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O jovem negro que não pode ter um Jaguar

Roberto Passeri

Hugo Souza, o “Neneca”, passou a ser pauta frequente da imprensa esportiva no espaço de um mês. De quarto reserva a titular da meta do Flamengo, o jovem de 21 anos mostrou o talento raro que já se notava na base e também a frieza dos capazes de sobreviver na máquina de moer sonhos — o futebol brasileiro. Fechou o gol como há muito não se via.

Os passos seguintes foram meio manjados para quem conhece o mundo da bola: virou xodó da torcida, encheu os debates inócuos sobre a disputa por posição com um ídolo veterano, teve seu contrato renovado e… comprou um carro. Um Jaguar avaliado em R$400 mil.

Como se preciso fosse, Hugo “prestou contas” nas redes sociais. Escreveu: “Galera, quem sabe da minha trajetória sabe o quanto eu luto e lutei pra conquistar minhas coisas, foi um presente dos meus empresários, onde eu não tive como negar!!!”. Li um jornalista questionar em sua coluna no R7 se não teria sido melhor comprar uma casa. Não foi o único. Na publicação, algumas críticas aqui e ali. Morreu o assunto, pois Hugo ia muito bem.

Hugo Souza posa para foto ao lado de seu Jaguar. Foto: Reprodução.

Duas semanas depois, o goleiro falhou feio contra o São Paulo. Por excesso de confiança e falta de experiência, tentou driblar o atacante para sair jogando sem dar chutão e entregou o gol da vitória. Mesmo abatido, não se omitiu de conceder entrevista após o apito final. Assumiu o erro grosseiro, lembrou que tinha ajudado o Flamengo em outros momentos e pediu desculpas. Foi corajoso.

No dia seguinte, chamaram Hugo de arrogante e lembraram do tal Jaguar. Já três dias passado o jogo, num podcast, citaram o Jaguar e o seu preço. Um conhecido meu, rubro-negro fanático, gravou um áudio de quatro minutos para desabafar sobre o Jaguar.

“O sucesso subiu à cabeça” é tão clichê no futebol que automaticamente lançamos mão dele nesses casos e deixamos passar o que quase sempre o alimenta: racismo. Precisamos, no mínimo, admitir que a probabilidade de o goleiro ter perdido o foco por ter comprado um carrão é menor do que a de estar sendo massacrado por simplesmente ter direito a um carrão.

Não conheço Hugo, mas nada do que sei de bastidores e do que noto em sua postura parece sustentar a ideia de que esteja perdido em extravagância e ostentação — pelo contrário. O que sustenta essa ideia é uma sociedade que não tolera um jovem negro ter totais condições, pelo próprio talento e esforço, de comprar um Jaguar. Sociedade que não só nega oportunidades como, com assustadora frequência, criva esses jovens de bala.

O Brasil está lotado de pessoas que necessitam que pobres não façam faculdade e que pretos não possam jamais andar de avião para que elas se sintam, de alguma maneira, especiais em suas bolhas medíocres. Um jogador de futebol essa gente até engole seco, mas só se for bem humilde, andar de cabeça baixa e, ainda assim, o ataque pessoal vazará na primeira oportunidade.

Hugo Souza. Foto: Alexandre Vidal.

Júlio César, outro goleiraço revelado na base do Flamengo, cansou de cometer erros muito parecidos no início da carreira. Também por excesso de confiança. Diziam que ele tinha personalidade e era arrojado, não que havia “se perdido”. A diferença entre os dois? Júlio César é branco, de classe média.

É um senso comum dizer que goleiro é a posição de maior confiança no futebol. Talvez não seja coincidência que sejam tão poucos os pretos escolhidos para ocupá-la. Quem não conhece Barbosa e a cruz esmagadora que carregou para o resto da vida após a Copa de 50? Depois dele, só dois negros foram titulares no gol da seleção em Copas do Mundo: Manga, em 66, e Dida, em 2006.

Hugo Souza tem um longo e promissor caminho pela frente, mas já deve ter entendido bem cedo que, como todos de sua cor, precisa fazer sempre o dobro e talvez nem assim.


Como citar

PASSERI, Roberto. O jovem negro que não pode ter um Jaguar. Ludopédio, São Paulo, v. 137, n. 39, 2020.