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Cronologia das torcidas organizadas (X): CAJU – Clube Atlético Juventus

Bernardo Borges Buarque de Hollanda, Raphael Piva Favelli Favero

Nota explicativa. Esta série é parte integrante do projeto “Territórios do Torcer – uma análise quantitativa e qualitativa das associações de torcedores de futebol na cidade de São Paulo”, desenvolvida entre os anos de 2014 e 2015, com o apoio da FAPESP. A pesquisa foi realizada em parceria pelo CPDOC, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), e pelo Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB), equipamento público vinculado ao Museu do Futebol/Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Nesta seção, será apresentado um total de 10 torcidas organizadas da cidade de São Paulo. O propósito informativo desta série é compartilhar breves apontamentos cronológicos sobre a história e a memória das associações de torcedores paulistanos. Os dados aqui fornecidos foram de início a base para a montagem de um roteiro de perguntas que serviu à gravação dos depoimentos de fundadores e lideranças das respectivas agremiações torcedoras, tal como ilustram as fotos que acompanham os textos.

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Para apresentar brevemente as torcidas organizadas do Clube Atlético Juventus, vamos contextualizar a existência desses agrupamentos à luz da história desse tradicional clube da capital paulistana. A cronologia principia em 1918, ano em que o Cotonifício Rodolfo Crespi. F.C é fundado por funcionários dessa mesma fábrica. A equipe durou apenas alguns meses, disputando partidas na várzea local. Durante a década de 1920, o italiano Vicente Romano e o português Manoel Vieira de Souza, ambos funcionários do Cotonifício Crespi, fundam uma equipe chamada La Greccia F.C. Esta, por seu turno, decide mudar o nome da equipe para Cavalheiro Crespi F.C, como forma de homenagear seu patrão.

Em 4 de maio de 1924, surge o Cotonifício Rodolfo Crespi Futebol Clube, fruto da fusão do Cavalheiro Crespi F.C com o Extra-São Paulo, equipe de várzea do bairro da Mooca. O novo clube herdou as cores do Extra-São Paulo, preto, branco e vermelho, a sede social do Cavalheiro Crespi F.C, localizada na Rua dos Trilhos, e contou com o apoio dos diretores e dos donos da fábrica. Em pouco tempo, o clube novato conseguiu a simpatia de muitos moradores do bairro, que iam ver o “Touro da Mooca”, apelido dado à equipe, aos domingos na várzea local.

Um ano depois, mais precisamente em 24 de abril de 1925, Rodolfo Crespi cedeu um terreno de sua posse para a construção de um campo de futebol para a equipe recém-fundida. Este espaço localizava-se na Alameda Javry, a atual Rua Javari. Os funcionários da fábrica e os dirigentes se organizaram para limpar o terreno e, dias depois, o campo foi inaugurado com a partida entre Cotonifício Rodolfo Crespi F.C X Vera Cruz F.C. Rodolfo Crespi deu o pontapé inicial da partida e os capitães das duas equipes prestaram uma homenagem ao C.A Paulistano, que realizara uma excursão para a Europa nesse ano.

Dois meses depois, em 01/06/1925, é realizada a primeira assembléia geral do clube. José Masi foi eleito o primeiro presidente da agremiação. Manoel Vieira de Souza foi eleito como secretário geral e Vicente Romano como diretor esportivo. Diversos membros da família Crespi foram nomeados membros beneméritos do clube – Rodolfo foi aclamado presidente honorário.

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Torcedores do Juventus. Foto: Fábio Soares/Futebol de Campo.

Em 1926, o Cotonificio Rodolfo Crespi F.C foi aceito como mais novo membro da APEA. Já em 1927, o CRC.F.C. disputa a sua primeira competição oficial pela APEA e termina na segunda colocação o Torneio Inicio do Campeonato Paulista Amador de segunda divisão. No mesmo ano, o primeiro quadro do clube terminou o Campeonato Paulista da segunda divisão, conquistando o vice-campeonato, enquanto o segundo quadro venceu o Campeonato Paulista da segunda divisão de segundos quadros.

Em 1929, o CRC.F.C sagrou-se campeão do que equivaleria hoje à segunda divisão do Campeonato Paulista. No mesmo ano, após passar por melhorias na sua estrutura, o campo da Rua Javari recebeu aprovação da APEA e passou a figurar como um dos campos oficiais da entidade.

No decênio de 1930, após sagrar-se campeão em 1929, o CRC.F.C conquistou o direito de disputar a divisão principal do Campeonato Paulista de 1930. No entanto, a entidade não aceitava equipes com nomes de fábricas e estabelecimentos comerciais, o que levou o clube a alterar seu nome. Rodolfo Crespi, que acabara de retornar da Itália, onde assistiu a uma partida entre Juventus x Torino, sugeriu rebatizar o clube de Juventus. No início, pretendia-se manter as cores originais do clube de Turim, branco e preto, mas como já existiam diversas equipes que onstentavam essas cores na divisão principal, optou-se pelas cores do Torino, grená e branco.

Em 1932, a “Máquina Juventina”, apelido atribuído ao esquadrão grená desse ano, terminou o Campeonato Paulista da divisão principal em terceiro lugar – a melhor colocação alcançada pelo clube até hoje. Ainda em 1932, o Juventus doou mais de 100 taças em apoio à Revolução Constitucionalista desse ano, que foram transformadas em balas, capacetes e fuzis. Em 1933 e 1934, o Juventus pediu afastamento das competições da APEA. A razão disso foram as dificuldades financeiras por qual passava o clube. Um ano mais tarde, em 1935, o Juventus retornou à divisão principal do Campeonato Paulista, tendo se adequado às exigências do futebol profissional. Em 1936, o Juventus disputou suas primeiras partidas fora do Estado de São Paulo. O clube da Mooca foi ao Rio de Janeiro enfrentar os times do Olaria e o Madureira.

No ano de 1937, após quebrar a invencibilidade de 35 partidas do Corinthians, o Juventus recebeu do jornalista Thomaz Mazzoni o apelido de “Moleque Travesso”, que se perpetuaria na memória do clube. Ainda naquele ano, o Juventus começa a campanha “pró-estádio”, cujo intuito era a construção de arquibancadas de concreto e melhorias na infraestrutura das tribunas do seu campo de jogo.

Chega a década de 1940 e, em 1941, o estádio da Rua Javari é reinaugurado com o nome de Estádio Conde Rodolfo Crespi. O Juventus participa da fundação da Federação Paulista de Futebol. No final do decênio, em 1949, a família Crespi retirou-se da direção do clube. Uma fusão com a Ponte Preta de Campinas foi à época cogitada. Ayrton Couto, dirigente do time campineiro, sugeriu que o seu clube assumisse todos os gastos do departamento de futebol do Juventus. A Ponte Preta, em contrapartida, obteria a vaga na primeira divisão do futebol paulista que pertencia ao clube da Mooca.

Ademais, Adriano Crespi, filho de Rodolfo, então presidente do Juventus, seria empossado como sócio-benemérito da Ponte Preta. A decisão sobre a fusão foi levada para o conselho do clube da Mooca. Com 23 votos contrários à fusão e 10 a favor, incluindo voto de Adriano Crespi, o Juventus continuou suas atividades sem se fundir a outra agremiação clubística. Depois disso, Adriano Crespi pediu afastamento do cargo de presidente. Com muitas dificuldades financeiras, a equipe da Mooca contou com uma grande mobilização popular do bairro pra continuar suas atividades.

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Presença feminina na arquibancada da Rua Javari. Foto: Fábio Soares/Futebol de Campo.

Embora não seja possível dar detalhes, há registros fotográficos de uma torcida feminina do Juventus nessa década. Segundo Sérgio Agarelli, filho de um dirigente do clube e membro da torcida CAJU, que surgirá em princípios dos anos 1970, as mulheres se vestiam de branco e ficavam na arquibancada coberta.

Em 1953, o Juventus faz sua primeira excursão à Europa, com a conquista de uma série de vitórias contra equipes expressivas como Roma, Sampdoria, entre outros times de diferentes países europeus. Em contrapartida, no ano seguinte, 1954, o Juventus é rebaixado para a segunda divisão do Paulista.

Em 1956, nova excursão, desta feita à Argentina: o Juventus é o primeiro time paulista a jogar em La Bombonera, afamado estádio do Boca Juniors.

Nos anos 1960, um feito importante em termos clubísticos: o Juventus inaugura o seu conjunto aquático, em 1964. Com sua nova sede social em construção, o Juventus chega em 1967 à marca de 105 mil associados, tornando-se o maior clube da América Latina em número de sócios. Em 1968, a nova sede social do clube é inaugurada. No final desse decênio, um grupo de torcedores conhecidos como “Tropa de Choque” se reunia ao lado da cabine de som do estádio da Rua Javari.

Esse grupo de torcedores era oriundo da Mooca, do Ipiranga e da região do ABC. Havia entre eles operários, açougueiro, barbeiro, dono de bar. Eles não tinham uma identificação ou camisa e adotavam uma postura de hooligans. A briga era a paixão deles. Foram adolescentes na década de 1940 e, em plenos anos 1960, ainda se achavam jovens em confronto. A maior parte deles tinha entre 30 e 40 anos. Eles faziam a segurança dos jogadores quando o time jogava fora e, no nosso estádio, protegiam os atletas impedindo que os torcedores adversários ficassem atrás do gol ou ocupassem a arquibancada coberta. Em contrapartida, se o time não ia bem, eram os primeiros a pressionar.

Além desse grupo mais organizado, havia ainda outras aglomerações de torcedores. A região da Mooca possuía muitos times de várzea e, quando as coisas estavam ruins para eles, as torcidas dessas equipes apoiavam o Juventus.

Em 1971, o Juventus conquistou o torneio de classificação do Campeonato Paulista. Um ano depois, realizou nova excursão para a Europa, com passagens por Grécia e Iugoslávia. Em 1973, o Juventus volta ao continente europeu, passando dessa vez por Espanha, Portugal, Bélgica e França. Em 1977, o Juventus desembarca para sua quarta viagem ao “velho Mundo”, atravessando países como Itália, França e Romênia.

No início da década de 1970, surge a torcida CAJU. Seu fundador foi um italiano, torcedor da A. S. Roma, chamado Giorgio Chiaranda, o Gigio. Ele morava na Baixa Mooca e tinha aproximadamente 22 anos. Essa torcida começou a se aglomerar atrás do gol adversário, deslocando-se nas inversões de campo do primeiro para o segundo tempo.

A CAJU era formada por cerca de cinquenta a sessenta pessoas, via de regra jovens entre 16 e 22 anos que residiam na Mooca e eram sócios do Juventus. Muitos eram atletas do clube que gostavam de futebol, todavia não conseguiram ingressar nas categorias de base e acabaram migrando para outras modalidades como o basquete e a natação. Boa parte deles frequenta o estádio até hoje. O membro da CAJU que posteriormente ganhou mais notoriedade foi o professor Pasquale Cipro Neto – professor de Língua Portuguesa, apresentador da TV Cultura e colunista da Folha de S. Paulo.

No entanto, sem lograr continuidade, em 1979, a torcida “CAJU” é extinta e outros grupos vêm à tona.

No início da década de 1980, mais precisamente em 1981, surge a torcida Ju-Jovem.

Em 1983, o Juventus conquista a Taça Prata, equivalente ao Campeonato Brasileiro da Série B. Dois anos mais tarde, o clube sagra-se campeão da Copa São Paulo de Futebol Júniors. Um ano depois, em 1986, o Juventus conquista o Torneio Início do Campeonato Paulista.

Nesse contexto dos anos 1980, a JU JOVEM atinge seu auge e chega a ter entre 700 e 800 afiliados. O grupo organiza-se como pessoa jurídica, com CNPJ, promove caravanas e é liderado pelos torcedores Sérgio Mangiullo, Sergio Miniaci e Alfredão. Em determinado momento, os jovens juventinos passam a participar da vida política do clube.

3.sérgio

Em 1997, o Juventus é vice-campeão da série C do Campeonato Brasileiro. No ano seguinte, em 1998, o Juventus joga pela primeira vez no Maracanã, onde enfrenta o Fluminense pela Série B.

Na década de 2000, período em que existiam algumas torcidas organizadas juventinas, como a Ju-Metal e a Explosão Juventina. Membros dessas torcidas, junto com outros torcedores, começaram posteriormente um grupo chamado “Setor 2”, torcida em estilo barra argentina, conhecida pela performance musical e pelo apoio incondicional, regido pelo lema: “ódio eterno ao futebol moderno”.

Em 2005, o Juventus é campeão da série A2 do Campeonato Paulista. Em 2006, o Juventus consegue vaga para a série C do Campeonato Brasileiro, após 6 anos sem disputar torneios nacionais. Um ano depois, o Juventus conquista a Copa Federação Paulista de Futebol, batendo o Linense em final emocionante.

Em 2008, o Juventus participa pela primeira vez da Copa do Brasil, sendo eliminado pelo Náutico de Recife. No mesmo ano, a equipe é rebaixada para a segunda divisão do Campeonato Paulista. Em 2009, o Juventus voltou a ser rebaixado, dessa vez para a terceira divisão do futebol paulista.

Em 2012, o Juventus retorna à segunda divisão do Campeonato Paulista. Sem embargo, na competição subsequente, o Juventus volta a ser rebaixado para a terceira divisão do Campeonato Paulista. Em 2018, não sem certa dificuldade, o clube manteve-se na Série A2 do campeonato de futebol profissional do Estado de São Paulo.