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Juventude, dois gênios e uma geração de ouro: as quatro seleções que sonham em fazer história

Gabriel Canuto Nogueira da Gama

Duas movidas por craques, uma terceira composta por uma legião de grandes talentos e uma quarta liderada por um artilheiro nato. É assim que podemos resumir o panorama das quatro seleções que correm por fora na briga pelo título da Copa do Mundo de 2018: Argentina, Portugal, Bélgica e Inglaterra. Todas têm potencial para chegar ao menos nas quartas de final do maior torneio entre seleções e, a depender dos cruzamentos nos confrontos eliminatórios, podem, porque não, chegar à decisão.

No texto anterior do guia, analisamos as virtudes e fragilidades das quatro principais seleções postulantes ao título mundial – Brasil, Alemanha, Espanha e França. Desta vez, vamos nos ater às qualidades e defeitos das equipes de Lionel Messi, Cristiano Ronaldo, Eden Hazard e Harry Kane.

Líderes em suas seleções, Messi, Cristiano Ronaldo, Hazard e Kane sonham com título inédito em suas carreiras.

Líderes em suas seleções, Messi, Cristiano Ronaldo, Hazard e Kane sonham com título inédito em suas carreiras.

Cada uma guarda, logicamente, peculiaridades distintas. A Argentina, por exemplo, penou e foi até o limite para garantir a classificação direta para o Mundial. Fez uma campanha nas Eliminatórias muito aquém do previsto com um desempenho pífio de seu ataque e uma dependência cada vez maior de Messi. Portugal, por sua vez, vive uma fase esplendorosa. Superaram o vice-campeonato europeu de 2004, ao vencer a anfitriã França na última Euro, e se classificaram, em primeiro lugar, nas Eliminatórias. Melhor ciclo entre Copas impossível para a equipe de Cristiano Ronaldo.

Bélgica e Inglaterra decepcionaram na Euro, mas ambas vêm de campanhas expressivas em seus respectivos grupos no torneio classificatório. Além disso, a Bélgica aprimorou ainda mais a sua já talentosa geração de ouro e ainda conta com alguns jogadores em grande fase. Já a Inglaterra, o time se renovou em todos os setores e aposta no talento de jovens jogadores que surgiram bem nos últimos anos. Não será preciso muito esforço para superar os fracos desempenhos na Copa de 2014 e na Euro passada. Todos, com exceção dos hermanos, vêm para Rússia com elencos superiores aos vistos em 2014. Vamos às análises!

Argentina:

  • Títulos: 2 (1978 e 1986)
  • Campanha: 3º colocado nas Eliminatórias (sete vitórias, sete empates e quatro derrotas). Foram 19 gols marcados e 16 sofridos.
  • Craque: Lionel Messi

Messi e mais dez. Não há como não definir de modo diferente a seleção argentina. Se o protagonismo do E.T do Barcelona já era visível na última Copa, nessa edição, a possibilidade de um tricampeonato só é possível se o seu protagonista estiver inspirado. A famosa Messidependência é latente. Os sinais de desorganização e letargia da seleção de Sampaoli sem o craque em campo são fáceis de serem identificados no jogo. Sem o ídolo, a Argentina apresenta problemas crônicos de criação no meio de campo, somados à falta de objetividade e à ausência de uma sincronia entre as outras talentosas peças ofensivas. Jogadores de alto nível como Ángel Di María, Paulo Dybala, Sergio Agüero e Gonzalo Higuaín simplesmente não conseguem assumir papéis de protagonistas sem o “camisa 10” em campo. Mesmo assim, o time vem tendo boas exibições em competições internacionais, mesmo tem batido na trave nos últimos anos com três amargos vice-campeonatos (a Copa do Mundo de 2014 e as duas últimas edições da Copa América, em 2015 e 2016).

Quando se trata de números, a diferença do desempenho dos hermanos, com e sem Messi, chega a ser assustadora. Contando somente as partidas nas Eliminatórias para esta Copa, a Argentina teve um desempenho pífio de 29,16% nos jogos sem ele: apenas uma vitória, quatro empates e três derrotas em oito jogos. Já com o atacante, a seleção tem um aproveitamento de 70%, mais do que o dobro e superior aos números do segundo colocado Uruguai, com seis vitórias, três empates e uma derrota em dez jogos.

A dependência do craque foi latente em dois momentos-chave recentes da seleção. O primeiro aconteceu na última rodada das Eliminatórias quando a Argentina precisava vencer o Equador, na altitude, para não depender de nenhum outro resultado e se classificar diretamente para o Mundial. Messi resolveu a partida, marcando os três gols argentinos. O segundo momento marcante foi na acachapante derrota sofrida para os espanhóis, em um amistoso no fim de março deste ano. O craque foi desfalque em virtude de uma lesão e os seus companheiros levaram de 6 a 1. Inclusive, Messi esteva presente nas tribunas acompanhando a partida, mas deixou o local antes do fim do jogo.

O craque do Barcelona tem penado para carregar nos ombros a bagunçada e instável equipe de seu país. Parece até mesmo ser um paradoxo, visto que a seleção argentina possui um leque considerável de bons jogadores na frente, como os seus já citados companheiros de ataque que vêm tendo exibições de alto nível há algumas temporadas nas principais competições europeias com seus clubes.

Uma das principais deficiências do futebol argentino está na disparidade dos setores em relação ao ataque. De fato, a defesa hermana surpreendeu na Copa do Mundo de 2014 e, junto com as atuações de Messi, foi decisiva para que a seleção chegasse à final. O ataque já era composto por bons jogadores, mas a solidez defensiva, liderada por Javier Mascherano, teve grande destaque. Na época, o time passou por todas as três fases eliminatórias (oitavas, quartas e semis) sem ser vazada uma vez sequer. Só foi levar na prorrogação contra os alemães, gol que lhes tiraram o tricampeonato.

No entanto, a defesa é sempre um setor que gera desconfiança. Nas Eliminatórias, a seleção foi a segunda menos vazada com 16 gols sofridos em 18 jogos, mas, vale ressaltar que o bom número se deve mais ao estilo de jogo argentino do que a uma eficiência defensiva. Em quase todos os jogos, os adversários não tomavam a iniciativa, jogavam atrás do meio de campo, à espera dos contra ataques. Desta forma, a Argentina costumava ter mais posse de bola que seus rivais e, naturalmente, sofria menos ataques. A vulnerabilidade do setor se escancara quando está diante de duelos mais competitivos. Recentemente, quando enfrentaram uma seleção candidata ao título, como a Espanha, tomaram seis gols. Duas partidas antes, a Argentina havia sofrido uma goleada de 4 a 2 para a Nigéria.

Os problemas defensivos já começam no gol. O questionável Sergio Romero, titular absoluto da posição, foi cortado por contusão. Willy Caballero aparece como principal nome para assumir a posição. Aos 36 anos, o arqueiro sofre com os poucos minutos jogados sendo reserva no Chelsea. Uma alternativa interessante seria apostar no goleiro Franco Armani, que brilhou com as cores do Atlético Nacional, da Colômbia, nas últimas temporadas e tem mantido um bom nível defendendo o River Plate, porém, o jogador ainda é recente em convocações de Sampaoli e deve ser o primeiro reserva.

No miolo de zaga, Nicolás Otamendi atua em um dos principais clubes europeus, o Manchester City, mas é um defensor superestimado e, frequentemente, é visto protagonizando lances bisonhos e falhando em momentos decisivos. Seu companheiro, Federico Fazio, até vem em boa fase, ao chegar nas semis com a Roma, mas é limitado e um de seus principais defeitos é a lentidão. O experiente Javier Mascherano já está em fase final de carreira e não consegue mais atuar em alto nível. Recentemente, ele saiu do Barcelona e foi se aventurar no futebol chinês.

Já as laterais são escassas as opções. Gabriel Mercado é um zagueiro de origem que joga por lá, mas não tem qualidade técnica para o apoio. Por causa disso, Sampaoli tem improvisado meias direitas na posição e é bem provável que Marcos Acuña ou Eduardo Salvio assuma a posição em algumas situações de jogo. Na esquerda, Marcos Rojo, titular em 2014, perdeu a posição para Nicolás Tagliafico. Apesar de jovem, este já demonstrou um potencial de liderança quando foi capitão do tradicional time do Independiente e conquistou a última Copa Sulamericana antes de se transferir para o Ajax. No entanto, é um atleta ainda desconhecido no cenário mundial que atualmente joga em uma liga europeia de menos técnica.

O meio de campo não possui nomes de muita qualidade como o ataque. É uma mescla de juventude e da experiência de nomes como Javier Mascherano, Lucas Biglia, Enzo Pérez e Éver Banega – os três primeiros foram titulares absolutos de Alejandro Sabella e estiveram na final contra a Alemanha em 2014. Giovani Lo Celso aparece como a principal revelação desse último ciclo. Talvez o único com características de um armador, de fato, o jovem meia de 22 anos do PSG é, inclusive, cotado para ser um dos titulares de Sampaoli.

No ataque, as opções são tão vastas que Sampaoli parece até demonstrar sinais de hesitação nas decisões. Deixou de fora bons nomes como Mauro Icardi e Lautaro Martínez da lista final. Dos convocados, Dybala tem encontrado claros problemas de se adequar a um posicionamento tático nas estratégias de Sampaoli. Ele não consegue render nas pontas, e, como atacante, ainda tem a concorrência pesada de Agüero e Higuaín, fora a possibilidade de Messi atuar por lá. Quanto a esses dois centroavantes, Higuaín é um nome controverso pelo fato de ter desperdiçado lances importantes nas três decisões em que a Argentina perdeu no passado recente, no entanto, é um jogador que ainda tem a confiança de Sampaoli e de seus companheiros. Apesar disso, Agüero vem mostrando melhor desempenho nos jogos da seleção, além de ser mais goleador. Deve ser o titular.

A instabilidade do time neste ciclo se reflete na escalação. Sampaoli já testou de tudo. Messi de armador, Messi na direita, Messi de atacante, esquema com três zagueiros, com linha de cinco, com três meias, com duas linhas de quatro e por aí vai. É até difícil definir os onze iniciais de Sampaoli e até mesmo o esquema tático. Um infindável número de jogadores já passou pela equipe titular. Até mesmo Lucas Pratto, ex-Atlético-MG, chegou a ser testado como centroavante. Dentre todas as invenções já experimentadas, é bem provável que Sampaoli deva variar entre o 4-4-2, ora com Messi fazendo companhia a Agüero ou Higuaín, ora Messi como ponta direita e o meio de campo sendo formado com Mascherano, Lucas Biglia e Giovani Lo Celso em um 4-3-3 ou 4-2-3-1. Mais do que as quartas de final seria uma surpresa para esse time de Sampaoli.

Com problemas táticos, Argentina precisa mais do que nunca da genialidade de Messi para buscar o tri.

Com problemas táticos, Argentina precisa mais do que nunca da genialidade de Messi para buscar o tri.

Bélgica:

  • Títulos: 0
  • Campanha: 1º colocado no grupo H das Eliminatórias (nove vitórias, um empate e nenhuma derrota). Foram 43 gols marcados e seis sofridos.
  • Craque: Eden Hazard

A famigerada “geração de ouro” belga vai para mais uma Copa recheada de estrelas e promessas. Destaque para o equilíbrio técnico em todas as posições com pelo menos um ou dois jogadores de muito potencial em cada setor. Para muitos especialistas a melhor geração da história do país – mais até que o time semifinalista do Mundial de 1986 – tem apresentado desempenhos muito expressivos, mas que ainda não se refletiram em títulos. Na última Copa do Mundo, a Bélgica não foi brilhante e nem praticou um futebol vistoso com seu arsenal de bons jogadores, mas foi competitiva e teve um desempenho digno, ao chegar até as quartas de final, eliminada pela Argentina, na derrota por 1 a 0.

Cabeça de chave em seu grupo, a seleção foi irrepreensível nas Eliminatórias Europeias, se classificando em primeiro sem quaisquer dificuldades. Porém, vale ressaltar que os adversários, Grécia, Bósnia, Chipre e Gibraltar, não estavam à altura da geração de ouro. Inclusive, a falta de jogos contra seleções de maior calibre no calendário belga, nesse último ciclo, poderá ser um perigo para a equipe de Roberto Martínez.

Desde a decepção na Eurocopa de 2016, ao serem eliminados para o País de Gales, nas quartas de final, a Bélgica enfrentou apenas três seleções tradicionais: Espanha, Holanda e Portugal. A primeira foi logo após o fim da Euro, há quase dois anos, quando perderam por 2 a 0. Já o clássico diante da Laranja Mecânica, também em 2016, terminou em 1 a 1. A Bélgica só foi jogar novamente com uma seleção mais competitiva nesses últimos amistosos antes da Copa. O resultado também foi decepcionante: 0 a 0 contra os portugueses no início desse mês.

No entanto, quem acompanha a seleção belga ou pelo menos conhece a maior parte do elenco, sabe que ela pode mais e, por isso, merece estar no segundo escalão de favoritos ao título mundial. A qualidade do elenco é invejável com a grande maioria dos atletas atuando nas principais ligas europeias e sendo titulares em seus respectivos clubes. No gol, a Bélgica tem a segurança de Thibaut Courtois, há anos sendo considerado um dos melhores goleiros do mundo. No miolo de zaga, destaque para o experiente Vincent Kompany e a dupla do Tottenham, Toby Alderweireld e Jan Vertonghen.

As laterais ainda continuam sendo o setor com menos opções de qualidade e, por isso, Martínez tem optado pelo esquema com três zagueiros, improvisando o meia Yannick Ferreira Carrasco de ala esquerdo. Se antes os dois lados eram improvisados com a dupla do Spurs, pelo menos a direita será preenchida com um jogador de ofício. Thomas Meunier, reserva imediato de Daniel Alves no PSG, não chega a ser brilhante, mas já mostrou qualidade no apoio e é razoável na defesa.

No setor de meio de campo, Martínez gerou muita polêmica quando anunciou a lista definitiva de convocados, deixando de fora Radja Nainggolan. O líder da Roma é um dos grandes talentos da atual geração belga e se destaca pela sua versatilidade e capacidade, tanto ofensiva quanto defensiva. Fumante assíduo e com frequentes problemas de indisciplina, Nainggolan vinha tendo rusgas constantes com Martínez, que não aceitava as suas controversas condutas. Ficou fora da reta final das Eliminatórias e só havia atuado apenas 30 vezes pela sua seleção desde que foi convocado pela primeira vez em 2009.

Apesar da ausência do polêmico Nainggolan, a seleção segue com nomes interessantes para exercer a função tanto de volante quanto de meia central, tais como Moussa Dembélé, Axel Witsel e Marouane Fellaini, três figurinhas já tarimbadas dessa seleção, e de jovens a exemplo de Youri Tielemans e Leander Dendoncker.

Já com relação ao setor ofensivo, o quarteto titular de frente é invejável: Kevin De Bruyne, Eden Hazard, Dries Mertens e Romelu Lukaku. O esquema de 3-4-3 foi justamente montado para aproveitar, ao máximo, os potenciais de cada um desses atletas. O craque do Manchester City foi recuado para a linha de quatro no meio de campo e será o responsável pela articulação da defesa até o trio de ataque. De Bruyne já vem fazendo uma função parecida com Guardiola no time inglês e não chega a ser novidade para ele. Durante as suas investidas, o seu companheiro Witsel protegerá o setor. Na frente, muita movimentação e habilidade com Mertens e Hazard, tendo o centroavante do Manchester United, Lukaku, como jogador alvo na função de pivô e de principal goleador do time.

Seguindo a lógica dos possíveis classificados de cada chave e confirmando os favoritismos nos confrontos das oitavas, é bem provável termos um duelo entre Brasil e Bélgica nas quartas de final.

Geração de ouro belga manteve a espinha dorsal e chega com um trio de ataque em grande fase.

Geração de ouro belga manteve a espinha dorsal e chega com um quarteto ofensivo em grande fase.

Portugal

  • Títulos: 0
  • Campanha: 1º colocado no grupo B das Eliminatórias (nove vitórias e uma derrota). Foram 32 gols marcados e quatro sofridos.
  • Craque: Cristiano Ronaldo

Os tempos de completa zebra ficaram para trás. A épica conquista da Euro de 2016, vencendo a anfitriã e favorita França na final, sem dúvidas, elevou o patamar da seleção portuguesa. Se não chega ao mesmo nível de favoritismo que as principais postulantes, Brasil, Alemanha, Espanha e a própria França, os atuais campeões europeus vêm para o torneio mundial, ao menos, mais competitivos que 2014 e com melhores chances de sucesso. O destaque do time dispensa comentários. Cristiano Ronaldo, líder dentro e fora dos gramados, o atual melhor do mundo, chega para mais uma Copa na esperança de levar o seu país-natal, se não ao título da Copa, ao menos às semifinais do Mundial. Para isso, conta com uma geração de meio-campistas de muito potencial para lhe municiar na frente.

Ao contrário de Messi, na Argentina, que sofre com a falta de eficiência de seus companheiros, Ronaldo tem sido beneficiado pelo bom futebol coletivo jogado de sua seleção. É curioso notar que, no papel, os parceiros do craque lusitano são bem inferiores tecnicamente, se formos comparar com algumas estrelas já renomadas da seleção argentina. Por isso, é surpreendente ver como o treinador Fernando Santos conseguiu extrair o máximo da potencialidade de seus jovens jogadores. Após a eliminação, ainda na fase de grupos, no Mundial de 2014, poucos acreditavam que Portugal encontraria uma solução tão rápida. A trajetória de Ronaldo na seleção parecia se resumir a tentativas vãs por campanhas expressivas advindas do seu talento. De fadada a constantes insucessos, Portugal renasceu com um grupo de talentosos jovens meio campistas. Era o encaixe que faltava para Cristiano Ronaldo.

É curioso notar que, dos nomes que surgiram da geração campeã europeia, somente um, de fato, despontou nesses últimos dois anos. Bernardo Silva, campeão inglês com o Manchester City, atuando boa parte dos jogos de Guardiola como titular. Outros nomes como João Mário, Raphaël Guerreiro, André Silva, Renato Sanches e André Gomes (estes dois últimos sequer foram para a lista final de convocados) não emplacaram. Contratados por clubes importantes da Europa, nenhum vingou à exceção de Bernardo Silva.

O interessante do elenco é que, apesar do mau desempenho em seus clubes, são jogadores que, juntos, estão muito entrosados dentro de uma filosofia de jogo clara. Além disso, Portugal conta com bons nomes no banco de reservas, sobretudo nas pontas com o experiente Ricardo Quaresma e jovens como Gelson Martins e Gonçalo Guedes, ambos vindo de grandes temporadas com Sporting Lisboa e Valencia, respectivamente.

Vale ressaltar que Cristiano Ronaldo, durante a Eurocopa, contribuiu muito mais como um líder técnico e de grupo do que propriamente em campo. Nos jogos decisivos, a coletividade do time foi o que se sobressaiu. Na final, venceram a boa geração da França sem, inclusive, a presença do astro merengue e com direito a gol do limitado Eder.

O grande problema é a defesa do time. Pepe já está veterano e não joga mais em uma competição de alto nível, após sair do Real Madrid e decidir se aventurar no futebol turco. Bruno Alves atua pelo Rangers no frágil campeonato escocês, e ainda assim, participou de poucas partidas por lá, enquanto José Fonte, à princípio o reserva imediato da dupla, foi muito mal atuando com a camisa do West Ham, tanto que se transferiu para o futebol chinês.

Além de jogadores muito veteranos e lentos, como esses três defensores, é uma zaga que ainda não foi testada verdadeiramente. O grupo nas Eliminatórias era fraco com seleções como Ilhas Faroé, Letônia e Andorra. A única que poderia complicar o caminho dos portugueses era a Suíça e chegaram a perder o primeiro jogo contra eles, válido pelo primeiro turno, por 2 a 0.

Nos amistosos pré-Copa, chegaram a ser derrotados por 3 a 0, para a Holanda, e sofrerem dois gols da Tunísia no empate em 2 a 2. Apesar disso, as chances de alcançarem, ao menos, as quartas de final, é real, visto que os portugueses enfrentarão algum dos classificados do grupo A, em que a Rússia é a cabeça de chave. Mesmo que fiquem em segundo, teriam leve vantagem técnica contra o Uruguai – favorito à liderança na chave 1 – em uma hipotética oitavas de final entre as duas seleções.

Portugal aposta na base campeã da Euro e, claro, na máquina de fazer gols, Cristiano Ronaldo.

Portugal aposta na base campeã da Euro e, claro, na máquina de fazer gols, Cristiano Ronaldo.

Inglaterra:

  • Títulos: 1 (1966)
  • Campanha: 1º colocado do grupo F das Eliminatórias (oito vitórias e dois empates). Foram 18 gols marcados e três sofridos.
  • Craque: Harry Kane

Berço do futebol, a Inglaterra chega a mais uma Copa com um desempenho implacável nas Eliminatórias, dando esperanças aos seus torcedores e à imprensa de que “agora vai”. A verdade é que o English Team tem se tornado um verdadeiro especialista no torneio classificatório para o Mundial, mas quando é para valer, é só decepção atrás de decepção. Desde a seletiva para a edição de 1998, a seleção inglesa ficou em primeiro colocado em todos os grupos das Eliminatórias em que passou. O problema é que os excelentes resultados entre as Copas não têm refletido positivamente nos Mundiais.

Da edição na França até aqui, a Inglaterra não passou das quartas de final. No Brasil, caíram na primeira fase sem ganhar um jogo sequer. A Copa do Mundo não tem sido muito grata aos ingleses. Venceram apenas uma vez, quando sediaram o torneio, mais de cinco décadas atrás, em 1966. Desde então, a seleção vem colecionando fracassos e fracassos na competição.

O caminho para a Rússia foi bem tranquilo com oito vitórias e dois empates em um grupo mediano composto por seleções que estiveram presentes nas últimas edições, como Eslováquia e Eslovênia, além das presenças de Escócia, Lituânia e Malta. No entanto, o time demorou para encontrar uma identidade em campo, tanto no plano tático quanto na própria definição da equipe titular, e a falta de um treinador experiente pode pesar contra os ingleses. Antes de assumir oficialmente o cargo da seleção após a demissão de Sam Allardyce, Gareth Southgate só tivera uma única experiência como treinador e foi comandando a equipe sub-21 de seu país.

No entanto, Southgate parece ter conquistado a confiança do grupo nos vestiários e vai apostar nessa união em busca de resultados melhores em Copas. O jovem treinador deverá seguir com o esquema de três zagueiros e dois alas – formação que tem sido muito utilizada em times da Premier League, em função do sucesso de Antonio Conte com essa filosofia no Chelsea da temporada retrasada.

A base da lista de convocados é do Tottenham e Liverpool, e isso se deve aos sucessos recentes de Mauricio Pocchettino e Jürgen Klopp no comando dos dois times, respectivamente. Muitos dos jogadores ingleses, atualmente titulares e que se tornaram homens de confiança de Southgate, evoluíram nos últimos anos em decorrência de seus desempenhos nos clubes. Temos os exemplos dos laterais direitos, Kieran Trippier e Trent Alexander-Arnold, dos meias Eric Dier, Jordan Henderson e Dele Alli, e do atacante Harry Kane. Entretanto, em um provável onze inicial, somente os jogadores do Tottenham seriam titulares, ao passado que os selecionáveis do Liverpool seriam opções para o segundo tempo.

Uma das grandes virtudes do atual English Team – a única seleção entre as principais da Copa em que todos os jogadores atuam no país – é a agilidade e juventude de seus jogadores. É uma seleção, cuja média de idade é bem baixa. Dos 23 jogadores escolhidos, somente Gary Cahill, Ashley Young e Jamie Vardy tem mais de 30 anos, sendo que o último vestiu as cores da seleção apenas 21 vezes. Nomes como Kyle Walker, Raheem Sterling, Marcus Rashford e Jesse Lingard têm como principal característica a velocidade. Se souberem aproveitar bem disso, os contra ataques podem se tornar grandes armas ofensivas para os ingleses.

O ponto mais frágil da Inglaterra encontra-se no meio de campo. A situação ficou mais preocupante quando receberam a notícia da grave lesão de Oxlade-Chamberlain, que se mostrara como uma boa opção na função de meia central atuando pelo Liverpool. Nomes como Eric Dier, Jordan Henderson e até mesmo Dele Alli, um dos jogadores mais habilidosos do time, estão distantes da qualidade de meio campistas de um passado recente da seleção como David Beckham, Frank Lampard e Steven Gerrard. Não é à toa que a equipe deverá jogar em um esquema de 5-4-1 sem a bola e 3-4-3 com a bola, a fim de privilegiar muito mais os lances de linha de fundo, com jogadas de ultrapassagem e triangulações entre os pontas e os laterais, do que jogadas articuladas a partir da faixa central.

Com relação à defesa, a trinca de zagueiros tem sido mudada constantemente. O excesso de experimentação no setor pode gerar problemas de entrosamento à equipe em jogos que irão exigir mais. A provável linha deverá ser formada pelo lateral direito de origem, Kyle Walker, John Stones e Gary Cahill, com Kieran Trippier e Danny Rose ocupando as funções de alas. No meio, Eric Dier será o jogador de mais contenção e proteção à primeira linha, enquanto o talentoso Dele Alli deverá ser o responsável pela articulação e criatividade no meio de campo. Ao lado de Harry Kane, Raheem Sterling e Marcus Rashford flutuarão como segundos atacantes, buscando os espaços vazios e as tabelas com o artilheiro do Tottenham.

Sob a liderança do goleador Kane, English Team aposta na juventude em todos os setores.

Sob a liderança do goleador Kane, English Team aposta na juventude em todos os setores.