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“Imagina na Copa!” – Megaeventos esportivos e exclusão social no Brasil

Jorge Dorfman Knijnik

O Brasil recentemente sediou a Copa das Confederações da FIFA. Este evento estava programado para ser um teste para o país que será o centro do mundo esportivo nos próximos anos: em especial em virtude da Copa do Mundo FIFA em 2014 e dos Jogos Olímpicos do COI em 2016. No entanto, uma ocasião a qual deveria mostrar ao mundo um país novo e bem desenvolvido, com modernas instalações esportivas também tem mostrado muito mais do que o incrível futebol-arte jogado pela vitoriosa seleção brasileira; a imprensa internacional foi confrontada com o espetáculo de milhares de manifestantes marchando pelas ruas do país. A análise dos protestos feita pelo presidente da Fifa de que “tudo vai se acalmar quando o futebol começar” – revelou-se totalmente errada: as manifestações públicas ganharam força durante a competição, com os manifestantes marchando em direção aos estádios e apresentando várias demandas para os políticos, principalmente focada em exigências de justiça social.

Eu sou um brasileiro radicado na Austrália. Apesar de viver fora do Brasil há quatro anos, eu acompanho de perto a vida social do país. Eu vejo como o futebol continua a ser central para a vida do brasileiro; futebol é “muito mais do que um jogo” para os brasileiros. Daqui de longe, , fiquei chocado ao observar pela TV o que estava acontecendo dentro dos novos estádios construídos no Brasil para a Copa das Confederações e a Copa do Mundo de 2014. Estas questões, que aparecem no campo, mas cuja origem vem de fora dele, tem uma conexão direta com a vida social e política do país. Elas me fazem refletir profundamente sobre uma questão aparentemente paradoxal: o futebol no Brasil sobreviverá a Copa do Mundo? Como o futebol representa um dos principais espaços para a coesão social do país, a minha verdadeira preocupação é a sobrevivência da vida cultural e social do país sob as novas condições impostas por eventos globais esportivos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas.

Eu começo com uma breve comentário sobre as “quatro linhas”: a Seleção brasileira me deu muito orgulho. Os jogadores mostraram um grande compromisso com a camisa amarela, que é exatamente o que a gente adora mostrar ao mundo: uma mistura de amizade, futebol-arte e entrega nas partidas. Foi uma boa surpresa para todos que em poucos meses o novo treinador conseguisse inspirar um espírito totalmente positivo nesta equipe – e nós fomos campeões novamente!

Seleção Brasileira. Foto: Danilo Borges – Portal da Copa.

No entanto, fora das quatro linhas as coisas não foram tão bem. Os estádios e também o público que participou da Copa das Confederações revelaram um país onde, apesar dos grandes avanços econômicos e sociais na última década, a desigualdade social ainda é enorme – e talvez, esteja crescendo.

Assistindo na TV aos novos estádios, todos modernos e confortáveis (as chamadas “arenas”), fiquei chocado: onde essa competição está sendo jogada? Onde estão os estádios que eu costumava frequentar e torcer? Os estádios pareciam todos iguais! Eles poderiam ser em Recife, em Salvador ou Rio – mas também em Sydney ou Londres! O “padrão FIFA” impôs uma homogeneidade terrível para todos os estádios, uma experiência “do século XXI” que destruiu os significados culturais e o patrimônio afetivo dos estádios brasileiros.

Internacionalmente conhecido, o Maracanã é o próprio exemplo dessa destruição do patrimônio cultural. O Maracanã era um estádio público construído para a Copa do Mundo de 1950 (quando o Brasil perdeu o jogo final contra o Uruguai, no lendário “Maracanazo”). Como Burlamaqui Soares afirmou, na época que o estádio foi construído havia a clara intenção de ser um espaço público onde todas as classes sociais seriam bem-vindas, desde que respeitadas as devidas hierarquias: o Maracanã tinha ingressos muito baratos (U$ 5,00), onde os torcedores mais humildes e pobres podiam acompanhar as suas amadas equipes em pé atrás das traves, seguindo os jogos com os ouvidos colados aos seus radinhos.

Vista de cima das novas arquibancadas do Maracanã. Foto: ME – Portal da Copa.

As gerais reuniam os ”Geraldinos” e eram parte integrante da mitologia do estádio; os “Geraldinos” foram retratados em incontáveis filmes e histórias. Com as reformas e a privatização do estádio, a geral foi simplesmente destruída, juntamente com outros símbolos e patrimônio histórico do estádio. Esta “modernização” mostra claramente que, como diz Burlamaqui Soares, na nova ordem do Maracanã não há espaço para esse espetáculo lúdico, onde todos podiam participar. Chegou a época da ultra-comercialização do futebol e os novos proprietários do estádio estão a procura de clientes com um “novo perfil” – VIPs que podem pagar ingressos caros e gastar os tubos no interior do estádio. Um dos poucos espaços de lazer para os “Geraldinos” brasileiros – os cidadãos mais pobres – se foi para sempre.

A preocupação com a padronização dos estádios vem junto com outra preocupação: o inacreditável embranquecimento do público durante a Copa das Confederações. Todo mundo que assistiu ao time brasileiro jogando pode ver que mais da metade dos jogadores são negros ou mulatos, o que é uma representação justa de um país em que os afro-descendentes são a maioria da população. Na arquibancada, no entanto, um espectador internacional que não conheça muito sobre o Brasil poderia perfeitamente pensar que este é um país de pessoas brancas. A ausência de mulatos e negros nas arquibancadas foi notável – outro sinal claro da exclusão social e econômica que, juntamente com os novos estádios, a Copa do Mundo impõe ao país. ONGs que representam os afro-descendentes brasileiros já estão exigindo cotas dentro dos estádios para permitir que os brasileiros humildes (negros e mulatos em sua maioria) que idolatram a Seleção possam assistir aos jogos da Copa do Mundo. Vai ser interessante ver os resultados desta nova e justa demanda social.

Tão logo o Brasil foi indicado para ser o anfitrião da Copa do Mundo de 2014, as pessoas nas ruas, ao reclamarem dos problemas cotidianos (como o tráfego intenso, os hospitais superlotados, dos transportes públicos, dos assaltos e da violência e corrupção) começaram a parodiar uma propaganda de uma cervejaria famosa , dizendo: “imagina na Copa!”. Esta é a forma irônica que os brasileiros encontraram para expressar suas frustrações e sua vergonha: se as coisas atualmente são muito difíceis, você pode “imaginar na Copa do Mundo”? Vai ser pior.

Torcida brasileira na final da Copa das Confederações no Maracanã. Foto: Wander Roberto – VIPCOMM.

As questões do branqueamento e da elitização dos estádios fazem parte do ideário do “imagina na Copa!”. Elas indicam claramente porque os brasileiros estão tomando as ruas para protestar contra a ordem social vigente, contra a violência e a enorme desigualdade social no país, e também contra as condições de vida que só parecem piorar. Fica difícil acreditar que em um país que enfrenta tantos problemas sociais, milhares de milhões de dólares (dinheiro público!) foram gastos em uma Copa do Mundo para pessoas VIP – a qual também ameaça o jeito brasileiro de viver e experimentar um dos seus mais preciosos símbolos culturais: o futebol.

No momento, o legado da Copa do Mundo de 2014 para o país é uma questão muito controversa. Um ponto, no entanto, é claro: ao contrário do futebol, onde todos costumam participar, torcer e brincar juntos, a Copa do Mundo não favorece o aumento da coesão social entre os brasileiros; ao contrário, ela está intensificando a exclusão social. O verdadeiro legado da Copa do Mundo, no entanto, pode ser um aumento da consciência política e social que faz com que as pessoas marchem e lutem por seus direitos. Minha esperança é que o futebol sobreviva a Copa do Mundo do próximo ano e, no futuro, possa ajudar, como fez no passado, com o processo de inclusão na vida pública dos milhões de brasileiros que atualmente estão marginalizados. Afinal, a Copa do Mundo pode não ser nossa – mas o FUTEBOL será para sempre brasileiro!