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Joaquim Pedro de Andrade e o futebol

Alexandre Fernandez Vaz, Lana Gomes Pereira

Olhem, ouçam, ensaio sobre futebol, poema épico, moderníssimo modernista filme verdade futebolístico janguista, palmas pra ele! (Glauber Rocha).

Em Joaquim Pedro de Andrade: a revolução intimista, Ivana Bentes conta que durante a Copa do Mundo de 1970, no México, o cineasta se alinhou à perspectiva segundo a qual seria necessário torcer contra a seleção brasileira que jogava em busca do tricampeonato e da posse definitiva da Taça Jules Rimet. Com o futebol – e o selecionado, em especial – muito vinculado à ditadura que seis anos antes usurpara o poder democraticamente constituído da República, era preciso ocupar todas as trincheiras de resistência. A autora, no entanto, destaca que “Joaquim Pedro e Sarah [sua esposa] se mantiveram firmes até a decisão, valendo o tricampeonato mundial. Mas, quando o Brasil entrou em campo para enfrentar o México não aguentaram. ‘Fomos para o apartamento de um casal de amigos, Branca Alves e Helinho Viana, no Parque Guinle. Começamos a beber, enchemos a cara e nós quatro, trancados ali, sozinhos, torcemos loucamente pelo Brasil’, lembra Sarah”.

Não são incomuns relatos como esse, presentes, por exemplo, no livro Crepúsculo do macho, de Fernando Gabeira (brasileiros recém-exilados na Argélia, cuja liberdade fora trocada pela do sequestrado embaixador da Alemanha, discutem qual seria a melhor postura política, com o grupo cindindo-se em dois opostos), ou no filme de Cao Hamburguer, O ano em que meus pais saíram de férias (estudantes em um centro acadêmico corroborando a ideia de que um gol da Tchecoslováquia, adversário na estreia em Guadalajara, seria um tento a favor do socialismo). A consequência, talvez um pouco idealizada, é a mesma, todos comemorando o primeiro gol brasileiro, rendidos à fascinação gerada pelo futebol.

Ilustração: Pedro Celso Cruz de Souza/Wikipédia

Há pouco mais de uma semana completaram-se trinta e oito anos da morte de Joaquim Pedro, cineasta com documentários e filmes ficcionais no currículo, um dos bons diretores do Cinema Novo. A vida abreviada pelo câncer aos cinquenta e seis anos não o impediu de realizar trabalhos destacados, como Couro de gato (episódio do trabalho cooperativo Cinco vezes favela), O padre e a moça, Macunaíma. Torcedor do Fluminense Futebol Clube – como Nelson Rodrigues, Carlos Heitor Cony e Chico Buarque de Holanda –, dirigiu o belo Garrincha, A Alegria do Povo, sobre o grande astro do Botafogo de Futebol e Regatas, lançado em 1963, um ano depois de o jogador ser o grande destaque brasileiro no Bicampeonato Mundial alcançado no Chile.

O documentário, produzido por Luiz Carlos Barreto – que também se encarregou, junto com Armando Nogueira, de escrever o roteiro –, atualiza a mitologia das origens do futebol brasileiro, com as sequências iniciais mostrando crianças jogando na praia e logo cruzando perigosamente a avenida atrás da bola perdida, e a participação de Garrincha em uma partida entre amigos em Pau Grande, Magé, região metropolitana do Rio de Janeiro. As crianças descalças e o ponta-direita rápido e habilidoso aparecem sem camisa, evocando uma relação direta com a natureza, como se o futebol brotasse da absoluta espontaneidade – condição elogiada, ademais, como a autenticidade nacional, por Nelson Rodrigues, logo depois do triunfo no Chile:

“Se fôssemos 75 milhões de Garrinchas, que país seria este, maior que a Rússia, maior que os Estados Unidos”.

Natureza destina ao êxito: também assistimos às imagens de Garrincha nos campos oficiais de futebol, vencendo o campeonato estadual representando o Botafogo e a Copa pela seleção, sempre em 1962, em montagem cinematográfica que, no entanto, alterna glórias, reveses, fotos e discursos de outros tempos, como o do prefeito do Distrito Federal, Mendes de Moraes, advertindo os jogadores brasileiros em 1950, prestes a enfrentarem o Uruguai: “Eu cumpri minha palavra construindo este estádio. Vós deveis cumprir agora o vosso dever ganhando a Copa do Mundo”. Essa mescla de temas e instantâneos acaba oferecendo uma leitura do futebol brasileiro uma continuidade, ainda que quebradiça, que vai do suposto fracasso de 1950 à vitória de 1962, depois de já apresentada a origem natural dos craques.

As imagens produzidas no Maracanã são, de longe, as mais bonitas, capazes de elevar o filme à condição de tratado visual-poético-político, em especial as que mostram o campo de jogo na altura dos olhos de quem o assiste das gerais, hoje já inexistentes. São homens pobres que para ver os jogadores em ação devem ficar na ponta dos pés e erguer a cabeça. A câmera leve, os bons fotógrafos – entre ele o próprio Luiz Carlos Barreto –, a sensibilidade, era o que bastava (e ainda basta?) para a composição dos quadros. Cinéma Verité que capturou jogadores em focos precisos de movimentos lentos que se aceleram. Cinema como cinemática, kinesis, movimento. Kynema, como costumava grafar Glauber Rocha. Eis um de seus parentescos com o esporte.

Glauber, aliás, reconheceu que Joaquim Pedro ajudou a inscrever o futebol na dignidade das artes populares: Garrincha, alegria do povo, documentário sobre o futebol brasileiro, é antes de tudo visão do povo, do amor do povo, da miséria, da alegria, da superstição e da grandeza do povo na figura do menino das pernas tortas, que é o improviso do povo”. Para nosso maior cineasta, Garrincha seria um novo Macunaíma.

Para dizer sobre o Brasil faltam-nos Nelsons, Glaubers, Garrinchas. Falta-nos Joaquim Pedro de Andrade.

Ilha de Santa Catarina, setembro de 2020.


Como citar

VAZ, Alexandre Fernandez; PEREIRA, Lana Gomes. Joaquim Pedro de Andrade e o futebol. Ludopédio, São Paulo, v. 135, n. 42, 2020.