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A influência militar no Partizan Belgrado

Dyego Lima

Fundado no dia 4 de outubro de 1945, o Klub Fudbalski Partizan tem como sede a cidade de Belgrado, capital da Sérvia. Surgiu como um time militar do JNA (Jugoslovenska Národná Armijo), o Exército Popular Iugoslavo. O termo Partisan tem como significado, literalmente, “grupo organizado em um partido político”. Porém, durante a 2ª Guerra Mundial, recebia esse nome todo o grupo paramilitar, geralmente sem qualquer tipo de treinamento, formado com o intuito de resistir à intensa ocupação das forças alemãs durante o conflito. Foi assim apelidado o Exército Popular da Libertação da Iugoslávia, que lutou contra as forças do Eixo nos Bálcãs.

Por ter o preto e o branco como cores predominantes, são conhecidos como Grobari (Coveiros, em português). No entanto, nos primeiros treze anos de existência, quando ainda fazia parte do Exército, utilizava as cores azul e vermelho. Hoje em dia, elas são costumeiramente utilizadas em seus uniformes reservas. Sua casa é o Stadion Partizana, apelidado de O Templo, com capacidade para pouco menos de 33 mil torcedores. Também conhecido como Stadion JNA, foi herdado do antigo BSK Belgrado, clube extinto durante a guerra, mas que posteriormente viria a formar o atual OFK Belgrado.

Coveiros comemoram o título na partida da 37 rodada da Super Liga Sérvia, disputada em 21 de maio de 2017. Foto: Wikipedia.

É lá que o Partizan sedia O Clássico Eterno contra o Estrela Vermelha, seu principal rival. Esse é o maior duelo do país e um dos mais violentos da Europa. Em setembro de 2009, em ranking elaborado pelo periódico britânico Daily Mail, o confronto foi classificado como o 4° maior do mundo em termos de rivalidade. Entre as décadas de 1980 e 1990, grande parte dos torcedores do Partizan tinha um comportamento racista e homofóbico, fomentados pela Igreja Ortodoxa Sérvia. Isso porque grande parcela da torcida do Estrela Vermelha era miscigenada, enquanto a do clube era de maioria branca. É comum ouvir os adeptos do Partizan se referirem aos do rival como “ciganos’’, algo imperdoável entre os Sérvios. Deixando a paixão ultrapassar todos os limites, houve até um episódio em 2016 no qual ultras do clube agrediram um dirigente em frente ao estádio.

Um grande início

O Partizan começou sendo dirigido por um grupo de jovens oficiais do Exército Popular Iugoslavo, juntamente com alguns veteranos da Guerra Civil Espanhola. Em agosto de 1946, a Liga Iugoslava foi iniciada e o clube fez a sua 1ª partida oficial, batendo o Pobeda Skoplje por 1 a 0. Apenas em 1953, o clube encerrou oficialmente a sua ligação com o Exército. E foi justo nesta década que o Partizan, mesmo contando com um elenco forte, viveu uma seca de títulos da Liga. Venceram “apenas’’ a Copa nos anos de 1952, 54 e 57. Em 1955, o clube participou da primeira partida da história da Uefa Champions League, empatando em 3 a 3 com o Sporting, em Lisboa. Milos Milutinovic foi o autor do primeiro gol da competição.

Com um início de vida considerado ruim pelos dirigentes, com dois títulos da Liga Iugoslava e quatro da Copa em seus primeiros 15 anos de existência, o clube decidiu mudar. Primeiro, esteticamente: abandonaram o azul e vermelho do uniforme e adotaram o preto e o branco. Dentro de campo, passaram a utilizar inúmeros jogadores oriundos das categorias de base. The Partizan’s babies se tornou uma das melhores gerações de jogadores que a Europa já tinha visto. E a aposta trouxe resultados: o time foi campeão nacional entre 61 e 63, o primeiro tricampeonato da história da Liga Iugoslava. Em 65, venceram o quarto campeonato em cinco anos. A equipe acabou recebendo o apelido de Parni valjak (Rolo-compressor).

Time do Partizan posa para foto na final da Liga dos Campeões, contra o Real Madrid, em 1966. Foto: Wikipedia.

Foi na temporada de 1965–66 que o Partizan fez a sua melhor campanha numa Champions League. O clube eliminou Nantes, da França, Werder Bremen, da Alemanha, Sparta Praga, então da Tchecoslováquia, e Manchester United para chegar à final contra o Real Madrid. Em partida única realizada em Bruxelas, capital da Bélgica, a equipe acabou com o vice-campeonato ao perder para os merengues por 2 a 1. Tornou-se o primeiro time da Europa Oriental a alcançar a final do torneio.

Oscilação

Dragan Mance. Foto: Wikipedia.

No período após a final europeia e o início do ano de 1976, uma turbulência chegou ao clube. A diretoria não soube operar com o time em alto nível, o que gerou uma crise institucional. Vários jogadores assinaram com equipes maiores, e aquela promissora geração foi desfeita. Durante todos esses anos, título algum foi conquistado. A seca acabou no dia 11 de julho de 76. O Partizan chegou à última rodada da Liga precisando de uma simples vitória contra o Olimpija para “roubar’’ o título do Hajduk Split. Já no último minuto, Nenad Bjekovic marcou o gol que encerrou o período de dez anos de espera. Em 78, o oitavo Campeonato Iugoslavo foi vencido. Nesse mesmo ano, o clube venceu o seu primeiro troféu europeu.

Trata-se da Copa Mitropa, uma espécie de Champions League disputada por clubes da Europa Central. Após vencer um grupo que contava com Perugia, da Itália, e Zbrojovka Brno, da Tchecoslováquia, o Partizan bateu em casa o Honvéd, da Hungria, e sagrou-se campeão. Inesperadamente, o clube viveu, em 1978–79, a sua pior temporada. Terminaram em 15° lugar no campeonato nacional, evitando o rebaixamento depois de uma vitória por 4 a 2 contra o Buducnost na última rodada.

Para a temporada 1982–83, o clube contratou Moncilo Vukotic, Nenad Stojkovic e Nikica Klincarski. Eles foram somados a Ljubomir Radanovic, Zvonko Zvikovic, Zoran Dimitrijevic, e a um jovem chamado Dragan Mance. Mais um ótimo elenco foi formado. O título iugoslavo foi conquistado mais uma vez, com Mance anotando 15 gols. No entanto, uma tragédia aconteceu. Mance, no auge de sua carreira, morreu em uma batida de carro na Novi Sad-Belgrade Highway no dia 3 de setembro de 85, a poucos dias do seu aniversário de 23 anos. Em sua homenagem, uma rua próxima ao estádio do Partizan foi batizada com o seu nome em 2011.

Polêmicas

Entre 85 e 87, alguns acontecimentos agitaram o futebol do país. Na temporada 1985–86, o Partizan, após uma vitória por 4 a 0, venceu a Liga pelo saldo de gols. Porém, Slavko Sajber, presidente da Federação Iugoslava, decidiu que toda a última rodada deveria ser disputada novamente por acusações de manipulação de resultados. Os alvinegros se recusaram a entrar em campo, então o título foi dado para o Estrela Vermelha. Por esses eventos, na temporada seguinte, 12 clubes, dentre eles o Partizan, iniciaram o campeonato com -6 pontos. Ao final, o Vardar, que não teve nenhuma dedução, acabou campeão.

No entanto, após julgamentos na Corte Constitucional do país em 87, ficou decidido que a tabela final original da temporada 85–86 seria a levada em consideração, e os Black-Whites acabaram com o troféu. Também foi acordada a devolução dos pontos retirados aos 12 times no último campeonato. Assim, o Partizan também foi confirmado como o vencedor da temporada 86–87.

A Iugoslávia acabou. Os títulos, não

Após a morte do Presidente Josip Broz Tito em 1980, a tensão cresceu na Iugoslávia, resultando em guerras civis separatistas no início dos anos 90. No fim de maio de 1992, o Conselho de Segurança da ONU impôs duras sanções ao país. Isso resultou no isolamento político da nação, queda na economia e hiperinflação da moeda, fazendo com que os clubes iugoslavos sumissem do cenário internacional. E em meio à desintegração da Iugoslávia, o Partizan seguia vencendo. Foi durante as guerras que o clube venceu a Liga nos anos de 1993, 94, 96, 97 e 99. Na Copa, o clube foi campeão em 92, 94 e 98. A chave para esse sucesso atendia pelo nome de Ljubisa Tumbakovic, técnico mais vencedor da história do time.

Stjepan Bobek, o maior artilheiro da história do clube. Foto: Wikipedia.

O início dos anos 2000 continuou sendo de vitórias. Tumbakovic conduziu o time a mais dois títulos da Liga, em 2001–02 e 2002–03. Na Champions League de 2003–04, apesar da eliminação na 1ª fase, o clube não foi derrotado em casa, conseguindo empates contra o Real Madrid dos Galácticos, o Porto de José Mourinho, que seria o campeão, e um Olympique de Marseille que contava com Barthez e Drogba. As temporadas de 2007–08 e 2008–09 foram as melhores do clube na história. A Liga e a Copa foram vencidas nas duas, feito inédito. O nacional ainda seria conquistado nas quatro temporadas seguintes.

Sem nenhuma conquista, a época 2013–14 foi a pior nos últimos dez anos. Porém, a Liga seria ganha na temporada seguinte. Em 2015–16, o Partizan venceu a Supercopa da Sérvia depois de cinco anos, e sem sofrer gols, algo inédito na história do torneio. Em 2016–17, o início foi ruim: eliminação na Europa League e muitas derrotas no Nacional. Contudo, o jovem técnico Marko Nikolic retornou e o time engatou uma sequência de 37 jogos invictos, contando Liga e Copa. Os dois troféus foram vencidos no mesmo ano pela sexta vez. O meia brasileiro Leonardo e o sérvio Uros Durdevic marcaram 24 gols cada um, sendo os destaques da campanha. Foi o último título sérvio do clube. A Copa ainda seria ganha em 2018 e 19.

O Partizan teve grandes jogadores ao longo de sua história. O croata Stjepan Bobek é não só o maior artilheiro do clube com 403 gols, mas também da Seleção Iugoslava com 38. Milan Galic foi finalista da Champions de 1966 com o clube e camisa 10 da Iugoslávia na conquista da medalha de ouro olímpica em 1960. Predrag Mijatovic e Mateja Kezmán foram outros com passagens importantes pelo time.


Como citar

LIMA, Dyego. A influência militar no Partizan Belgrado. Ludopédio, São Paulo, v. 136, n. 53, 2020.