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O imponderável do futebol: sempre corra, chapa!

Gabriel Canuto Nogueira da Gama

Há pouco mais de um ano, mais precisamente na noite de 8 de março de 2017, na região oeste da cidade de Barcelona, na Espanha, o mundo do futebol entrou em choque. Naquela ocasião, cerca de 96 mil torcedores, por algum motivo, despenderam suas preciosas horas de folga do meio da semana e foram até o estádio Camp Nou ainda nutridos por uma faísca de esperança. Isso porque o time de Messi, Neymar, Iniesta, Piqué e companhia havia sofrido uma sonora goleada de 4 a 0 para a emergente e bilionária equipe do Paris Saint-Germain, pelo jogo de ida das oitavas de final da Liga dos Campeões. Desde então, nas 58 vezes em que um time havia perdido o primeiro duelo por 4 a 0 na história da principal competição entre clubes do mundo, nenhum foi capaz de reverter o quadro.

Mas, naquela noite, o destino estava traçado. Os deuses do futebol estavam dispostos a interceder. A classificação épica e improvável do time catalão sobre os franceses veio com três gols nos dez minutos finais da partida em meio a lances polêmicos a favor dos espanhóis. O placar de 3 a 1 permanecia até os 42’ do segundo tempo quando Neymar marcou um golaço de falta. Dois minutos depois, Suárez cavou um pênalti em uma dividida com Marquinhos e, na cobrança, Neymar deslocou o goleiro para fazer o quinto gol. O sexto veio no último lance do jogo. Faltando vinte segundos para o fim, o craque brasileiro alçou a bola na área e, com a ponta do pé, o meia Sergi Roberto, cria do clube catalão, conseguiu um milagroso desvio na bola, o suficiente para desviá-la no contrapé do arqueiro alemão Trapp.

O estádio foi ao delírio. Gritos à flor da pele ecoaram das arquibancadas. Catarse plena. E a frase profética de Neymar antes do jogo havia se concretizado: “enquanto houver 1% de chance, teremos 99% de fé”.

O futebol vive desses momentos. É o antro das emoções mais profundas do âmago humano, onde o jogo representado no campo simboliza a imbricada relação do sujeito com o mundo. É o coliseu da contemporaneidade em que os torcedores externalizam seus sentimentos e escamoteiam suas angústias existenciais, alternando estados de fúria, êxtase e alegria. Um espaço que emana paixões e desejos reprimidos. É o lugar em que encerra o destino trágico ou heroico do homem em seu eterno ciclo de vitórias, derrotas, quedas e ascensões, onde, em fração de segundos, um desconhecido aos olhos do povo torna-se um mártir ou um vilão odiado. Um ambiente catártico em que jogadores adquirem formas divinas e demoníacas, ao guerrear-se, protagonizando lances brutos e poéticos em busca de glória e reconhecimento, onde a bola, já dizia o inveterado cronista Nelson Rodrigues na crônica O divino delinquente, é “um reles, um ínfimo, um ridículo detalhe”.

Nestas duas últimas semanas, o futebol nos provou, mais uma vez, que é o retrato da vida. Um dia conquista, noutro perde. E foi assim com o poderoso Barcelona. A terça-feira, dia 10 de abril de 2018, jamais será esquecida entre os barcelonistas e menos ainda pelos romanistas. Muito superior no papel que o adversário, o time catalão aplicou 4 a 1, no Camp Nou, sobre a equipe da Roma, em duelo válido pelas quartas de final da atual edição da Liga dos Campeões. O clube italiano precisava vencer por, nada menos, que três gols de diferença na partida da volta em seus domínios. O feito parecia ser impossível, visto que o clube detinha um elenco inferior tecnicamente, além de ter tido campanhas modestas e apenas razoáveis na história na competição.

No entanto, Eusebio Di Francesco e seus comandados não perderam a fé e a confiança em si mesmos. Nessas horas, é quase inevitável não lembrar das palavras de Emicida:

“[…] Irmão, você não percebeu
Que você é o único representante
Do seu sonho na face da Terra
Se isso não fizer você correr, chapa
Eu não sei o que vai”.

Levanta e anda. É a mensagem que dá nome à música do rapper brasileiro. E foi isso que os italianos fizeram. Estudaram as fragilidades do seu adversário e elas estavam claras. Apesar da invencibilidade histórica no campeonato nacional, o Barcelona não vinha praticando um futebol convincente na temporada. Os resultados vinham, mas o problema de criação de jogo, a “Messidependência”, o pragmatismo do sistema 4-4-2 de Valverde, a deficiência marcação aérea persistiam. Di Francesco sabia exatamente esses pontos fracos e explorou cada uma das fraquezas de seu rival, ao propor um estilo de jogo ousado para o segundo encontro.

Sabendo das dificuldades do Barcelona em enfrentar um sistema com três zagueiros – vide o primeiro jogo contra o Chelsea de Conte na fase anterior –, o técnico italiano abandonou o esquema com pontas e escalou o time em um 3-5-2, liberando os alas Florenzi e Kolarov para apoiar os dois centroavantes de referência na frente: o artilheiro bósnio Dzeko e o jovem checo Schick.

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Foto: Twitter/ChampionsLeague (reprodução).

Muito distante da filosofia ofensiva vencedora que surpreendeu o mundo do futebol anos atrás, o Barcelona preferiu atuar como jamais foi de seu feitio: marcando atrás do meio de campo à espera de lances criativos de Suárez e Messi e buscando apenas administrar o placar agregado conquistado no Camp Nou.

Intensa do primeiro minuto ao fim, a Roma pressionava a primeira linha dos catalões, sufocando os rivais a todo o instante. Acuado e sem inspiração alguma, o Barcelona sofria a cada investida dos italianos até que os gols começaram a aparecer. No primeiro, sempre ele. O goleador Dzeko recebeu passe magistral do capitão De Rossi, deslocou Ter Stegen e inaugurou o marcador. A pressão continuava, mas a primeira etapa terminou em 1 a 0. A Roma precisava de mais dois e, ainda assim, não ser vazada. Se mantivessem a toada dos primeiros 45 minutos, as chances eram muito plausíveis.

E foi naquele momento que a beleza do imponderável ressurgiu. Por ironia (ou não) do destino, De Rossi e o zagueiro Manolas, os mesmos que haviam sido os grandes vilões da primeira partida ao marcarem gols contra, foram os responsáveis diretos pela classificação. Como o futebol é maravilhoso! Aos 13’ do segundo tempo, o capitão italiano fez o segundo de pênalti e, aos 37’, o defensor grego desviou de cabeça após cobrança de escanteio, marcando o gol que classificava os romanistas. Nos minutos finais, o time de Valverde se lançou desesperadamente, em vão, ao ataque, mas sucumbiu diante do bloqueio italiano bem postado.

Uma classificação épica, histórica, com contornos dramáticos, destinos trágicos para uns e venturosos para outros.

Assim também foi a virada homérica do modesto clube austríaco, RB Salzburg, diante da tradicional Lazio, arquirrival da Roma, pelas quartas de final da Liga Europa. Após terem perdido por 4 a 2, fora de casa, o time precisava vencer por dois gols de diferença. Mesmo invicto na temporada atuando em seu estádio, a tarefa para o Salzburg parecia ser bem improvável, isso porque enfrentavam um adversário tradicional, de uma liga superior tecnicamente e com um centroavante, Ciro Immobile, em excelente fase.

A tão sonhada e inédita classificação para as semis ficara ainda mais distante quando o principal atacante da Lazio fez 1 a 0. Diante daquelas circunstâncias, somente três gols sofridos tirariam a vaga dos italianos. Foi, então, que, em mais um destes capítulos quixotescos, o Sobrenatural de Almeida rodrigueano intercedeu novamente no universo futebolístico.

O time austríaco empatou a partida logo após o gol sofrido e, em incríveis três minutos – de 27’ aos 33’ do segundo tempo –, marcaram os outros dois gols que precisavam. A epifania pairava no semblante dos torcedores presentes. Certamente, nem os mais otimistas projetariam uma reação como aquela. A Lazio ainda levou mais um, nos acréscimos, ao lançar-se desesperadamente ao ataque. Placar agregado: 6 a 5 para os austríacos.

Ah… O futebol e a arte do imponderável!

No final de semana anterior, já havíamos testemunhado viradas emocionantes nas finais dos campeonatos estaduais. Em Minas Gerais, o Cruzeiro fez uma campanha irretocável na primeira fase, porém, o iminente título transformara-se em instantes de pesadelo e horror após um surpreendente lapso de 45 minutos no primeiro tempo do jogo de ida durante a decisão contra os atleticanos. O time celeste levou 3 a 0 antes do intervalo e somente três gols marcados no placar agregado daria o título à Raposa. E foi isso que aconteceu.

Na segunda etapa, Arrascaeta diminuiu o prejuízo e trouxe a esperança de volta para o segundo clássico no Mineirão. Uma semana depois, com o apoio maciço da torcida, o Cruzeiro precisava vencer por dois gols de diferença e conseguiu com gols do uruguaio e de Thiago Neves, após uma partida consistente, sobretudo, decorrente das mudanças de postura de determinados jogadores celestes.

BELO HORIZONTE / BRASIL (08.04.2018) De Arrascaeta, no jogo entre, Cruzeiro e AtlŽtico-MG, pelo segundo jogo da final do Campeonato Mineiro, no Mineir‹o, em Belo Horizonte-MG © Washington Alves/Light Press

De Arrascaeta, no jogo entre, Cruzeiro e AtlŽtico-MG, pelo segundo jogo da final do Campeonato Mineiro. Foto: © Washington Alves/Light Press.

No Rio de Janeiro, os seres divinos do futebol estiveram a favor dos botafoguenses. Na primeira partida da final, eles perderam por 3 a 2, de virada, com gol sofrido no último lance do jogo. O cenário era desfavorável para o duelo de volta, isso porque o time alvinegro precisava vencer o Vasco por um gol de diferença para, ao menos, levar a decisão para os pênaltis. As chances até que foram criadas, mas o jogo se desenhava em um empate sem gols.

A torcida cruzmaltina já estava em clima de celebração nos minutos finais com o 0 a 0 até que, aos 50’, faltando literalmente alguns segundos para o apito do juiz, em um lance de bate e rebate na área, o zagueiro Carli marcou o gol da vitória, ressuscitando os botafoguenses. Nas cobranças dos penais, brilhou a estrela de Gatito Fernández e os alvinegros sagraram-se campeões cariocas de forma heroica.

Graças a esses episódios épicos e, porque não, metafísicos, que o futebol é apaixonante. Nos ensinam a aceitar os erros, superar as vicissitudes e vibrar com as conquistas em meio a jornadas descomunais como nessas viradas improváveis. Afinal de contas, é o que Nelson Rodrigues escreve em O divino delinquente. Para além de um esporte físico, “o que procuramos no futebol é o drama, é a tragédia, é o horror, é a compaixão” e, isso, é o que não falta com a bola nos pés.