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Itália e a Copa de 34: uma vitória com toques de fascismo

Thiago Rosa

Sábado, 10 de junho de 1934, Roma. No lugar conhecido como Velho Stadio Flaminio, mais de 55 mil pessoas aguardam o início de Itália e Tchecoslováquia. Perfilados, jogadores italianos, árbitro e auxiliares levantam o braço direito e estendem a palma da mão em direção às tribunas.Não era um gesto qualquer, mas a saudação a Benito Mussolini. Era o fim da 2ª Copa do Mundo e o auge do fascismo no futebol. 

Saudação fascista da seleção italiana durante a Copa. Foto: Divulgação.

Mussolini foi, provavelmente, o primeiro governante a usar o futebol como extensão da política. Acreditava ele que poderia fidelizar as massas, especialmente a Giovinezza (a juventude), por meio do esporte. Com um Mundial jogado em território italiano, queria mostrar ao mundo sua força e capacidade de organização. De quebra, ainda buscava legitimar seu governo junto à comunidade internacional, que questionava seus métodos – obrigar professores a usarem o uniforme fascista e exibir a execução de opositores ideológicos são alguns deles, segundo conta o livro Glória Roubada: O Outro lado das Copas, do jornalista Edgardo Martolio.  

O Duce italiano, como Mussolini era chamado, começou a interferir no futebol quase uma décadas antes do Mundial. Em 1926, redigiu a chamada Carta de Viareggio, considerado o estatuto fascista do futebol. A partir daquele momento, passou a indicar ele mesmo os presidentes das federações, organizar os torneios e o futebol se tornou profissional. O documento também decretou o banimento dos jogadores estrangeiros, uma medida inspirada na crença de superioridade racial e na limpeza étnica.

Mussolini tentou trazer para a Itália a Copa de 30. O Uruguai, medalha de ouro nas Olimpíadas de 1924 e 1928 e o futebol mais bem jogado no mundo, acabou levando a melhor. A escolha fez o Duce decidir não levar a Itália para o Mundial. Em vez disso, mandou olheiros para ver jogadores e aprender a organizar o evento.

Encerrada Copa – vencida pelos donos da casa – o desejo de Mussolini ganha ainda mais força. O objetivo era sediar o evento a qualquer custo. No Congresso da Fifa de 1932, em Estocolmo, ele consegue. Para isso, convence os suecos e franceses a desistirem da mesma ideia.

Conquistado o direito de sediar o Mundial, era preciso organizá-lo. Para essa tarefa, o governante chama Giorgio Vaccaro, general do Exército e presidente da Federação Italiana de Futebol. Vaccaro também foi dirigente da Lazio e o homem responsável por fazer Mussolini se tornar torcedor do clube de Roma. “Sua responsabilidade, Vaccaro, é o título mundial. Não sei como você vai fazer isso, mas vencer é uma ordem, não um pedido”, disse ele ao dirigente.

Para o Mundial, foram disponibilizados 8 estádios, três deles construídos especialmente para a Copa – em Nápoles, Trieste e Turim.  Em Roma, o Stadio Flaminio foi rebatizado de Estádio do Partido Fascista. Os italianos tinham quase tudo. Faltavam os jogadores para fazer a Azzurra vencer. 

Oriundi, o talento que vem de fora

 

Quando a Itália assegura seu direito de sediar a Copa, Mussolini já ditava as regras de quase tudo. Segundo conta o livro História do Século XX, de Bernard Droz e Anthony Rowley, com as chamadas leis fascistíssimas (1925-1926), o país entra de vez em uma nova ordem totalitária, na qual o líder governa por decreto, a imprensa e a produção artística são censuradas, sindicatos e associações não fascistas são proibidos e partidos políticos são extintos. A figura do ditador era mais do que evidente.

Se, no plano ideológico, Mussolini consagrava seu totalitarismo perseguindo adversários, minorias e expulsando estrangeiros do futebol, no campo da estratégia ele sabia que não conseguiria sucesso na Copa só com atletas nascidos em solo italiano. Assim, para fortalecer a seleção e conquistar o troféu, a Itália vai buscar jogadores de qualidade na América do Sul. Invoca uma lei vigente, que garantia dupla nacionalidade de forma automática a qualquer filho de italiano. Eram os oriundi,  termo derivado do verbo latino oriri (nasceu). Da seleção que jogaria o Mundial, cinco atletas tinham origem sul-americana: o brasileiro Anfilogino Guarisi (Filó) e os argentinos Luis Monti, Attílio Demaría, Raimundo Orsi e Enrique Guaita.

Entre os fascistas, a convocação dos oriundi foi alvo de muitas críticas, sempre rebatidas pelo técnico Vittorio Pozzo com uma frase enfática. “Se eles podem morrer pela Itália, também podem jogar para a Itália, ganhar e ser campeões”.

Além de reforçar a Azzurra, trazer jogadores de outros países representava o enfraquecimento de Brasil e Uruguai. Os uruguaios, sob pretexto de dar o troco pela Itália não ter ido em 1930 e por considerarem a convocação dos oriundi um jogo sujo, desistiram de disputar o Mundial. Com os atuais campeões fora, o caminho parecia mais fácil aos italianos. Não foi o que se viu.

Copa de 34: Fascismo e futebol na Itália

 

À medida que o Mundial se aproximava, Mussolini tratava de transformá-la em uma extensão de sua política. A um mês do evento, obrigou Vaccaro a fazer propaganda em todas as cidades, não apenas nas sedes dos jogos. As peças representavam a exaltação da ideologia de extrema-direita: jovens atletas fazendo a saudação fascista.

Posteres da Copa do Mundo de 1934, disputada na Itália. Foto: Reprodução.

O viés ideológico tomaria conta daquele Mundial, com estádios repletos de afiliados do Partido Fascista e gritos de “Itália, Duce” vindo das arquibancadas. O ditador assistiu a tudo de camarote, rodeado pelos camisas pretas – os uniformizados da milícia do Fascismo.  

A Copa foi disputada entre 16 países, em sistema eliminatório de jogo único. Na estreia, a Itália despacha os Estados Unidos com uma goleada de 7×1. Contavam os donos da casa com uma contribuição psicológica que se tornaria marcante. Antes de cada jogo, Mussolini mandava distribuir um bilhete aos atletas: “Vitória ou morte”, era o slogan fascista e também da Azzurra naquele Mundial.

No lado sul-americano, a sorte não seria a mesma. Com a desistência do Uruguai, restaram Argentina e Brasil. Um conflito interno, porém, enfraqueceria as duas seleções. Os argentinos levaram um time amador e foram eliminados logo de cara, perdendo de 3×2 para a Suécia. No Brasil, a discussão entre Confederação Brasileira de Desportos (CBD) – que defendia o amadorismo – e a Federação Brasileira de Futebol (FBF), que queria a profissionalização, resultou no envio de uma equipe incompleta. O selecionado brasileiro foi eliminado na primeira fase, após perder de 3×1 para a Espanha.

Com os sul-americanos fora, faltava combinar com os europeus. Nas quartas, duelo entre italianos e espanhóis, na partida que ficou marcada como “A Batalha de Florença”. No total, 7 jogadores da Espanha saíram lesionados. Das arquibancadas, só se ouvia “Vencer ou Morrer”. O árbitro belga, Louis Baert, nada fez para conter a violência italiana e ainda validou um gol irregular da Azzurra. Mesmo assim, o jogo terminou empatado em 1×1 e houve a necessidade da realização de um novo encontro entre as seleções.

O confronto de volta aconteceu apenas 24 horas depois, com a Espanha sem seis titulares. O jogo acabaria 1×0 para a Azzurra, com nova interferência direta da arbitragem, que anulou dois gols espanhóis legítimos e validou o tento irregular de Giuseppe Meazza. Depois da vitória, Pozzo fez questão de exaltar a ideologia propagada por seu líder. “Foram necessários homens de têmpera especial para batê-los, homens fortes e confiantes como só o Fascismo pode criar”, disse o treinador, de acordo com o livro Dando Tratos à Bola, de Hilário Franco Jr.  

Na semifinal, a arbitragem novamente é determinante e a Itália vence por 1×0 a seleção da Áustria, batizada de Wunderteam (time maravilha). Perto da glória esportiva, na final os italianos teriam como oponente o técnico time da Tchecoslováquia. Segundo conta Edgardo Martolio, para garantir a “imparcialidade mostrada dias antes”, Vaccaro exigiu que o árbitro da final fosse Ivan Eklind, o mesmo da semifinal contra a Áustria. 

Sem se importarem com o ambiente da partida, os tchecos saíram na frente a 20 minutos do fim, com o atacante Antonín Puc. O empate viria a nove minutos do fim, dos pés de Orsi. O 1×1 levou a partida para a prorrogação. Em nome do ditador, Vaccaro se dirigiu ao vestiário para mostrar quão importante era aquele título. “Senhor Pozzo, Mussolini mandou lhe dizer que você é o único responsável pelo sucesso, mas Deus o ajude se falhar”, disse o dirigente ao técnico.

Na prorrogação, o atacante Schiavio marca e garante o título à Itália. Nas arquibancadas, torcedores gritam “Du-ce, Duce”. Quatro anos depois a Azzurra voltaria a repetir o feito em um cenário pré-guerra, no qual a preocupação maior eram os campos de batalha, e não os do esporte. De 34 em diante, o mundo teve certeza: futebol e política sempre jogaram juntos.

Pozzo é erguido pelos atletas na celebração do título. Foto: Wikipédia.