114.8

Já estive na segunda divisão. Não me fez mal

Alexandre Fernandez Vaz

O Avaí Futebol Clube alcançou o acesso à Série A do Campeonato Brasileiro de 2019, depois da trajetória de sucesso na Segundona deste ano, concluída em terceiro lugar. Regular ao longo do campeonato, com defesa sólida, lampejos do ídolo Marquinhos Santos e definição rápida no ataque, a equipe treinada por Geninho orgulha parte dos florianopolitanos, em especial os que vivem na porção sul da Ilha de Santa Catarina. A bandeira azul e branca foi hasteada, como de praxe nessas ocasiões, na cabeceira da Ponte Colombo Salles, saudando a equipe da Ressacada. Por outro lado, o Figueirense, adversário e coirmão, sediado na parte continental de Florianópolis, por pouco escapou do descenso para a terceira divisão nacional. Não teremos no ano que vem, portanto, o superclássico local no Brasileirão, a disputa que é tratada na cidade, como costuma acontecer, como um “campeonato à parte”. Restará o torneio estadual para que clubes e torcidas meçam força entre si.

O Avaí tem se vangloriado de ser o time com mais acessos à primeira divisão, o que obviamente significa que o clube foi, ao longo dos últimos anos, várias vezes rebaixado. Campeão da Série C há vinte anos, sua camiseta ostenta uma orgulhosa estrela dourada sobre o escudo do clube. Quanto ao Figueira, já foi ele mais regular na primeira divisão nacional, com equipes sólidas de onde despontaram, entre vários importantes jogadores, Filipe Luís. Trocando em miúdos, são duas equipes de Série B que eventualmente frequentam a A.

Pensava em tudo isso ao lembrar de uma partida entre Avaí e Corinthians, ao final do primeiro turno da Segunda Divisão, em 2008. O jogo terminou em empate por um gol, mantendo o alvinegro na liderança exercida desde o começo da competição. Com um time mais “cascudo” que o normal, mas muito superior aos adversários, parecia não haver dúvida de qual clube alcançaria o título ao final do torneio. Por pouco, aliás, não veio também o título da Copa do Brasil – o título foi perdido frente ao Sport Recife –, uma das especialidades de Mano Menezes, o treinador que, ironicamente, selara o descenso no ano anterior, quando dirigia o Grêmio.

Escutei pelo rádio a queda do Timão, ao empatar com o tricolor gaúcho, no finado Estádio Olímpico, em Porto Alegre, na última rodada. Parecia-me impossível que acontecesse a queda, já que eu negava o critério básico e irrenunciável para sua ocorrência: estar em pé. O técnico era Nelsinho Baptista, o mesmo que comandara a primeira conquista nacional, em 1990. Ele, que fora contratado para garantir que o pior não aconteceria, manteve a fé até o final. Mas, não houve o que resolvesse e o inesperado aconteceu.

Na verdade, o Corinthians já disputara a Taça de Prata em 1982, uma divisão de acesso na qual enfrentou, entre outros, o simpático América, do Rio, Colatina (ES) e Campinense (PB). Com excelente campanha, no mesmo ano subiu e disputou a Taça de Ouro, entrando em sua segunda fase, e chegando às semifinais da contenda. Findo o campeonato nacional, o time do Parque São Jorge venceria o Paulista, o primeiro do bicampeonato sob a Democracia Corintiana. Mas o descenso na era dos pontos corridos era algo novo e impactante, sem direito à redenção no mesmo ano, como acontecera vinte e seis anos antes.

Jogo entre Avaí e Flamengo pela Série A em 2017, ano em que o Avaí caiu para a segunda divisão.

A experiência na Série B não foi, no entanto, tão ruim como se me prometia. Acompanhei com gosto o desempenho do time em que brilhavam o zagueiro-artilheiro Chicão e o lateral-esquerdo André Santos, ambos oriundos do Figueirense, além do jovem atacante Dentinho e do bom goleiro Felipe, que antes já vivera dois rebaixamentos com o Vitória, da Bahia. Vitórias acachapantes, quinze pontos nas cinco primeiras partidas, torcida apoiando intensamente. Logo após o jogo que sacramentou o acesso, torcedores se dividiram entre os que o consideravam nada mais que uma obrigação e aqueles que viam na campanha exitosa de seu time do coração um motivo para comemorar. Eu cerrava fileiras com os últimos.

Considero o título de campeão da Segunda Divisão Nacional valoroso como qualquer dos outros conquistados pelo Corinthians. Refiro-me a um clube com dois títulos mundiais e uma Copa Libertadores, além de vários outros paulistas, brasileiros, da Copa do Brasil. Talvez meu sentimento se deva ao fato de ter passado os primeiros anos da infância não só sob intenso regime de derrotas, mas também sob um manto antigo de frustrações, já que desde 1954 não havia troféu, como meu pai fazia questão de relembrar. Título é título, nunca fiquei mal-acostumado.

Suponho, no entanto, haver algo mais. Minha relação com o Corinthians, que passa pela memória, por afetos familiares, pelo sentimento de uma pequena pertença à cidade de São Paulo, é mais importante que os títulos. Gosto de ser corintiano. Aprecio as vitórias do time, mas não me desespero, tampouco me desaponto, com as derrotas. Dei-me conta disso logo após o descenso para a Série B, triste no momento, mas que logo se revelou a abertura para uma nova experiência. Dela desfrutei tanto quanto em tantas outras situações.

Não deixa de ser curioso que o Avaí tenha empatado sua última partida do ano, a que confirmou o acesso, com três jogadores formados no Corinthians, no famoso Terrão, os zagueiros Marquinhos e Betão, o goleiro Rubinho, este alçado na última hora à equipe principal pela impossibilidade física do titular, Aranha, e do reserva imediato, Kozlinski, que vinha jogando. O arqueiro da derradeira batalha, irmão do ídolo corintiano Zé Elias, surgiu como grande promessa e teve carreira errante, principalmente na Itália, onde foi a terceira opção da grande Juventus Turim por algumas temporadas. Marquinhos, por sua vez, deixou o Timão depois de uma briga com Carlito Tévez, em um treinamento. Betão, titular no descenso de 2008, foi o xerife da zaga e capitão do Avaí. Jogadores que sabem vencer, que sabem perder. Têm meu respeito.

Ilha de Santa Catarina, dezembro de 2018.