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Joao Havelange, uma vida extraordinária

Luiz Guilherme Burlamaqui Soares Porto Rocha

I.

João Havelange completou 100 anos de idade na semana passada. O currículo de Havelange é quase tão extenso quanto sua própria vida: foi um atleta olímpico nos Jogos de 1936 em Berlim e de 1952 em Helsinque, comandou a Confederação Brasileira de Desportos durante o tricampeonato mundial de futebol masculino e o bicampeonato mundial de basquete, foi membro do Comitê Olímpico Internacional por quase meio século (1963-2013) e presidiu a FIFA por mais de vinte anos (1974-1998). No âmbito comercial, Havelange foi diretor presidente da Viação Cometa. Havelange casou-se com Anna-Maria ainda na década de 1940, e teve apenas uma filha, Lucia Havelange. Nos últimos anos, Havelange perdeu prestígio por conta dos escândalos de corrupção que assolaram as entidades esportivas transnacionais. Assim, foi convidado a se retirar do Comitê Olímpico Internacional e praticamente obrigado a renunciar da presidência de honra da FIFA. Nas disputas da memória, Havelange, cujo nome havia batizado o estádio olímpico do Rio de Janeiro, foi escanteado, e o Engenhão rebatizado como Nilton Santos.

À distância, a vida de Havelange é uma vida extraordinária. Nas últimas décadas, os historiadores se debateram sobre a seguinte pergunta: por que se debruçar sobre uma vida excepcional, se nada nos dizem sobre como viviam os homens comuns? Eduardo Grendi, um dos fundadores da chamada micro-história italiana, por exemplo, cunhou a noção de “excepcional normal”. Para Grendi, uma biografia aparentemente singular pode sim ser útil na construção de regularidades e para a observação de certos fenômenos sociais. O excepcional dá a justa medida do campo de possibilidades de uma situação histórico concreta. Sob o prisma do historiador, a biografia de Havelange nos interessa porque está profundamente ligada ao século XX. Embora ela nada tenha de comum ou típica, ela é absolutamente representativa de um certo grupo social do século, e le-la abre uma espécie de fresta através das quais certas dinâmicas históricas podem ser melhor observadas. Em suma, ela diz muito sobre o século XX, a globalização, a historia do Brasil etc.

Brasília - O ex-presidente da Fifa João Havelange participa de audiência pública na Comissão de Infra-estrtura do Senado

Brasília – O ex-presidente da Fifa João Havelange participa de audiência pública na Comissão de Infra-estrtura do Senado em 2010. Foto: José Cruz / Agência Brasil.

II. 

A historia de Havelange não começa no Brasil, mas na Bélgica. No final do século XIX, a Bélgica foi uma das molas mestras da chamada II revolução industrial, e estava na linha de frente do neocolonialismo. Faustin Havelange, o pai de Joao, é um dos filhos da revolução industrial. Ferro e outros metais também passavam a ser uma matéria prima importante. Pouco a pouco, o setor ferroviário, siderúrgico, naval e metalúrgico substituíam o algodão e os têxteis como principais produtos do novo sistema capitalista mundial. A família de Havelange era importante numa cidade que foi um dos epicentros da II revolução Industrial, a cidade de Liege na Bélgica. Numa comparação um tanto grotesca, Liege era uma espécie de Manchester belga.

Nesse ambiente de transformação acelerada, cresceu o pai de Havelange, Faustin. Engenheiro, ele começou a sua carreira trabalhando em empresas de extração mineira belga no Peru e depois, pela mesma empresa, foi a Bolívia. Dali, o pai de Havelange regressaria à Bélgica para contrair matrimônio em 1904. Casou-se em Liége com Juliette, a mãe de Havelange. Faustin estava habituado a viver na America Latina e não aguentou ficar muito tempo na Bélgica, embarcando para o Brasil em 1912. No Rio de Janeiro, abriu a representação de uma firma belga armamentista na Rua do Ouvidor no centro da cidade do Rio de Janeiro. Há alguns processos da empresa de Faustin no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro. Tudo indica que os Havelange tinham posses significativas até 1932, quando o pai de Havelange teve de se desfazer de quase tudo por conta de uma licitação mal sucedida.

Assim como o pai de Havelange, os esportes modernos são também um subproduto da II revolução industrial. Com a internacionalização das empresas inglesas, o habito de praticas esportes expandiu-se. Claro que não se tratou de um processo mecânico e de mão única, mas sujeito às tensões locais, ao engajamento de elites estabelecidas e disputas internas. Neste ponto, é difícil dizer por que o futebol se tornou o esporte global por excelência. Ao contrário do rugby e dos demais esportes olímpicos, o futebol aceitou de bom grado a sua profissionalização. Em 1928, a FIFA decidiu conceder às federações nacionais a prerrogativa de adotar (ou não) o profissionalismo em detrimento do amadorismo. O profissionalismo fascinava as camadas populares porque criava vedetes, ídolos, e criava a possibilidade de ascensão social. O argumento não é meu, mas do historiador inglês Tony Collins. Mas o mesmo profissionalismo permitia às camadas sociais mais baixas sonhar abria as camadas sociais mais altas a possibilidade de perder.

Nesse contexto de globalização esportiva Jean nasceu. Talvez seja um truísmo dizer o quanto o mundo era diferente do atual. A distancia é tão grande que Adolf Hitler era apenas um desconhecido soldado alemão, o mundo vivia a primeira Guerra Mundial e a Rússia ainda era governada por um Czar. Havelange nasceu no bairro do Cosme Velho a poucas quadras de distância do recém-inaugurado Fluminense Futebol Clube. O Fluminense era um clube basicamente de imigrantes, e o pai de Havelange era um dos pouco mais de quinhentos sócios do clube. Para as elites imigrantes, as agremiações esportivas funcionaram, ao mesmo tempo, como espaços de networking e sociabilidade. Para ser associado do Fluminense, não bastava pagar uma mensalidade. Uma análise social rigorosa funcionava como triagem, com uma comissão destinada a avaliar quem estava apto e inapto a frequentar o clube. Essa comissão de sindicância, como chamavam os próprios sócios, perdurou até a década de 1980. No Fluminense, Havelange foi escoteiro (uma seção comandada por ninguém menos que Arnaldo Guinle), engajou-se em atividades filantrópicas, iniciou sua carreira como nadador e arriscou seus pontapés. Mais tarde, Havelange rememoraria “no clube, na escola e na família esses foram os ambientes onde moldei meu caráter”.

A duas ou três casas da residência dos Havelange, estava o Solar dos Abacaxis, um prédio ícone da arquitetura do Rio de Janeiro, onde Marcos Carneiro de Mendonça, o ex-goleiro da Seleção Brasileira de Futebol e do Fluminense, morava com a sua esposa, a poetisa Anna Amelia. Marcos é considerado o primeiro ícone do futebol brasileiro, e o havia abandonado ao atingir o auge` em uma atitude que causou certo tipo de estranhamento para a época. Numa entrevista ao Museu da Imagem e do Som, Marcos disse que ficou incomodado quando numa partida foi carregado pela multidão. “Era uma coisa grosseira, aquela gente te levantando e jogando pro alto, não imagino nada pior. Depois disso, eu desisti”. Marcos não duraria muito e se aposentadoria após a vitoria do sul-americano em1922.

De uma geração posterior, Havelange não chegou a ir tão longe quanto Marcos, mas talvez tenha desistido pelos mesmos motivos. Havelange era o capitão do time júnior do Fluminense, mas quando houve a possibilidade de subir aos profissionais, o futebol brasileiro aderiu imediatamente ao profissionalismo. O pai de Havelange advertiu o filho que seria uma decisão ruim prosseguir naquele esporte e seria mais adequado a dedicação total à natação. No plano simbólico, nem Havelange nem Marcos, membros de uma certa elite social, toleravam a mistura no mesmo esporte com os novos sujeitos que agora almejavam praticá-lo. Quando Havelange conta essa história, o exemplo evocado é quase sempre o de Ladislao, Médio e Domingos, os irmãos negros do Bangu, que ascendiam socialmente graças ao futebol profissional. Talvez o intolerável não fosse tanto a mistura, mas a possibilidade de derrota, ainda que em nível simbólico, da elite para os grupos desfavorecidos. Desta forma, as fábulas de Havelange junto ao futebol gravitam em torno da sua suposta inabilidade e pouca eficiência com a bola nos pés. Salvo em caso de talento excepcional, era preferível não arriscar. A opção de Havelange pelas piscinas ilustra também um processo conhecido como “democratização funcional do futebol”. Neste processo, as elites deixam os gramados e passam a se concentrar nos polos administrativos dos clubes. Não à toa, o futebol brasileiro reteve ate os dias atuais uma espécie de estrutura híbrida: enquanto os jogadores recebem salários, os dirigentes retiveram seu estatuto amadorístico.

Havelange preteriu o futebol e escolheu a administração e as piscinas. Ganhou três vezes a travessia do Tietê a nado, e foi às Olimpíadas de 1936 em Berlim. Havelange se destacava nas provas mais longas, principalmente, a de 400 e a de 800 metros. A organização das Olimpíadas de Berlim impressionou vivamente Havelange, que ficou encantado com as Óperas, a arte e a organização do evento. Havelange também não gostou nada da precária organização do Comitê Olímpico Brasileiro, que deixou os atletas à mercê da própria sorte. Havelange conta que, durante os Jogos de Berlim, sem ter dinheiro suficiente para se manter, envolveu-se em uma briga de boxe. Quem estivesse disposto a entrar no ringue, ganhava uma quantia mesmo se perdesse. Havelange entrou no ringue, foi nocauteado, mas embolsou o dinheiro.

JH

João Havelange durante entrevista em 2012. Foto: Sérgio Settani Giglio.

III. 

Após as Olimpíadas, Havelange migrou para São Paulo, onde começou a trabalhar na companhia Belgo-Mineira. Parte dessa companhia, por sinal, pertencia à família de Anna Amélia Carneiro de Mendonça, e é possível que ele tenha começado seu trabalho graças as redes construídas no interior do Fluminense Futebol Clube. Em São Paulo, Havelange continuou frequentando os clubes esportivos. Dessa vez, era o Esperia, um clube da elite paulista. Em São Paulo, Havelange descobriu o amor pelo water polo. Praticando-o e circulando pelo clube, Havelange conheceu empresários que o ajudariam muito nos próximos anos, como Antonio Carlos de Almeida Braga e Ney Carvalho, ligados ao capital financeiro, e Mario Amato e José Ermírio de Moraes, ligados à industria paulista em ascensão. Anos mais tarde, esses mesmos empresários estariam na linha de frente da organização da eleição de Havelange à presidência da FIFA.

No final da década de 1940, Havelange voltou a morar Rio de Janeiro, e começou a trabalhar na Viação Cometa. Quando a rodovia Dutra foi inaugurada, em 1951, Havelange se tornou o responsável pelo trecho Rio-São Paulo da empresa. A volta ao Rio de Janeiro marca o inicio de sua carreira como cartola. No Botafogo da Guanabara, Havelange virou Diretor dos Esportes Aquáticos. Em 1951, Havelange assumiu a Federação Nacional de Desportos Aquáticos. Na conjuntura critica da Confederação Brasileira de Desportos, fraturada e dilapidada pelas perdas da Copa do Mundo de 1950 e 1954, Havelange encontrou brecha e se candidatou como vice-presidente de uma chapa encabeçada por Silvio Pacheco. Silvio se afastou em 1957, e João assumiu a presidência jovem com pouco mais de 40 anos. No bojo da euforia dos anos JK, Havelange era o símbolo de um novo cartola, de um novo Brasil que se queria construir. Para a Copa de 1958, Havelange montou uma operação de guerra, conhecida como Plano Paulo Machado de Carvalho. Conseguiu um financiamento junto ao Nelson Vaz Moreira, sucessor de Jose Maria Whitaker à frente do Banco Comercial do Estado de São Paulo, contratou dentistas, médicos e até psicólogos para a Seleção Brasileira. Levou a seleção para o interior de Minas Gerais, em Caxambu, onde ela se preparou durante quase um mês. Na Suécia, o time comandado por Garrincha e Pelé inauguraria uma “nova era do futebol mundial”. Nas palavras de Gabriel Hanot, o criador da Bola de Ouro e da Liga dos Campeões da Europa, a partida entre Brasil e União Soviética, quando Garrincha e Pelé fizeram o debut na Copa do Mundo, era a “bomba Hiroshima do futebol mundial”.

A carreira de Havelange vinha de vento em popa após o bicampeonato em 1962 quando a consagração bateu à porta em 1963 — Havelange era a indicação do Brasil para membro vitalício do Comitê Olímpico Internacional. A reunião do COI teria lugar em Nairobi, no Quênia, mas o pais se tornou independente após a sua escolha como sede ter sido ratificada. Como a filosofia do COI não medeia conflitos políticos, Avery Brundage, então presidente do Comite Olímpico Internacional, e Jomo Kennyata, novo ministro do governo queniano, decidiram manter os preparativos. Entretanto, seguindo uma recomendação da Organização dos Estados Africanos, Kennyata disse que não iria conceder vistos aos portugueses e aos sul-africanos. Brundage, então, se revoltou e levou a reunião a Baden Baden na Alemanha.

Para ser aceito como membro do Comitê Olímpico, era preciso a aprovação da maioria do Congresso. O candidato é obrigado a falar inglês ou francês, a apresentar credenciais criveis, mostrar condição econômica de pagar uma taxa anual de 300 francos. O mais importante, entretanto, é que os colegas de Comitê o considerem como um membro à altura das suas tarefas.  Trata-se de uma seleção à maneira de um clube, bastante similar a do Fluminense e outras instituições tradicionais brasileiras, como o Iate Clube do Rio de Janeiro ou o Country Clube de Ipanema. Havelange começou o lobby se reunindo com o Marques de Exeter e o Principe de Luxemburgo. [anos mais tarde Luxemburgo endossaria a sua candidatura à FIFA] Segundo uma carta de Brundage localizada no arquivo do COI, ambos teriam se encantado com Havelange à primeira vista. Avery Brundage, entretanto, não parecia totalmente satisfeito. “Nós sabemos como são esses brasileiros”. A despeito das observações de Brundage, Havelange foi aceito em 1963. De inicio, ele teria um poder limitado no Comitê Olímpico Internacional, mas com a sua eleição a FIFA e a subsequente vitoria de Juan Carlos Samaranch em 1980, as coisas mudariam de figura.

A eleição de Havelange à FIFA começou a ser tramada em 1968 nas Olimpíadas do México e no Congresso de Guadalajara para a organização da Copa do Mundo de 1970. 1968 é um ano chave na história do mundo contemporâneo. Na história dos megaeventos esportivos 1968 talvez seja um ano ainda mais capital. 1968 marca o ano quando dois atletas afro-americanos resolveram protestar em pleno pódio olímpico, erguendo a mão esquerda à semelhança dos panteras negras. Era o chamado movimento Black Power, que se manifestava em plenos Jogos Olímpicos. O movimento americano conecta-se à luta por direitos civis no âmbito internacional. 1968 marca a primeira ameaça de boicote coordenada aos Jogos Olímpicos pelas nações sul-africanas e asiáticas. O comitê liderado pelo já mencionado Marquês de Exeter decidiu reconvidar a África do Sul para a disputa dos Jogos Olímpicos de 1968, provocando uma rebelião imediata. Diga-se de passagem Havelange foi o único sul-americano a se manifestar contra a decisão do comitê, exigindo uma mudança de postura da entidade. 1968 também marca o ingresso de Ydnatkchrew Tessema no Comitê Olímpico Internacional. Doravante, Tessema seria o principal cabo-eleitoral da campanha de Havelange no bloco africano. “A África perdeu a fé em Stanley Rous (o então presidente da FIFA)”, escreveria anos após o episódio, e decidimos apoiar a candidatura de Havelange. Depois da vitória de Havelange, Rous confidenciou em privado “Black Power, corrupção e suborno tomaram o controle da FIFA”.

A preparação à candidatura de Havelange para a presidência da FIFA durou seis anos. Foi uma campanha custosa, especulada na ordem de 500 mil libras em valores não atu para cerca de 80 países, onde travou relações face-a-face com vários dirigentes. Convidou esses dirigentes (em mais de uma ocasião!) para visitar o Brasil. Organizou a Taça Independência em 1972. Levava-os, em seu jatinho particular, para conhecer Brasília, apresentava-os a Jarbas Passarinho, então ministro da Educação e Cultura, e a cidade-monumento do Brasil moderno.

Parece claro que Havelange contou com o apoiou do Itamaraty e do governo brasileiro para a sua eleição, mas o apoio decisivo foi, sobretudo, dos seus amigos mais chegados, de uma certa elite empresarial do Sudeste (principalmente paulista), que gravitava no seu entorno. Seus amigos mais próximos o acompanhavam nas viagens. Ney Carvalho, corretor e acionista do mercado de ações, acompanhou-o em sua viagem à Austrália, ao Líbano e à Israel. Antonio Carlos de Almeida Braga, que agora vivia no Rio de Janeiro, havia conhecido Havelange em São Paulo, no mesmo clube. Braga viveu nos Estados Unidos e se encantou com as práticas de mecenato e filantropia. Ele ajudou Havelange e viajou com ele para inúmeros países. Mario Amato, futuro presidente da FIESP,  foi condecorado por Havelange em 1971 como grande-benemérito da CBD. Era a mesma elite que jogava water polo com Havelange e frequentava os salões do Esperia e agora havia enriquecido. Esse elite ajudou o filho pródigo. Havelange retribuiria na medida do possível, com ingressos privilegiados e outras benesses, mas a troca parece desigual. Por ora, é difícil compreender por que esse elite empresarial colocou tantos recursos (materiais, simbólicos, emocionais etc) na campanha de Havelange. Sem duvida, a vitória de Havelange não seria percebida como uma vitoria individual, mas como um triunfo de um projeto coletivo. Poderíamos ir além e demarcar que ela representava a vitoria de um projeto coletivo de nação. O dinheiro investido, portanto, retornava ao grupo sob a forma de prestigio, poder e orgulho.

Em 1974, Havelange venceu a eleição no Congresso de Frankfurt, com uma plataforma eminentemente terceiro mundista, anti-colonialista e anti-raalizados. Para se ter uma ideia do montante, o presidente atual da FIFA, Gianni Infantino, declarou ter gasto valor análogo em 2016! Havelange viajoucista. Com boa parte dos votos da África e da Ásia, Havelange venceu o primeiro round por 52 a 46 e quatro abstenções. Um segundo turno foi necessário e Havelange ampliou a sua vantagem para 58 a 42. O empreendimento foi extremamente ousado e arriscado, mas garantiu Havelange 24 anos à frente da presidência da FIFA. Naquela época, a FIFA ja era uma entidade rica e importante, mas o quadro foi completamente transformado com Havelange à frente da entidade. Com o ingresso dos super contratos da Coca-Cola e da Adidas, Havelange investiu nos chamados programas de desenvolvimento do futebol nos países menores. Investiu também nos Torneios Mundiais de Junior, que se tornaram frequentes a partir de 1977. Essas duas ações garantiram a Havelange um consenso amplo no seio da FIFA, e a sua gestão foi relativamente pacifica. As coisas começaram a mudar com o final da Guerra Fria em 1991. No ano seguinte, Havelange ficou bastante doente. Com o esfacelamento da União Soviética, o desenho geopolítico da FIFA foi refeito. A FIFA segue o sistema de um voto por país e o tamanho do Congresso praticamente dobrou com a dissolução da URSS, ampliando o espaço de atuação UEFA. Parece curioso, mas Havelange declarou mais de uma vez que sentia saudades da União Soviética, de um mundo com “estabilidade”, onde “haviam duas colunas que davam sustentação à ordem transnacional”.

Em 1980, com a crise interna no COI era consequência do boicote aos Jogos Olímpicos de Moscou, que gerou dívidas milionárias e o esfacelamento do poder. Nesse contexto de vácuo, Havelange ajudou Juan Carlos Samaranch a vencer a eleição no Comitê Olímpico Internacional por apenas um voto. Membro do COI e presidente da FIFA, Havelange era o dirigente esportivo mais poderoso do mundo. Na década de 1980, Havelange viveria o ápice, com a explosão das Copas do Mundo de 1982 e 1986. A Copa do Mundo passaria agora a ter 24 clubes, ganhando mais telespectadores e contratos mais valiosos. Em 1994, Havelange levaria a Copa do Mundo para os Estados Unidos, a última fronteira do futebol mundial.

Mas as coisas começaram a desandar com o final da Guerra Fria em 1991. No ano seguinte, Havelange ficou bastante doente. Com o esfacelamento da União Soviética, o desenho geopolítico da FIFA foi refeito. A FIFA segue o sistema de um voto por país e o tamanho do Congresso praticamente dobrou com a dissolução da URSS, ampliando o espaço de atuação da UEFA. Parece curioso, mas Havelange declarou mais de uma vez que sentia saudades da União Soviética, de um mundo com “estabilidade”, onde “haviam duas colunas que davam sustentação à ordem transnacional”. A oposição contra Havelange crescia e o desgaste natural provocado pela longa permanência à frente da FIFA eram visíveis. Havelange começaria a pavimentar o caminho natural para eleição de seu sucessor, Joseph Blatter. Com os mesmos votos que haviam eleito Havelange, Blatter tomou a FIFA para si em 1998 derrotando Lennart Johansson, então presidente da UEFA.

Brasília - O presidente da Comissão de Atletas do COB, Bernard Rajzman, o ex-presidente da Fifa João Havelange, o presidente da Comissão de Infra-estrtura do Senado, Fernando Collor de Mello, o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Arthur Nuzmann, participam de audiência pública

Brasília – O presidente da Comissão de Atletas do COB, Bernard Rajzman, o ex-presidente da Fifa João Havelange, o presidente da Comissão de Infra-estrtura do Senado, Fernando Collor de Mello, o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Arthur Nuzmann, participam de audiência pública em 2010. Foto: José Cruz / Agência Brasil.

IV:

Havelange praticamente se retirou da cena pública, mas continuou atuando nos bastidores da política internacional esportiva. Ele foi, por exemplo, um dos artífices da candidatura do Rio de Janeiro às Olimpíadas de 2016. Ao lado do presidente Luís Inácio Lula da Silva e Carlos Alberto Nuzman, Havelange fez um discurso memorável. Encerrou-o convocando a todos para a sua festa centenária que coincidiria com a chegada dos Jogos ao Rio de Janeiro. Em 2010, Havelange foi ovacionado no último Congresso da FIFA a que compareceu. Dali em diante as coisas desandariam e seu prestigio seria reduzido às cinzas.

As acusações de que teria montado um esquema de suborno com a extinta International Sports and Leisure (ISL) vieram à tona no Parlamento suíço. Como corolário da crise de 2008, a Suíça decidiu rever uma série de práticas correntes e, no bojo da crise, o lugar da FIFA no direito suíço foi então revisto. Descobriu-se, então, que Havelange recebeu propina da ISL, algo em torno de 2 milhões de dólares. Havelange renunciou da presidência de honra da FIFA e passou a ser persona non grata na entidade. É um ocaso melancólico a uma vida extraordinária, e que nos ensina tanto sobre certas dinâmicas do século XX.

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Havelange não aparece na foto, mas foi fundamental no processo da conquista do direito do Rio ser sede dos Jogos Olímpicos. Na foto: O então presidente do Brasil, Lula, segura uma bandeira nacional durante a comemoração juntamente com (De esquerda à direita) Orlando Silva, Luiz Inácio Lula da Silva, Carlos Arthur Nuzman, Pelé, Eduardo Paes, Henrique Meirelles e Sérgio Cabral Filho. Foto: Ricardo Stuckert / PR.

Como citar

ROCHA, Luiz Guilherme Burlamaqui Soares Porto. Joao Havelange, uma vida extraordinária. Ludopédio, São Paulo, v. 83, n. 8, 2016.