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Investimento em mulheres e o futuro do esporte

Wagner Xavier de Camargo

Em meados de 2019, províncias e territórios canadenses foram surpreendidos com o anúncio, feito pelo governo federal, de um montante de U$ 30 milhões de dólares para buscar e promover a equidade de gênero no esporte. Mais especificamente, o foco serão as práticas esportivas de meninas e mulheres, que têm enorme potencial para desenvolvimento, inclusive no futebol. Consta que tal investimento é inédito e sem precedentes, e que muito dele visará dar maiores condições de equidade de participação e visibilidade nas políticas inclusivas de gênero no esporte.

Esta notícia foi comemorada pela Associação Canadense para o Avanço da Mulher no Esporte e Atividade Física (Canadian Association for the Advancement of Women and Sport and Physical Activity – CAAWS), que já vem fomentando a liderança de mulheres no cenário esportivo há muito tempo e que teria parte deste orçamento aprovado para suas ações. Ela tem desenvolvido transformações importantes no sistema esportivo canadense de modo a criar ambientes mais acolhedores às mulheres, diminuindo o preconceito e a discriminação, combatendo o machismo e a violência de gênero (notadamente, estupro, no caso do hóquei no gelo). Além disso, é papel da CAAWS também mover recursos e serviços para incentivar ferramentas que ajudem organizações esportivas sem fins lucrativos a promoverem mulheres em cargos de liderança, de modo a criar permanência delas nestes espaços conquistados.

Este investimento em gênero tomando como foco as mulheres (em amplas faixas etárias e classes sociais) em vários lugares do campo esportivo não é apenas uma política social engajada do governo de Justin Trudeau, iniciado em 2015. É, sim, uma estratégia extremamente inteligente de pensar, ao mesmo tempo, um melhoramento das condições de existências de tais sujeitos dentro do esporte e, em consequência, de propor, em perspectiva, um novo desenho para o futuro do esporte. É a partir de experiências como essa que mulheres no campo esportivo (atletas, técnicas, juízas, árbitras, dirigentes, etc.) podem prosperar pessoal e profissionalmente, desafiando os próprios limites e as difíceis barreiras sociais/de gênero a que a elas são, cotidianamente, impostas.

Bandeira do Canadá alterada com as cores do movimento social LGBT. Foto: Toni Reed/Unsplash.

Enquanto isso, neste mesmo ano comemoramos por aqui 40 anos de liberação legal para que as mulheres brasileiras pudessem competir em modalidades esportivas e atléticas que bem entendessem: revogou-se, em 1979, o artigo 54, do decreto-lei 3.199, de 1941, que determinava que “Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país[1]. Porém, na medida em que vivemos um dos tempos mais sombrios em termos de políticas públicas no Brasil, não temos muito o que comemorar.

O futebol de mulheres agoniza em âmbito nacional, vivendo uma eterna realidade de “chão de fábrica”, muitas vezes pior do que muito do que acontece em segundas ou terceiras divisões do futebol de homens. Talvez com alguma exceção relativa ao voleibol praticado por elas, outras modalidades de mulheres inexistem (ou subsistem), numa frouxa estrutura esportiva, que carece de apropriado desenvolvimento. Modalidades inovadoras e recentes, como skate, caratê ou mesmo surfe apresentam-se como promessas para os Jogos Olímpicos de Tokyo-2020, e sobrevivem de iniciativas pessoais e de clubes ou mesmo governos locais (como o projeto de construção de pistas de skate por parte do governo de Minas Gerais).

Enquanto fazemos nossa desconstrução caseira de rasos estereótipos de atribuição binária de cor para gêneros (“rosa é para meninas e azul é para meninos”, como recentemente mencionou dada ministra do atual governo), precisamos questionar os chamados “papéis” sexuais destinados a meninas e meninos frente a atividades físicas e esportes, pois se não questionados imputarão valores e atitudes que se desenvolverão no mundo esportivo, os quais garantirão a manutenção das múltiplas discriminações contra mulheres e a noção de que o esporte é um espaço reservado aos homens, única e exclusivamente.

No cenário surreal e apocalíptico em que vivemos atualmente no país nós, brasileiras/os, já nem conseguimos pensar, de modo claro, o que temos que garantir para as gerações futuras, tamanha é a distorção do que certa classe política tem orquestrado. Arrisco dizer que nossa própria sobrevivência enquanto sujeitos depende de nossa resistência frente ao que está acontecendo. O debate sobre gênero e, em especial, o lugar das mulheres no esporte e na sociedade estão, mais do que nunca, em jogo nestes tempos inglórios.

Que o exemplo canadense acalente nossos sonhos e oriente nossas ações para discutirmos cada vez mais a participação de mulheres no cenário esportivo. Que busquemos um sistema esportivo equitativo e inclusivo, que capacite meninas e mulheres dentro e através do esporte. Que o sistema binário sexual de divisão categorial no esporte consiga se repensar, dando um lugar legítimo a sujeitos em transição de gênero (mulheres e homens-trans), até agora sem espaço.

Como já disse alguém: “o futuro é das mulheres!”. E, possivelmente, também o será no âmbito dos esportes.


NOTAS DE RODAPÉ

[1] Decreto-lei n. 3.199, de 14 de abril de 1941 (Publicação Original). Disponível em: <https://www2.camara.leg.br/legin/fed/declei/1940-1949/decreto-lei-3199-14-abril-1941-413238-publicacaooriginal-1-pe.html>. Acesso em: 16 abr. 2019.