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Jogadoras de futebol haitianas, vítimas de abusos sexuais: um alerta para o esporte!

Wagner Xavier de Camargo

Em meados de maio, mais uma situação de abuso sexual foi deflagrada no meio esportivo. Trata-se da denúncia contra o presidente da Federação Haitiana de Futebol, Sr. Yves Jean-Bart, que já tem longo histórico de permanência frente à entidade diretiva. No início de 2020, ele se reelegeu pela sexta vez. O caso veio à tona quando publicado no The Guardian, jornal britânico que trouxe o furo de reportagem.

Yves Jean-Bart, presidente da Federação Haitiana de Futebol, acusado de abuso sexual por jogadoras da seleção. Foto: Reprodução/Facebook.

Consta que jogadoras de futebol foram vítimas do referido presidente dentro do centro nacional de treinamento do Haiti (Centre Technique National), local em que se encontravam alojadas. Os casos exploração sexual e abuso de poder nesse sentido teriam ocorrido nos últimos cinco anos, alegam as atletas. Segundo o jornal, jogadoras que deixaram o centro contam que eram obrigadas a fazer sexo com ele e que, inclusive, uma jovem adolescente realizou um aborto em decorrência disso.

A FIFA, como entidade máxima que gerencia o futebol no mundo, suspendeu o presidente da Federação Haitiana por 90 dias como medida protetiva enquanto os fatos são investigados. Ela se baseou em seu Código de Ética interno e nas cláusulas com punições por assédio, abuso e exploração sexuais, inseridas nele em junho de 2019, quando o conselho da entidade se reuniu em Paris.

O tema da sexualidade no esporte já se constitui um tabu em si. São veladas as proibições de falar sobre ela e, igualmente, são frequentes as indagações acerca de orientações sexuais de jogadores/as de futebol, curiosidades da vida íntima de esportistas ou mesmo julgamentos morais desferidos quando alguém do meio esportivo (e com projeção na mídia) se envolve com travestis. O tabu criado socialmente também é alimentado esportivamente, dentro e fora de gramados, pistas, ginásios.

A problemática aqui colocada não afeta apenas a federação do Haiti, muito menos tão somente o futebol. Ela é mais ampla, abarca diferentes realidades clubísticas (locais e nacionais) mundo afora, e, obviamente, outros esportes. Num rápido recorrido, podemos nos lembrar dos casos de assédio/abuso sexual do hóquei no gelo (no Canadá), do futebol americano (nos Estados Unidos), da ginástica artística masculina (Estados Unidos, mas também no leste europeu, Rússia e Brasil), na natação (Brasil e China) e mesmo no globalizado futebol, nosso velho conhecido. Aqui e acolá, em todo território nacional, já se denunciaram abusos sexuais contra menores jogadores/as (talvez tais denúncias não sejam tão explícitas como gostaríamos).

Centro Nacional de Treinamento da Federação Haitiana de Futebol. Foto: Reprodução/Twitter.

Não precisamos ir muito longe para entender um motivo de fundo que faz com que isso aconteça. Vivemos num mundo marcado pelo patriarcado, um sistema social no qual o homem (branco, heterossexual, cristão e capaz) se assenta em postos de comando e controle, tanto como figura de autoridade, quanto como liderança política, moral, religiosa e afim. Esse homem exerce sua masculinidade tóxica, orquestrada a seu bel prazer.

Então, percebemos que, se o homem está no “topo da estrutura de poder”, digamos de modo simples, ele se empossa do direito de submeter outros sujeitos a seus desejos. No governo, na família, no exército, nas instituições religiosas, o presidente (observem o atual), o pai, o comandante, o clérigo mantêm a autoridade sobre mulheres, crianças, pessoas com deficiência e quem mais eles decidirem que são “inferiores” (aspas indignadas aqui). No caso em questão no Haiti, tal presidente usou de seu privilégio para molestar meninas jogadoras e usá-las sexualmente, bem como homens fazem com meninas-mulheres em nossas sociedades contemporâneas.

O caso que chocou a todos no Brasil ano passado deu-se, exatamente, na ginástica artística. Houve relatos de ex-atletas, que contaram como Fernando de Carvalho Lopes praticava, com certa frequência, abusos sexuais de variados tipos, junto aos meninos/adolescentes ginastas que treinavam sob seus comandos. Ao que parece, eram investidas disfarçadas de brincadeiras em vestiários, alojamentos, quartos de dormir e mesmo nas áreas de treinamento. E isso parece ter ocorrido durante os 20 anos em que foi técnico na modalidade. Seu recente banimento do esporte é apenas uma pequena justiça feita em relação às vidas perturbadas por tais abusos. O mais chocante é que muitos técnicos homens de outros clubes sabiam do que se passava e se calavam. O silêncio no esporte sobre questões que envolvem a sexualidade é aviltante e causa revolta.

Fernando de Carvalho Lopes, ex-técnico da seleção brasileira de ginástica foi acusado na justiça de assediar atletas. Foto: Ricardo Bufolin/CBG.

No futebol, a FIFA tem se preocupado com a proteção à criança e ao jovem atleta. Lançou em 2019 o FIFA GUARDIANSTM, um Programa de Proteção à Criança (Child Safeguarding Programme), que tem como missão criar um ambiente seguro para a criança vivenciar o futebol. Ele está assentado sobre cinco passos principais, baseados em princípios, trazidos aqui em tradução livre: 1) sempre agir tendo como foco os interesses das crianças; 2) respeitar e promover o direito das crianças via jogo de futebol; 3) aplicar todos os princípios e práticas aqui descritos para todas as crianças, sem discriminação de qualquer tipo; 4) garantir proteção das crianças é responsabilidade de cada um, independente do país que somos ou da função que ocupamos no futebol; e 5) garantir papeis e responsabilidades definidas dentro das Associações membros da FIFA.

Como pesquisador da temática e amante do esporte, desejo que muitos outros casos venham à luz cada vez mais no esporte. Que sejam denúncias em cascata, uma após a outra, de atletas (mulheres, meninos ou meninas, adolescentes em formação, com ou sem deficiência), que não desejarão mais se sujeitarem a outros, particularmente a dirigentes homens autoritários.

E, pensando em nosso futebol ou na nossa ginástica, que meninos e meninas não precisem se envolver em favores sexuais para serem selecionados/as ou para obterem melhores condições de vida. É por isso que precisamos falar de sexo, de sexualidade, de orientações de gênero e identidades sexuais no contexto esportivo, pois falando de tais questões é bem pouco provável que tenhamos necessidade de tratar de abusos sexuais no esporte!


Agradeço a Vinícius Moura, jornalista da CBN, pelo incentivo à reflexão acerca do caso e pelo convite para uma entrevista sobre o tema, que ocorreu em 31 de maio de 2020. Ela se encontra neste link.

Para quem quer saber mais

AARONS, Ed; MOLINA, Romain; CISMIC, Alex. Haiti FA president accused of sexually abusing young female footballers. The Guardian. 30 abr. 2020. Acesso em: 26 maio 2020.

AARONS, Ed; MOLINA, Romain; CISMIC, Alex. Haiti’s Yves Jean-Bart suspended for 90 days by Fifa over sexual abuse claims. The Guardian. 25 maio 2020. Acesso em: 26 maio 2020.

Código de Ética da FIFA.

Fifa atualiza Código de Ética e inclui punições por assédio sexual. BOL Online. Acesso em: 05 jun. 2020.