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Improváveis soluções: os 18 anos do Santos de 2002

Marco Sirangelo

O futebol brasileiro estava em alta no fim de 1999. Uma das principais consequências da recém aprovada Lei Pelé foi a aproximação obrigatória dos clubes com o mercado. Isso aqueceu de vez os interessados nos acordos de parceria, que tinha na relação entre o Palmeiras e a Parmalat, iniciada em 1992, o grande exemplo a ser seguido, uma vez que ela aliava sucesso esportivo com bom retorno financeiro e de exposição de marca à empresa. Ao longo de 1999, Corinthians, Cruzeiro, Flamengo e Grêmio acertaram contratos que garantiriam dinheiro suficiente para que grandes times fossem formados ao longo das próximas temporadas.

Seguindo esta norma, o Santos anunciava, no começo do ano 2000, um acordo de 10 anos com um consórcio formado pela agência de marketing esportivo Octagon-Koch Tavares e a empresa de entretenimento mexicana CIE, que também estava associada ao Cruz Azul do México e ao chileno Colo-Colo. A parceria teria moldes semelhantes aos acordos que eram regra no Brasil, contava com uma injeção de recursos substancial focada na compra de novos jogadores (segundo matéria da época da Folha, este valor seria de US$ 20 milhões) e aportes para que o clube pagasse dívidas e melhorasse sua estrutura física, incluindo a Vila Belmiro.

Assim como o fundo de pensões norte-americano Hicks, Muse, Tate & Furst (HMTF) fazia com Corinthians e Cruzeiro, a CIE/Octagon-Koch Tavares teria no Santos e, também, no Atlético Mineiro seus principais ativos para atuar no futebol brasileiro. Era com essa boa dose de otimismo que Marcelo Teixeira iniciava seu novo mandato como presidente santista. Porém, ainda restavam alguns pontos burocráticos para que o acordo de parceria entrasse efetivamente em vigor. Assim, para não atrasar o planejamento da temporada que se iniciava, o novo presidente, de família muito rica, adiantaria do próprio bolso o dinheiro para montar um time capaz de interromper uma fila que durava desde 1984 e seria futuramente reembolsado com o dinheiro vindo do acordo.

Jogadores importantes como Carlos Germano, Valdo, Márcio Santos, Valdir Bigode e Rincón chegariam ao clube resultando em campanhas satisfatórias no Paulista (vice) e na Copa do Brasil (semifinais) de 2000. Em julho, porém, o acordo com o consórcio, que seguia se arrastando em uma indefinição total, melaria de vez. Isso não impediu, contudo, que Teixeira acertasse a vinda de Edmundo para a disputa do Brasileirão. A chegada do craque causou revolta no elenco, que já convivia com atrasos constantes nos pagamentos. Não à toa, o time foi apenas o 14º colocado no Módulo Azul da Copa João Havelange, três pontos atrás do Bahia, último classificado no grupo de 12 times que passariam adiante na competição. Vale o interessante registro que três dias após empatar em casa com o Cruzeiro pela 10ª rodada do torneio nacional, o Santos jogou um amistoso contra o Real Madrid no Santiago Bernabéu (veja aqui) e voltou a tempo de vencer o Santa Cruz no Arruda.

2001 iniciava com uma obvia necessidade de redução nos investimentos. Após a traumática eliminação no último minuto diante do Corinthians pelo Paulistão, o já mais modesto time perderia Rincón e Dodô, as duas estrelas remanescentes do ano anterior, para o segundo semestre. Marcelinho Carioca e Viola chegariam para o Brasileiro, mas o time terminaria em outro decepcionante 15º lugar. A situação financeira era conturbada e o clube, assim como escreveu a revista Placar em julho de 2001, estava à espera de um milagre.

O primeiro semestre de 2002 deu sequência nesse período medíocre em que a cada seis meses uma leva com dois jogadores famosos em fim de carreira se alternavam no Santos. Os medalhões do momento eram Odvan e Oséas, substitutos de Marcelinho e Viola, dispensados. O nono lugar no Rio-São Paulo (que substituiu o Paulista daquele ano) e a eliminação na segunda rodada da Copa do Brasil representariam uma pausa de quase quatro meses no calendário até o início do Brasileiro. O clube assumiria, então, uma postura mais contundente em relação às finanças e liberaria seus jogadores mais caros durante esta pausa (novamente Odvan e Oséas, além de Esquerdinha, antigo destaque do São Caetano) e traria Émerson Leão, desvalorizado após fracassar na seleção, por metade do valor que recebia Celso Roth.

A montagem do elenco para o segundo semestre seria muito mais modesta. Destaques do interior paulista como o lateral Maurinho, o goleiro Júlio Sérgio e o atacante Alberto chegavam para compor um elenco liderado por coadjuvantes desse período quase-rico, como Fábio Costa, Léo, Robert e Renato. O restante seria formado por jovens das categorias de base. E foi nesse contexto que um milagre realmente aconteceu.

O cenário era totalmente desanimador e, de uma hora para outra, o clube conseguiu montar um timaço. Por não ter dinheiro para bancar estrelas e nem medalhões decadentes e desmotivados, o Santos focaria em desconhecidos. Talentos como Diego e Elano se transformaram em solução, enquanto outros como Robinho e Alex foram aos poucos garantindo seus lugares. O time foi tomando corpo logo nos amistosos de preparação para o Brasileiro. Dois casos merecem atenção, primeiro uma vitória diante do gigante escocês Glasgow Rangers de Ronald de Boer, Mikel Arteta e Tore André Flo no que hoje é o MetLife Stadium em Nova York, e um sólido 3 a 1 no Corinthians de Parreira, confirmando a impressão de Leão que a aposta nos jovens valeria a pena.

O início no Campeonato Brasileiro mostrava um time letal em casa, mas que oscilava ao jogar fora. Uma sequência de oito jogos sem derrota, interrompida após uma memorável derrota diante do rico São Paulo de Kaká, Ricardinho e Luis Fabiano, colocou o clube na briga pela liderança. Porém, apenas duas vitórias nos sete jogos restantes da primeira fase deixariam o time em oitavo, último entre os classificados para as fases finais graças somente ao saldo de gol (superior ao do Cruzeiro) e à derrota do Coritiba frente ao Gama na última rodada.

O que viríamos a seguir seria um atropelo digno de um time histórico, não por acaso o último campeão brasileiro vencido em confrontos em mata-mata. Duas vitórias contra o São Paulo, líder absoluto do primeiro turno, seguidas por um 3 a 1 agregado diante do forte Grêmio de Tite, semifinalista da Libertadores daquele ano, e outras duas incontestáveis vitórias nas memoráveis finais contra o Corinthians, que jogava pela tríplice coroa do ano de 2002.

Diego e Robinho foram a sensação no Campeonato Brasileiro de 2002. Foto: Santos FC.

Os Meninos da Vila foram o embrião de uma década vitoriosa para o clube e muitos jogadores ainda participariam de um vice-campeonato de Libertadores em 2003 e de mais um título Brasileiro em 2004. Robinho e Diego alcançaram status de estrelas nacionais, enquanto praticamente todos os demais jogadores do time foram vendidos para a Europa por quantias significativas.

Sem que o excelente trabalho de Leão e dos atletas seja menosprezado, mas esse time contrariou a máxima de Ferran Soriano de que a bola não entra por acaso. Não houve um grande planejamento focado no desenvolvimento dos jovens atletas – colocá-los para jogar foi a solução encontrada diante de um cenário financeiro caótico ocasionado, principalmente, por conta do fracasso nas negociações com a eventual parceira. Assim como as pedaladas de Robinho, a existência desse time santista de 2002 é improvável, única e inexplicável, obra desses acasos que o futebol consegue proporcionar de tempos em tempos.


Um artigo meu contextualizando o rico período de parcerias vivido pelo futebol brasileiro logo após a Lei Pelé entrar em vigor irá fazer parte do livro Clube Empresa: abordagens críticas globais às sociedades anônimas no futebol, organizado por Irlan Simões e lançado pela Editora Corner. Disponível em pré-venda em: https://livrariafc.com.br/produto/clube-empresa/.

Como citar

SIRANGELO, Marco. Improváveis soluções: os 18 anos do Santos de 2002. Ludopédio, São Paulo, v. 129, n. 25, 2020.