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João Saldanha e a viagem sem volta da Copa de 1990

Fábio Areias

O ano de 1990 foi um grande período para a Rede Manchete. O ano da novela Pantanal, o maior sucesso em sua curta – e financeiramente desastrosa – passagem pela TV brasileira. A emissora de Adolfo Bloch foi ao ar entre 05 de junho de 1983 e 10 de maio de 1999 e seu primeiro slogan era “A televisão do ano 2000”. Ironicamente, não chegaria até lá.

Rede Manchete 1983-1999 (Imagem: Wikipedia)

Em sua trajetória, a emissora transmitiu todas as Copas do Mundo possíveis (1986, 1990, 1994 e 1998 – esta última em situação pré-falimentar). O esporte estava em seu DNA. Exibiu também as Olimpíadas, torneios internacionais de tênis, Fórmula Indy, basquete, vôlei e, é claro, futebol. Muito futebol.

Grandes profissionais passaram pela emissora: Márcio Guedes, Paulo Stein, Alberto Léo, Mylena Ciribelli, Bruno Voloch, Osmar Santos e… João Saldanha. Técnico da seleção brasileira nas eliminatórias da Copa de 1970, jornalista, comentarista e um dos melhores comunicadores do país.

O João sem medo

João trabalhou na Manchete entre 1985 a 1990. E comentava futebol especialmente para o torcedor mais humilde. Aquele da Geral, que não tinha boa visão do lance. Aquele do cotidiano. Era a voz das ruas, da discussão de bar, do trabalhador que tinha seu refúgio no futebol. Sempre fiel às suas convicções, fossem elas políticas, sociais, futebolísticas ou de qualquer outro assunto.

Em 1989, Saldanha comentou o título carioca do seu Botafogo após um jejum de 21 anos. E no ano seguinte tinha Copa do Mundo na Itália. Competição que João adorava e dizia que havia assistido todas desde 1934. Se a seleção de Lazzaroni não empolgava, apesar de ter vencido a Copa América, uma Copa é sempre uma Copa. Um ambiente mágico para quem ama futebol.

Uma Copa é sempre uma Copa. Apesar de Lazzaroni (imagem: Wikipedia)

Com coragem, sem saúde

Infelizmente, o jornalista estava com a saúde extremamente debilitada. Com graves problemas respiratórios, não tinha as mínimas condições para tamanha jornada em terras italianas e, em maio de 1990, precisou ser hospitalizado. Mas João era teimoso. Se fosse para morrer, ao menos que fosse cobrindo sua paixão.

A biografia “João Saldanha: uma vida em jogo”, do jornalista André Iki Siqueira, registra o depoimento de Sônia Saldanha, filha de João, com o médico da família, antes da Copa:

“Eu perguntei para o Pedro Henrique [o médico]: ‘Quanto tempo ele tem de vida?’ ‘Não tem mais que três meses.’ ‘E se ele for pra Copa?’ “Pode não voltar.’. ‘E se não for?’. ‘Vive três meses’. ‘Então, vamos dar um jeito para ele ir à Copa.’ Foi decisão minha e do meu pai. Quer dizer, eu acatei. Preparamos tudo e enganamos a Manchete e o dr. Bloch. Fui lá conversar com ele, explicar, e ele perguntou: ‘Você acha que seu pai tem condições para ir?’ ‘Tem. O médico disse que tem’. Isto é, condições para ir. Não falamos nada sobre voltar. Assim dissemos a metade da verdade.”.

O drama não era apenas familiar, era também da emissora, que poucos dias antes do embarque para a Itália ainda não havia enviado a passagem para Saldanha. João percebeu o receio da Manchete e comprou por iniciativa própria uma passagem aérea. Só de ida.

E lá foi João com sua bombinha de cortisona. De cadeiras de rodas chegou ao aeroporto do Rio de Janeiro para a viagem. Uma cena triste e comovente para os colegas presentes. Melancólica pelo seu péssimo estado de saúde, claramente visível. Comovente porque somente alguém tão obcecado e corajoso poderia fazer tamanho esforço. Podia até ser um herói em decadência. Mas sempre um herói.

João Saldanha. Foto: Reprodução/Por dentro da mídia.

Ciente dos problemas de saúde de Saldanha, a Rede Manchete contratou Zagallo como comentarista para a Copa de 1990. Algum rancor por 1970? Nenhum. Era uma relação de amizade. Poderia até ter alguma provocação, mas o respeito e o carinho sempre prevaleceram.

Em Roma, João ficava a maior parte do seu tempo no quarto do hotel. Mas era valente. Por pior que estivesse sempre entregou sua coluna ao Jornal do Brasil e, quando possível, aparecia de cadeira de rodas no estúdio de TV. Chegou a comemorar em 3 de julho, dia da semifinal entre Itália e Argentina, seu último aniversário com uma festa-surpresa organizada pela Manchete.

Após a festa, João ficou com falta de ar, foi levado para o pronto-socorro e depois para o hospital. Mesmo internado e com grave quadro de insuficiência respiratória, solicitou uma máquina de escrever para redigir a sua coluna no jornal. A derradeira. Após o esforço, entrou em coma e ficou sedado até sua morte em 12 de julho de 1990.

João Alves Jobim Saldanha merecia muito mais do que o Brasil e a maioria das seleções ofereceram naquela Copa. Foi um campeonato de baixo nível técnico e muita retranca (a menor média de gols de todas as Copas). Não importa. No final o que fica são os atos de grandeza e não os de mediocridade. E Saldanha só poderia terminar sua trajetória desta forma: trabalhando, acompanhando futebol e sabedor que sua história já estava escrita. Em letras maiúsculas!

João, você foi fera. Foto: Reprodução YouTube.


BIBLIOGRAFIA

SIQUEIRA, André Iki. João Saldanha: uma vida em jogo. São Paulo: Companha Editora Nacional, 2007, p. 483-493.