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“Marco da grandeza de São Paulo a serviço do Brasil”: a inauguração do Pacaembu

Plínio Labriola Negreiros

Abril de 1940: com a proximidade dos festejos de inauguração do Estádio Municipal, a cidade passava a vivenciar as inúmeras movimentações em função do evento. A imprensa bombardeava seus leitores com uma grande quantidade de informações, fazendo com que a expectativa aumentasse ainda mais. São Paulo tornou-se um grande centro esportivo. O Estado de S. Paulo publicava, no início de abril, instruções da Diretoria de Esportes:

Nadador uruguaio

Além dos nadadores argentinos, chilenos e peruanos, virá também ao Brasil o nadador uruguaio Carlos Noriega Pons, que ultimamente tem se revelado no nado de costas.

Chegada dos nadadores visitantes

Chegam hoje, do Rio de Janeiro, a senhorita Helena Tucelet, campeão argentina de nado costas e de Buenos Aires e Montevidéu, os nadadores e esgrimistas argentinos, a turma uruguaia de bola ao cesto.

Da mesma forma, para quem não morava em São Paulo e desejasse assistir aos festejos, ou mesmo participar do desfile de abertura, foram conseguidas facilidades no que tange aos transportes, conforme pedido das autoridades municipais, na mesma edição d’O Estado de S. Paulo:

A Diretoria de Esportes do Estado de S. Paulo, recebeu a seguinte comunicação enviada pela superintendência da ‘S. Paulo Railway’ a todos os chefes de estação daquela estrada:

‘Comunico-lhe para os devidos fins, que aos visitantes do Estádio Municipal a ser inaugurado no dia 27 do corrente e aos esportistas que vierem tomar parte na parada esportiva, tanto procedentes do interior quanto de Santos, o sr. Superintendente faz as seguintes concessões de abatimento de preços das passagens:

Aos visitantes: abatimento de 23%, de acordo com o decreto estadual nº 7737 de 3 de julho de 1936;

Aos esportistas: abatimento de 50% no preço das passagens, desde que sejam apresentados pelos prefeitos das respectivas localidades.

Todas as estradas em tráfego mútuo, com exceção da Noroeste do Brasil, fazem idênticas concessões.

Cartaz de inauguração do Estádio do Pacaembu. Fonte: Museu do Futebol.

A Diretoria de Esportes, no comando das festividades, continuava com suas deliberações e orientações. Entre essas ordens, proibia qualquer atividade esportiva na cidade, fora do Estádio do Pacaembu, de 27 de abril até o dia 5 de maio. Além disso, anunciava as instruções finais para o desfile, com muita riqueza de detalhes:

INSTRUÇÕES SOBRE O DESFILE

É conveniente que as representações observem estas recomendações, agora publicadas, a fim de melhor os orientar:

Às 13 horas — saída das sedes dos clubes, de modo que às 13 e meia todos estejam nos pontos de concentração dos diversos agrupamentos:

1º agrupamento: Visitantes estrangeiros e dos Estados […]

2º agrupamento: Clubes, associações da capital e clubes de várzea na rua Paulo Eiró, desde a rua Itatiara até a rua Conselheiro Brotero, de um lado e de outro ficando as associações compreendidas entre a A. A. São Paulo e o E. C. Corinthians Paulista no lado direito e os outros clubes do lado esquerdo, obedecendo sempre a ordem já publicada.

3º agrupamento: Municípios do Estado […]

4º agrupamento: Militares e corporações militarizadas do Estado.

5º agrupamento: Corpo da Segunda Região Militar da capital.

Todas as representações devem sempre obedecer à ordem numérica e alfabética já publicada.

CONCENTRAÇÕES — As representações serão encaminhadas pela avenida Angélica, no espaço compreendido entre a rua Alagoas e avenida Higienópolis, em cujos cruzamentos e ruas encontrarão sargentos do Exército com faixas no braço e que indicarão os lugares e pontos de concentração.

Um dos momentos da cerimônia de inauguração do Estádio do Pacaembu. Francisco Prestes MAIA, Os melhoramentos de São Paulo.

E, com toda essa movimentação cívico-esportiva, aproveitava-se politicamente o interventor Adhemar de Barros, ofuscando o prefeito Prestes Maia. As inúmeras disputas esportivas em comemoração à inauguração do Estádio do Pacaembu foram também dedicadas, por ordem da Diretoria de Esportes, à comemoração ao segundo aniversário da interventoria de Adhemar de Barros. Este, inclusive, quando no governo, soube perceber o potencial dos esportes para angariar dividendos políticos, tornando-se, dessa forma, um dos políticos que mais ligações teve com as atividades esportivas. E o DEIP, seção do DIP em São Paulo, muito contribuiu com o interventor, utilizando-se dos jornais para promover Adhemar de Barros. Assim, nesta pequena nota, publicada pelos periódicos da cidade, é possível perceber essa vinculação:

A mocidade de Santos enviará, no dia 3 de Maio, uma mensagem esportiva de congratulações ao Governo pela inauguração do Estádio do Pacaembu, em reconhecimento também pelo grande benefício que o dr. Adhemar de Barros está prestando ao desenvolvimento do esporte paulista.

A mensagem será trazida até o Estádio por 15 corredores do Club Esportivo Municipal, estando a partida marcada para às 9 horas e meia no Paço Municipal de Santos e a chegada ao Estádio do Pacaembu às 16 horas.

Por outro lado, com a aproximação do dia da inauguração do Estádio do Pacaembu, dia 27 de abril de 1940, o governo de São Paulo ainda se aproveitou do momento para mostrar com essa construção tinha um significado muito especial para o país, associando-a, mais uma vez, às práticas físicas, ao civismo e aos progressos atingidos pela economia industrial. Num artigo d’O Estado de S. Paulo, publicado no dia da inauguração do estádio, já sob a intervenção do DEIP, tem-se:

Vai ser inaugurado hoje o Estádio Municipal de São Paulo, no vale do Pacaembu.

No simples enunciado deste fato encerra-se todo o sentimento de uma antiga e grandiosa aspiração que afinal se converte em realidade. É a educação física de São Paulo, do Brasil, portanto, que conquista, depois de longa e ansiada espera, uma obra sem a qual estava forçadamente incompleta, pela qual pode pretender, por fim, atingir toda a eficiência construtiva para que desde o início do século vem constantemente preparando.

Estádio do Pacaembu no dia da inauguração. Foto: sob a guarda do Arquivo Nacional via Wikimedia Commons/Domínio público.

Ou seja, esse estádio apenas vinha ocupar uma lacuna, já que São Paulo crescia desde o início do século e a sua nova ordem econômica exigia essa grande praça de esporte em nome da eficiência. Ao mesmo tempo, acreditava-se no estádio como um divisor de águas na história das atividades físicas na cidade:

Para alguns o Estádio poderá significar um ponto de chegada, apenas, o termo de uma evolução que se aperfeiçoa, completando-se, mas para os que têm o conhecimento das nossas realidades mais íntimas ele constitui, de fato, um ponto de partida. É o início de uma nova fase, na qual vem convergir, para depois seguirem paralelas, a iniciativa particular e a ação dos poderes públicos. Temos, na obra do Pacaembu, um índice que representa um exemplo e que vale, também, como o melhor dos estímulos. Vemos, afinal, que a ginástica e os esportes não são mais esquecidos ou desprezados só lembrados pelos administradores para satisfazer novos e pesados impostos e sim que recebem do próprio governo o maior, e mais do que isto, o melhor dos instrumentos para construir a própria grandeza, ao mesmo tempo efeito e causa do progresso do Estado e do país.

É interessante como os termos evolução e progresso são utilizados a todo momento, sempre com o intuito de mostrar como o Brasil havia se transformado desde a transição política de 1930 e o pouco apoio que os esportes tiveram nos governos anteriores. Para os dirigentes esportivos no final dos anos 1930, não existia progresso econômico sem um respaldo físico; daí o papel estratégico da Educação Física e dos esportes. Por isso a afirmação de que o nível de desenvolvimento dos esportes em São Paulo revela, ao mesmo momento, efeito e causa de progresso. E outras questões eram apresentadas neste artigo, possivelmente originado nos gabinetes da Diretoria de Esportes:

São Paulo sem um estádio era realmente incompleto, mas esse Estádio não passaria, talvez, de uma obra meramente suntuária não fosse o meticuloso cuidado e o decidido esforço que o poder público está desenvolvendo para colocar a fisiocultura no seu verdadeiro plano, pondo-a no mesmo nível de interesse e apoio que já vinham merecendo, desde muito, a educação intelectual e moral. Antes de estar completo o Estádio tivemos a Diretoria de Esportes, estendendo a sua ação não só à capital, até agora quase que única beneficiada, mas também ao interior, de onde para esta convergem as forças vivas da terra e da raça, como logo o veremos, no grande desfile em que milhares de esportistas de todos os recantos de São Paulo, de outros Estados e de algumas nações continentais amigas estarão unidos e disciplinados, vinculando-os um só objetivo que não será apenas o de competições esportivas e sim nelas entrar e delas sair com lealdade e entusiasmo, seja qual for o resultado.

As autoridades paulistas mais ligadas ao esporte tinham razão quando afirmavam que não bastava um estádio, por maior que fosse, para disseminar o gosto pelas práticas esportivas. E a Diretoria de Esportes realizou este trabalho, de fazer o esporte chegar a todo o Estado de São Paulo; é claro, com seus objetivos e a seu modo. Mas o fato é que esse órgão do governo estadual exerceu quase que um papel de bandeirante — conforme comparação muito utilizada na época — em relação aos esportes. Nos seus métodos de trabalhos, sempre a forte marca da centralização, respaldada por uma ampla e detalhista legislação. Assim, o Estádio do Pacaembu era apenas a parcela de um trabalho muito mais amplo que se fez, buscando levar as atividades físicas a todos os paulistas.

E o artigo chega ao fim, ignorando que a obra havia sido bancada pela administração Prestes Maia, ressaltando o valor das ações de Adhemar de Barros junto ao governo paulista:

Muito merecidamente coincide a data de inauguração do Estádio com a passagem do segundo aniversário de governo do dr. Adhemar de Barros na interventoria de São Paulo, servindo de motivo para a série de homenagens que lhe vão ser prestadas pela obra desenvolvida e da qual, no setor de educação física, são associados lógicos a criação da Diretoria de Esportes e a inauguração do Estádio. Dentro de algumas horas terá s. Exa. a recompensa de quanto lhe vem merecendo o preparo e aperfeiçoamento do melhor patrimônio de São Paulo, que é a sua mocidade.

Porém, por mais que o interventor de São Paulo desejasse capitalizar a construção do estádio para si, desconsiderando a ação de Prestes Maia, outra pessoa seria a grande atração da festa de abertura do Pacaembu: o presidente Getúlio Vargas, convidado para presidir a solenidade de inauguração. Vargas não veio exclusivamente para a festa, mas foi o momento mais importante da sua visita a São Paulo.

Entretanto, muito mais significativo foi o conjunto das atividades do presidente na capital paulista. Visitou grandes estabelecimentos industriais e encontrou-se com prefeitos de cidades do Estado. Mas, com certeza, algo muito especial marcou a sua passagem por São Paulo: inaugurou novos Parques Infantis que faziam parte dos projetos que visavam vincular a população de São Paulo às atividades físicas controladas.

E a grande festa projetada e promovida, de fato, acabou por acontecer. Como os próprios organizadores dos festejos exigiam, as cerimônias do novo estádio deveriam ser compatíveis não apenas com o seu tamanho, mas muito mais com a importância que os esportes tinham adquirido na vida do país. Já não se tratava de uma atividade de poucos jovens da elite que, por diletantismo, dedicavam parte do seu tempo aos esportes. Queria-se afirmar que os esportes adquiriram tanta importância que coube ao poder público um investimento vultoso no setor. Além disso, a cidade, definindo a sua vocação industrial, também necessitava de amplos espaços para que as atividades físicas pudessem ser praticadas nas melhores condições possíveis. Assim, os jornais publicaram notas, no dia 28 de abril, carregadas de emoção, ao se referirem ao monumento entregue aos paulistanos, que, na verdade, era para todos os brasileiros:

A inauguração oficial do Estádio Municipal de São Paulo, que se realizou na tarde morna e luminosa de ontem, constituiu um espetáculo de inédita beleza e sadio entusiasmo, enchendo de alegria e legítimo orgulho os olhos e o espírito de toda a multidão ali presente às cerimônias de abertura da majestosa praça que lhe dá a primazia na América do Sul, em mais esse setor.

Vista do interior do Estádio do Pacaembu. Foto: Werner Haberkorn/Wikimedia Commons/Domínio público.

Aliás, todo o processo de organização desses festejos partiu dessa premissa: emocionar os que participassem ou simplesmente assistissem ao desenrolar das atividades de inauguração. O desfile, a cerimônia com as bandeiras, a entrega do “Distintivo da Mocidade Paulista”, o hino nacional, a harmonia dos movimentos, os uniformes, entre outras etapas, buscavam despertar emoções. O jornalista continuava a descrever aquele momento:

Poucas vezes, acreditamos, nos será dado presenciar uma festa como essa, em que tão harmoniosamente se entrelaçaram, para o deslumbramento de quantos ali tiveram de comparecer, as flâmulas multicores das legiões moças que pugnam pelo aperfeiçoamento eugênico da raça, nas pistas e nas piscinas de São Paulo, de cada um município paulistas, do Rio de Janeiro e das nações irmãs do continente; as melodias suavíssimas da alma em flor da nossa gente; os acentos viris dos nossos hinos e, sobretudo, marcial e unânime, esse forte entusiasmo cívico de que todos participaram, na crença de que algo de novo se comemorava com a inauguração do Pacaembu.

Atribuir à fisiocultura uma importância, não maior, mas semelhante ao valor que se dá à educação intelectual e moral do nosso povo, eis o que significa a materialização do Estádio Municipal de São Paulo. E nele, ontem, com a presença do sr. Presidente Getúlio Vargas, srs. Interventores Adhemar de Barros e Comandante Amaral Peixoto, sr. Governador Benedito Valladares, sr. General Maurício José Cardoso, prefeito Prestes Maia, d. José Gaspar d’Affonseca e Silva, e demais autoridades civis e militares do país, além de uma assistência calculada em mais de 80 mil pessoas, — desfilaram milhares de moços e moças esportistas, que dão o melhor exemplo dos seus esforços ao aprimoramento das suas condições físicas, morais e intelectuais.

De fato, a festa foi organizada para emocionar e a inauguração do Pacaembu foi um grande ato cívico-político de amplitude nacional, ao envolver desde o presidente da República até os interventores, passando por delegações estrangeiras e por representantes de inúmeras cidades de São Paulo e de outros estados. Ao provocar a emoção, a cerimônia pretendeu mostrar a força de um regime, consubstanciada na própria construção monumental, além de materializar concepções como ordem, harmonia, unidade e beleza.

Nesse sentido, é possível fazer uma analogia com as manifestações políticas realizadas na Alemanha nazista — guardando, obviamente, as devidas distâncias de experiências contemporâneas, mas historicamente distantes. Alcir Lenharo fala desse momento na Alemanha, produzindo a política enquanto espetáculo:

Qualquer ocasião podia ser utilizada como recurso de mobilização popular nas ruas e de envolvimento político das massas.

A chave da organização dos grandes espetáculos era converter a própria multidão em peça essencial dessa mesma organização. Nas paradas e desfiles pelas ruas ou nas manifestações de massa, estáticas, em praças públicas, a multidão se emocionava de maneira contagiante, participando ativamente da produção de uma energia que carregava consigo após os espetáculos, redistribuindo-a no dia-a-dia, para escapar à monotonia da sua existência e prolongar a dramatização da vida cotidiana.

O uso do uniforme, comum entre os militantes nazistas, servia à dissimulação das diferenças sociais e projetava a imagem de uma comunidade coesa e solidária. O impacto da política na rua em forma de espetáculo visava diminuir os que se encontravam fora do espetáculo, segregá-los, fazê-los sentir-se fora da comunidade maravilhosa a que deveriam pertencer.

Cada acontecimento era preparado minuciosamente pelo próprio Hitler. Cada entrada em cena, a marcha dos grupos, os lugares dos convidados de honra, a decoração geral, flores, bandeiras, tudo era previsto.

Dentre os grandes templos construídos pelo nazismo para a política em forma de espetáculo, o maior de todos, concebido para abrigar cem mil pessoas, é o Zeppelinfeld, em Nuremberg, construído por Speer, em 1935.

As músicas cantadas pela multidão e a presença constantes de fanfarras ampliavam consideravelmente o entusiasmo de todos.”[1]

Inauguração do Estádio do Pacaembu, em 27 de abril de 1940. Ao fundo, detalhe da concha acústica. Foto: Wikimedia Commons/Domínio público.

Ainda em relação à descrição que se fazia da festa ocorrida no Pacaembu, são muito interessantes as palavras finais da introdução da longa reportagem sobre aquele acontecimento:

Índice de um processo que se acelera, testemunho de uma compreensão mais larga das nossas necessidades, estímulo do mais enérgicos para os rumos inaugurais por que se lança a nação, prova palpável dos resultados remotos, mas transcendentes de que se cogita a presente administração. O Estádio Municipal de São Paulo, em troca do muito que custou aos nossos cofres, devolverá ao Brasil, física e moralmente superiores, as gerações de moços e moças que nele cultivam as suas qualidades, saudável patrimônio esse, sem o qual não há grande país nem grande povo.

Logo abaixo dessa parte do noticiário acerca dos festejos, publicava-se uma fotografia com um dos momentos do desfile. Tirada do campo para a arquibancada, mostrava a passagem, em primeiro plano, de estudantes de Educação Física, todas devidamente uniformizadas, perfiladas em quatro colunas. A harmonia do andar denota perfeição, na qual todas parecem estar com a mesma passada. Seus corpos também apresentam-se harmônicos e esbeltos; todas aparecem sérias, não há sinais de qualquer esboço de sorriso. Em segundo plano, as arquibancadas complemente lotadas, nas quais a maior parte do público apresenta-se de pé. Do ângulo em que a foto foi tirada, tem-se a impressão que a proximidade entre os assistentes e as estudantes que desfilam é ínfima, apesar da existência do alambrado separando o público dos esportistas.

A cerimônia de inauguração iniciou-se com a recepção ao presidente Getúlio Vargas e “esse momento foi assinalado por uma salva de morteiros, pelo Hino Nacional e o hasteamento das bandeiras brasileiras. Viam-se presentes, então, além do chefe da Nação, os Srs. Governadores de Minas e Interventores federais nos Estados do Rio de Janeiro e São Paulo, ministros de Estado, prefeito do Distrito Federal, comandante da Segunda Região, os membros da administração paulista e outras altas autoridades civis e militares.”, lembrava a imprensa. Do lado de fora do estádio, ao longo da avenida Pacaembu, as representações, perfiladas, prontas para desfilar; além dos assistentes que tomavam todos os espaços das arquibancadas. Segundo a descrição de um periódico:

Deu-se, a seguir, o desfile das representações esportivas, que, cerca de uma hora e meia, marcharam sob o compasso da marcha ‘Paris Belfort’.

Nada menos de 10.000 esportistas passaram, assim, noventa minutos seguidos, sob os aplausos da multidão.

Abriu o desfile a representação estrangeira, que era puxada pela delegação argentina. Vinham depois os peruanos, os uruguaios e brasileiros. Todas elas exibiam as bandeiras dos seus países.

Desfilaram, a seguir, as delegações dos Estados, encabeçadas pelo Distrito Federal, após a qual vinham, nesta ordem, as associações esportivas paulistanas.

Seguiram-se as representações do interior, representadas por cerca de 180 municípios. Esta parte do desfile foi puxada pela delegação dos municípios de Americana e Amparo e fechada pela de Vera Cruz.

Encerrando o desfile, vinham os esportistas do Exército e da Força Policial, Corpo de Bombeiros.

E mesmo sendo um desfile exclusivo de esportistas, pretendia-se passar a ideia da totalidade, de uma unidade nacional. Era como se todo o país estivesse representado naquele instante, desfilando pela pista de atletismo do Estádio Municipal. Inclusive, por parte do jornalista, a preocupação em apresentar os números de participantes (10.000 esportistas, 180 municípios), indicava a clara intenção de demostrar a magnitude da manifestação.

Após o longo desfile, quando todos os esportistas estavam dentro do campo, simetricamente acomodados, de frente para a tribuna de honra, lotada de autoridades, — e de uma revoada de pombos-correios, que anunciariam a novidade a outras cidades — o prefeito de São Paulo, Prestes Maia, pronunciou o seu discurso:

Senhor Presidente da República, Senhores Ministros, Senhor Governador do Estado de Minas Gerias, Senhor Interventor no Estado do Rio, senhor Prefeito do Distrito Federal, minhas senhoras e meus senhores. — Fundador e executor do Estado Novo no Brasil, definiu-o, certa vez, em presença da nossa gloriosa Marinha de Guerra, como o instrumento das verdadeiras aspirações e necessidades nacionais.

Ora, é sob a inspiração desse conceito que trabalhamos em São Paulo. E foi, precisamente, para que vossa excelência pudesse testemunhar, com os próprios olhos, esse esforço que São Paulo, pela voz do seu Interventor, pediu a vossa excelência se dignasse paraninfar esta festa inaugural.

A nossa praça de esportes é, senhor Presidente, a afirmação de um programa construtivo. Tendo-o recebido em início, pusemos na sua ampliação e na sua conclusão o nosso melhor empenho. E, assim, como restituímos as administrações passadas a honra de sua iniciativa, reivindicamos, para a presente, a gloria de sua execução, na grandiosa escala e moldura, que hoje se descortina.

O exemplo de vossa excelência, aliás, nos ensinou a não reivindicar para nós senão a satisfação do dever cumprido. Este Estádio, que se impõe pela grandeza e pela sobriedade, é um monumento oferecido à administração de vossa excelência, que erigiu a educação moral e física da sociedade em princípio constitucional.

Nesta praça a juventude se adestrará na prática de todos os esportes necessários e úteis. Não lhe demos majestade para que ela venha a servir somente de palco a exibições profissionais, pessoais ou decorativas. Mas demos-lhe majestade, para que aí se valorize o elemento humano, de maneira a que todo o cidadão, imitando o Hércules da lenda, se faça capaz de carregar o Brasil nos ombros. Demos-lhe majestade, sim, para que se torne centro de reunião de todos os brasileiros e cenário das mais grandiosas manifestações coletivas.

Aproveitando a oportunidade para agradecer ao exmo. Sr. Interventor o imenso apoio e estímulo que permitiu realizar essa obra, peço a vossa excelência, senhor Presidente, que declare inaugurado o Estádio Municipal de S. Paulo, que, justamente por ser de São Paulo, é de todo o Brasil.

Fachada do Pacaembu. Foto: Luiz Mauro.

Dessa fala de Prestes Maia, duas questões devem ser destacadas: o problema quanto ao uso do Estádio Municipal e as intrincadas relações entre o estado de São Paulo e o governo federal. No primeiro ponto, o prefeito de São Paulo, “construtor do Pacaembu”, não gostaria de ver a sua obra sendo utilizada apenas para as grandes disputas do esporte mais popular da cidade: o futebol. Aliás, a questão apresentava-se de maneira mais específica: a restrição era contra o futebol profissional, muito malvisto pela maior parte dos teóricos da Educação Física. Mesmo passados sete anos da oficialização da prática do futebol profissional no Brasil — ocorrida em 1933 —, este esporte continuava a ser apontado como um instrumento de deseducação moral e física. Ou seja, num momento em que era discurso corrente associar as atividades físicas e esportivas com o “melhoramento da raça”, o futebol era posto à parte. As razões eram inúmeras, mas vale ressaltar uma: não havia qualquer possibilidade em conciliar a educação moral, cívica e física com a prática do esporte com intenção de ganhos materiais. O esporte saudável deveria ser, necessariamente, amador.

Assim, para Prestes Maia, não podia existir sentido em tamanho esforço do poder público na construção de um monumento — conforme expressão do prefeito —, se fosse para sediar partidas de futebol. Até porque nenhum outro esporte que pudesse ser praticado naquela praça de esportes recém-inaugurada, conseguiria reunir mais do que uma pequena parcela do que conseguia, com frequência, o emocionante esporte da bola. O estádio deveria, ainda, segundo Prestes Maia, servir para que um amplo contingente da população de São Paulo dedicar-se ao seu aprimoramento físico, sempre relacionado aos outros aspectos enfatizados. E mais: o estádio deveria ser o espaço das grandes manifestações de massa, como se fosse um templo preparado para esse fim.

Por outro lado, o prefeito enfatiza São Paulo como uma referência para o Brasil. Desde 1930, com a ruptura político-institucional que retirou parcelas de poder das elites paulistas, principalmente as agrárias, São Paulo buscou uma reacomodação junto ao poder federal. Se essa busca das classes dominantes paulistas gerou a guerra civil de 1932, no ano seguinte, em 1933, as divergências pareciam ter encontrado o caminho da conciliação. Esta teve, como ponto alto, a escolha de Armando de Salles Oliveira para a interventoria em São Paulo. Porém, essa questão é muito mais complexa, conforme demostra a pesquisa de Mônica Pimenta Velloso acerca das relações entre o regionalismo e o avanços nas concepções que apontavam para a necessidade de construção da nação no Brasil[2]. Nesse trabalho, discute-se como a tradição regionalista no pensamento brasileiro vai se deparar, nos anos 1920, com um debate no meio intelectual, que realçava a necessidade de construção nacional a partir dessa mesma tradição regionalista. A análise de Mônica Pimenta Velloso vai além nessa pesquisa: como surgiria em São Paulo um grupo de pensadores muito ligados à arte — a vertente do modernismo chamada verde-amarela —, preocupados em mostrar que o caminho da construção da nação no Brasil passava por São Paulo. Ou seja, se a direção política do país não passava mais apenas por São Paulo, em termos de construção da nacionalidade, São Paulo seria o ponto de referência, já que o verdadeiro espírito nacional, segundo esses pensadores, estava estritamente ligado aos bandeirantes, capazes de desbravar.

Enfim, não cabia a Prestes Maia qualquer confronto com Getúlio Vargas, ainda mais naquele momento em que o regime parecia estar vivendo a sua maior estabilidade e aceitação. Cabia, sim, mostrar como São Paulo, mais do que qualquer outra região do país, contribuía de maneira decisiva para colocar o Brasil nos rumos do progresso acelerado.

Depois do discurso do prefeito paulistano, enquanto continuação da festa do Pacaembu, viria a fala — de improviso, segundo a reportagem d’O Estado — do presidente Vargas:

Ao declarar inaugurado este Estádio, sob impressão das entusiásticas e vibrantes aclamações com que fui recebido, não posso deixar de dirigir-vos algumas palavras de vivo e sincero louvor.

Este monumento consagrado à cultura física da mocidade, em pleno coração da capital paulista, é motivo de justo orgulho para todos os brasileiros e autoriza aplaudir merecidamente a administração que o construiu.

As linhas sóbrias e belas da sua imponente massa de cimento e ferro, não valem, apenas, como expressão arquitetônica, valem como uma afirmação da nossa capacidade e do esforço criador do novo regime na execução do seu programa de realizações.

É ainda, e sobretudo, este monumental campo de jogos desportivos uma obra de sadio patriotismo, pela sua finalidade de cultura física e educação cívica.

Agora mesmo assistimos ao desfile de dez mil atletas, em cujas evoluções, havia a precisão e a disciplina, conjugadas no simbolismo das cores nacionais. Diante dessa demonstração da mocidade forte e vibrante, índice eugênico da raça, — mocidade em que confio e que me faz orgulhoso de ser brasileiro — quero dizer-vos:

Povo de S. Paulo!

Compreendestes perfeitamente que o Estádio do Pacaembu é obra vossa e para ela contribuístes com o vosso esforço e a vossa solidariedade. E compreendestes ainda que este monumento é como um marco da grandeza de São Paulo a serviço do Brasil.

Declaro, assim, inaugurado o Estádio do Pacaembu.

Vargas apenas reafirmou, com seu discurso, uma concepção recorrente na época acerca do papel das atividades físicas e da necessidade de amplos espaços para manifestações de caráter cívico-político e enfatizar, na sua perspectiva, o papel de São Paulo nesse novo momento da história do país. E as cerimônias chegavam ao seu final, ainda com a participação do presidente, em outros momentos muito simbólicos ainda nas páginas d’O Estado de S. Paulo:

Anoitecia quando deram entrada no Estádio os esportistas da Polícia Especial que trouxeram do Rio, numa corrida de revezamento, a Bandeira Brasileira oferecida pelo Fluminense F. C. — primeiro estádio construído no Brasil — para ser hasteada no maior e mais moderno Estádio da América do Sul.

Nova salva anunciou a entrada do Atleta Paulista no Estádio do Pacaembu, que empunhando uma tocha, acendeu na pira adrede preparada a chama olímpica.

O hino nacional foi cantado por todos os corpos corais durante o cerimonial e terminou com o hasteamento de todas as bandeiras olímpicas no mesmo pedestal onde foi colocada a pira, em frente às bandeiras de todas as nações acreditadas junto ao governo do Brasil.

Finalizando esse cerimonial, os srs. Getúlio Vargas, Presidente da República e Adhemar de Barros, Interventor Federal, desceram ao campo, fazendo a entrega dos distintivos da mocidade aos melhores atletas de cada classe.

Pouco antes tinham os atletas brasileiros prestado o juramento.

Era, então, noite fechada.

Terminava a cerimônia e começariam, no dia seguinte, as disputas esportivas, ainda como parte da longa programação dos festejos de inauguração. O campo de futebol do estádio, até há pouco utilizado para os desfiles de atletas, seria palco de duas partidas de futebol: Palestra Itália — vice-campeão do campeonato de São Paulo de 1939 — contra o Coritiba F. C., campeão do Paraná; na partida seguinte, o Corinthians Paulista, campeão de 1939, jogaria contra o campeão mineiro, o Clube Atlético Mineiro. Essas partidas apenas tinham a função de complementar a festa realizada. Mas, efetivamente, o futebol não teve uma função complementar na história do Pacaembu.

Vistas pontuais do Estádio Paulo Machado de Carvalho (Pacaembu). Foto: Werner Haberkorn/Wikimedia Commons/ Domínio público.

Significados do monumento ao civismo

O Estádio Municipal do Pacaembu foi construído num momento de especial atenção às atividades físicas e às manifestações de massa marcadas pelo controle do Estado e pelo caráter cívico. Porém, esse estádio vai se tornar uma referência em função do futebol. Ao mesmo tempo, para esse esporte, o novo estádio representou um importante marco. O futebol, que já era um esporte muito popular, cresceria em prestígio e em atenção dos torcedores. Em São Paulo, passou a viver um momento muito especial da sua trajetória e isso graças não apenas ao novo estádio, mas também pelos reflexos da Copa de 38 e, um pouco mais tarde, pela chegada a São Paulo do jogador carioca Leônidas da Silva, considerado o grande jogador do selecionado brasileiro de futebol na Copa disputada na França e o melhor atleta desse esporte naquele momento.

Para o futebol, sem dúvida, o surgimento do Estádio do Pacaembu significou um importante divisor de águas. É possível falar do futebol em São Paulo antes do Pacaembu e com ele. Para a crônica esportiva, o Pacaembu fez crescer ainda mais a popularidade do esporte bretão em São Paulo:

A ‘época de ouro Pacaembu’, como é sabido, nasceu em 1940, com a inauguração do Estádio Municipal e desde aí cada ano que passa temos um novo recorde de renda.

Desde 1943 vem se perguntando se a ‘época Pacaembu’ atingiu o seu máximo pra daí não provocar mais recorde de renda, mas vimos que se em 43 as rendas de 1940, 41 e 42 ficaram para trás, e, 44 aconteceu o mesmo em relação a 43.[3]

Porém, apesar de o futebol ter encontrado, no Estádio do Pacaembu, um espaço para a sua expansão, ele foi, ao menos no período denominado Estado Novo, muito utilizado para as manifestações políticas organizadas pelo governo[4]. O Estádio paulistano, construído também com essa finalidade, tornava-se palco de festas cívicas. Sobre essa questão, Claudia Schemes, que analisa algumas manifestações, tanto no Brasil de Vargas, quanto na Argentina de Perón, afirma:

Quando analisamos as festas cívicas no varguismo e peronismo, também percebemos a tentativa de se produzir, através delas, uma imagem de alegria, unidade e harmonia.

Nos festejos, a imagem da sociedade unida, fraterna, harmônica aparecia com muita ênfase.[5]

Ou seja, essas foram as caraterísticas marcantes da inauguração do Pacaembu, que passaria a ser palco de outras grandes festas cívicas, como a festa de 1º de maio. “No Brasil de Vargas se enfatizava a originalidade do 1º de maio: as comemorações pacíficas e alegres desta data diferenciavam o Brasil do resto do mundo”, ainda segundo Schemes, pois, conforme publicação d’O Estado de S. Paulo, em um texto típico do DEIP:

O 1º de maio tem em todo o mundo um sentido de reivindicações conquistadas com luta e suor. No Brasil, entretanto, o 1º de maio é uma grande oportunidade, um grande dia de festa, de harmonia e de colaboração das classes trabalhadoras com o governo e com as outras classes.

A sua festa de hoje tem outro sentido, um sentido de harmonia, de problemas resolvidos, de compreensão mútua.

O 1º de maio no Brasil deixou, portanto, de ser uma data exclusivamente proletária, para ser uma comemoração de caráter nacional, onde o proletário, antes que o governo, se sente feliz em demonstrar que não há mais no Brasil nenhum clima para a luta de classes.

Porém, durante o Estado Novo, os festejos de 1º de maio no Estádio do Pacaembu sempre estiveram vinculadas ao futebol. Pois, nessas comemorações, ocorria sempre uma partida entre os principais clubes da cidade. E o público era um misto de torcedores com trabalhadores ligados aos sindicatos controlado pelo Estado. Assim era descrita a festa de 1944 pela imprensa controlada pelo regime autoritário:

Pouco depois das 14 horas, a grande praça de esportes apresentava um aspecto impressionante, não apenas pela multidão que nela se comprimia, como pela movimentação da imensidade de bandeiras, bandeirolas e dísticos, agitados pela massa. As torcidas do ‘Corinthians’ e do ‘São Paulo’[6], no seu uniforme branco, destacavam-se sobre o fundo escuro da multidão. A feição eminentemente popular das festividades e das homenagens ao sr. Getúlio Vargas era realçada pelo número, sem conta, de senhoras e crianças presentes, numa comunhão expressiva de sentimentos de apreço e simpatia pelo Chefe da Nação. A ‘concha’ do ginásio apresentava, também, um belo aspecto. Ornamentada em toda a sua extensão, abrigava, lateralmente, bandas de música do Exército, da Força Policial do Estado e de escoteiros.

De instante a instante, aviões civis faziam evoluções a baixa altitude, sobre o Estádio, atraindo a atenção popular.

Nos intervalos impostos pelo programa das festividades, os elementos do ‘Corinthians’ e do ‘São Paulo’ fizeram uma série de exibições de caráter patriótico, sendo esses belos números de movimentação coletiva longamente ovacionados pela multidão.

Nas arquibancadas reservadas aos sindicatos, os trabalhadores de S. Paulo, irmanados com os seus colegas do interior, entregavam-se a manifestações de regozijo pelas festividades do ‘Dia do Trabalho’. Os operários e operárias de Volta Redonda, simbolizando um novo sentido da vida nacional, eram também alvo de reiteradas aclamações.[7]

Essas manifestações oficiais de 1º de maio e outras comemorações necessitavam da presença do futebol, pois, sem isso, era muito pouco provável a presença de um público considerável[8]. Portanto, de maneira proposital, esses eventos eram acompanhados de partidas de futebol.

Mas não foram as festas cívicas realizadas no Pacaembu as responsáveis pelos momentos de maior emoção vividos no Estádio. Como se afirmou, a vinda do jogador Leônidas da Silva para jogar em São Paulo, no São Paulo F. C., fez reavivar, ainda mais, o gosto pelo futebol na cidade. Quando a sua contratação foi efetivada junto ao Flamengo do Rio de Janeiro, e a notícia da confirmação chegou aos torcedores do São Paulo, estes começaram a preparar uma festa de recepção para o grande jogador do selecionado de futebol, a maior figura dentro da Copa de 38 na França. A chegada do ex-jogador do Flamengo foi uma das maiores manifestações populares que cidade conheceu.

Não resta dúvida de que a ligação entre a monumentalidade do estádio do Pacaembu e a vinda de Leônidas exprimiam o sentido de uma nova era para o futebol em São Paulo. O estádio pensado pelo poder público e pelos teóricos da Educação Física como um espaço para a formação física, moral e cívica da juventude, tornou-se, rapidamente, palco de grandes partidas de futebol, com plateias cada dia maiores e mais apaixonadas.

Também os torcedores guardam muitas lembranças do aparecimento do Estádio do Pacaembu. Chico Mendes, torcedor do Corinthians, esteve no Estádio na sua inauguração e rememora a importância dele:

O Pacaembu foi muito importante. Tanto que o Corinthians jogou contra um time do Paraná. O Palmeiras jogou na preliminar e o Corinthians jogou no principal. Foi lindo, foi uma festa muito bonita. O Pacaembu fez muito pelo esporte também. Lá o nosso prefeito que fez… o Prado… como é que é?… O Fábio Prado, depois veio o Prestes, que também ajudou bastante. Foi muito linda. Inclusive, o ginásio teve grandes jogos de basquete, de boxe, tinham grandes realizações de boxe. Os argentinos vinham aí e lutavam que nem… vinham uns da Europa também que lutavam bem. O Pacaembu deu uma nova vida ao futebol de São Paulo. Assim como depois o próprio estádio do São Paulo e o Maracanã também. O Pacaembu tinha uma coisa: era aconchegante. O Pacaembu foi feito de um jeito que você está na geral, no pior lugar da geral, você enxerga bem. O Pacaembu foi bem feito. Foi bem programado, porque… ele é gostoso.

Nas lembranças de Chico Mendes, ao se referir ao Pacaembu, quase que só existe espaço para o futebol. As grandes festas cívicas, motivo maior do Estádio, foram esquecidas. Paulo Schiesari, torcedor do Palmeiras, também se recorda do que significou esse estádio para o futebol de São Paulo e do Brasil:

O Pacaembu foi muito importante, muito. Quis o destino que o 1º clube a ganhar uma partida no Pacaembu fosse o Palmeiras. Jogou contra o Atlético do Paraná, numa preliminar do Corinthians. O 1º time que jogou e ganhou no Pacaembu foi o Palmeiras. Até isso o Palmeiras tem para a sua história. A inauguração foi uma festa. Mas os detalhes eu não me lembro. Nesse dia eu não fui.

A primeira lembrança de Paulo Schiesari, torcedor do Palmeiras, era da vitória do seu clube durante os festejos de inauguração do Estádio. Mais uma vez, na memória do torcedor, fica o Estádio do Pacaembu como um espaço de grandes partidas de futebol e não como um grande centro cívico-esportivo, como foi o desejo dos seus construtores.

Por outro lado, o Estádio do Pacaembu não era apenas objeto de elogios. A imprensa esportiva, de maneira constante, apontava uma série de críticas ao Estádio e à sua administração[9]. Numa dessas críticas, afirmava o jornalista José Moura, na sua coluna diária n’A Gazeta:

E porque as notícias se dissipam facilmente é que vamos insistir aqui num ponto que nos chamou a atenção no último jogo do Pacaembu: o escoamento dos torcedores!

Que martírio, santo Deus!

Que suplício terrível, maior do que todos os suplícios, o suplício da falta de portões para o degelo da multidão dos setenta mil heróis!

Dissemos e repetimos. O Pacaembu é muito bonito mas apresenta falhas tremendas. Não tem condução. Não tem portões de acesso fácil ou de saída rápida! Só tem beleza! O setor de gerais é totalmente desprovido de requisitos indispensáveis que não faltam, aliás, nos grandes estádios do mundo!

Com um início de jogo bastante retardado em face de uma série de solenidades, o prélio dos titãs terminou às escuras. E milhares e milhares de pessoas, como duendes, andavam tateando nas trevas, procurando, prensadas, com a paciência de muçulmanos, os portões de saída.

Mas, independentemente dos maus tratos de que eram vítimas as plateias do futebol, quando iam para assistir grandes partidas de futebol, mesmo no moderno estádio do Pacaembu, este mudaria a vida do futebol na cidade. Projetado e construído para ser um espaço dedicado ao “fortalecimento da raça” — como uma grande praça de esportes para que o gosto pelo futebol também fosse o gosto pelo atletismo, pela ginástica rítmica e por outros esportes —, o Pacaembu passou para o dia-a-dia dos apaixonados pelo futebol como o lugar onde verdadeiras multidões poderiam acompanhar uma emocionante partida de futebol.

Ao mesmo tempo, o uso político que o regime autoritário fez do Estádio pode ser deixado num segundo plano. Mas, enquanto na memória dos torcedores as imagens da estreia de Leônidas continuam vivas, poucos se lembram das manifestações cívicas. Apesar do forte desejo do poder público de fazer do Pacaembu uma grande praça de esportes, até nossos dias, para a maior parte dos torcedores que ainda frequentam o Estádio, ele é sobretudo um estádio de futebol.

Assim, é possível considerar a ideia — e posterior construção — do Estádio Municipal do Pacaembu como síntese de uma época, que tinha muita preocupação com a questão do corpo do brasileiro. Mas, por outro lado, a sua construção se deu no seio de um regime autoritário, que buscou de maneira incessante inúmeras formas de legitimação, como a construção de grandes obras arquitetônicas com um forte sentido simbólico. O Estádio surgiu nesse contexto, mas se tornou efetivamente um templo do futebol, inspirando e projetando sua trajetória na memória da cidade.


[1] Alcir LENHARO, Nazismo – “O triunfo da vontade”, p. 39-41. Apesar de experiências distantes, como se afirmou, as semelhanças estavam presentes. Ao mesmo tempo, a experiência nazifascista teve influências no Brasil, e este foi um dos casos. Quando dos Jogos Olímpicos de Berlim, de 1936, muitos brasileiros que lá estiveram, voltaram maravilhados com a organização do nazismo. Como é fato que entre os auxiliares mais próximos de Vargas, havia muitos que simpatizavam com as experiências autoritárias e totalitárias da Europa.

[2] Mônica Pimenta VELLOSO, A brasilidade verde-amarela: nacionalismo e regionalismo paulista.

[3] Thomaz MAZZONI, Mais alto ainda?, A Gazeta, 06/04/1945, p. 10. Ainda nesse artigo, é apresentado o total de rendas obtidas no campeonato paulista desde a inauguração do Pacaembu: 1940: Cr$ 1.687.274,50; 1941: Cr$ 1.913.884,00; 1942: Cr$ 3.175.902,00; 1943: Cr$ 5.207.984,00 e 1944: Cr$ 6.114.528,00. Ao mesmo tempo, o público sempre crescente do futebol, a partir do aparecimento do Pacaembu, também pode ser verificado por um projeto anunciado, em 1943, do São Paulo Futebol Clube que apontava a construção de um estádio para 100.000 pessoas. Mazzoni defende a ideia do São Paulo, afirmando que, se o Estádio do Pacaembu parecia tão grande ao ser inaugurado, naquele momento já não era mais capaz de receber todos os torcedores interessados numa partida importante. Cf. Thomaz MAZZONI, O Estádio do Sumaré, A Gazeta, 07/08/1943, p. 9.

[4] Muito semelhante ao que aconteceu no Estádio de São Januário do Vasco da Gama, no Rio de Janeiro — maior estádio do país até o aparecimento do Pacaembu —, que era utilizado para as comemorações de 1º de maio, transformadas pelo governo em “Dia do Trabalho”, substituindo o “Dia do Trabalhador”.

[5] Claudia SCHEMES, Festas cívicas e esportivas no populismo. Um estudo comparativo dos governos Vargas (1937-1945) e Perón (1946-1955), p. 33.

[6] As torcidas uniformizadas prepararam essa homenagem ao presidente Vargas: “Será realizada hoje, às 20 horas, no auditório da Rádio Record, uma reunião preliminar da torcida sampaulina, para assentar pormenores de sua participação às manifestações que serão feitas ao Presidente Getúlio Vargas, no Estádio do Pacaembu, durante as festas trabalhistas. O Corinthians prestará, também, homenagem ao Chefe do Governo, fazendo comparecer ao Estádio sua torcida uniformizada.” Cf. As comemorações do “Dia do Trabalho” em São Paulo, O Estado de São Paulo, 28/04/1944, p. 7. Já o presidente do São Paulo Futebol Clube, Décio Pacheco Pedroso, fazia algumas declarações sobre as festividades que envolveria o seu clube: “[…] No dia 1º de maio, data de profunda significação social, vai o público desportivo de São Paulo, mais uma vez, assistir a um espetáculo digno de admiração, e como certeza, no seu íntimo, o grande Presidente Getúlio Vargas, presente […] no meio de milhares de operários e desportistas, sentirá uma grande alegria em ver… depois da medidas em que decretei, como foram úteis e proveitosas para a coletividade desportiva, orientadas que foram, no sentido de bem governar a grande Pátria Brasileira […]”. Cf. As comemorações do “Dia do Trabalho” em São Paulo, O Estado de São Paulo, 28/04/1944, p. 7.

[7] Concentração Trabalhista no Estádio Municipal do Pacaembu, O Estado de São Paulo, 03/05/1944, p. 1. Vale lembrar que as torcidas uniformizadas prepararam uma homenagem ao Presidente Vargas: “Será realizada hoje, às 20 horas, no auditório da Rádio Recorde, uma reunião preliminar da torcida são paulina, para assentar pormenores da sua participação às manifestações que serão feitas ao Presidente Getúlio Vargas, no Estádio do Pacaembu, durante as festas trabalhistas. O Corinthians prestará, também, homenagem ao chefe do Governo, fazendo comparecer ao Estádio a sua torcida uniformizada.”, Cf. As comemorações do “Dia do Trabalho” em São Paulo, A Gazeta, 28/04/1944, p. 7.

[8] Outras manifestações de caráter político também usavam o Pacaembu nesse período. Inclusive, com o fim da guerra e início do processo eleitoral, já em 1945, os partidos políticos surgidos naquele momento organizam comícios no estádio do Pacaembu. Este foi o caso da UDN, que fez organizar comício nesse estádio para iniciar a campanha do seu candidato Eduardo Gomes. Assim como a grande manifestação do PCB, também em 1945, depois que Prestes foi libertado. Cf. A situação política, O Estado de São Paulo, 17/06/1945, p. 3.

[9] Por parte dos clubes, havia uma reclamação quanto ao aluguel que a Prefeitura de São Paulo cobrava. Essa questão pode ser percebida num artigo de jornal: “O primeiro clube carioca não mais quer jogar no Pacaembu. Este, como é sabido, é o Fluminense, informando que importa em muitas despesas. Aliás, corre o boato de que os próprios Corinthians e Palestra desistiram de jogar domingo próximo no Estádio Municipal, alegando que, se a renda é superior, pouco compensa, devido ao… luxuoso aluguel […] é fato que o estádio do Pacaembu está criando fama de ser, para o nosso futebol, o mesmo que a hospedagem de um hotel de primeira classe para um pobre…” Cf. O Fluminense e o “Pacaembu”, A Gazeta, 14/08/1940, p. 9.