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Irmãos de sangue, irmãos coragem no futebol

Alexandre Fernandez Vaz

Quando Emerson Sheik voltou ao Corinthians no início do ano passado para a última etapa de sua carreira como jogador de futebol profissional, disse o quanto teria sido difícil enfrentar o clube quando atuara pela Ponte Preta. Além do carinho pela agremiação com a qual tantos títulos conquistou, havia os amigos do outro lado, ser agressivo com o goleiro Cássio fora para ele muito estranho. Suponho ter entendido a posição do grande atacante, destaque na conquista da Libertadores em 2012, e, pensando nela dia desses, lembrei-me de algo que sempre me chamou a atenção, irmãos que jogam futebol profissional. Os arranjos entre eles são muitos, as circunstâncias vividas também.

Na Copa do Mundo de 2014 assisti ao embate entre as seleções da Alemanha e de Gana, pela primeira fase da competição. O empate em dois gols fez jus à igualdade entre as equipes naquela contenda, times jogando com as suas melhores características: os africanos com técnica e força, os alemães com técnica e tática, ambos com jogadores versáteis e hábeis. Para além do ótimo jogo, do espanto que me causou o Castelão reformado nos padrões exigidos para o Mundial e da bandeira da FIFA prevalecendo sobre as das nações representadas por seus futebolistas, observei a presença dos irmãos Boateng, um de cada lado do campo, Jérôme pela Alemanha, Kevin-Prince por Gana. Se o caminho para chegar a ser profissional entre as quatro linhas é cheio de dificuldades, e ainda mais restrito o de chegar a uma Copa, é mesmo uma exceção que irmãos nela se encontrem, especialmente um de cada lado. Era a segunda vez, aliás, que isso acontecia, repetindo o embate de 2010, na África do Sul.

Mas há vários casos de futebolistas de sucesso que têm como irmãos colegas de profissão, às vezes ambos com desempenho destacado. Certa vez, há muitos anos, tive um exemplar de Placar de 1971 nas mãos. Longa reportagem tratava de um clássico carioca, mas não deixava de ressaltar a ótima participação de um jogador do Flamengo na partida preliminar disputada por equipes juvenis. Era Zico, identificado como irmão de Edu, do América. O Galinho, que como treinador já teve várias vezes o irmão mais velho como auxiliar-técnico, é daqueles que tiveram o caminho aberto pelo antecessor da família e pôde até mesmo superá-lo.

Semelhante ao de Edu e Zico é o caso de Assis e Ronaldinho Gaúcho. O primeiro atuou pelo Grêmio, Corinthians, Sion (Suíça), seleção brasileira, abandonando precocemente a carreira para ser manager do emergente caçula. O mais velho se referia ao irmão como Naldo, para dizer que ele o superaria largamente porque, sim, era o verdadeiro craque da família. Da mesma tribo fazem parte Sócrates e Raí, o primeiro mais referenciado porque craque e personagem mais interessante, o segundo grande vencedor de títulos, ídolo no São Paulo Futebol Clube e no Paris Saint-Germain, campeão da Copa de 1994. Entre tantos está também Zé Elias, que atuou anos como meio-campista defensivo no Corinthians, Bayer Leverkusen, Inter de Milão, Santos, com muitos títulos na bagagem, e cujo irmão Rubinho brilhou como goleiro nas categorias de base do Timão e do selecionado brasileiro, em trajetória vitoriosa, ainda que longe dos holofotes.

Por falar em guarda-metas, há os curiosos casos de irmãos-goleiros. Titular da seleção comandada por Tite e do Manchester City de Guardiola, Alisson Becker tem em Muriel (Belenenses, de Portugal), ambos formados no Internacional de Porto Alegre, um colega de posição. Eles chegaram a compor em simultâneo o elenco do Colorado, em 2013. De carreira menos gloriosa, mas muito corintiana, Solito e Solitinho foram campeões pelo Corinthians nos anos 1980, sem que qualquer dos dois tenha chegado a se firmar na meta titular por muito tempo.

 

No outro extremo do campo encontramos os irmãos-artilheiros, César, Luizinho e Caio, nos anos 1970. O primeiro e mais velho dos três se destacou na chamada Segunda Academia do Palmeiras, e esteve na seleção que disputou a Copa de 1974; o segundo, caçula do trio, foi o grande artilheiro do América, seu time do coração, além de ter feito uma dupla de ataque infernal com Zico, no Flamengo; o último, que se chamava, na verdade, José Carlos, conquistou uma infinidade de títulos, principalmente por Botafogo e Flamengo. Os três comemoravam os muitos gols de forma efusiva: Caio com uma cambalhota, Luisinho equilibrando-se na borda do fosso do Maracanã, junto à extinta Geral, o primogênito correndo como louco pelo campo, daí haver sido apelidado pelo locutor Geraldo José de Almeida de César Maluco.

Comemoração efusiva também é a de Alecsandro, que com frequência corre para a torcida gesticulando como seu pai, o Lela, antigo ponta-direita do Coritiba, abanando as mãos ao lado da cabeça. Alecgol encontrou seu irmão Richarlyson, o ótimo volante tricampeão brasileiro pelo São Paulo, no Atlético Mineiro. Juntos, foram campeões da Libertadores, título que o primeiro já detinha, conquistado pelo Internacional em 2010.

Mais longe ainda no encontro foram os zagueiros Luisão e Alex Silva, que em 2008 estiveram na seleção brasileira sob a direção de Dunga. Sócrates e Raí, Assis e Ronaldinho Gaúcho, Edu e Zico, serviram ao selecionado, nenhum deles, no entanto, ao mesmo tempo que o irmão, como aconteceu com os zagueiros nascidos em Amparo. Outro defensor, Frank de Boer, jogou com o irmão-gêmeo, o meia-atacante Ronald, durante quase toda a carreira: no Ajax, Barcelona, Glasgow Rangers, Al-Rayyan e Al-Shamal, além, é claro, na seleção da Holanda. Atuaram em duas Copas (1994 e 1998), em ambas caindo frente ao selecionado brasileiro, partidas duríssimas, a segunda decidida nos pênaltis, valendo a passagem para a final da competição.

Uns abriram espaços para os mais novos, outros foram goleiros, atacantes, zagueiros, com passagens simultâneas ou não pela seleção. Uma de minhas memórias futebolísticas mais precoces é, no entanto, a de dois irmãos enfrentando-se, como os Boateng. Nas finais do Paulistão de 1977, Tuta era o ponta-esquerda da Ponte Preta que tinha pela frente nada menos que Zé Maria, o Super Zé, titular da lateral-direita da seleção, grande ídolo do alvinegro do Parque São Jorge. Em situações assim, “irmão não reconhece irmão”, como reza o samba de Paulinho da Viola? Não foi o que aconteceu há mais de quatro décadas. Os jogos da finalíssima foram duros, mas respeitosos entre os jogadores. Afinal, a vitória não vale a desavença, muito menos entre irmãos, mesmo que seja ela tão emblemática como foi a conquista corintiana, pondo fim a vinte e três anos de espera.

Que irmãos joguem bola, que o futebol irmane as pessoas.

Mülheim, Colônia; Brighton, janeiro de 2019.