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Ir aonde o Corinthians estiver

Plínio Labriola Negreiros

Talvez desde as origens do futebol oficial no Brasil, quando uma equipe joga no campo do adversário, há o acompanhamento de pessoas ligadas à direção dessa equipe e os que eram conhecidos como os aficionados, hoje, chamados de torcedores. O Corinthians Paulista, fundado em setembro de 1910, fez partidas fora de São Paulo já no ano seguinte. Há jogos em Jundiaí e Campinas. Além dos jogadores do 1º. e 2º. times, viajavam alguns diretores do novo clube e, é bem possível, os primeiros torcedores do Corinthians. Ou seja, aqueles que nem eram jogadores nem diretores. Em geral, os clubes que surgiam no começo do século XX, necessariamente, os jogadores eram sócios e, em alguns casos, também diretores. Nasciam, assim, as caravanas.

No momento em que eu comecei a acompanhar os jogos do Corinthians, inclusive nos estádios (ver, por exemplo, o texto Os tempos do futebol), não tinha dimensão da presença dos corinthianos em jogos fora de São Paulo. Não achava possível que se viajaria para ver uma partida de futebol. Demorei algum tempo para descobrir isso. A materialização radical dessa descoberta veio em 1976, quando os principais jornais de São Paulo acompanharam as caravanas de corinthianos, via ônibus, para o Recife; estes torcedores foram apoiar o time em uma partida decisiva contra o Santa Cruz. Saíram de São Paulo duas caravanas, a dos Gaviões da Fiel e a da Camisa 12, torcidas organizadas. Na semana seguinte, veio o maior deslocamento de torcedores que se tem notícia no Brasil, no qual corinthianos se deslocam para o Rio de Janeiro, em uma semifinal do Campeonato Brasileiro. Tratei das caravanas para o Recife e o Rio de Janeiro no artigo A ocupação corinthiana, 05 de dezembro de 1976.

Para mim, como deve ter ocorrido com muitos corinthianos, o impacto da Invasão do Maracanã foi grande. Entre outros efeitos, comecei a frequentar, assiduamente, a sede dos Gaviões da Fiel. Aliás, a nova sede, inaugurada no início de 1977, no Bom Retiro. Tinha me associado em outubro de 1975, mas sem uma ligação efetiva. A partir de 1977, a história era outra. Passei a ir a todos os jogos em São Paulo. Ia à quadra. Ajuda em muitas coisas. Em regra, ao final das partidas, ajudada a dobrar as muitas bandeiras. E diante desse novo momento, nasceram as condições para ver o Corinthians jogar fora de São Paulo. Entre os gaviões, era comum a provocação de que alguns eram torcedores “de Pacaembu e Morumbi”. Ou seja, não eram capazes de radicalizar sua paixão pelo clube.

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Torcedores do Corinthians. Foto: Fábio Soares/Futebol de Campo.

Obviamente, eu aceitei a provocação. Mas não era fácil. O ingresso de uma partida não era caro, ao menos para mim. Tinha 15 anos e negociava com meu pai durante a semana os 10 cruzeiros da arquibancada. Mesmo sem trabalhar, o valor das entradas estava garantido. Viajar, porém, era outra história. Havia, ao menos, dois fortes empecilhos: o custo financeiro e a necessidade de autorização formal dos pais para um menor viajar sozinho. Na estação ferroviária ou rodoviária, havia uma sucursal do juizado de menores para registrar a autorização. Tal autorização era exigida para cada viagem.

Após longas negociações familiares, finalmente, em junho de 1977, viajei três vezes para ver o Corinthians jogar fora de São Paulo. Primeiro, em Campinas, contra o Guarani; a seguir, contra o Comercial, em Ribeirão Preto; e ainda contra a Portuguesa Santista, em Santos. Ao mesmo tempo, não fui para Jaú, São José do Rio Preto, Sorocaba, Piracicaba e Araraquara. Existiam muitas razões para isso acontecer, especialmente o custo pela impossibilidade de ir de trem ou quando eram partidas no meio da semana.

O custo da caravana dos Gaviões, mesmo eu sendo associado, era muito alto para as minhas condições financeiras. Aliás, para um bom número de outros corinthianos. A saída era o transporte ferroviário, mais barato, ainda que com menos opções de horários e mais muito mais demorado. Vale lembrar que as viagens rodoviárias também eram lentas, diante do controle de velocidade, 80km por hora, em função da economia de combustíveis. Era o tempo da crise do petróleo. De qualquer forma, comparando trem, ônibus e automóvel, o primeiro era o mais demorado e com muitos riscos de quebra, entre outros percalços.

Se o trem era a forma mais barata de deslocamento para o interior paulista, vale ressaltar as duas categorias oferecidas pelas companhias ferroviárias em São Paulo: primeira e segunda classes. Na primeira, havia lugares marcados e poltronas confortáveis e reclináveis. Na segunda, as condições eram outras, com bancos mais duros, sem lugar reservado. Além disso, na segunda classe, vendiam-se muito mais passagens do existiam bancos. Quem não fosse esperto no embarque, inclusive entrando pela janela, viajava de pé. Ou sentado no chão, ou deitado no bagageiro… Essa era a regra para todas as viagens para interior de trem, independente se fosse com a presença de numerosos torcedores. E qual, enfim, a vantagem da segunda classe? O preço e a companhia dos outros torcedores. Sempre era uma festa.

A minha primeira viagem como torcedor foi para Campinas. Jogo no Brinco de Ouro da Princesa contra o Guarani. Era estranho ver o estádio com mais adversários do que corinthianos. Fomos derrotados por 2 a 1. A volta poderia ser pesada e longa, mas foi relativamente tranquila porque estava entre torcedores que ofereceram tempo, dinheiro, dedicação, esforço, entre tantas outras doações, para incentivar o time do coração. Essa experiência aumentou a vontade de viver outras experiências semelhantes. Foi a primeira vez que eu viajava sem a presença dos meus pais.

Por volta de duas semanas depois dessa ida à Campinas, outra ida ao interior paulista, agora mais longe. O trabalho de convencimento familiar foi mais forte. A partida seria contra o Comercial de Ribeirão Preto, no estádio Santa Cruz, do Botafogo. O trem zarpava da estação da Luz às 21h do sábado. Segunda classe, é claro. Vagões lotados, e os corinthianos eram a grande maioria. Muita festa, muitos cantos. Havia os que não tinham comprado o bilhete e tinha que se esconder do fiscal da ferrovia que passava, de hora em hora, para verificar se os viajantes tinham tal bilhete. Este era perfurado pelo fiscal. O melhor lugar para se esconder era no banheiro. Também havia aqueles que tentavam algum lugar na primeira classe. Geralmente eram convidados para voltarem à segunda classe.

Após quase três horas de viagem, chegamos em Campinas. Lá o trem fazia baldeação. Todos desciam. Alguns tinham Campinas como destino. Tinham os passageiros que embarcavam em outros trens, para vários destinos. Não sei exatamente qual era o destino do trem que nos deixaria em Ribeirão Preto. Nessa cidade chegamos por volta das 6 horas do domingo. Foi uma noite sem dormir. O jogo era às 16h. Ressalto que todo o dinheiro que eu tinha daria para a passagem de trem e o ingresso da partida. Nenhum centavo a mais.

É fundamental ressaltar a solidariedade reinante. As pessoas mais velhas levavam comida e ofereciam para a molecada que ia com a cara e a coragem. Sabia de muitos que iam sem dinheiro algum. Não pagavam o trem, pediam dinheiro para comprar o ingresso e articulavam a volta em algum ônibus de caravana. Em meio a esse ambiente comunitário, acabei comendo. Acredito que tenha sido sardinha frita. Não me lembro de mais nada. Caminhamos da estação ferroviária ao estádio Santa Cruz, mas eu não sei precisar o tempo e a distância. Não era muito perto.

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Comemorando o gol fora de casa. Foto: Fábio Soares/Futebol de Campo.

No estádio, muito corinthiano e um público apenas razoável, considerando que no campeonato paulista de 1977 os públicos corinthianos eram grandes. Não foram poucas as partidas com mais de 100 mil pagantes. Lembro de uma partida fraca e difícil, mas que findou com a nossa vitória, com um gol do centrovante Geraldão, no segundo tempo.

Terminada a partida, quase todos os torcedores que tinham usado o trem para chegar em Ribeirão Preto conseguiram lugar nos ônibus das muitas caravanas formadas. Eu, como já tinha comprado a passagem de volta de trem, não tinha dinheiro para voltar de ônibus. Eu e mais três torcedores. Conseguimos uma carona até a estação ferroviária e ficamos esperando o trem, que saía por volta das 23h. E todos sem dinheiro. Ou seja, enquanto as caravanas já estavam próximas de São Paulo, ainda íamos embarcar.

Embarcamos muito cansados. Os quatro resistentes corinthianos tentavam dormir, mas a cada hora éramos acordados pelo fiscal para ticar as nossas passagens. Depois de sermos acordados mais de uma vez, lembro-me do Trombadinha, que era office-boy do jornal Coração – periódico semanal, lançado em 1976, dirigido aos corinthianos – pedir, com pouca delicadeza, que não fossemos mais acordados. Como na ida, paramos em Campinas para pegar a composição em direção à capital paulista. Chegamos em uma segunda-feira fria, mas ensolarada. Era quase meio-dia. Como eu morava no Bom Retiro, não muito distante da estação da Luz, deu tempo de almoçar e ir para a escola. Era muito bom ter viajava sozinho mais uma vez. Nunca havia ido tão distante para ver uma partida do Corinthians. Estava feliz e satisfeito.

Nos anos seguintes, lembro-me de poucas idas para fora de São Paulo para ver jogos de futebol. Ainda assim, vi partidas marcantes, como a conquista do título paulista contra o Guarani, em Campinas, em 1988. Ou o quase título antecipado do Brasileirão contra o Figueirense, em Florianópolis, em 2011. Mas foram viagens com muito mais conforto e tranquilidade. Ao mesmo tempo, sempre guardei um sonho: ir à uma partida, no Maracanã, contra o Fluminense. É um desejo de muitos anos. Uma série de coincidências não permitiram a materialização disso. Da mesma forma, por mais que eu deseje, não posso mais viajar a noite toda de trem, com passagem de segunda classe, para torcer pelo Corinthians em Ribeirão Preto. Os tempos são outros. Eu não sou o mesmo.