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Índios do Brasil Sport Club

Cleber Dias

Alguém que visite uma aldeia indígena talvez se surpreenda com a quantidade e a intensidade de uso dos campos de futebol, às vezes praticado todos os dias. Mas quando e de que maneira teria começado o fascínio dos índios brasileiros pelo esporte bretão?

No final dos anos 50, durante pesquisa etnográfica entre os Xavante, no Mato Grosso, o antropólogo Maybury-Lewis registrou em seu diário “a paixão, ou pode-se mesmo dizer, o vício do futebol”. De acordo com ele, já naquela época, “todos jogavam, jovens e velhos, e a toda hora”.

Para outras etnias, porém, o esporte começou antes disso. Em 1929, índios Karajá, da Ilha do Bananal, conheciam seu primeiro clube: o “Esporte Clube Índio Carajá”. Iniciativa de funcionários do Serviço de Proteção aos Índios (criado em 1910 e substituído em 1967 pela atual Funai), o clube, além de “promover a instrução física da mocidade forte e saudável da tribo através de teams de water polo”, conforme diziam alguns documentos da época, também organizava partidas de futebol entre equipes de índios versus “civilizados”. Infelizmente, ainda não descobri quem levava a melhor nessas pelejas.

Futebol no Vale do Javari, entre Canamaris e Marubos. Foto: Guilherme Setani.

Para muitos povos indígenas, o contato com esportes acompanhou a expansão das fronteiras agrícolas nacionais. Para algumas aldeias Kaigang, por exemplo, quase poder-se-ia dizer que a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil apresentou-lhes a bola, o goal, o keeper e tudo mais que geralmente seguiu a expansão global do foot-ball. Em 1905, o início da construção da ferrovia deflagrou um violento conflito, que só fez se intensificar na medida em que avançavam locomotivas pelas tradicionais terras Kaingang. Em 1912, depois de estabelecida relação relativamente pacífica com alguns grupos, organizou-se visita de alguns deles até São Paulo. Levaram-nos à delegacia, ao cinema, aos quartéis, mas também aos clubes nas margens do Tietê, onde puderam entrar em contato com práticas até então estranhas e desconhecidas, como o law-tenis e o futebol. Por volta de 1928, índios Kaingang e Terena do Posto Indígena Araribá, no Oeste Paulista, já formavam equipes para disputar suas próprias partidas.

Anos depois, nos idos de 1940, ainda mais familiarizados com o jogo de chutar a bola com os pés, índios do Posto Cacique Doble, no Rio Grande do Sul, participavam do “Kaingang Futebol Clube”, que além do plantel futebolístico, ainda organizava atividades como grupos de escoteiros.

Partida de campeonato na Terra Indígena Sangradouro, região de Primavera do Leste (MT). Foto: Fernando de Luiz Brito Vianna.

Há quilômetros e quilômetros dali, a noroeste de Cuiabá, estações telegráficas inauguradas pela Comissão Rondon (1908-1915) também levavam consigo novos hábitos e costumes, entre os quais, o da prática de esportes. Nesses casos, quase poder-se-ia dizer que esportes chegavam através de um fio. Após o estabelecimento de estações telegráficas, logo se providenciava a criação de núcleos populacionais nas suas imediações, cujo propósito era “disseminar a civilização no sertão”. Para o “progresso moral e mental” – conforme diziam – criavam-se escolas que, entre outras coisas, ensinavam a ginástica sueca e o futebol.

Apesar de em larga medida ter sido disseminado com propósitos coloniais, o esporte foi criativamente apropriado por povos indígenas. Contrariando intenções iniciais pelas quais tais práticas foram difundidas, atualmente, elas servem a causas muito diversas, desde mobilizações políticas mais gerais até o fortalecimento de identidades étnicas. No século XXI, gostemos ou não, esportes também constituem parte das mais autênticas tradições indígenas – se é que ainda faz algum sentido falar em “autenticidade” de tradições.

Final de futebol feminino de areia, entre as etnias Umutina e Pataxó, na nona edição dos Jogos dos Povos Indígenas. Vitória das Pataxó. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil.

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[1] Interessados em mais detalhes sobre o assunto, podem consultar em breve artigo de minha autoria, na Revista Pensar a Prática, número especial, no prelo: “A igreja, o Estado e a bola: história do esporte entre índios do Brasil Central” (http://www.revistas.ufg.br/index.php/fef).