110.8

Interinos

Leandro Marçal

Ouvi o anúncio da demissão do técnico e não me surpreendi. Já era uma decisão prevista nas últimas semanas, só não viu quem não quis. A torcida comemorou. Ninguém mais aguentava tanta incompetência no banco de reservas. Ele não sabia montar o time, diziam uns. Acabou a paciência, gritavam outros.

Nesse esporte, é permitido torcer pela perda do emprego. No dia a dia, ninguém comemora a rescisão contratual do padeiro ou grita “fora, motorista da linha 5”.

O tema do debate televisivo ainda era o substituto do antigo treinador. Descreviam o jeito de quem o substituiria na rodada de meio de semana. Não era bem um novo nome, mas um velho funcionário do clube. Treinava a base e assumiu o time principal duas ou três vezes. Passaram a chamá-lo interino, o técnico interino.

Estranhei. Lembrei as aulas de português nos primeiros anos da escola. Na lição sobre redundâncias, a classe era proibida de repetir expressões como “subiu pra cima / desceu pra baixo”.

– Se subiu foi para cima, se desceu foi para baixo – salientava a professora. Filha única, ali se orgulhava ao ser intitulada tia. Faltava um complemento: se é treinador de futebol, é interino. Bastam três ou quatro semanas ruins, uns tropeços daqui e umas derrotas de lá.

Quando recebi a notícia de um amigo doente, prestes a partir, pensei nos técnicos interinos. Bastou uma sequência de dois ou três exames ruins para que sua despedida desses gramados fosse assim, abrupta.

interinos

Interinos. Foto: Rafael Ribeiro/CBF.

Não adiantaram os protestos da torcida, pedindo que ficasse aqui por mais tempo. Ainda teria muitos jogos a disputar. Foi como se a diretoria tocasse seu telefone e o convocasse para uma reunião urgente. Chegando lá, mal teve tempo de se despedir do seu elenco. Entregou o crachá e se sentiu obrigado a jogar em outros clubes. Sem a necessidade de entregar currículos.

Parei uns minutos diante da televisão, pensando na interinidade do apresentador e dos comentaristas. De certo, não há nada definitivo. E o futebol insiste em jogar essa verdade nas nossas caras a cada temporada, campeonato, rodada. Mesmo assim, pensamos na segurança do contrato longo, nas rescisões milionárias, nos tetos que ainda não desabaram sobre nossas cabeças.

Desliguei a televisão e saí. Esperei uns carros passarem, atravessei a rua. Um cachorro sem dono me seguiu. Continuei meu caminho. Já não pensava mais no técnico demitido ou no interino, mas na tristeza por outra despedida.