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Jornal dos Sports em tempos de ditadura: Jornalismo esportivo e as torcidas de futebol no final dos anos 1960

Bernardo Borges Buarque de Hollanda

Em 1966, poucos meses depois da Copa do Mundo da Inglaterra, o cenário futebolístico brasileiro assistiu à perda de um importante personagem: o jornalista Mário Rodrigues Filho. Membro da família Rodrigues, da qual fazia parte o dramaturgo Nelson Rodrigues, seu irmão mais novo, Mário ficou conhecido na imprensa por ações e escritos em defesa do profissionalismo no futebol, materializados pela entrada em cena de jogadores negros e operários nos grandes clubes do Rio ao longo dos anos de 1930.

Após o falecimento, Mário Júlio Rodrigues foi o único herdeiro de Mario Filho, responsável por dar continuidade à empresa do pai, o Jornal dos Sports, então o periódico de esporte mais vendido no Brasil. Mario Júlio continuou, por exemplo, uma tradição paterna, o assim chamado Duelo de Torcidas, concurso que seguia o modelo de avaliação das Escolas de Samba. Nele, um júri formado por cronistas, radialistas e jornalistas julgava as torcidas segundo quesitos como animação, originalidade, fantasia, percussão, entre outros.

O Desfile das Escolas de Samba e o Duelo de Torcidas foram ambos invenções de Mario Filho quando este, a convite de Roberto Marinho, foi trabalhar na seção de esportes do jornal O Globo nos anos 1930.

No final dos anos 1960, no entanto, o herdeiro de Mario Filho, ao assumir a empresa do pai, enfrentou um contexto de crises financeiras, repressão militar e novas tragédias familiares, como o suicídio da sua mãe, Célia Rodrigues, um ano após a morte do marido.

Naquela conjuntura, porém, o “poder simbólico” da juventude já apresentava seu impacto midiático em nível nacional e internacional e se fazia presente também no futebol e nas arquibancadas.

Como inovação, Mario Júlio decidiu incorporar a “onda jovem” ao discurso editorial e à estratégia comercial do seu jornal. Entre outros motivos, porque os estudantes e os jovens estavam entre os seus principais consumidores. Interagir e acompanhar as demandas de seus leitores parecia assim uma maneira astuta de sobrevivência e reconversão daquela empresa jornalística.

A partir de 1967, o Cor-de-Rosa, como era popularmente conhecido o Jornal dos Sports, passou a se autoproclamar “o jornal do Poder Jovem”. Ele procurava se colocar ao lado dos estudantes, por meio da divulgação das passeatas e das assembleias do movimento estudantil.

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Este alcançou o ponto máximo em 1968, com a reação insurgente ao assassinato do estudante Édison Luís, no restaurante Calabouço, pelas forças de repressão policial.

As diretrizes do novo jornal estimulavam também a área artística e cultural, o que incluía música, teatro, cinema, ciência, televisão, artes plásticas, entre tantos outros domínios. O periódico ultrapassava a simples etiqueta de um jornal esportivo, com o intuito de abarcar mais leitores, mediantes os mais diferenciados interesses.

Outra medida surpreendente do Jornal dos Sports foi a contratação naquele final dos anos 1960 de artistas e jornalistas hoje em dia muito reconhecidos, tais como Henfil, Zuenir Ventura, Torquato Neto, Ana Arruda Callado. Tornou-se desta maneira uma referência nas artes e na cultura, sendo um veículo aberto, de livre-experimentação para aspirantes das faculdades de jornalismo que então surgiam.

Foi assim que apareceu no Cor-de-Rosa o encarte Sol, com o subtítulo de: o jornal do Poder Jovem. Ele se tornaria expressivo da juventude da época ao ser retratado na música de Caetano Veloso, “Alegria, alegria”, sucesso em um dos Festivais da Canção de 1968, transmitidos pela televisão naquele momento.

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O periódico fazia circular também muitas ideias, com a difusão de livros, filmes e pensamentos de intelectuais brasileiros e estrangeiros. Nas suas páginas, falava-se de Glauber Rocha, Ferreira Gullar e Nise da Silveira; comentava-se sobre os cinéfilos da “geração Paissandu”, sobre a Cinemateca do MAM, sobre os filmes na Maison de France. Para a surpresa de muitos, o JS debatia a obra de personalidades internacionais, como Roland Barthes, Otto Maria Carpeaux e Claude Lévi-Strauss.

A estratégia de interação com o público juvenil ligado à cultura e aos esportes levou a uma descoberta inesperada: a partir da leitura, é possível ligar a linguagem das reportagens do Jornal dos Sports ao surgimento do nome das torcidas de futebol dos grandes clubes de então.

Em suas faixas, a inscrição Poder Jovem não era de todo estranha ao vocabulário adotado por aquele periódico em particular. E mais: é durante o ano de 1968 que, emuladas pelo jornal, surgem essas torcidas dissidentes juvenis no Rio de Janeiro.

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A inspiração do slogan internacional Poder Jovem – nos Estados Unidos e em vários países do mundo irradiava-se o Young Power – vai ser mediada pelo próprio Jornal dos Sports. A consulta às edições do jornal de então evidencia o apoio e a cobertura do periódico não apenas aos estudantes, mas também a esses insurgentes torcedores.

Assimilando parte da efervescência da época, em 1967 surgem os movimentos Jovem Flu, do Fluminense, e Poder Jovem, do Flamengo. No ano seguinte, já em 68, um grupo de moradores do bairro de Copacabana cria o Poder Jovem, do Botafogo. Elas nasciam no biênio 67-68 sob o mote da rebeldia juvenil e iriam se consolidar pouco tempo depois, com a transformação desses grupos em torcidas organizadas: em 1969, a Torcida Jovem do Flamengo e a Torcida Jovem do Botafogo; em fevereiro de 1970, a Força Jovem do Vasco; já em novembro aparece a Força-Flu, seguida, um mês depois, a Young-Flu, ambas ligadas ao Fluminense.

 

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1968 foi um dos anos em que os torcedores receberam mais espaço e atenção por parte do Jornal dos Sports. Este registrou manifestações das torcidas dentro e fora do Maracanã. A sintonia entre os acontecimentos que ocorriam no país e os protestos nos estádios pode ser exemplificada mediante as paródias de slogans do movimento estudantil. Em um jogo do Flamengo, ocorrido no dia 02 de outubro o jornal registrava o grito de “a Torcida Organizada/ Derruba a Cachorrada!”. Tratava-se de uma alusão furiosa ante os diretores dos clubes, a glosar um dos brados dos estudantes nas passeatas que ocorriam em plena ebulição no Centro da cidade: “O Povo Organizado/Derruba a Ditadura!”.

A vanguarda torcedora criticava os dirigentes, o que vinha estampado em manchetes garrafais de primeira página: “Torcida enterra Veiga Brito no Fla-Flu”.

Além disto, ela contestava o desempenho das equipes e não reconhecia a liderança dos antigos chefes de torcida do mesmo time, como Jaime de Carvalho, líder da Charanga do Flamengo, fundada em 1942. Invertia-se a concepção inicial de torcida como apoio incondicional ao clube, através de vaias, passeatas, protestos, pichações e até apedrejamentos de carros.

As torcidas surgem como grupos inicialmente pequenos do ponto de vista quantitativo, entre trinta e cinquenta componentes. É difícil precisar sua origem social exata, mas o perfil etário revelado pelos jornais indica estudantes com cerca de dezesseis, dezessete anos. Ao abandonar os grupos tradicionais de torcidas organizadas, que ficavam à esquerda e à direita das cabines de rádio do Maracanã, posicionam-se atrás do gol. Contando de início apenas com faixas, as Torcidas Jovens crescem ao longo dos anos 70. Em 1971, por exemplo, a Torcida Jovem do Flamengo, chefiada por Pedro Paulo Bebiano (21 anos), estudante de engenharia da Universidade Gama Filho, tinha duzentos e noventa e um membros cadastrados e com carteirinha de sócio.

Tal como os estudantes, que faziam enterros simbólicos de reitores, ministros e figuras de autoridade nas ruas do Centro do Rio, os torcedores enterravam simbolicamente seus dirigentes no Maracanã, aos gritos de: “Jornal dos Sports / de grande expressão/ Jorge Veiga Brito/ depressa no caixão!”. Veiga Brito era então o presidente do Flamengo, além de deputado da ARENA, também conhecido pelos torcedores como o “Coveiro do Fla”.

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Com este bordão, eles repetiam o título de uma série de reportagens estampadas pelo Jornal dos Sports naquele mesmo momento, o que endossa a proximidade entre as mensagens emitidas pelo periódico e as ações desencadeadas pelos torcedores.

A convergência entre os acontecimentos e suas reportagens propiciava um novo tipo de torcedor, que não se satisfazia com a condição de passividade. Ele tampouco se contentava com a caracterização tradicional de “décimo segundo jogador”. Os episódios brevemente descritos acima ilustram o início de um processo que apenas despontava nas arquibancadas e que se consolidariam nas décadas seguintes.

Os incidentes mostravam de que maneira articulava-se, no lugar destinado à plateia assistente, uma espécie curiosa de vanguarda esportiva, encabeçada por jovens que se sentiam capazes de assumir um tipo de compromisso participativo e/ou reivindicativo no futebol.

Tal momento de contestação generalizado acabou por se configurar central na disputa pela identidade no interior das torcidas organizadas. As arquibancadas tornavam-se não só um espaço lúdico para competições de caráter carnavalesco e familiar, como as Charangas e Torcidas Organizadas dos anos 1940 e 1950. Elas criavam novos estilos de torcer e espaços para expressão popular passional.

As explosões de cólera dos torcedores acabaram por se mostrar efêmeras, como o destino das próprias manifestações estudantis que, junto com outros movimentos sociais, capitularam ante o Ato Institucional n. 5, de 13 de dezembro de 1968. Ainda assim, inaugurava-se um momento distinto na vida futebolística nacional, que reapareceria, em ocasiões específicas, durante as décadas seguintes. Ele vinha expresso através de condutas coletivas mais contundentes, protagonizadas por aqueles agrupamentos juvenis, que despontavam em meio àquele turbulento cenário cultural e político.

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Torcida do Fluminense. Foto: Ricardo Ayres – Photocamera.

Se o Brasil mudou de lá para cá, são ainda hoje essas Torcidas Jovens que demarcam seus territórios nas arquibancadas dos estádios do Rio de Janeiro e do Brasil. À sua maneira, “entre práticas e representações”, elas traduzem no futebol as marcas sociais do mundo envolvente.

Livros consultados:
REIS, Daniel Aarão Reis; MORAES, Pedro de. 1968: a paixão de uma utopia. Rio de Janeiro: Editora da FGV, 2008.

RIDENTI, Marcelo. Em busca do povo brasileiro: artista da revolução, do CPC à era da televisão. Rio de Janeiro: Record, 2000.

TEIXEIRA, Rosana da Câmara. Os perigos da paixão: visitando jovens torcidas cariocas. São Paulo: Annablume, 2003.

Como citar

HOLLANDA, Bernardo Borges Buarque de. Jornal dos Sports em tempos de ditadura: Jornalismo esportivo e as torcidas de futebol no final dos anos 1960. Ludopédio, São Paulo, v. 64, n. 3, 2014.