, dá meu passe e eu vou arrumar time. Mas a coisa foi se consolidando até o fim do ano. Aí não tinha mais condição mesmo. Eu treinava junto, dava o treino treinando. Toda hora que fazia esforço meu joelho inchava. Aí fui tomando consciência de que realmente o joelho estava quebrado.

O jovem treinador ainda seria substituído por Zé Duarte ao final da temporada. De curta carreira, ele daria lugar a Ênio Andrade, que comandou o time que tinha Benítez, Mauro Galvão, Cláudio Mineiro, Falcão, Batista, Jair, Valdomiro e Mário Sérgio. E o resto é história.

Só que a história não se estanca por aí, diria o maestro Kraunus Sang. Porque o título esquecido do Inter em Viña del Mar ainda reserva outro desdobramento, na medida em que serviu de porta de entrada no Chile para um jogador que, pela obsessão por jogar, se tornou praticamente desconhecido em seu país e um dos maiores ídolos do mais popular clube chileno.

Formações do Colo Colo em 79, 81 e 83. Sempre agachados no centro da foto, o mítico Carlos Caszely e seu melhor companheiro | Fontes: site SoloFutbol.cl

Vida severina

Severino Vasconcelos Barbosa chegou no Inter pelo mesmo motivo que sairia. Natural de Olinda e revelado efetivamente pelo Náutico, ainda que com passagens anteriores pelo Íbis, como juvenil, e por Riachuelo e Alecrim de Natal, já como profissional, Vasconcelos foi contratado pelo Palmeiras em 76 como promessa de ser também um ídolo no futuro. Veio junto com o atacante Jorge Mendonça, mas a missão de Vasconcelos era mais dura: substituir na meia cancha o ídolo Ademir da Guia após a aposentadoria, que estava para chegar.

O Divino, porém, não se entregava. E Vasconcelos se angustiava com a titularidade que nunca chegava. “O Palmeiras me escolheu porque depois de um ano o Ademir ia parar de jogar. Fui nessa condição. Mas ele seguiu jogando. Eu jogava alguns jogos, joguei de 9, de ponta esquerda, mas de 10 eu não jogava porque ele nunca se machucava”, contou Vasconcelos em uma longa chamada por Whatsapp, de quase duas horas, que por ele poderia ter prosseguido mais.

Havia uma certa polêmica instalada na imprensa sobre a titularidade de Vasconcelos, que era bom de bola mesmo. “Quem não joga não pensa em seleção. Quem não joga não ganha Bola de Prata. Quem não joga não tem torcida. Quem não joga está perdendo futebol e dinheiro. E Vasconcelos não joga”, escreveu o repórter Maurício Cardoso na revista Placar de 22 de outubro de 76. Em maio do ano seguinte, a publicação voltaria ao tema. O repórter José Maria de Aquino relatava que Vasconcelos, nas férias em Recife, havia ouvido questionamentos de amigos e jornalistas. “Queriam saber por que é que ele não jogava mais vezes, se estava acomodado, e ele não era disso. Tinha que continuar sendo o Vasconcelos das grandes jogadas, titular em todos os times por onde passou, sempre jogando, sempre aceso e irriquieto, dentro e fora do campo”, relatou.

A situação teria motivado Vasconcelos a dar um ultimato à direção do Palmeiras. Ele jogaria mais vezes em 77, mas acabaria a temporada no Internacional, onde acreditava que teria mais espaço.

– Eu queria jogar. Comecei como peladeiro e todo peladeiro quer jogar. Mas eu não jogava. O Ademir sempre foi um cara legal, não entrava em polêmica, no vestiário era bom dia, muito educado. O Jorge Mendonça veio para a posição do Leivinha, que tinha ido para a Espanha. A posição estava sobrando. Eu tinha que esperar. Saímos campeões [em 76], mas eu não aguentei, falei que queria sair e apareceu o Inter.

Só que no Inter a meia-cancha também era disputada. Vasconcelos encontrou dificuldades em se firmar titular em um setor que tinha Falcão, Batista e Jair. Não que não fosse bom jogador. As lembranças dos ex-companheiros são as melhores possíveis. “Era um bom jogador, um meia com bom domínio de bola, tocava bem a bola”, disse Valdomiro. “Era um meia armador, tipo ponta de lança, com muita técnica. Magro, habilidoso e se movimentava. Joguei contra ele no Palmeiras. Depois ele veio pro Inter, como vieram outros tantos”, foi a lembrança de Claudião. Além da habilidade, o pessoal lembra do Vasconcelos boa praça e gozador. “Era um cara muito divertido, muito na boa, tudo era leve pra ele. Eu gostava da figura”, lembrou Batista. “E era bom jogador. Foi um meia que veio na reconstrução do time. O Inter contratou muitos jogadores em 77.”

El Negro Vasconcelos

Foi uma noite de verão em Viña del Mar que começou a mudar o destino de Vasconcelos. Quem prestou atenção na história até aqui vai lembrar que Vasconcelos fez o primeiro gol da virada colorada sobre o Colo Colo, além do que teve destacada atuação nas duas partidas.

De volta a Porto Alegre, porém, a questão da titularidade permanecia em aberto. Vasconcelos menciona um desentendimento com Cláudio Duarte, já como treinador. Depois, conta de uma partida pelo Campeonato Gaúcho de 1978, observada por emissários do Colo Colo, em que fez três gols contra o “Santa Rita”, referindo-se talvez ao São Paulo de Rio Grande. Os chilenos teriam vindo observar Escurinho, já no Palmeiras. Cronologia e nomes à parte, fato é que Vasconcelos chamou a atenção do Colo Colo e foi contratado primeiro por empréstimo. Sua estreia pelo clube chileno aconteceu no dia 21 de abril de 79, um 7 a 2 sobre o Santiago Wanderers, marcando dois gols. Os outros cinco tentos colocolinos foram de ninguém menos que Carlos Caszely, com quem Vasconcelos faria uma das duplas mais memoráveis do futebol chileno.

“Hoje mesmo todo mundo fala da dupla Caszely e Vasconcelos”, resumiu o brasileiro.

É verdade. Qualquer reportagem sobre esta época da história do Colo Colo vai apontar Vasconcelos como o melhor companheiro que “El Rey del Metro Cuadrado” já teve para jogar. Juntos, Caszely e Vasconcelos fizeram o Colo Colo retomar a hegemonia no futebol chileno.

O clube não conquistava um título nacional havia cinco anos, uma eternidade para o maior clube do delgado país. Tanto é que repatriou da Espanha o ídolo Caszely, campeão da primeira divisão em 72 e vice-campeão da Libertadores em 73, na histórica campanha que de certa forma adiou em alguns meses a derrubada do presidente Salvador Allende.

Foram campeões da primeira divisão em 79, 81 e 83; e campeões da Copa Chile em 81, 82 e 85. O brasileiro virou El Negro Vasconcelos ou simplesmente Vasco. E pôde finalmente jogar com a camisa 10.

Diz Vasconcelos que, nas seis temporadas em que fez dupla com Caszely, fizeram juntos “de 200 a 300 gols”. Segundo o site História de Colo Colo, foram exatamente 256. Embora ele mesmo pense que o companheiro fazia mais gols, as estatísticas deste site mostram o contrário: entre 79 e 85, o brasileiro fez 131 gols contra 125 de Caszely.

Telefonema de Pelé

Um dos tentos mais recordados não teve maior valor esportivo. Numa noite de quinta-feira, 11 de dezembro de 80, o Colo Colo retornava de uma derrota para o O’Higgins pela Liguilla pré-Libertadores quando um amigo brasileiro apareceu na concentração querendo falar não com Severino, mas com o treinador Pedro Morales. Depois muita insistência, o amigo revelaria o motivo da visita inesperada à concentração.

“Ele queria dar a notícia, meu pai tinha sofrido um acidente em Pernambuco. ‘Fala a verdade, aconteceu alguma coisa? Tá vivo ou morto?’ Ele falou que meu pai tinha se chocado com um ônibus e tinha morrido. ‘Não tem nada que falar com Don Pedro, vou pedir permiso’”, contou Vasconcelos em um perfeito portuñol. Decidido a acompanhar o velório do pai, foi liberado pelo treinador com uma condição: que retornasse no domingo para o clássico contra a Universidad de Chile.

– Nesta havia toque de queda. Para sair do Chile tinha que pedir salvo conduto 24 horas antes. O voo saía às 9h da manhã para Assunção, depois São Paulo e Rio. E eu não sabia se teria lugar. Aí foi quando o ministro do Interior, Enrique Monteros, me deu o visto bom. Era a única autoridade que podia dar o visto se tu passava das 24 horas.

Às 10h da manhã de sábado, Vasconcelos estava em Pernambuco enterrando o pai. Retornaria a Santiago do Chile por volta das duas da tarde de domingo, para entrar no Estádio Nacional do Chile, com a camisa 10 do Colo Colo, cerca de duas horas depois.

Ao chegar na concentração antes da partida, recebeu outra notícia. Pelé em pessoa, no Chile para receber uma homenagem, queria lhe dar um abraço.

– Até hoje tenho essa foto do Pelé. Ele tinha a notícia de que meu pai tinha morrido. Não sabiam que eu ia voltar. E o Pelé disse, ele vai voltar. Cheguei no hotel e o gerente falou, o Pelé quer dar uma palavrinha contigo. Quem não vai querer conversar com o Pelé? Nisso vieram os jornalistas, o Pelé parou, levantou a mão, aqui chegamos, deixa eu conversar com ele, sem fotos. O Pelé me deu um abraço e disse: O que tu tá fazendo é uma coisa de muito valor. E tu vai fazer um gol.

O clássico já ficaria marcado para Vasconcelos pela recepção da torcida adversária. “Foi uma coisa emocionante. Quando falaram meu nome no microfone, levantaram panos brancos, até a torcida rival. Até hoje quando falo me arrepio.” Faltando cinco minutos para o fim da partida, o Colo Colo perdia por 2 a 1 quando Ramón “Mané” Ponce cruzou na área para Vasconcelos empatar de cabeça, desabar no gramado e ser abraçado pelos companheiros.

obs: A história do gol contra La U começa aos 3:10.

Vasconcelos ainda receberia um telefonema de Pelé em casa, parabenizando pelo gol que o Rei do Futebol havia antecipado que aconteceria. “Foi uma coisa bonita o que aconteceu neste jogo. Meu pai sempre me falava que o primeiro de tudo era o trabalho. E eu estava trabalhando. Mas fiz questão de enterrar ele pessoalmente.”

O Colo Colo terminaria em primeiro lugar ao final da disputa todos contra todos, mas perderia para a Universidad na grande decisão da Liguilla. O companheiro Carlos Rivas lhe tirou das mãos a bola para cobrar um pênalti que daria o empate e classificaria o Colo Colo, mas mandou a bola na lua e o Cacique não foi à Libertadores.

Chileno por adoção

Após seis temporadas no Colo Colo, Vasconcelos ainda teve uma passagem marcante pelo futebol equatoriano. Defendeu o Barcelona de Guaiaquil entre 85 e 86 e lá, de novo, formou dupla com Caszely, que por sua indicação chegaria uma temporada depois. Vasconcelos foi campeão equatoriano de 85 e disputaria a Libertadores de 86 no grupo que também tinha Bangu e Coritiba. A revista Placar de 28 de abril definiu Vasconcelos como o grande ídolo do futebol equatoriano naquele momento. “Em Guaiaquil me querem muito. Fui um jogador importante lá”, confirmou o brasileiro.

Sobre Caszely, Vasconcelos nutre grande admiração e um respeito por sua postura contrária a Pinochet, apesar de o brasileiro ser do tipo que prefere não se envolver com política. “A gente sabia que o Carlos quando estava na seleção, Pinochet foi dar a mão e ele não aceitou. Era seu direito. Cada um tem suas ideias políticas. A gente respeitava, não se metia. Cada um sabe o que vai fazer. Se ele tinha esse problema, já não era problema meu nem de outros companheiros que fazem parte de um plantel”, disse Vasconcelos, para quem a ditadura militar no Chile representava, basicamente, um regulamento que acabava se respeitando.

– Sabe o que acontece? Havia toque de recolher, quem estivesse na rua à noite era multa forte. Todo mundo respeitava. Em toda a parte que teve golpe de Estado acontece isso. As pessoas que estavam envolvidas, houve massacre. Mas depois se tranquilizou um pouco o país. Na época quando cheguei estava um pouco mais aliviado. Não sou politico. Pinochet ajeitou muito o Chile, depois veio a democracia e hoje o Chile é um país tranquilo. As pessoas que sofreram não querem que se passe um outro golpe de Estado.

A jornada equatoriana ainda reservaria outra história na vida de Vasconcelos. Em sua despedida do Barcelona, promoveu um churrasco que quase acabou em tragédia. Ao descer de um tobogã, um companheiro de time acertou o joelho no pescoço do brasileiro, que fraturou uma vértebra e quase ficou paralítico. A recuperação duraria pouco mais de um ano.

Após a lesão, o brasileiro voltaria a jogar no país que o acolheu. Primeiro, ajudaria o Deportes La Serena e o arquirrival Universidad de Chile a retornarem à primeira divisão, este último sob comando do técnico Manuel Pellegrini, que o treinaria ainda no Palestino, clube em que encerrou definitivamente a carreira de jogador em 1992.

Vasconcelos gostou tanto do Chile que mora há quase 40 anos por lá. Além da admiração como jogador, é alvo de anedotas por até hoje só falar o portuñol, incompreensível para um chileno e, às vezes, até para um brasileiro. Tentou trabalhar com importação, mas o negócio não deu certo. Hoje atua numa fundação de esportes e também dá aulas de futebol em uma escolinha do Colo Colo mantida pela prefeitura de Quilicura, na província de Santiago, que recebe adolescentes de baixa renda, incluindo imigrantes colombianos e haitianos.

Casou e tem duas filhas chilenas, além de dois filhos homens do primeiro casamento no Brasil. Sua filha Maria José é jornalista e, depois de 12 anos trabalhando na Associação Nacional de Futebol Profissional (ANFP), virou chefe de imprensa da entidade que comanda o futebol chileno. Vasconcelos se orgulha da capacidade que sua filha tem de organizar as entrevistas coletivas e se fazer respeitar pelos craques do futebol mundial que defendem a Roja.

Histórias de um verão em Viña del Mar.


Publicado originalmente no Puntero Izquierdo em 2018, que é uma revista digital de publicação de histórias de futebol.