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“Hurrah! aos patrícios!”: Fragmentos de uma imprensa de exaltação à Seleção Brasileira no Sul-Americano de 1919

Chico Brinati

O primeiro torneio sul-americano vencido pela Seleção Brasileira masculina de futebol completa o seu centenário no fim de maio deste ano. Para comemorar, um novo campeonato será disputado no país, a CONMEBOL Copa América 2019. A produção dos mais diversos produtos midiáticos relacionados à equipe nos remete, ao longo dos anos, a um selecionado que representa o país, um símbolo nacional, atletas que jogam por todos nós brasileiros vestidos de camisa amarela em gramados do mundo. Apesar de alguns estudos constatarem essa queda de representação como um emblema de toda a nação nos últimos anos (HELAL; GORDON JÚNIOR, 2001; HELAL; SOARES, 2004; HELAL, 2010; e BRINATI, 2016), sabemos que em boa parte da sua história, a narrativa em torno do “scratch” nacional fora de um instrumento pátrio de união, pelo qual todos torceriam “como um ato de patriotismo”, sendo a vitória da equipe uma vitória do país.

Seleção Brasileira campeã do Sul-Americano de 1919. Foto: Arquivo Nacional.

Muito se debate e pesquisa sobre quando a seleção ganharia ares de uma “pátria em chuteiras”, o que seria bem antes do próprio epíteto cunhado por Nelson Rodrigues nos anos 1950. Alguns estudos creditam ao terceiro lugar no Mundial de 1938 e à miscigenação exaltada por textos como o “Football Mulatto” de Gilberto Freyre (1938), ao olhar de Getúlio Vargas no potencial do esporte como fator de unificação do país em torno do futebol e às transmissões pelo rádio. Inegável a importância de cada um deles na trajetória da construção desta representatividade do time. Porém, antes da década de 1930 já encontramos vestígios pela imprensa deste uso da equipe como um símbolo brasileiro. Apesar de entender que, àquela época, a leitura destes impressos era restrita a uma elite alfabetizada e que tinha acesso a esses textos, entendemos que a representação dos discursos dos periódicos ajuda a consolidar percepções e imaginários sobre o selecionado.

O que pretendemos aqui é apontar – baseado em recortes de dois jornais, um carioca e um paulista, de 1919 – evidências da representação na imprensa do interesse dos brasileiros pelo selecionado nacional e a narrativa em torno da seleção durante a disputa do Sul-Americano no Rio de Janeiro, então capital do país, que contribui para plasmar a imagem de um símbolo nacional no “team”.

Um dos periódicos mais entusiasmados com a competição era o carioca vespertino “A Noite”[1]. Desde o primeiro treino da seleção para o Sul-Americano, o jornal noticiava sobre os preparativos e a convocação da equipe:

[…] O Sr. Mario Aleixo, entraineur dos componentes da nossa representação, ministrou hontem os primeiros ensaios do exercício individual aos players que compareceram ao stadium. Lastimamos, apenas, que os nossos footballers comecem desde já a ligar tão pouca importância a tão proveitosos exercícios. Ainda hontem, apenas três jogadores cariocas lá compareceram: Menezes, Gallo e Vidal. E, no entanto, dos paulistas que aqui se acham, nem um deixou de comparecer… Teriam sido os jogadores os culpados ou a Confederação que não os avisou? Seja como for, o necessário é que todos os players comprehendam as vantagesn dos trenos, todos se dediquem a elles, afim de que a nossa equipe honre mais uma vez o nome do Brasil no maior certamen da America do Sul. (A NOITE, 01/04/1919, p. 5).

A postura do jornal é de um jornalismo opinativo, contudo sem que o autor assinasse o texto, ficando assim a impressão de opinião do periódico como um todo. No trecho selecionado acima, vemos a crítica sobre o desinteresse de alguns atletas e o possível erro da Confederação. O jornal também apresentava questionamentos sobre a ausência de atletas que representassem os demais estados do país:

O NOSSO SCRATCH – Tem sido motivo de varios commentarios o facto de somente tres ligas, em todo o Brasil, terem enviado jogadores para a formação do nosso scratch que disputará o torneio sul-americano. Qual o motivo? Um jornal de Recife, commentando ha dias o facto de não ter a Liga Pernambucana mandado ao Rio jogadores para tal fim, attribue isso ao medo dos clubs de que os seus melhores footballers fiquem por cá. […] Não é possível que só Minas, Rio e S. Paulo possuam footballers nas condições exigidas para o Campeonato da America do Sul. […] E não é só Pernambuco, pois, Castelhano, do Rio Grande do Sul, é também muito conhecido no Rio pela sua fama. Demais, no Pará, Paraná, Bahia, etc., a pratica do football está bem desenvolvida. E Minas mesmo possue mais jogadores de nomeada, como M. Duffles, etc. Qual será, afinal, o motivo? (A NOITE, 03/04/1919, p. 5).

Não há, contudo, nos textos, informações da Confederação questionada sobre os motivos, o que chamamos no Jornalismo de “ouvir o outro lado”. O tom crítico continuava na preparação para o Sul-Americano sobre apenas três treinos para a escolha da equipe definitiva e o preço cobrado pelas entradas nos treinos, o que afastaria a torcida do estádio:

[…] Mais um treno e teremos, segundo resolver a Confederação, o scratch definitivo. Mas, poderá a Confederação escalar o team com tres ensaios apenas […] Não podemos deixar de lançar aqui um protesto sobre os preços das entradas para os trenos. Segundo noticiam alguns collegas, a Confederação resolveu elevar ao dobro, a partir de amanhã, esses preços. Todos os brasileiros têm o direito de manifestar a sua opinião sobre a formação da nossa phalange representativa e essas opiniões só podem ser dadas depois que todos conhecerem bem os nossos players, depois de terem assistido a uma série de trenos. Custando a entrada no stadium 1$000 e 2$000, tornar-se-á difficil a muitos dos nossos patricios lá comparecem assiduamente. E não basta já o elevado preço das entradas nos jogos do campeonato? (A NOITE, 12/04/1919, p. 5).

A equipe para o torneio, contudo, não foi escolhida antes de seis treinos, o que levou o periódico a mudar o questionamento. Agora já era sobre o atraso nesta definição e a proximidade do evento: “[…] Cremos já bastar de experiencia. A commissão technica, mais uma vez aqui repetimos, deve escalar já o scratch brasileiro e entregal-o a constantes trainings. Estamos já a 28 e apenas 13 dias faltam para o início do campeonato” (A NOITE, 28/04/1919, p. 5).

Esta crítica sobre a demora na definição da equipe continuou nos dias seguintes:

O NOSSO TEAM – Chegaram hoje as representações das nações que disputarão o Campeonato Sul-Americano. Todos, como é natural, trazem as suas equipes já formadas e trenadas. E nós? Infelizmente ainda não se sabe qual é o team que nos representará no próximo certamen! […] E esse team definitivo dará algum treno? A commissão parece-nos ter sido muito morosa na organisação do seleccionado nacional e isso, aliás, já vimos notando e reclamando há muito tempo, sem entretanto, effeito satisfactorio. Só segunda-feira poderemos saber quaes os onze brasileiros que representarão a sua Pátria […]. (A NOITE, 03/05/1919, p. 5).

O “team” seria definido dois dias após: “Marcos e Dionysio, keepers; Pindaro, Chico Netto, Biano e Palamone, full-backs; Sergio, Lais, Amilcar, Picagli, Gallo e Fortes, halves; e Menezes, Xavier, Neco, Millon, Friendeireich, Heitor, Neco, Arlindo, Arnaldo e Rodrigues, forwards” (A NOITE, 06/05/1919, p. 5).

Brasil 2 x 2 Uruguai. Foto: Arquivo Nacional.

A postura crítica em relação à organização da seleção antes do torneio, contudo, não se mantém quando o jornal trata da prática do futebol no país. Lembrando que, no início, o esporte e suas regras modernas vindos da Inglaterra eram considerados mais um “estrangeirismo” a ser adotado na sociedade brasileira, um debate que seguiria ainda ao longo das duas décadas seguintes. Na representação do discurso do jornal – uma clara defesa do esporte -, o futebol já despertava grande interesse nos brasileiros: “O FORMIDAVEL INCREMENTO DO JOGO BRETÃO NA AMÉRICA DO SUL – O assumpto do dia, ou, melhor, o assumpto do mez é o Campeonato Sul-Americano de Football. […]”. A matéria seguiu com o trecho destacado abaixo atribuído à fala do jornalista Roberto Trompowsky Junior:

[…] – A campanha que se pretende fazer contra o football está morta antes de nascer. O proximo Campeonato Sul-Americano vae demonstrar o quanto vale o football. Já se não encontra logar nos hoteis, e breve estarão todos abarrotados de forasteiros de todos os pontos do paiz e do estrangeiro, que virão assistir aos importantes marches. Medicos, advogados, agricultores, industriaes, familias inteiras abandonaram ou abandonarão por um mez, os seus escriptorios, estabelecimentos, etc., só para assistir ao magno certamen. É um enthusiamo nunca visto. […] Haverá melhor, menos custoso e mais productivo meio de propaganda? O football já se vae ligando, dess’arte, à diplomacia como factor efficientissimo de approximação entre os povos. Felizmente o governo brasileiro já se vae apercebendo do valor do sport, não só como vehiculo de propagando, de approximação diplomatica mas também como factor primordial de educação physica, de apuramento da raça. […] (A NOITE, 04/05/1919, p. 5).

Fica claro o olhar sobre a equipe como uma propaganda de todo o país, um ato de diplomacia entre nações, dos benefícios da prática esportiva e da importância do evento para o turismo da cidade sede.

A partir daí, começou a cobertura dos jogos, quando podemos perceber uma narrativa de exaltação ao time, mesmo com um ou outro “senão”, como no texto “O GRANDE JOGO DE DEPOIS DE AMANHÃ – BRASILEIROS X CHILENOS”: “[…] Emfim, a linha organisada não é má e está bem ensaiada. O nosso team podia ser melhor, mas não está mao e, portanto, poderá fazer figura brilhante”(A NOITE, 09/05/1919, p. 5). A primeira escalação destacava o caráter regional dentro do “scratch”: 4 atletas do Rio, 5 de S. Paulo, 2 de Santos-SP. Foi o único registro das cidades de origem dos jogadores encontrado no jornal carioca.

O Brasil obteve vitórias sobre o Chile (6×0, em 11 de maio) e a Argentina (3×1, em 18 de maio). Sobre esta vitória em cima dos argentinos, é interessante destacar a representação do interesse da torcida pela seleção:

O ASPECTO – Nunca se viu no Rio de Janeiro um campo de football tão cheio como esteve hoje o do stadium. Não havia logar para uma cabeça de alfinete. Tribunas de honra, archibancadas sem numero, geraes, tudo regorgitou de povo, de povo propriamente dito, e de tudo quanto de fino possue a nossa sociedade. Essa anciedade pelo jogo de brasileiros-argentinos era plenamente justificada: a possibilidade da victoria brasileira nesse encontro seria a melhor chance para o definitivo triumpho dos representantes do nosso paiz, no Campeonato Sul-Americano. Foi, até, preciso que a policia interviesse para acalmar os pretendentes a entradas. Não havia mais bilhetes a serem vendidos e o povo queria assistir à pugna, à viva força. E, afinal, si outros jogos anteriores já o não tivessem provado, o de hoje deixou claro que o football é, no momento, um sport brasileiro por excellencia, capaz de emocionar desde o velho à creança de tenra edade. O football constitue bem um acontecimento social brasileiro. (A NOITE, 18/05/1919, p. 3, Última hora).

Este interesse da torcida também é verificado na reportagem “Alle-goack! Alle-goack! Hurrah! Hurrah! – Os brasileiros empataram com os uruguayos o ultimo match do 3º C.S.A. de Football, por 2×2 goals” sobre o jogo – o primeiro – da final, disputado no dia 25 de maio.

O ASPECTO – A chuva foi hoje irritante e impertinente. Mesmo assim, foi colossal a concorrência ao “stadium” avida de assistir ao match decisivo do campeonato sul-americano de football, de 1919. À 1 hora da tarde, fecharam-se os “guichets” da rua Guanabara, o que quer dizer que a lotação do grande stadium estava completa (A NOITE, 25/05/1919, p. 3, Última hora).

A Noite retomou seu texto crítico quando retratou o comportamento da torcida brasileira:

O NOSSO PÚBLICO NOS GRANDES JOGOS – Infelizmente não tem sido exemplar o comportamento do nosso público, nos grandes matches do Sul-Americano. Já nos trenos dos jogadores que formariam o seleccionado nacional, a Confederação teve que lançar um appello para que os nossos players não fossem aggredidos com palavras injustas pelo público. Nos matches do campeonato esse modo de proceder da assistencia não soffreu modificação. Tanto os players estrangeiros como os nacionaes foram victimas de insultos, que, com franqueza, muito depõem contra os nossos sportsmen. Sabemos perfeitamente que não partem, taes insultos, dos verdadeiros sportmen, mas, a má impressão causada é grande e a fama, como é natural, cabe a todos (A NOITE, 25/05/1919, p. 5).

Com a atuação destacada pela maneira como o time buscou o resultado após sair perdendo por 2×0, a expectativa era sobre o jogo de desempate e a importância de se ter organização e boa arbitragem para a disputa, já que se tratava de um evento de relevância:

[…] Interesses muito sérios, direitos sagrados, são levados ao campo da peleja e assim é preciso que sejam elles apreciados e decididos por quem tenha envergadura para arcar sobranceiramente com as responsabilidades de suas resoluções. O scratch representativo do Brasil foi hontem fundamentalmente prejudicado. Urge que não mais o seja (A NOITE, 26/05/1919, p. 5).

Pediu-se também que os comerciantes e responsáveis por repartições públicas adotassem ponto facultativo no dia do jogo: “[…] É preciso que ninguém fique privado de ver a brilhante actuação da mocidade brasileira no campo desportivo” (A NOITE, 26/05/1919, p. 5). O que foi atendido e noticiado no dia seguinte pelo mesmo jornal.

De acordo com o periódico, o interesse era tanto que partiram de Belo Horizonte – MG “numerosas famílias para assistir ao desempate do 3º Campeonato Sul Americano”. (A NOITE, 27/05/1919, p. 3, Última hora).

No texto “Como se explica a estrondosa victoria dos brasileiros”, antes do jogo desempate, podemos notar narrativas que representam o torcer pela equipe nacional como um ato de patriotismo, algo que interessava a todos os brasileiros.

Nestes últimos dias não ha carioca que amantetico ou não do sport, que não acompanhe com viva e justa satisfação o desenrolar dos jogos e deve-se mesmo dizer, não ha brasileiro que não se sinta orgulhoso com a victoria em toda a linha conquistada brilhantemente pelos nossos patricios, o que aliás fez pasmar os nossos visitantes, que por certo não esperavam pelo bom preparo da nossa mocidade. (A NOITE, 28/05/1919, p. 4)

Sobre o interesse da torcida, temos: “[…] O stadium apanhará, por certo, nova enchente, pois é desnecessário dizermos aqui o quanto é importante essa prova. Depois, a maneira brilhante, o successo mesmo alcançado pelos nossos valorosos players domingo ultimo, nos anima, nos enche de esperanças” (A NOITE, 28/05/1919, p. 5) e a descrição da participação dela no Estádio das Laranjeiras na matéria: “ANTES DO MATCH – O HOMEM QUE CHEGOU PRIMEIRO – Madrugadores e retardatários”, que começou retratando o Sr. William Percy Rothman, “sympatico e jovem americano” que chegou 08h45 para o jogo às 14h e continuou dando um panorama do que foi o local da partida[2]:

[…] Quando os portões se abriram, ainda antes das 9 horas, essa pequena multidão invadiu rumorosamente as archibancadas. Havia gente de toda a especie, de todas as edades e de ambos os sexos. […] Às 10 horas, as archibancadas e as geraes já estavam quasi cheias! […] Mais, muito mais de dez mil pessoas já se apinhavam ali, antes do meio-dia. […] À 1,30 a enchente no stadium e no morro era completa, absoluta, formidável. (A NOITE, 29/05/1919, capa).

Com a vitória de 1×0 na prorrogação, após o empate em 0x0 no tempo normal, em partida disputada com o Uruguai no dia 29 de maio, os jornais adotaram um discurso de exaltação à equipe, o que podemos verificar ao longo da trajetória da seleção em triunfos, silenciando sobre possíveis problemas (Brinati, 2016). A Noite traz a manchete: “BRAVOS AOS BRASILEIROS! – VENCEDORES DO 3º C.S.A. DE FOOTBALL – FRIENDENREICH MARCOU O PONTO DE VITÓRIA!”. Importante ressaltar que no texto é destacado a presença de mulheres e de símbolos nacionais, como a bandeira e a marinha antes do jogo:

A concorrencia, si não era colossal como a de domingo, era selectissima, notadamente pelo numero de senhoras. A animação, extraordinária desde 11 horas, tornou-se como poucas vezes tem acontecido ao approximar-se a hora do jogo. Um alarido unanime atroava e nos morros visinhos a multidão agitava bandeiras nacionaes, por entre vivas. A entrada da banda de infantaria da marinha, que atravessou o campo para postarse nas archibancadas que olham para a rua, foi triumphal. O dobrado foi acompanhado de palmas freneticas da multidão. Havia um sopro de enthusiasmo patriotico em tudo. […] (A NOITE, 29/05/1919, p. 3, Última Hora).

Manifestações de comemorações de torcedores no interior de Minas Gerais foram noticiadas como em Palmyra (atual Santos Dumont) e São João del-Rei, que teve festejos pelos salões e ruas da cidade (A NOITE, 01/06/1919, p.4).

A vitória da equipe já era representada como uma vitória de todo um país: “[…] A alma brasileira está vibrando de enthusiasmo. Que se a deixe lentamente voltar a si e meditar, então, sobre a alta expressão moral e social que as victorias da mocidade brasileira no campo desportivo trouxeram para o nosso paiz” (A NOITE, 30/05/1919, p. 5).

Torcida lota o “stadium” do Fluminense em 1919. Foto: Arquivo Nacional.

Para além do A Noite, outros periódicos também deram destaque ao Sul-Americano. Jornais como o Correio Paulistano[3] relatavam a importância da campanha vitoriosa na disputa:

Talvez seja essa uma das conquistas mais brilhantes do sport nacional até hontem verificadas em nosso paiz. Empatar com um conjunto forte e coheso como o é o uruguayo, e que vinha precedido de uma fama extraordinária, constitue, de facto, um resultado brilhante para os nossos fôros sportivos. […] Os nossos campeões deram prova mais uma vez de que em “association” não estão collocados aquem dos gloriosos e invenciveis footballers orientaes (CORREIO PAULISTANO, 26/05/1919, p. 2).

Torcer para a seleção era, segundo os textos do jornal, um ato patriótico:

[…] Ao ser dado o signal da terminação da prova, a enthusiastica saudação que se ergueu aos valentes vencedores do dia valeu, pela sua unanimidade e proporções, por uma extraordinaria apotheose ao valor sportivo dos players nacionaes. O espetaculo de que foi theatro o stadium do Fluminense constituiu, pois, um facto inédito nos annaes sportivos do paiz. A brilhante victoria dos brasileiros honra, eleva e glorifica o sport nacional. Aos denodados campeões sul-americanos, todas as manifestações que se fizerem em sua honra nada mais significarão do que o premio merecido de tão extraordinaria conquista (CORREIO PAULISTANO, 30/05/1919, p. 2).

Onde se destacava, nos textos, o caráter regional do feito:

[…] E, uma vez que nos referimos ao incomparável exito do seleccionado nacional, é de justiça que sallentemos ainda o papel preponderante que nelle desempenhou o elemento do nosso Estado. Aos footballers paulistas, que formaram em absoluta maioria no scratch brasileiro, cabem de modo especial as honras da memoravel victoria (CORREIO PAULISTANO, 30/05/1919, p. 2).

E, apesar da distância até o Rio e das dificuldades de se acompanhar a partida em tempo real, o interesse dos moradores da cidade de São Paulo pela participação do selecionado no torneio eram evidenciados:

[…] Desde a hora do início do jogo, grande numero de pessoas foi se agglomerando na cidade, e, às 15 horas, era extraordinaria a massa popular reunida na praça Antonio Prado, acompanhando com vivo interesse o desenrolar da pugna através das notícias transmitidas do Rio, pelo telephone. […] Nessas alternativas de esperanças e desalentos, mas numa atmosphera de constante e accentuada excitação emotiva, decorreram os 20 minutos finaes da pugna, até que surgiu a desejada nota da victoria brasileira, saudada com ruidosa manifestação de regosijo. A massa popular que se comprimia nos estreitos ambitos da praça e ruas adjacentes dispersou então, com enthusiasticas acclamações aos nossos valorosos campeões e “hurras” repetidos à honrosa victoria brasileira (CORREIO PAULISTANO, 30/05/1919, p. 2).

Homenagens aos vencedores de 1919. Foto: Arquivo Nacional.

A cobertura dos dois jornais analisados – A Noite e Correio Paulistano – da vitória no Sul-Americano nos deixa vestígios para uma pesquisa mais aprofundada sobre as representações da Seleção Brasileira ao longo de sua história antes das Copas do Mundo da Fifa. Em um momento em que se completa o centenário desta conquista, interessante analisar o Jornalismo praticado há cem anos na cobertura do evento, por mais que neste texto tenhamos analisado trechos de apenas dois periódicos da época.

Entendemos que a representação dos jornais não é o todo de uma realidade numa sociedade em que grande parte da população não tinha acesso aos periódicos. Mas o discurso adotado pelos dois impressos do Rio e de São Paulo analisados – mesmo mantendo as suas características editoriais e interesses -, de alguma forma, é influenciado por uma realidade vivenciada pelos autores das matérias. Apesar de encontrar textos críticos sobre a organização do evento, o time, a Confederação Brasileira de Desportos e até parte da torcida, as narrativas são, em sua maioria, de exaltação ao selecionado. Atribuindo a ele, características de um símbolo de um país, ainda em vias de consolidação de uma República, e que tinha no futebol um novo instrumento de unificação nacional representado pela imprensa e que despertaria crescente interesse na população durante o campeonato de 1919.

 

Notas

[1] Lançado em 1911, o vespertino diário teve entre os fundadores Irineu Marinho e adotava uma postura de oposição aos governos na República Velha. Assim, conseguiu a aceitação entre grupos oposicionistas como grupos urbanos e oligarquias dissidentes (disponível em http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-tematico/noite-a. Acesso em: 19/03/2019).

[2] De acordo com o Jornal do Brasil, foram cerca de 80 mil pessoas: “As demais dependencias eram occupadas, desde 11 horas, por uma multidão calculada em 80.000 pessoas, entre as quaes era notavel a quantidade de famílias” (JORNAL DO BRASIL, 30/05/1919, p. 9).

[3] O Correio existia desde 1854, de caráter conservador e oligárquico durante o ano de 1919 (veja mais em: http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-tematico/correio-paulistano. Acesso em 19/03/2019).

 

Referências

BRINATI, Francisco Ângelo. Maracanazo e Mineiratzen: imprensa e representação da seleção brasileira nas Copas do Mundo de 1950 e 2014. Editora Primas. Curitiba, 2016.

FREYRE, Gilberto. Football mulato. Jornal Diário de Pernambuco, 17 jun. 1938.

HELAL, Ronaldo; GORDON JUNIOR, César. A crise do futebol brasileiro e a pós-modernidade: perspectivas para o século XXI. In: REUNIÃO ANUAL DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DOS PROGRAMAS PÓS-GRADUAÇÃO EM COMUNICAÇÃO – A CRISE DO FUTEBOL BRASILEIRO E A PÓS-MODERNIDADE: PERSPECTIVAS PARA O SÉCULO XXI, 10. 2001, Brasília. X Reunião Anual da Associação Nacional dos Programas Pós- Graduação em Comunicação. Brasília, 2001.

HELAL, Ronaldo; SOARES, Antonio Jorge G. O declínio da pátria de chuteiras: imprensa, futebol e identidade nacional na Copa do Mundo de 2002. In: PEREIRA, Miguel; GOMES, Renato Cordeiro; FIGUEIREDO, Vera Lucia Follain de (Org.). Comunicação, representação e práticas sociais. 1. ed. Rio de Janeiro: Editora PUC-Rio, 2004, v. 1, p. 257-277.

HELAL, Ronaldo.  Mitos e verdades do futebol (que nos ajudam a entender quem somos). Insight Inteligência, Rio de Janeiro, v. 52, p. 68-81, 2011b.

Como citar

BRINATI, Chico. “Hurrah! aos patrícios!”: Fragmentos de uma imprensa de exaltação à Seleção Brasileira no Sul-Americano de 1919. Ludopédio, São Paulo, v. 117, n. 25, 2019.