94.24

Inimigos públicos

Marcos Teixeira

Muito foi dito sobre o desentendimento entre o repórter Felipe Garraffa, da Rádio Bandeirantes de São Paulo, e Vágner Mancini, técnico do Vitória. Mas, diferentemente de falar do erro de Garraffa, que baseou sua pergunta com números equivocados, e da posição antagônica de Mancini, esta coluna vai abordar o aspecto mais perigoso do tema: a imagem do Jornalismo.

Garraffa, como todos os profissionais que militam na imprensa esportiva, tem seu time de coração. Eu tenho. Você, leitor, certamente tem também. Então qual é o problema nisso? Um dos motivos, se não o principal, que fazem o jornalismo esportivo ser a carreira esportiva escolhida, é justamente esse.

E por que eu abordo isso?

Tuites Garrafa

Porque um bando de imbecis resolveu desenterrar uma série infeliz de tuítes datada de 2011, quando ele, Garraffa, não era sequer estudante de jornalismo, como se isso provasse algo sobre o caráter ou o procedimento de seu trabalho. Aí está o único erro cometido pelo treinador: desqualificar quem fez a pergunta ao questionar seu time de coração, quando poderia apenas desconstruí-la com argumentos.

Em tempos de redes anti-sociais, onde cara palerma encontra uma tribuna para chamar de sua, Mancini jogou o repórter às feras. Estas, por sua vez, mostram que gostam apenas de quem fala o que querem ouvir, seja verdade ou não.

E o jornalista é quem sofre, independentemente da editoria. O que separa o “grande jornalista” do “vendido de merda” é a sua opinião. Da mesma forma, se o jornalista usa o ofício para ser um representante de seu time na imprensa, não serve para sê-lo.

Mauri König, premiadíssimo jornalista paraense e diretor da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, diz que não acredita em sociedade sem jornalismo. Estados de Exceção são caracterizados pela privação da liberdade de imprensa. Este é o caminho que vem sido trilhado, no esporte ou na política.

Este é o perigo.

Quem aponta o dedo para quem critica seu time e aplaude os que elogiam não passa de um idiota. Quem acha que o jornalista persegue seu time só porque torce pelo rival é um idiota. Aqueles que acham que a vida de quem cobre o dia-a-dia de clubes é fácil e que qualquer uma faria isso apenas por gostar de futebol, além de idiotas, são invejosos.

Esse “nós contra eles” faz do jornalista uma espécie de inimigo público. Ainda mais quando muita gente, se munida de um computador logado em rede social, se julga capaz de comentar com propriedade sobre tudo. É uma espécie de tribunal em que o juiz pouco lê, mas muito fala.