119.1

Jogo falado: a hegemonia do falo em campo

Fidel Machado

Para além do futebol, lógicas de exercício de poder são naturalizadas. Para além do futebol, algumas questões são postas como uma tentativa de mascarar e mitigar comportamentos. Para além da partida de futebol e do resultado do jogo entre Corinthians e São Paulo pela final do Campeonato Paulista no domingo, 21/04, algumas questões permanecem além do título alvinegro.

Nessa partida supracitada um comportamento recorrente nos gramados me saltou aos olhos devido a uma campanha contra gritos homofóbicos liderada pelo Coletivo Democracia Corinthiana que dizia: “Não grite bicha, grite Corinthians”. Essa ação visou uma mudança contra os gritos de “bicha” nos tiros de meta do São Paulo. Esse comportamento também foi protagonizado pela torcida são paulina no primeiro jogo e tornou-se comum em campo. Ademais, essa parcela da torcida alvinegra enfatiza o respeito e ressalta que nas arquibancadas de Itaquera também existem pessoas LGBTs.

Tal episódio não chama atenção de forma isolada, outro fator já presente nas finais paulistas marcou essa partida. A ação de homogeneizar as arquibancadas já foi tomada por órgãos de segurança do estado para tentar, por meio da proibição e punição, coibir algumas atitudes taxadas como problemáticas. Contudo, a torcida única resultou em efeitos colaterais, como a interdição das questões de gênero. A intolerância verbalizada culminou na reincidência do “BICHA” como pretexto para “desestabilizar o adversário”. As justificativas falocêntricas giram em torno de explicações simplistas. Certos hábitos reforçam determinadas estruturas de poder, marcam corpos, rotineiramente, estereotipados, julgados e naturalizados como estranhos, abjetos e inferiores.

A ordem masculina adquire relevância, passa a se inscrever nos corpos e dita quais manifestações de sexualidade são tidas como normais. Tal prerrogativa não possui como fundamento primordial o falo, mas está ancorada sob uma visão de mundo, constituída e imposta por homens que se articula com a divisão binária e atribui ao órgão sexual um símbolo de virilidade e poder. Nessa conjuntura, como desdobramento dessa divisão e oposição, resta aos outros corpos a adequação à estrutura que os condicionam, de partida, a adotar um papel coadjuvante e, por vezes, irrelevante na dinâmica social. Já o corpo masculino ocupa-se de vigor e virilidade no que tange as ações socialmente prestigiadas.

Clima de torcida única. Foto: Fábio Soares/Futebol de Campo.

A ideia de homem e masculinidade possui estruturas rígidas que perpassam vários setores, mas, por ser um parâmetro de classificação, não possui ancoragem na realidade haja vista que se baseia em uma ideia. A luta incessante e inglória é para tentar atingir ou performatizar esse ideal. A batalha é ainda mais árdua, pois quando se supõe que o modelo foi atingido, inaugura-se a guerra para permanecer no interior dos moldes. Na esteira de Michel Foucault, pôr essa norma em ação visa a normatização para assim produzir uma normalização e agir sobre os corpos tidos como anormais. Nesse cenário, o homem, muitas vezes, deixa de ser substantivo para ser adjetivo. Os homens abandonam o plural para perseguir o modelo de homem singular. Como um dos rebotes dessa ânsia insegura, temos o que denominamos de masculinidade tóxica e masculinidade frágil. Pelo mesmo argumento exposto, não há a torcida do Corinthians, não há a torcida do São Paulo. Logo não tem porquê advogarmos para existir uma única e verdadeira masculinidade. Na tentativa de universalização, o que por si já é uma grande violência, desconsideramos as divergências, os conflitos e as problemáticas da própria diferença. Deixo claro que este que vos escreve também é atravessado por todos esses atributos mencionados e operacionalizados pelo machismo. 

Retomo as medidas punitivas que buscam solucionar, mas não resolvem nem tampouco problematizam a causa, apenas maquiam alguns efeitos. Alguns órgãos de segurança do estado de São Paulo têm celebrado a diminuição dos índices de confrontos entre torcedores nos clássicos desde a adoção da arquibancada unívoca. É fato que os conflitos geraram e podem gerar consequências graves que podem resultar em depredações e óbitos. Todavia, percebo uma tentativa de combater os efeitos e não atacar de fato as causas geradoras do problema. Tentativas de maquiagem e pasteurização são suspeitáveis. Não quero com essa afirmação me anunciar como o detentor de uma solução. Não há resposta fácil para um problema estrutural e estruturante presente nos vários campos da vida. Arrisco dizer que mascarar as causas e combater os efeitos é uma estratégia para apresentar um suposto engajamento, pois a lucrativa lógica ajuda a manter comportamentos específicos.

Não é a mudança que torna o futebol chato como muitos torcedores enfatizam. O futebol, de fato, está ficando sem graça, pois insiste em manter sua rigidez frente ao dinamismo das mudanças do devir com justificativas simplistas e explicações estanques. Nessa conjuntura, a chatice impera quando alicerçada sobre uma ótica em que determinados corpos insistem em manter prerrogativas ilusórias de uma suposta supremacia que os colocam em patamares elevados para assim exercerem seus meios de dominação sobre os demais corpos. Entre falos e falas, a lógica está para além da chacota, da estratégia esportiva para desestabilização do adversário, da brincadeira ou seja lá o que for. Penso que tais mecanismos dizem respeito sobre relações de poder fortemente exercidas e ostensivamente mantidas. Questionar a banalização do preconceito requer embate, desconforto e luta.

O jogo falado ainda joga na sua maioria em uníssono. No jogo de falos, a fala só vale se for para manter os falos falando. Há mudança, mas muito ainda precisa mudar. O futebol parece-me temer o encontro, o contato e o conflito imanente à vida e, por esses motivos, ainda permanece recluso no armário.