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Ideias rascunhadas numa caderneta de campo

Cristiane Nestor de Almeida

No dia 29 de outubro de 2018, recebemos no evento denominado GEFuT Convida, na Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional (EEFFTO/UFMG) o professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Gilmar Mascarenhas. Na oportunidade ele apresentou seu trabalho: “Pós-geraldinos: cultura popular e exclusão social no novo Maracanã”, indicando pontos e contrapontos sobre o estádio citado e deixando claro que “o estádio no Brasil precisava ser debatido”. Diante dos fatos expostos, Gilmar, que era geógrafo, pensava em ideias como a “reconquista” do estádio, a relação entre festa x espetáculo, bem como a relação entre o povo e os clientes, fazendo analogia ao “tipo” de pessoas que frequentava o Maracanã (povo) bem como ao novo perfil esperado nos estádios (clientes).

Geral superlotada do antigo Maracanã nos anos 1970. Foto: Reprodução.

Esse novo Maracanã foi se modernizando para o que hoje chamamos de arena. Um excelente artigo do professor Gilmar trata com ênfase essa relação entre as cidades e os estádios de futebol: MASCARENHAS, Gilmar. Um jogo decisivo, mas que não termina: a disputa pelo sentido da cidade nos estádios de futebol. Cidades, Rio Claro, v. 10, n. 17, 2013, p. 142-170.

Em 2016, pude conhecê-lo pessoalmente ao participar do II Simpósio Internacional organizado pelo GEFuT (Grupo de Estudos sobre Futebol e Torcidas) e pelo FULIA (Núcleo de estudos sobre Futebol, Linguagem e Artes), em Belo Horizonte.

Cadeiras vazias no “novo” Maracanã em dia de “clássico dos milhões” pelo Campeonato Brasileiro 2017. Foto: Pedro Martins/MoWA Press.

As pesquisas de Gilmar levavam a entender a cidade a partir do estádio. Essas anotações numa simples caderneta de campo anunciavam uma possível parceria de estudos entre o professor Gilmar e o GEFuT.

Meu primeiro contato com ele foi através de seu livro: “Entradas e bandeiras: a conquista do Brasil pelo futebol”, ao deparar com um livro que falava sobre geografia e futebol houve, de minha parte, um grande interesse. Ao lê-lo e refletir, aquela ideia tímida sobre relacionar geografia e futebol tornou-se cada vez mais possível. A obra referia-se a grandes nomes acadêmicos bem como ao trabalho do GEFuT. A leitura da obra fez-me refletir bem como entender a cidade pensando a representatividade dos estádios de futebol, ou seja, pensar na possibilidade de reconhecer o(s) estádio(s) de futebol, bem como o espaço-tempo da cidade, e também espaços de sociabilidade, ainda que os estádios imponham além do conforto e segurança, rentabilidade e elitização. Logo, Mascarenhas pontua o estádio como “lugar de realização de parcela da vida urbana”, e também do direito à cidade. Assim “[…] propomos a possibilidade de pensar o estádio enquanto um lugar na cidade, um tempo-espaço do urbano. […] E até o futebol, como um universo à parte, promove internamente o aniquilamento de uns tantos, em favor de tão poucos, para o triunfo do espetáculo.” (MASCARENHAS, 2014, p. 240).

Com certeza Gilmar Mascarenhas não será esquecido, mais do que as obras prontas disponíveis, o legado de Mascarenhas ficará ao ser lembrado, citado, pesquisado, ele próprio pensava assim, como uma fala na defesa de seu memorial, em março deste ano, na UERJ: “Teria feito muito mais, não fosse tão vasta e incontornável a Geografia, tão curto e acelerado tempo, tão grande e absorvente o precioso envolvimento familiar”.

Cartaz do GEFuT Convida “Gilmar Mascarenhas”, em outubro de 2018. Foto: Reprodução/Facebook.

Logo, as ideias do professor Gilmar ficarão e servirão para inspirar muitos outros, como um legado, palavra utilizada em relação às obras deixadas pelo futebol. Vale ressaltar também a importância desses momentos como o GEFuT Convida, em que há trocas acadêmicas e possibilidades enormes de novos projetos, o próprio grupo tinha ideias, projetos para aproveitarmos a parceria, projetos que serão lembrados, retomados e deixarão de ser simples ideias rascunhadas numa caderneta de campo.