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Iê: perspectivas da arte de mandigar

Fidel Machado

Antes de adentrar precisamente à temática proposta, faço questão de expressar meu apreço, carinho e, mais especificamente, minha admiração à roda e ao jogo de capoeira. Adianto que nessa arte sou apenas um praticante intermitente e um entusiasta. Por esses motivos, não possuo um grupo fixo, mas nutro um carinho por vários, como o Capoeira Brasil, Cordão de Ouro, Capoeira Corpo e Alma entre outros.

A simbiótica relação afro brasileira é de amplo conhecimento como uma das condições de emergência dessa manifestação polimórfica e polissêmica denominada capoeira. Os negros escravizados, a relevante e potente transfiguração da dor em beleza, a música, a gestualidade, a dissimulação, o hibridismo e as ressignificações foram determinantes para a concepção desse fenômeno e, sobretudo, para a sua permanência e sobrevivência. A capoeira é uma manifestação cultural singular ainda pouco valorizada no seu berço. Todavia, o reconhecido valor internacional tem provocado migrações de professores, instrutores e mestres para todo o mundo.

A roda de capoeira foi inscrita na lista representativa do patrimônio cultural imaterial da humanidade pela UNESCO. Em consonância com essa legitimação, confesso que, ao meu ver, o elemento mais fascinante é a potência da roda manifestada pelo jogo de capoeira. Ressalto que não limito a interpretação de jogo somente às duas pessoas no centro. Refiro-me ao jogo do toque e da harmonia dos berimbaus, ao repicar do pandeiro, ao som grave do couro do atabaque, à marcação das palmas e à resposta do coro. O encontro dos corpos, o ritmo da musicalidade e a presença presente pode provocar uma espécie de transe a partir da confluência de todos esses fatores.

Roda de capoeira. Foto: Ludmila Tavares.

Em que pese todo esse preâmbulo, tenho uma inquietude que me acompanha há tempos e, em conversas com outros seres, percebo que há uma congruência de sensações e uma similitude de pensamento no que se refere à essa temática. A primeira é sobre o aumento vertiginoso de mestres de capoeira; já a segunda versa sobre uma espécie de sobreposição da gestualidade em detrimento da magia, da mandinga e da vadiação.

No que diz respeito à primeira questão, penso que ser mestre não é algo que se limita a adquirir uma corda com determinada cor e nem tampouco usufruir das diferenciações que tal conquista propicia. Tornar-se mestre não é algo completamente acabado, inteiro, absoluto e completo. Tal visão, muitas vezes, se alinha a uma concepção mercadológica, utilitária e comunga com uma dissociação da ação e da busca constante. Uma fantasiosa ludibriação com o poder das titulações, geralmente, aceleradas sem a maturação que demanda o tornar-se. Uma dimensão que visa somente a chegada, o desfecho e a detenção da corda que chancela, outorga e legitima para toda a comunidade da capoeira o título e o posto maior na hierarquia das graduações.

Tal movimento não ocorre de forma isolada e independente, por isso me permito suspeitar sobre os pilares sustentadores desse comportamento atípico. Infiro que possa existir uma associação dessa primeira problemática com a segunda questão supracitada, a saber: a sobreposição dos movimentos técnicos em detrimento da dimensão mágica da vadiação. Destaco que tal correlação não é fruto de uma relação causal, mas talvez haja ressonâncias no aumento do número de mestres com o modo de se interpretar a capoeira de maneira mais objetiva e a supervalorização da técnica.

O processo de esportivização, fruto dessa lógica da mensuração, da valorização e do controle dos gestos, pode resultar no possível crescimento de investimentos, no provável aumento da capilaridade social, no reconhecimento e em uma certa dose de ampliação do status da prática. Qual será o custo desses ganhos? Não tenho como quantificar no presente momento e responder a tal indagação não coaduna com o intuito aqui pretendido. Ademais, não me compete julgá-los. Contudo, cabe pensar sobre os efeitos que tais aspectos podem ocasionar. Se, porventura, houver uma redução a uma conjuntura mais funcionalista e desenvolvimentista, a concepção e a análise dos fenômenos ligados ao corpo tendem a ser interpretadas de modo mecânico, até mesmo subserviente a um caráter mais técnico e controlável da sistematização e pedagogização do ensino dos movimentos.

A capoeira e mais especificamente a roda de capoeira preserva um misto de sagrado e profano. Um contexto dialógico em que há perguntas e respostas incessantes. Contudo, dada a supremacia do gesto, pode haver um esvaziamento desse diálogo e as indagações podem perder relevo para afirmações e convicções. Um jogo individual e espetacularizado. Uma saída da dimensão coletiva e compartilhada para um monólogo pouco interativo. A imprevisibilidade da mandinga e da malícia cede espaço para um utilitarismo e funcionalismo conveniente.

Cada vez mais estamos nos distanciando da magia, que perde a sua força de criação, de espontaneidade e aponta para uma banalização da repetição e da execução de gestos a esmo. É inegável a plasticidade dos movimentos acrobáticos. Todavia, o apego excessivo às pernadas tem dificultado outras interpretações que se aproximam da mandinga e da vadiação.

Ressalto que me refiro à magia de forma a conceber e afirmar o seu atributo da inventividade e da criatividade e não meramente um artifício da ilusão com um teor transcendental. Produzir, reinventar e responder com genialidade às perguntas, muitas vezes, inesperadas que possam vir a surgir no jogo dos corpos (ROBLE, 2018).

A desvalorização da magia, fruto da cultura moderna e refém da razão, corrobora para um distanciamento de esferas outras e pode ter contribuição para o aumento do número de mestres. Dessa forma, o jogo de capoeira e a magia sucumbem aos pressupostos performáticos de apresentações e domínio de um vasto e acrobático repertório motor. Tornar-se mestre recai na conquista de uma determinada corda com fins imediatistas para atender, geralmente, a desejos individuais e, ouso afirmar, pouco preocupados com o fortalecimento do coletivo. A tendência assemelha-se com a lógica do corpo enquanto capital humano que precisa ser produtivo e repleto de signos que legitimem as suas competências. O que antes, para muitos, era consequência de um reconhecimento fruto de uma vida pela capoeira tornou-se atributo de vaidade e exercício de poder.

A capoeira e sua magia. Foto: Divulgação.

Movimento constante e não linear. Fluidez. Um jogo de mandinga. Uma recusa à morbidez. Uma imprecisão em definir o que é o jogo e a roda de capoeira. O jogar e o movimento da ginga talvez tenham muito a ensinar sobre a nossa dependência de fixação e cristalização. Uma necessidade da segurança que embarga o fluxo inexorável do devir com as inglórias explicações universalistas. Todavia, o convite é para se permitir gingar nesse movimento incerto do viver a vida.

Imersão e envolvimento com o jogo. Abertura ao diálogo franco com os outros corpos. O jogo pode propiciar uma espécie de entorpecimento. A presentificação na atmosfera da roda pode ocasionar um êxtase e uma embriaguez que produz uma situação paradoxal: o coletivo vira unidade e a unidade se constitui por meio da tensa manutenção do coletivo.

O movimento aqui proposto não tem pretensão de fazer apologia ou ampla defesa para um dos lados. A proposta não tem cunho maniqueísta. É inequívoca a necessidade do domínio técnico e inegável a beleza e precisão dos movimentos acrobáticos que balançam e brincam com os graus de dificuldade. Porém, o excesso pode causar um desequilíbrio danoso. A proposta é tentar refletir sobre o deslocamento unilateral em demasia. É gingar e esquivar de golpes limitantes.

É da ginga que todos os golpes emanam. A própria ginga mantém o movimento da relação com o outro sem perder a si mesmo e, nesse processo dialógico, se constitui outras formas de existir. Experiência incorporada frente ao múltiplo. Reinvenção do jogar. Ser mestre não é deter o poder de ostentar na cintura uma determinada corda. O jogo de capoeira não é algo findado, limitado e acabado. É capoeirar, é capoeirando, é gerúndio. É, ao som do berimbau, se jogar no jogo jogado.


Referência

ROBLE, Odilon José. Hefesto: o deus do corpo insólito. In: CAVALCANTE Jr., Francisco Silva (Org.). Corpos Insólitos. Curitiba: CRV, 2018.