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Jesus, o do Jardim Peri e o da Vila do Calvário

Luis Eduardo Veloso Garcia

Em 2015, Douglas Germano recebeu como missão de um projeto chamado Visão Periférica encabeçado por Ivan Silva transformar uma fotografia em canção: veio a história de Jesus da Vila do Calvário, a canção “Zeirô, Zeirô”, que se encontra no seu último disco lançado em 2016, Golpe de Vista (que chama o futebol inclusive nesse título!).

Em 2015, a Sociedade Esportiva Palmeiras via na data de 7 de março a estreia do Jesus do Jardim Peri contra o Bragantino no Paulistão, e ainda no fim daquele mesmo ano, o viria receber o prêmio de revelação do campeonato brasileiro. Dos títulos da Copa do Brasil 2015 e Brasileirão 2016 até sua estreia na Seleção Brasileira e atualmente no Manchester City, Gabriel Jesus teve que encarar muitas crucificações premeditadas, assim como seu homônimo da canção.

Jesus da Vila do Calvário joga com a camisa 33. Jesus do Jardim Peri também.

Jesus da Vila do Calvário joga na zaga. Jesus do Jardim Peri no ataque.

Jesus da Vila do Calvário, segundo Maria (sua mãe), “nunca sujou o fardamento”. Jesus do Jardim Peri, se depender da exigente Vera Lúcia (sua mãe), nunca sairá de campo com um uniforme intacto.

Jesus da Vila do Calvário vive com intensidade o jogo, como se fosse o último da sua vida, não podendo perder de jeito nenhum. Jesus do Jardim Peri também, em todos os seus jogos, desde o começo da carreira até os dias atuais.

Jesus da Vila do Calvário erra no lance derradeiro da partida descrita na canção de Germano. Jesus da Vila do Calvário é crucificado por toda a Vila do Calvário pelo erro. Não teve perdão para Jesus, “foi tanta gente lá matar Jesus”.

Jesus do Jardim Peri carrega o Jardim Peri para onde ele for. Jardim Peri esteve no Palmeiras. Jardim Peri esteve nas Olimpíadas. Jardim Peri esteve em cada concentração da Seleção de Tite. Jardim Peri está em Manchester. Jardim Peri está em sua pele, em suas tatuagens, e em todas as entrevistas que ele não esquece de lembrar que carrega o Jardim Peri para onde for.

No Palmeiras a joia pressionada depois de tantos anos difíceis estava pronta para ser crucificada. Escapou com títulos, revelação do Brasileirão de 2015 e o prêmio de melhor jogador do Brasileirão de 2016.

Gabriel Jesus durante jogo do Palmeiras contra a Chapecoense pela trigesima setima rodada do Campeonato Brasilieiro A 2016 no Allianz Parque em Sao Paulo.

Gabriel Jesus em sua última partida no Allianz Parque em Sao Paulo. Foto: Pedro Martins/Mowa Press.

Na seleção o menino prodígio com seus 19 anos estava pronto para ser crucificado (ainda mais com uma sucessão de centroavantes que fizeram tudo por lá, menos gol). Escapou novamente, conseguindo provar a cada jogo que esses pregos não cabem na mão dele.

No Manchester City o possível futuro grande jogador vai mostrando, com uma intensidade única, não almejar futuro, pois a urgência de seu presente exige que dê tudo, se entregue com força máxima para provar no agora que ele existe e merece sua chance. Ele não quer ser crucificado por lá. Os ingleses amam jogadores que entregam tudo que podem e não podem a favor da vitória do seu time. Não é difícil imaginar que, se depender do sucesso do menino, Jardim Peri continuará aparecendo nos grandes jornais do mundo, exaltado sempre por aquele jogador que insiste em driblar a crucificação imediata de seu futebol.