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Ir ao estádio, torcer, desfrutar. Corinthians em Floripa

Alexandre Fernandez Vaz

Para Otavio

Para Danielle Torri

 

Depois de décadas sem frequentar estádios de futebol, foi em 2003 que voltei a eles. A ocasião pedia: o Figueirense Futebol Clube, de Florianópolis, estrearia na Série A do Campeonato Brasileiro contra o Sport Club Corinthians Paulista. Meu irmão, corintiano como eu, insistiu amavelmente para que fôssemos à partida com amigos dele e seus filhos. Havia um sabor de aventura na experiência daquela tarde de domingo, sentimento aumentado pelo fato de que estaríamos em meio aos torcedores do Figueira, já que, sem saber o que nos esperava, temíamos pela segurança das crianças se fôssemos para o local destinado aos visitantes. Não era para tanto. Não ficamos desconfortáveis e foi um luxo assistir à Fiel Torcida fazer a festa atrás de um dos gols. Em outros momentos, estaríamos também nós entre os nossos.

Logo ao entrar, fui detido na revista, o comandante do policiamento era um antigo colega de escola que me pregava uma peça. De imediato, ele paramentado com farda e capacete, não o reconheci. O sorriso fez a denúncia e trocamos algumas palavras divertidas. Ele se revelou avaiano, ou seja, perfilava nas tribunas do histórico rival do alvinegro do bairro Estreito. “Vim pra secar”, asseverou. Acreditei.

Antes do início da partida, a Taça de Campeão Catarinense foi entregue a Márcio Goiano, capitão da equipe e zagueiro que fazia excelente dupla com Cléber, que antes brilhara no Palmeiras e em outros clubes, com passagens importantes pela seleção nacional. Times em campo, a torcida do Furacão saudou cada jogador, como de praxe, destacando, entre outros, o veterano Evair, que logo encerraria a carreira, e o jovem Filipe, lateral-esquerdo de dezessete anos, que estreara entre os profissionais no estadual daquele ano. Hoje ele é Filipe Luís, do Atlético Madrid.

O Corinthians, por sua vez, tivera uma temporada anterior excelente. Fora campeão do Torneio Rio-São Paulo e da Copa do Brasil, chegando ao vice-campeonato brasileiro em partida final épica contra o Santos de Diego e Robinho. O primeiro praticamente não atuou, substituído logo a um minuto de jogo, lesionado; o segundo foi o grande protagonista e ficou para a história pela sucessão de pedaladas que desnorteou o lateral-direito Rogério que, sem alternativas, cometeu pênalti. Cobrado e convertido pelo próprio Robinho, foi o primeiro dos três gols do time da Baixada.

Não era fraco, portanto, o time que enfrentou o Figueira naquele abril de 2003, no Estádio Orlando Scarpelli. No banco já não estava Carlos Alberto Parreira, que voltara a ser treinador da seleção brasileira, mas Geninho. O estilo de jogo ainda era, no entanto, o mesmo, com muita posse de bola, estrutura tática bem definida e eficiente, com espaço para a técnica de Jorge Vagner, Gil e Liédson. Na zaga, assim como o Figueirense, uma dupla sólida, composta por César, que substituía Ânderson, e Fábio Luciano. O time da casa esteve por vencer a partida em mais de um momento, os paulistas tiveram paciência para encontrar o empate, em três gols, ao final do jogo. O derradeiro foi de César, que falhara no tento de Evair ao, posicionando-se mal, dar-lhe condições de jogo. Redimiu-se, o empate prevaleceu, saímos todos contentes.

Figueirense e Corinthians em 2016. Foto: Rodrigo Gazzanel/ Agência Corinthians.

Depois dessa estreia, fui a outros jogos do Corinthians contra o Figueirense, sempre nos domínios deste último. Em mais de uma ocasião fiquei entre os visitantes. Em uma delas vi William, hoje no Chelsea, presentar um torcedor com a camiseta, atirada por cima do alambrado. Veio alguém das Organizadas e obrigou-lhe a devolver o mimo, não aceitando que alguém do time, que estava tão mal, pudesse fazer um gesto amistoso. Em outra vez, presenciei a negociação dos líderes de torcida com a Polícia Militar para que o espaço a nós destinado fosse ampliado, diminuindo-se a área de segurança que nos separava das arquibancadas locais. O êxito da conversa foi comemorado com o coro de “O curral é nosso, o curral é nosso”! Naquela mesma noite, ouvi os gritos de apoio a Marcelo Ramos, que não fazia um gol havia tempos, quando se colocou para a cobrança de um pênalti ao final da primeira etapa. Eu estava atrás da trave oposta, defendida pelo corintiano Rubinho, mas vi bem o atacante chutar forte e alto, na parte esquerda da meta de Edson Bastos. O placar não se mexeu mais, apesar da pressão do alvinegro paulista, já de antes do gol, aliás.

Se não foram poucas as partidas entre Figueirense e Corinthians, mas bem que poderiam ter sido mais, não houvesse o time do Estreito, aproximando-se de seu coirmão Avaí, deixado de frequentar com assiduidade a primeira divisão nacional. Na única vez em que o Timão esteve na Série B, o Figueira ainda era figura certa no álbum do Brasileirão.

Em 2015 o time que seria campeão brasileiro aplicou um convincente três a um no anfitrião, com magistral atuação de Renato Augusto, tão boa que teve direito à falha na própria área, quando quase saiu um gol do adversário. Mas, lá estava o supercampeão Danilo na cobertura e tudo não passou de um susto. Renato levantou o braço, assumindo a responsabilidade pelo deslize. Poucas semanas depois da partida viajei para uma longa temporada em Berlim, levando comigo a certeza de que o título viria. E ele veio.

Inesquecível, no entanto, foi o jogo da penúltima rodada do Brasileiro de 2011. Vencendo e contando com um empate do Vasco frente ao Fluminense, o título estaria garantido. Controlando o jogo com segurança, o triunfo corintiano veio da cabeçada de Liédson, chamado em Portugal de Levezinho, ao completar cruzamento de Alex. A vitória do Cruz-Maltino no Engenhão se confirmou com um gol salvador apenas aos quarenta e cinco do segundo tempo, quando a contenda em Floripa já terminara e os jogadores do Corinthians permaneciam no gramado, prontos para a comemoração do título, que teve de esperar por uma semana. As torcidas dos dois times estavam em parte mescladas, tal o número de corintianos. Gaviões da Fiel e Gaviões Alvinegros haviam compartilhado uma churrascada horas antes.

Naquele final de novembro, domingo, eu estava contente. A expectativa era que meu time seria campeão, embora eu não soubesse que ele alcançaria os títulos da Libertadores e do Mundial no ano seguinte. Sócrates acusara melhora da aguda enfermidade, ainda não morrera. Na tarde quente de primavera, já com o verão se avizinhando, estava com amigos no estádio. Estava com meu irmão.

Ilha de Santa Catarina, dezembro de 2018.