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Hulk e eu em Campina Grande-PB, boas lembranças!

Marcos Marques dos Santos Júnior

Hulk e eu morávamos em Campina Grande na Paraíba, ele morava em José Pinheiro, onde também cresceu Marcelinho Paraíba, esse local que há pouco tempo era considerado um bairro periférico da cidade, pelo fato de a extinta Favela da Cachoeira ocupar grande parte de sua área geográfica na zona leste e eu morava no Catolé, um bairro mesclado de áreas mais desenvolvidas e áreas mais simples como a minha. Entre esses dois bairros até hoje se encontra o Parque da Criança, um parque municipal que disponibiliza uma boa área para lazer aos cidadãos campinenses.

Parque da Criança em Campina Grande, Paraíba. Foto: Thiago Pedrosa.

Nós tínhamos entre treze e quatorze anos quando começamos a nos encontrar pelas quadras da cidade, digo isso, pois sou do ano de 1985 e Hulk é de 1986. Nós jogávamos futsal, ele defendia justamente o Parque da Criança e eu defendia o Sesc desde pequeno, lá comecei aos sete anos de idade devido ao fato da minha mãe trabalhar no comércio e ter me colocado lá para praticar natação e futsal.

Chegamos até a viajar juntos para jogar um torneio em Puxinanã-PB, cidade na região metropolitana de Campina Grande, viagem essa muito simples com direito a ônibus urbano e passagem que não chegava nem a dois reais na época, nunca chegamos a jogar juntos pela mesma equipe mas eu particularmente já tinha uma torcida especial por Hulk devido a sua simplicidade, dentro de quadra não xingava e nem desrespeitava ninguém, não direcionava a palavra aos árbitros e raramente era expulso.

A vontade de muitos que jogavam em equipes como as nossas era a de ganhar uma bolsa de estudos dos colégios particulares que também disputavam os campeonatos, pois na Paraíba, assim como em todo o Brasil a diferença do ensino particular para o ensino público sempre existiu e nós já percebíamos aquela defasagem. Vou contar aqui um desabafo da gente que jogava em equipes mais simples do futsal da Serra da Borborema (apelido carinhoso da cidade de Campina Grande) é que nós acreditávamos que os árbitros “puxavam”, ou seja, eram mais tendenciosos para as equipes mais abastadas como: AABB, Colégio Damas, Clube Campestre etc.

Enfim, hoje em dia isso não importa, mas naquela época importava e muito, pois jogávamos eu e (Hulk) sempre para ganhar, a coisa para nós era séria, pois queríamos muito ser profissionais no Futebol. Eu não consegui me tornar um jogador profissional, como também não acompanhei sua trajetória depois que ele saiu de Campina Grande, perdemos o contato, mas nessa Copa das Confederações eu vi que ele não mudou nada.

Foi campeão pela seleção brasileira jogando à mesma maneira das épocas de infância, com muita, muita vontade, dedicação e extremo foco em cada lance. Fiquei orgulhoso por ele e torcia em cada momento que ele pegava na bola para que tudo se desenrolasse bem, pois se trata de um jogador nordestino e que ainda por cima antes de fazer sucesso lá fora não atuou em nenhum clube dos eixos: Rio, São Paulo, Minas, Sul. Portanto atrai para si uma grande desconfiança tanto do povo brasileiro que não conhece o futebol do Nordeste de seu país quanto da mídia centralizadora e tendenciosa que o Brasil tem.

Percebi só uma diferença da época em que Hulk jogava pelo Parque da Criança é que ele se colocava do lado esquerdo da quadra, naquele tempo já jogava à frente, fazendo gols, mas como um pivô, de costas para os fixos. Eu era fixo, eu que defendia muito bem, mas vamos falar mais de Hulk… enfim, era um pivô que insistia em jogar pela esquerda e quase não chutava com a perna direita, eu fico imaginando se naquela época ele jogasse como hoje, posicionado do lado direito assim como atuou pela seleção brasileira, Porto de Portugal e agora no Zenit, tendo todo o lado esquerdo, que é o seu lado dominante.

Seria bem mais difícil de marcá-lo… nossos embates eram duros, já nos conhecíamos. Quando o jogo era contra o Parque da Criança já sabia que iria encontrá-lo e me preparava, pois já sabia que Hulk era inspirado em todos os jogos. Modéstia à parte ele sabia que eu não dava mole e o marcava muito bem, naquela época era mais fácil, pois eu sabia que ele levava a bola na maioria das vezes para o lado esquerdo.

Lembro-me do jogo mais disputado em que tivemos um contra o outro, eram quartas de finais de um torneio disputado lá no Sesc de Campina Grande, jogávamos em casa. Comecei esse jogo na reserva e perdendo o jogo de três a zero, três gols (cocos) fulminantes! E eu no banco vendo tudo aquilo de cara muito fechada para o técnico, é claro! O treinador olhava para mim e eu respondia com aquele olhar furioso das crianças que são contrariadas, é lógico! Vendo Hulk vibrando com os colegas, pois ele vibrava muito com seus gols…

Hulk comemora gol e declara seu amor à Paraíba. Foto: Mowa Press.

O treinador resolveu me colocar ainda no primeiro tempo, enfim, acabou o primeiro tempo de quinze minutos com 3 a 2 para eles. No segundo tempo fiz um gol muito sortudo com uma saída errada do goleiro do Parque da Criança, eu o encobri com um chute lá de trás, da defesa, do meu lado da quadra, ali empatávamos! Mas perto do fim, Hulk pegou uma bola de costas para o nosso fixo que não era eu, por sinal, pois havia voltado para a reserva incompreendidamente até hoje… enfim mas é vida que segue… ele recebeu a bola do seu colega fixo também, insistiu, insistiu, insistiu e eu do banco já sabendo que ele iria girar para a esquerda… gol! O jogo acabou 4×3 e eles passaram às semifinais.

Hulk, apesar da vitória do Parque da Criança naquele dia eu torço muito por você e a Paraíba torce muito também e se orgulha muito de ti, você sabe!