119.10

Itália x Argentina em 90: o dia em que Maradona dividiu Nápoles

Thiago Rosa

Que Diego Maradona deixou marcadores, zagueiros e goleiros adversários desconcertados com suas jogadas, não restam dúvidas. Afinal, o argentino foi um dos grandes gênios do futebol. Mas, em 1990, ele provocou algo ainda maior: Maradona fez muitos torcedores do Napoli ficarem com os sentimentos confusos em plena Copa do Mundo. Torcer pela Itália que te despreza como cidadão ou pela seleção do seu maior ídolo?

Para entender melhor essa história, é preciso voltar ao ano de 1984. Após lutar até a última rodada para permanecer na 1ª divisão do campeonato italiano, o Napoli contrata Maradona, então com 24 anos e vindo do Barcelona. O argentino ainda estava distante da lenda que se tornaria nos gramados, mas seu talento já chamava a atenção do mundo. A apresentação no estádio San Paolo teve direito a helicóptero e presença de 65 mil torcedores apaixonados. Era muito até então para os napolitanos. Embora tradicional na região sul da Itália, o Napoli era quase inexpressivo em conquistas. Até aquele ano, os títulos do clube se resumiam às divisões inferiores e duas Copas da Itália (61-62 e 75-76). O que os torcedores talvez não imaginavam é que a chegada daquele jovem sul-americano representaria o início da era de ouro do Napoli.

Sob o comando de Maradona – com grande destaque também para os atacantes Carnevale, Giordano e o brasileiro Careca – o clube ganhou seus únicos dois títulos italianos (86-87 e 89-90), a Copa da Itália da temporada 86-87, a Supercopa da Itália de 90 e o único título continental do clube, a Copa da Uefa de 88-89. Uma grande façanha para um clube mediano em um país dominado por gigantes como Juventus e Milan.

Maradona com a Supercopa da Itália no estádio San Paolo, em Nápoles (1990). Foto: Wikipedia.

Além do campo, os feitos liderados pelo talento de Maradona tinham um grande simbolismo social. Era a vitória de Nápoles frente ao preconceito dos moradores do norte do país, que muitas vezes se referiam à cidade sulista como perigosa, suja e com pessoas pobres e preguiçosas. O craque passou, então, a ser idolatrado por um povo, que fazia de Nápoles cada dia mais um pouco argentina.

Na Copa do Mundo de 90, quis o destino que uma das semifinais fosse justamente Itália e Argentina. E pior, em pleno estádio San Paolo. Venerado pelos torcedores e reconhecido como um gênio, após ter comandado sua seleção para a conquista do Mundial quatro anos antes, Maradona tratou de colocar toda sua idolatria à prova, ao convocar os napolitanos para torcerem para a Argentina. “Durante 364 dias do ano vocês são considerados pelo resto do país como estrangeiros em seu próprio país e, hoje, têm de fazer o que eles querem, torcer pela seleção italiana. Eu, por outro lado, sou napolitano os 365 dias do ano”, disse o 10 argentino, às vésperas do confronto entre as duas seleções.

O impacto do apelo de Maradona foi tamanho que o próprio presidente da federação italiana chegou a ir à televisão pedir para que os torcedores de Nápoles apoiassem a Azzurra e pesquisas de opinião foram feitas para calcular até que ponto o craque argentino influenciaria no coração e mente dos torcedores locais.

No dia do jogo, 3 de julho, o que se viu entre os 59 mil presentes ao estádio foi uma mistura de sentimentos. Nas arquibancadas, uma faixa exibia a frase “Diego nos corações, Itália nas canções”. Xingado pelos torcedores não napolitanos após o gol do atacante Schillaci, Maradona ganhou o apoio da área do estádio ocupada pela torcida local. “Diego! Diego!”, diziam. “Mesmo que isso fosse caro à equipe italiana, nesse momento Maradona é o torcedor do San Paolo, mais que uma seleção nacional de jogadores de outras cidades italianas, de Roma, Milão, Turim”,  escreveu ao jornal Repubblica o jornalista Roberto Saviano, nascido em Nápoles e autor do premiado livro Gomorra, sobre os negócios da máfia italiana.    

Torcida napolitana. Napoli x Fiorentina, Serie A 1986-87, Estádio San Paolo. Foto: Wikipedia.

Parte dos torcedores não se entristeceu ao final: 1×1 e vitória da Argentina nos pênaltis, com duas cobranças defendidas pelo goleiro Sergio Goycochea. O triunfo sul-americano provocou nova confusão: na final, em Roma, os napolitanos torceram para a Argentina e o resto da Itália apoiou a Alemanha, a ponto de vaiarem a execução do hino argentino – gesto prontamente respondido por Maradona com gritos de “hijos de puta” (filhos da p*). No final daquele dia, a alegria seria dos não-napolitanos: vitória de 1×0 da Alemanha, que venceria sua 3ª Copa do mundo.  

Passadas quase três décadas desde aquela semifinal, muita coisa mudou em Nápoles. Longe das glórias dos tempos de Maradona, o clube foi rebaixado para a série C após decretar falência em 2004, um fim que não se consolidou. No campo, o Napoli tenta dar uma amostra do que já foi um dia. Mas, entre os torcedores, há duas coisas que não mudam: a fé em San Genaro, patrono da cidade, e o culto a Maradona.

Em Nápoles, a fé em Deus e a idolatria por Maradona andam juntas. Foto: Romain Cherchi/Flickr.