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Justin Fashanu: jogador profissional de futebol, negro e gay!

Wagner Xavier de Camargo

Há algumas semanas, uma vez mais o mundo futebolístico foi abalado com a incerteza acerca da sexualidade de dois jogadores do clube italiano Lazio, de Roma. O senegalês Keita Baldé e o espanhol Patric Gabarrón postaram várias fotos (quase) íntimas em suas redes sociais, nas quais apareciam de mãos dadas ou em proximidade corporal considerada “suspeita” pelos “machos” que habitam o esporte bretão. Pelas amplas especulações jornalísticas, ambos mantêm um relacionamento afetivo.

Se, de fato, há uma relação homoafetiva em curso, talvez não saibamos tão prontamente. Contudo, manifestações de sexualidades divergentes ou não heteronormativas têm aparecido com certa frequência no futebol, que inclusive já conta com um atleta “assumidamente gay” em atividade: Robbie Rogers, do LA Galaxy (Estados Unidos), que teve seu “coming out” (saída do armário) aos 25 anos, acabando com o sofrimento que o afligia, segundo contou. Ao anúncio público da homossexualidade também comunicou sua precoce retirada dos campos. Poucos meses depois, no entanto, foi contratado pelo clube estadunidense supracitado.

Mas histórias de atletas homossexuais no esporte quase nunca têm desfechos felizes. Além do anúncio vir junto a uma aposentadoria (quase) obrigatória, em geral é um momento difícil para os atletas, pois já não se encontram em plena forma física, já não apresentam resultados compatíveis com seus áureos tempos ou sofrem psiquicamente há anos devido à orientação sexual. Uma história recente é a do alemão Thomas Hitzlsperger; uma história triste é a do inglês Justin Fashanu.

Justinus Soni Fashanu nasceu em Hackney, Inglarerra, em 19 de fevereiro de 1961. Negro, filho mais velho de um pai nigeriano e uma mãe guianesa, foi dado à adoção junto com o irmão John anos mais tarde. Adotado por um casal branco de Norfolk, ambos cresceram sendo os únicos negros em toda a pequena localidade rural. Sua incipiente carreira foi alçada ao estrelato e ao mundo profissional do futebol a partir do gol que marcou e da excelente campanha num jogo entre o Norwich City (time local) e o famoso Liverpool, em 1980. No ano seguinte torna-se o primeiro negro da história do futebol transferido por um milhão de libras esterlinas para o Nottingham Forest, algo até então inédito.

Justin teve uma carreira no futebol que se iniciou nos anos 1970 e, no geral, é considerada curta e não tão expressiva por parte dos críticos futebolísticos. Jogando na maior parte do tempo em clubes ingleses dentro da Grã-Bretanha, ele também atuou (muitas vezes emprestado) em equipes da Austrália, do Canadá e mesmo dos Estados Unidos. O único clube em que se destacou atuando como profissional foi, de fato, o Norwich, no qual jogou em 90 partidas e marcou 35 gols (de 1978 a 1981).

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The Sun (reprodução).

A virada em sua vida profissional veio a partir de uma entrevista para o tabloide sensacionalista inglês The Sun, quando assumiu ter atração sexual por outros homens. Apesar de ser início dos anos 1990, a situação não era favorável para pessoas que se colocavam fora dos padrões heteronormativos convencionais. Declarar-se “gay” em um momento de recrudescimento das ofensivas contra os homossexuais (principalmente associadas à caça às bruxas instaurada pelo pavor infundado da AIDS nessa época) não foi uma boa decisão, mesmo num país rico, culto e desenvolvido como a Inglaterra. A partir da polêmica entrevista, o jogador viu sua carreira declinar em importância, não permanecendo muito tempo em um mesmo clube, além de passar por equipes de pouca expressão futebolística.

A deflagradora entrevista não somente o prejudicou em âmbito profissional, mas também em nível pessoal. O irmão mais novo, John Fashanu, igualmente jogador de futebol em ascensão à época, considerou-a despropositada e excluiu Justin de seu convívio social. O medo associado à homossexualidade, num ambiente tão viril e machista como o futebol, não apenas produz todo tipo de julgamento e de preconceito entre as pessoas, como dispara ataques homofóbicos “preventivos”. E foi o que aconteceu com os irmãos Fashanu. John não queria estar associado à imagem de Justin, muito menos à sua homossexualidade.

Justin sofria com piadas entre colegas jogadores e sua carreira definhava em termos de transferências e contratações. Logo depois de ter sido acusado por abuso sexual de um garoto de 17 anos no tempo em que jogou no Atlanta Ruckus, dos Estados Unidos, Justin simplesmente não suportou a crise desencadeada por tal fato e, aos 37 anos, suicidou-se por enforcamento.

Em fins de 2009 deflagrou-se uma campanha contra a homofobia no futebol em toda a Europa, alinhada a outros movimentos de ONGs e associações com o mesmo propósito. Esta campanha foi denominada “The Justin Campaing” em homenagem ao jogador Justin Fashanu e sua coragem em assumir uma orientação homossexual em tempos conservadores do futebol.

Em maio de 2017, no Festival Hot Docs de Documentários e Curtas, em Toronto/Canadá, Adam Darke e Jon Carey apresentaram “Forbidden Games: a Justin Fashanu Story”, que narra a dramática vida do atleta, os dilemas que o envolveram e a relação como irmão, que aparece em depoimentos arrependidos, explicando que Justin fora sempre a referência para ele e que ele ficou, durante muito tempo depois da morte do irmão, com remorso por não ter dito a ele que o amava e o admirava.

Justin Fashanu no Norwich City.

Justin Fashanu no Norwich City.

Trazer a homossexualidade para o esporte é, em primeiro lugar, colocar a dúvida sobre a hegemonia da heterossexualidade em voga no mundo esportivo, que legitima corpos, atitudes e comportamentos. Além disso, colocar-se como sujeito desejante fora da heteronorma (alinhado com quaisquer outras estéticas sexuais) ressalta que não apenas corpos como igualmente as práticas de prazer precisam ser repensados e reconsiderados para outros referenciais que não os aceitos socialmente.

Justin Fashanu passou grande parte de sua existência vivendo no “segredo da sexualidade”, guardado e devidamente enclausurado em seu “armário”. Quando saiu dele, contudo, talvez não tenha suportado viver fora do ambiente do segredo, pois seu suicídio (acompanhado de um vago bilhete de despedida) revelou profundas dores psíquicas que o afetavam. Para resgatar um termo do Gerárd Vicent (historiador francês que fala da história do segredo no Ocidente dentro da obra História da Vida Privada), do “segredo do armário” da sexualidade, possivelmente Fashanu passou a habitar o “segredo do suicídio”.