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Jogar, ganhar e orar

Thales Zolli Gaberz

É muito comum, durante entrevista no final de uma partida de futebol, ver jogadores agradecendo à Deus, mencionando bênçãos e dedicando aos céus todas suas vitórias – e colocando também nas costas dele suas derrotas. Esse texto é uma proposta de reflexão sobre a religião evangélica no futebol profissional, buscando observar influências diretas e indiretas nos principais agentes responsáveis em tal atividade.

Uma pesquisa do UOL Esporte, em 2013, apurou que a presença da religião evangélica entre os jogadores dos principais clubes brasileiros é maioria, entre aqueles que se pronunciaram. Que a religião predomine entre os jogadores pouco importa; o que nos é interessante é o fato de que, no futebol, entre aqueles que optam por se pronunciar, a maioria das manifestações são de cunho evangélico. Assim, pode até ser que o catolicismo evangélico não seja a principal religião entre os jogadores, porém é a mais manifestada de forma explícita dentro do esporte, seja em entrevistas ou em comemorações.

É possível identificar a formação de grupos dentro do elenco que se formam a partir da religião em comum. Há vezes em que, em determinados times, a influência é tão forte que faz com que um elenco inteiro se construa ao redor dessas relações extracampo, consolidando uma figura como representante daquele grupo, rendendo muitas vezes a faixa de capitão e voz ativa dentro do clube. Veremos aqui os casos do goleiro Fábio, e sua influência que tem até hoje nos elencos formados no Cruzeiro Esporte Clube, e de Ricardo Oliveira, do Santos Futebol Clube, que desde 2015 mantém forte liderança no elenco de jogadores, mesmo não estando mais no clube.

Deus dá, Deus tira

Um dos clubes mais tradicionais do futebol nacional, mesmo o Cruzeiro Esporte Clube estando na Série B, o clube disputa com o Atlético Mineiro o posto de “maior de Minas”. Além da rivalidade, o clube (assim como o Santos), foi berço de grandes nomes do futebol nacional, como o goleiro Raul e o meio-campista Tostão. No entanto, o nome marcado na história do clube é do goleiro Fábio. Hoje com 40 anos de idade, Fábio tornou-se, há quatro anos, o jogador que mais vestiu a camisa do azul-celeste. Atualmente já atinge marca histórica que o coloca em um seleto grupo dos jogadores que mais vestiram a camisa de um clube no Brasil – essa lista conta com Pelé pelo Santos, Marcos pelo Palmeiras, Rogério Ceni pelo São Paulo, Roberto Dinamite pelo Vasco.

Com qualidade indiscutível – rendendo, inclusive, protestos recorrentes pela ausência de seu nome em convocações à seleção brasileira –, uma grande marca na carreira e vida do jogador foi uma goleada sofrida para o arquirrival em 2007. Um 4×0 no Mineirão lotado, o jogo foi marcado por um gol emblemático: depois de um gol sofrido, a partida recomeçou, e enquanto o goleiro ainda tirava a bola do fundo das redes, o Atlético marcou o quarto gol. 

Para encerrar o trágico dia, o goleiro ainda se chocaria com a trave, sofrendo uma grave lesão que o tiraria de campo por meses. Em sua recuperação, Fábio encontrou a palavra de Deus, e à ele é devoto até então.

A ascensão de um jogador no cenário nacional é sempre marcada por holofotes e grande repercussão em um curto período de tempo e, considerando a idade média na carreira futebolística, esse momento vem, geralmente, de forma estrondosa durante a juventude do atleta. Lidar com toda a fama, repercussão, dinheiro e ascensão vai além das quatro linhas e do próprio atleta; vai da família, de amigos, influências, do clube, e algumas vezes, da religião. É muito frequente a história de jogadores que se perdem em meio a tamanha novidade. E há aqueles que conseguem se sair bem e aqueles que perdem a grande chance e se perdem.

Foi na religião evangélica que Fábio conseguiu encontrar Deus e salvar sua carreira. Já convivendo com o alcoolismo, Fábio esteve perto de perde-la por completo. Foi quando, enquanto se recuperava de lesão, encontrou na televisão o contato com o evangelismo. Com ele, abandonou o álcool e hoje, mais de 10 anos passados, Fábio se tornaria um dos maiores ídolos da história do clube. Disputou uma final da Copa Libertadores da América, levantou duas vezes a taça do Campeonato Brasileiro como capitão, e foi campeão duas vezes da Copa do Brasil. No título do tetracampeonato nacional, conduziu um elenco majoritariamente evangélico, e a partir da religião, manteve-se o grupo coeso e focado na luta do título nacional.

Foto: Reprodução Facebook

Como diz o senso comum, “Deus dá, mas Deus também tira”, hoje a realidade do clube extremamente diferente. Atualmente, o Cruzeiro disputa a Série B, e do elenco inteiro que foi reformulado, o goleiro Fábio foi um dos únicos a se manter no time – abaixando o salário e assumindo a responsabilidade para si. Treinadores vão e vêm, mas Fábio continua lá. Até mesmo quando passa por má fase, o goleiro é unanimidade e lidera do elenco de forma inquestionável. 

“O Senhor é meu pastor e o gol não me faltará”

No início de 2015, passando por uma reformulação de elenco, o Santos Futebol Clube anuncia a contratação de Ricardo Oliveira – à época com 34 anos de idade. O jogador fora formado no clube e nele ganhara projeção para o futebol internacional. Depois de passagens por grandes times europeus, Ricardo Oliveira volta para um Santos enfraquecido, afundado em dívidas e passando por uma espécie de ressaca após ter vivido anos gloriosos com Neymar. Porém, como um patinho feio, o Santos renasce. Contando com jogadores da base, jogadores renegados e o mesmo treinador que projetou Neymar, o time conquista o futebol nacional no segundo semestre de 2015, tendo inclusive Ricardo Oliveira como artilheiro do Campeonato Brasileiro. Antes de tudo, por trás do sucesso em campo, tem o “Pastor”.

Consagrado pastor pela Assembleia de Deus em 2009, Ricardo Oliveira agiu como um “paizão” entre os jovens que compunham o reformulado elenco santista. Com experiência internacional (incluindo seleção brasileira), o jogador ficaria conhecido como “Pastor”. E tanto dentro como fora de campo, guiava os mais jovens trazendo confiança e esperança tanto aos jovens jogadores como aos agora esperançados torcedores. Em lua-de-mel com a torcida, o “Pastor” de fato marcou sua influência na equipe e em uma geração de jogadores – principalmente quando consideramos que o clube é mundialmente reconhecido por suas “crias”.

Ricardo Oliveira era – e ainda é – idolatrado pela torcida santista, pelo respeito que sempre demonstrou ao clube, por sua dedicação e profissionalismo, jogando futebol em alto nível numa idade onde os jogadores tenderiam a decair, e também marcado pelo deboche e provocações aos rivais. Contudo, a lua-de-mel chega ao fim no início de 2017.

Aquele elenco que encantou o torcedor não mostrava mais o mesmo futebol. As falhas tornaram-se frequentes, e um sentimento de “mesmice” tornou-se evidente. A insatisfação toma seu ponto máximo com uma sequência de acontecimentos: a torcida picha os muros do estádio, fazendo cobranças direcionadas ao time, de característica religiosa, com os dizeres “menos religião, mais raça”, e direcionadas especificamente a um dos jovens jogadores que fora destaque dessa equipe, cobrando “Zeca joga bola”. A cobrança a Zeca subiu mais um degrau quando a torcida recepcionou o time em aeroporto, onde um torcedor teria supostamente agredido ao jogador – depois do ocorrido, o jogador não voltaria a vestir a camisa do clube.

Foto: Reprodução Twitter

Incluindo o Zeca, pelo menos cinco grandes nomes do elenco sairiam do clube até o fim de 2017. Desses jogadores, dois foram batizados pelo “Pastor” Ricardo Oliveira. Foi só no início de 2020 que os últimos jogadores da época saíram. Mas enquanto estiveram lá, o goleiro Vanderlei e o lateral Victor Ferraz (que, inclusive, foi capitão da equipe no seu último ano) se mantiveram como representação daquilo que Ricardo Oliveira outrora representara no vestiário da Vila Belmiro.

A torcida mantém um discurso reverenciador ao “Pastor”, e ainda hoje se faz presente no clube uma das características mais marcantes de Ricardo Oliveira e a equipe de 2015: a roda de agradecimento a Deus após um gol feito. No “jogar, ganhar e orar”, o Santos fora evangelizado.  

Foto: Reprodução Twitter

Deus, a prece e os três pontos…

Procurei, de forma breve, através dessas duas histórias paradigmáticas, abordar um exemplo da grande influência que a religião têm dentro do futebol. Há várias outras perspectivas que poderiam ser adotadas para analisar a influência da religião dentro do futebol. Não foi o foco aqui, mas vale mencionar alguns outros casos, como as “panelinhas” religiosas; a presença de figuras religiosas dentro do vestiário da seleção brasileira; mudanças em uniforme e mascotes devido a pressão religiosa. O campo entre religião e futebol é estritamente ligado, e a intenção aqui foi fazer um meio-de-campo nessa análise. Ou ainda pincelar de outras cores o cenário, que está quase para um afresco religioso do Renascimento.

“Agora é ouvir o que o professor tem pra falar e se Deus quiser sair com os três pontos”


Sobre o LELuS

Aqui é o Laboratório de Estudos das Práticas Lúdicas e de Sociabilidade. Mas pode nos chamar só de LELuS mesmo. Neste espaço, vamos refletir sobre torcidas, corporalidades, danças, performances, esportes. Sobre múltiplas formas de se torSER, porque olhar é também jogar.


Como citar

GABERZ, Thales Zolli. Jogar, ganhar e orar. Ludopédio, São Paulo, v. 138, n. 11, 2020.