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A impossibilidade de dizer tudo: o caso biográfico de Guardiola

Gabriel Canuto Nogueira da Gama

“Escreva o que quiser e critique o que quiser, mas durante a temporada não conte lá fora o que você vê aqui dentro” [1].

Simples, discreto e objetivo. Foi assim que Josep Guardiola, um dos treinadores mais vitoriosos do futebol mundial nos últimos tempos, respondeu ao esperançoso pedido do jornalista Martí Perarnau de biografá-lo, em uma tarde de verão ao norte da Itália, mais precisamente no dia 6 de julho de 2013, em uma cafeteria da pequena cidade de Arco, província de Trentino.

A partir daquele acordo tácito e inesperado, o periodista espanhol viu sua carreira de “mortal” repórter esportivo e setorista de campo, como qualquer outro colega de profissão, saltar para um outro nível, ao receber uma chancela especial e inédita: conhecer, a fundo, a personalidade obsessiva e perfeccionista, a filosofia, o modo de vida, o cotidiano profissional, as histórias íntimas de Guardiola, além dos segredos de sua metodologia tática.

Com acesso total aos treinamentos e ao dia a dia do técnico catalão em seu primeiro ano à frente da poderosa equipe do Bayern de Munique, Perarnau pôde acompanhar, durante 28 das 39 semanas da temporada europeia de 2013/2014, as intensas relações entre o treinador com sua comissão técnica e seus comandados do clube bávaro. O resultado foi a publicação da biografia reveladora, Herr Pep em setembro de 2014, na Espanha (com o título português de Guardiola: Confidencial no ano seguinte).

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Quando perguntado sobre quais são os tópicos mais importantes do livro em entrevista concedida à editora Grande Área, responsável pela publicação do livro no Brasil, Perarnau foi firme: “(…) O livro explica tudo o que aconteceu durante a primeira temporada de Pep no Bayern: as coisas boas e as coisas ruins. Isso sem qualquer restrição da parte de Guardiola, que não leu previamente o que eu escrevi: aceitou que eu relatasse à minha maneira tudo o que acontecia. O livro explica o futebol vivido por quem está dentro e também tudo o que cerca um clube de elite” [2].

Repare que, em uma resposta só, Perarnau utilizou o pronome indefinido tudo três vezes para explicar os resultados do livro. Isso é uma das principais problemáticas quando se discute sobre os gêneros biográficos (biografia, autobiografia, correspondências, diários etc). É possível narrar a totalidade de um acontecimento passado, a vida de um personagem ou até mesmo de um recorte da vida do biografado? As técnicas narrativas biográficas têm a capacidade de reproduzir fielmente o real?

Segundo François Dosse no ensaio “A biografia: gênero impuro”, contido em seu livro, “O desafio biográfico: escrever uma vida”, a biografia, como o próprio título diz, é um gênero impuro, fronteiriço, híbrido, pois, ao mesmo tempo em que possui a vontade de reproduzir um vivido real passado pela mimesis, há uma necessidade de preencher lacunas de acordo com a intuição e o talento do biógrafo. Ou seja, mesmo que tenha um pacto no referencial, a biografia possui rastros de ficção para lidar com a sua inevitável incompletude diante do narrado.

“O recurso à ficção no trabalho biográfico é, com efeito, inevitável na medida em que não se pode restituir a riqueza e a complexidade da vida real. Não apenas o biógrafo deve apelar para a imaginação em face do caráter lacunar de seus documentos e dos lapsos temporais que procura preencher como a própria vida é um entretecido constante de memória e olvido. Procurar trazer tudo à luz é, pois, ao mesmo tempo a ambição que orienta o biógrafo e uma aporia que o condena ao fracasso” [3].

Mesmo percebendo, em sua resposta ao entrevistador, uma certa pretensão historicista de narrar uma totalidade, a própria caminhada de Perarnau em sua biografia se mostra ao contrário. Essa posição paradoxal do jornalista é retratada como uma característica inerente da figura do biógrafo pelo pensador francês, Philippe Lejeune, autor de “O pacto autobiográfico”, uma das obras mais fundamentais sobre o gênero biográfico. Segundo ele, uma das contradições inerentes à biografia jaz no fato que, mesmo inconscientemente, o biógrafo acredita que o registro de uma vida só acontece pelo domínio de uma visão totalizante. Entretanto, como Lejeune afirma, “(…) os textos biográficos, embora ‘compactos’ no nível do discurso, são em geral multíssimo lacunares no que toca à informação” [4].

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Guardiola no Bayern de Munique. Caricatura: Baptistão Caricaturas.

Diante da impossibilidade de escrever tudo que Guardiola experienciou naquele período em que estiveram juntos, pois não há como contar uma vida inteira em algumas centenas de páginas, o repórter escolhe fatos significativos, como determinados dias de treinamento ou de partidas, para narrar a saga do técnico. Perarnau recorta a aventura alemã de Guardiola em cinco grandes capítulos, no qual cada um deles se constitui uma virada especial na trama do biografado. Há vários subcapítulos, denominados de “momentos”, que mais se parecem com diários sobre treinos e jogos em datas específicas que marcaram a experiência do narrador-testemunha. O fundamental é perceber que a pretensão do biógrafo não deve ser de querer narrar toda uma vida, mas narrá-la tal qual ela foi, isto é, naquele recorte que está sendo narrado, como afirma Lejeune.

Apesar de ter optado por uma forma narrativa cronológica do início ao fim – de julho de 2012 a maio de 2014 –, característica peculiar dos gêneros canônicos biográficos, é interessante ressaltar que a obra de Perarnau não deixa de possuir um certo viés romanesco como visto nos romances clássicos. No desenvolvimento da trama, há uma expectativa de futuro pelo personagem. O leitor é atraído pelas suas angústias, seus sofrimentos, conflitos, anseios, desilusões, conquistas, vitórias etc. É a vida de um herói (ou anti-herói) sendo desmembrada paulatinamente aos olhos de quem lê. Perarnau mostra um biografado fragmentário, múltiplo, em constante tensão, que alterna fraqueza e força em suas decisões, longe de ser um indivíduo perfeito e exemplar.

Perarnau quebra com o paradigma do antigo modelo biográfico que pressupunha narrar uma vida de maneira ordenada, como se o indivíduo caminhasse em sentido unidirecional a um destino previamente anunciado, no qual cada passo dado em sua vida pareceria um prenúncio do que fosse acontecer. Após as grandes viradas epistemológicas, como o advento da psicanálise freudiana e de novas tendências literárias a exemplo do realismo romântico de Proust e Joyce, houve uma retomada dos questionamentos sobre a narração da vida de um sujeito. Os historiadores voltaram a se deparar com a complexidade da identidade, da não-linearidade constitutiva do indivíduo e de suas naturais contradições.

Também é interessante notar que Perarnau escreve a biografia de Guardiola não a partir do zero, de onde tudo começou. Como diz Dosse em um outro capítulo intitulado “Os biografemas” do mesmo livro mencionado parágrafos acima, “(…) não existe um método único para redigir a biografia de um autor (…) Ainda que espessa, desdobrada em vários volumes, não consegue abarcar a complexidade de uma existência” [5]. O que o teórico francês quer dizer é que toda biografia é um pedaço dentre tantas outras possíveis maneiras de serem feitas de uma vida.  Por exemplo, Perarnau vai escolher dar luz à uma narrativa a partir de um recorte específico da vida de Guardiola (o biografema) e dos efeitos decorrentes dessas experiências fragmentárias. Tais efeitos surgem a partir de detalhes anedóticos da trajetória do técnico catalão, em que o escritor Alain Buisine um dia chamou de biograma (neologismo em alusão ao fotograma devido ao seu efeito revelador).

Um dos exemplos mais claros na obra biográfica de um biograma acontece logo no primeiro capítulo quando o jornalista relatou o emblemático encontro entre Guardiola e o multicampeão de xadrez, Garry Kasparov, com suas respectivas esposas em um jantar informal na casa do amigo soviético em Nova Iorque. Neste subcapítulo, em nenhum momento, Perarnau fala do Guardiola treinador de futebol vitorioso e bem-sucedido, mas de um Guardiola humano, reflexivo, sensível e interessado por questões extrafutebolísticas como os avanços tecnológicos, as invenções, as paixões e os tantos paradigmas que deseja quebrar na vida. É a partir de pequenas anedotas como que são essa capazes de mostrar a complexidade do sujeito biografado.

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Guardiola. Foto: Thomas Rodenbücher.

Reflexões sobre as especificidades do gênero à parte, “Guardiola: confidencial” é um livro, de fato, indispensável para os amantes do futebol e, especialmente, para aqueles que têm um interesse peculiar em entender a fundo a riqueza das estratégias de jogo que este esporte proporciona. Sobre a figura do técnico catalão, o leitor se surpreenderá com declarações inesperadas e polêmicas sobre sua visão tática, histórias interessantes, além de detalhes de sua obsessiva personalidade.

Apesar de Perarnau ter tido a ilusão biográfica de afirmar ter reproduzido tudo que aconteceu sobre seu convívio com Guardiola, o jornalista soube encontrar o equilíbrio em sua obra entre a dimensão factual e o necessário requinte romanesco que toda biografia precisa para dar conta de narrar uma vida, nem que seja apenas um recorte dela.

Referências:

[1] PERARNAU, Martí. Guardiola: confidencial, p. 56, 2015.

[2] Editora Grande Área. Autor de “Guardiola Confidencial” fala sobre as chances de o técnico comandar o Brasil no futuro, 14 mar. 2016. Disponível em: <http://www.editoragrandearea.com.br/opiniao/2016/3/14/autor-de-guardiola-confidencial-fala-sobre-as-chances-de-o-tecnico-comandar-o-brasil>

[3] DOSSE, François. A biografia: gênero impuro, p. 55. 2009.

[4] LEJEUNE. Philippe. Je est um autre: l’autobiographie de la littérature aux médias, p. 78, 1980.

[5] DOSSE, François. Os biografemas. p. 309, 2009.