“No cabe duda que el feminismo se impone”: a história de Irene González Basanta

Fernanda Ribeiro Haag

Vocês já pensaram em uma mulher ser capitã de um time de homens, que ela mesma fundou lá na década de 1920? Pois é, aconteceu na Espanha! Uma história dessa parece um roteiro perfeito para um filme, mas por incrível que pareça ainda não vimos a Penélope Cruz de chuteiras estrelando essa película por aí. Fizemos essa brincadeira para pensar sobre sombras e visibilidades dentro do futebol, uma referência ao artigo Mulheres e futebol no Brasil: entre sombras e visibilidades da pesquisadora Silvana Goellner, no qual se afirma:

“há muito tempo as mulheres protagonizam histórias no futebol brasileiro ainda que tenham pouca visibilidade, seja na mídia, no cotidiano dos clubes e associações esportivas, na educação física escolar ou nas políticas públicas de lazer.”

A ideia aqui é reforçar o debate sobre o protagonismo de mulheres no futebol e como esse protagonismo precisa de mais holofotes.

É possível afirmar que estamos paulatinamente conhecendo histórias de mulheres no futebol — seja no Brasil ou no mundo. Esse processo vem ganhando espaço na Academia, no jornalismo, e na produção de conteúdo na internet, além de vários outros locais. Contudo, ainda temos um longo caminho pela frente. Basta lembrar rapidamente da pesquisa de Alejandro Martínez: apenas 3% das notícias da mídia esportiva são sobre mulheres — ele analisou 11 sites esportivos brasileiros por dois meses em 2019 e concluiu que 2,8% das notícias se relacionam com atletas mulheres e/ou esportes femininos.

As sombras nas quais muitas mulheres são relegadas se formam por N caminhos, todos construídos historicamente e, claro, com a marca do machismo: argumentos falaciosos como do “sexo frágil”, pseudociência defendendo que certos esportes “masculinizariam” as atletas, erotização e sexualização dos corpos, tentativas de disciplinarização, suposta preocupação com a maternidade (vista como a única função possível para as mulheres), esses são apenas alguns dos caminhos que poderíamos lembrar.

Assim, visibilizar essas histórias é também um posicionamento político (e necessário!). E aí alguns desafios precisam ser enfrentados. Um deles é justamente a invisibilização, pois se essas histórias não tiveram espaço na época que aconteceram, recuperá-las posteriormente não é tarefa fácil. Mas quem disse que a gente gosta de coisa fácil, não é mesmo? É por isso que neste texto vamos tentar contar um pouco da trajetória de Irene González Basanta e algumas iniciativas (com suas respectivas dificuldades) que buscaram fazer o mesmo.

A exposição Valor e mestría. Galicia como fútbol nos conta que um dos caminhos da introdução do futebol na Galícia se deu por volta de 1873 com funcionários ingleses da Eastern Telegraph Company. Assim como em várias outras localidades, a prática esportiva foi se popularizando e ganhou adeptos e aficionados. Os relatos das primeiras partidas de mulheres na região datam das décadas iniciais do século XX e, pensando na Espanha, temos os registros de uma partida, em 1914, entre dois combinados do time Spanish Girl’s Club. É nesse contexto que nasce em 26 de março de 1909, em La Coruña, Irene González Basanta.

Temos poucas informações sobre sua família, sabe-se que era das classes populares. Desde a infância Irene jogava bola, mas foi na adolescência que isso se desenvolveu melhor. Os primeiros registros sobre sua atuação surgem a partir de 1924. Ela passou por alguns times da sua região, com destaque para o Racing Orillamar (atual Orillamar SD), também no campo de A Estrada e foi ganhando cada vez mais popularidade. Começou, na verdade, como centroavante, mas recuou até se tornar goleira. Foi no gol que sua carreira ficou marcada. Lembrando que ela atuava em times de homens, sim, era a única mulher das quatro linhas (isso na década de 1920!). Se antes as pessoas iriam aos jogos pelo caráter exótico do fato, com o passar do tempo conheceram sua habilidade. Assim, Irene ganhou reconhecimento e ficou famosa por sua boa saída com os pés e pelos botes certeiros nos atacantes e, óbvio, por ocupar um lugar que teoricamente não lhe pertencia.

Fato que lhe causou problemas, começando dentro de casa. Há relato de que seu pai chegou a invadir as quadras para tirá-la a força, além de rótulos como “marimacho” que se tornaram constantes em sua trajetória. Contudo, isso não abalou nossa goleira que continuou em campo, desbravando o caminho para as futuras gerações. Seu pioneirismo foi tão grande e a atração que causava tão intensa, que depois de um tempo formou o seu próprio time. A pesquisadora Cristina López Villar da Universidade de La Coruña afirmou para o jornal La Vanguardia:

“Irene jugó en diversos equipos modestos, hasta convertirse en la líder de su propio equipo. En el Irene F.C., ella era nada más y nada menos que la capitana, la portera y también la que tiraba los penaltis.”

Aqui não podemos esquecer que a participação de mulheres no futebol já é uma transgressão, visto que o esporte se constituiu como um espaço hegemonicamente masculino, Irene subverte tal lógica, propiciando uma mudança. O que não passou despercebido pela imprensa. O jornal da cidade de La Coruña El Orzán em 28 de janeiro de 1925 guarda algumas linhas para falar do feminismo “se impondo” na sociedade, a partir do exemplo da Irene:

Trecho do jornal El Orzan de 28 de janeiro de 1925

O próprio uso do termo feminismo em 1925 já é suficiente para nos chamar atenção, ainda mais, enfatizando a sua imposição. A matéria traz outros âmbitos que as mulheres vinham ganhando terreno — advocacia, indústria farmacêutica, administração municipal etc. — e finaliza destacando a trajetória de Irene, recordando que o time leva o nome da própria capitã.

Mas as rupturas da nossa atleta não paravam por aí, em um período em que o futebol galego estava se organizando e muitos dos campeonatos eram mais uma mescla de times da província do que uma estrutura forte de uma liga, o Irene F.C., comandado por sua goleira, disputava várias partidas e muitas delas eram agendadas somente com a condição de que Irene jogasse (e noticiadas em alguns veículos da imprensa). Aqui temos o outro ponto relevante, no contexto em que o debate entre amadorismo e profissionalismo estava polarizado, o Irene F.C. cobrava honorários por alguns jogos — muito por conta da exposição da capitã — e o valor arrecadado era dividido entre todos os jogadores. Ou seja, era uma forma de sustento para alguns deles.

Ainda sobre os vestígios que temos acesso sobre Irene, há uma fotografia icônica dela:

Antes de tudo, notamos todo o estilo dessa mulher! A foto foi tirada no estádio de Riazor e conforme o El Orzán, na mesma notícia citada acima:

“En un escaparate de la calle Real, se exhibe el retrato de la incomparable portera, con jersey blanco, pantalón bombacho, negro, hasta poco más arriba de las rodillas, medias y zapatones de fútbol, y está siendo la admiración de las gentes que contemplan su arrogancia y su gallardía”.

Em alguns textos que consultamos, dizem que a camisa que ela está usando fora presente do mítico goleiro espanhol Ricardo Zamora, há ainda suposições que Irene o tinha como inspiração e por isso, copiou a ideia de colocar um boneco atrás do gol para que desse sorte e não fosse vazada. Como não temos comprovação empírica disso, deixamos para o hall de historietas do futebol.

Infelizmente, a história da nossa craque não tem final feliz. Na verdade, sua vida foi muito breve. No final de 1927, Irene e outros membros de sua família pegam tuberculose, um dos grandes males daquela época. A doença impõe intensas dificuldades, para além das questões de saúde, complicando também a situação financeira e obrigando-a a pendurar as chuteiras. A situação comove amigos, torcedores e simpatizantes. Assim, são organizados jogos beneficentes e coleta de recursos para repassarem à Irene. O que também ficou registrado nos jornais. Na edição de 22 de novembro, o El Orzán noticia: UM PARTIDO A BENEFICIO DE IRENE. O jogo aconteceu em Riazor entre as equipes do Olímpico e do Unión Sporting. O periódico também relata a coleta de donativos para “la pobre futbolista Irene González” e “a benefício de la infortunada deportista Irene González, consiguiendo recaudar la suma de 75’65 pesetas”.

É, contudo, uma partida perdida. Irene falece em abril de 1928:

 

O jornal El Orzán noticia em 10 de abril de 1928 a morte de Irene

Os feitos realizados por ela continuaram vivos. E agora gostaríamos de deixar algumas linhas para outras iniciativas que buscaram dar visibilidade a incrível história de Irene. A revista O Dez e o documentarista Óscar Losada merecem destaque nesse time. Losada produziu o documentário curta Irene, a porteira, resgatando a sua trajetória. A pesquisa contou, inclusive, com o depoimento do goleiro Rodrigo Vizoso — atuou pelo Deportivo La Coruña e Real Madrid — que era contemporâneo de Irene, os dois se conheciam e se admiravam (a importância da História Oral para recuperarmos essas trajetórias). O produtor do filme traz uma reflexão interessante:

“El de Irene es un caso insólito, marciano. Es el primero en el mundo de una mujer que funde un club de fútbol, y con hombres. Ya es inaudito que una mujer jugase en aquellos años al fútbol, pero que encima fuese portera, que era tan notorio…”

Além de destacar o pioneirismo de Irene, ele também revelou seu lamento e surpresa com a falta de fontes sobre a sua protagonista. Como temos falado aqui, são os desafios de visibilizar determinados sujeitos históricos, mas não podemos tomar esses entraves como definitivos.

Irene também faz parte do imaginário coletivo galego, na verdade, podemos tê-la como uma importante fonte de identificação regional. Começamos com uma tradição oral. Há uma canção popular na Galícia sobre Irene: “Mamá/futbolista quiero ser para jugar como Irene/ que juega muy bien. Mamá/ cuando sea mayor/ ganaré mucho dinero/ jugando al fútbol”. Não conseguimos traçar a origem exata da música, de toda forma, já percebemos o peso simbólico dela, certo? Meninas cantando sobre uma mulher jogadora e falando que querem ser futebolistas. O verdadeiro: e a base vem como?

Na exposição citada acima, Valor e mestría. Galicia como fútbol, que busca elencar diversos pioneirismos futebolísticos galegos, a trajetória de Irene tem bastante espaço. Ou seja, uma exposição sobre a Galícia e seus feitos considera a história da goleira como significativa de sua história e identidade! Ainda nesse sentido, temos o livro Pioneiras, galegas que abriron camiño de Anaír Rodriguez e ilustrações de Nuria Diaz. Mais do que merecido, Irene está no hall dessas pioneiras:

Ilustração do livro Pioneiras, galegas que abriron camiño

O livro Poesía y patadas de Miguel Ángel Ortiz guarda algumas linhas para Irene no seu capítulo “Football, un sport no tan viril (1926)” e também ao contar a história de Ricardo Zamora dando a entender que ele conquistava o coração de muitas moças, inclusive da Irene. Não apresenta muitas fontes para amparar essa afirmação e preferimos lembrar dela não em relação a um homem, mas considerando tudo que ela fez. Aqui no Brasil encontramos o texto da Camisa Oito possibilitando que brasileiros também conheçam uma das mulheres responsáveis por desafiar as barreiras impostas socialmente ao seu gênero.

Queremos fechar esse texto reafirmando as ponderações lá do início. Há muitas mulheres no futebol — atletas, técnicas, torcedoras, gestoras, árbitras, jornalistas etc. — que precisam ter suas histórias contadas, pois são parte da história da modalidade também. Sem elas, ficamos com um futebol pela metade, afinal, essas trajetórias são todas relacionais. Assim é preciso tirá-las das sombras! Se o futebol é coletivo, ele pertence a cada um/uma que queira fazer parte dele. Lembrar disso é necessário, é político e é responsabilidade de cada um de nós.

 

* Mulamba da banda Mulamba é a trilha sonora da trajetória de Irene González:


A Revista Pelota em parceria com o Ludopédio publica nesse espaço os textos originalmente divulgados em sua página do Medium.

 

Como citar

HAAG, Fernanda Ribeiro. “No cabe duda que el feminismo se impone”: a história de Irene González Basanta. Ludopédio, São Paulo, v. , n. , 2020.