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La Paz e Oruro. A Bolívia longe da arenização

Gilmar Mascarenhas

Na última semana de fevereiro estive na Universidad Mayor de San Andrés (UMSA), a principal universidade pública boliviana, surpreendentemente do porte da nossa USP, exceto no âmbito da pós-graduação, quesito no qual o Brasil, aliás, sobressai com folga entre seus vizinhos. Enquanto primeira universidade criada no país, foi fundada em 1830, na cidade de La Paz, condição tardia para o contexto sul-americano, mas ainda assim cerca de um século antes do Brasil, país (vergonhosamente) singular por ter gerado clubes e campeonatos de futebol muito antes de fundar sua primeira universidade (também por isso não temos, como México, Chile e Equador, por exemplo, os curiosos clubes “universitários”).

Apresentei, no âmbito do Instituto de Investigaciones Geográficas desta universidade, minhas pesquisas sobre Geografia dos Esportes, campo até então inteiramente desconhecido por professores e alunos daquele instituto, que consideraram estar diante da descoberta de todo um novo horizonte de investigação geográfica. De fato, na América Latina, são raríssimos os geógrafos que dedicam alguma atenção mais sistemática ao tema. Neste sentido, quando participou de minha banca de doutorado em Geografia Humana na USP, em 2001, o catedrático espanhol Horácio Capel (orientador durante minha estadia “sanduíche” na Universidad de Barcelona) afirmou que eu seria o “maior especialista em Geografia dos Esportes em Íberoamérica”. Agradeci mas completei: o melhor pois praticamente o único. Brincadeiras à parte, o cenário pouco se alterou decorridas quase duas décadas.

Vamos ao futebol. No dia 28 de fevereiro, saí de uma conferência minha (que terminou às 20hs, sobre “Urbanismo olímpico”) diretamente para o simpático Estádio Hernando Siles, pois às 20h30 o “capitalino” The Strongest, em terceiro lugar na tabela do campeonato nacional (fase Apertura) enfrentaria o então líder Nacional de Potosí, em duelo muito esperado. A bola já rolava quando cheguei e o time local abria o placar, empolgando aproximadamente quinze mil torcedores presentes. Instalei-me, como de hábito, atrás do gol, (setor Curva Sul) junto às organizadas. Ingressos baratos (trinta pesos bolivianos, equivalentes a 17 reais para o meu setor), mesmo considerando o custo de vida relativamente baixo na Bolívia. Corresponderia a um carioca ou um paulista desembolsar em torno de 30 ou 35 reais para assistir a uma partida que valeria a disputa pela liderança do campeonato nacional, como um Flamengo x Palmeiras no último brasileirão, embora o The Strongest ocupe o segundo lugar no ranking boliviano de torcidas, atrás do Bolívar, também da capital.

No mês anterior estivemos na Cidade do México. Na comparação, evidencia-se mais ainda o baixo nível de aporte empresarial no futebol boliviano. O estádio apresenta pouquíssimos espaços comercializados para a publicidade de marcas. Em geral, os clubes movimentam receitas ínfimas se comparadas aos contextos mexicano, brasileiro ou argentino. O próprio valor cobrado pelos ingressos proporciona bilheterias modestas. Mesmo a seleção nacional, jogando no dia 5 de março em Cochabamba contra a Nicarágua, ofereceu opção de ingressos por apenas trinta pesos bolivianos.

Vista do estádio no intervalo de jogo: escassa publicidade. Foto: Gilmar Mascarenhas.

Ao final, o placar de 3×2 para o time visitante provocou lamentos e xingamentos, mas não por parte da torcida organizada Ultra Sur, (autointitulada “La Gloriosa”), verdadeira torcida de alento que seguiu cantando mesmo após o final da partida, e somente deixou o estádio após contínua pressão policial para evacuar a área. E saíram em pleno carnaval pelas ruas do entorno do estádio, aliás com expressiva presença jovem feminina, tal qual observamos na Cidade do México.

Vista da torcida Ultra Sur, “la Gloriosa”. Foto: Gilmar Mascarenhas.

Para um jogo noturno, impressionou-me a quantidade de crianças, mulheres e idosos. Mas os dias em La Paz ajudaram-me a melhor compreender tal registro: trata-se de uma cidade com nível de segurança relativamente alto para os lamentáveis padrões latino-americanos. Apenas a título de exemplificação, uma extensa passarela de pedestres com quase um quilômetro de extensão, (aliás, um formidável equipamento urbano), conecta a área central com o bairro Miraflores, atravessando mais um dos profundos vales que conformam o relevo singular desta cidade andina. Estando muito mal iluminada à noite, cheguei a consultar um policial se seria seguro atravessá-la, causando-lhes imediata estranheza. “Sí, claro, como no”?, respondeu. Em todo o percurso encontrei apenas casais apaixonados (aproveitando a escuridão) e animados grupos de jovens, sentados e tragando suas bebidas espirituosas (coca cola com rum, pude perceber). Risco zero de assaltos. Nas principais cidades brasileiras, um equipamento como este seria evitado naquelas condições, por se considerar de extrema periculosidade.

 

Passarela que liga o Centro de La Paz ao bairro Miraflores. Foto: Gilmar Mascarenhas.

A mesma passarela, durante a noite. Foto: Gilmar Mascarenhas.

Construído justamente quando Miraflores deixava de ser uma zona de chácaras rurais para se urbanizar (no contexto do “boom” econômico nacional do estanho), o estádio compunha um plano urbanístico interessante, dos anos 1920, de autoria de Emilio Villanueva, tipo cidade-jardim envolvendo estímulo à prática esportiva. Até então, o futebol paceño (gentílico de La Paz) era jogado principalmente no pequeno Campo de la Avenida Arce, muito próximo à zona central, tal como ocorreu em diversas cidades quando na primeira etapa de evolução do futebol (o Velódromo em São Paulo, por exemplo; o Campo da Graça em Salvador e os primeiros estádios em Belo Horizonte). No processo de expansão do futebol, era preciso buscar espaços menos adensados para construir estádios maiores e, preferencialmente, equipamentos anexos para outros esportes e recreação.

Inaugurado em 1930, sua localização em zona enobrecida expressa o conceito elitista que as autoridades tinham naquele momento acerca do lugar do futebol na sociedade, tal qual ocorreu com o Estádio Centenário, em Montevidéu, inaugurado no mesmo ano, ou a principal experiência brasileira daquela década: o Pacaembu. Neste sentido, endossamos mais uma vez o caráter revolucionário do estádio São Januário, inaugurado em 1927, muito provavelmente o primeiro a romper com o padrão locacional dos grandes estádios de então. Quatro décadas depois do Hernandes Siles, a localização suburbana/periférica do estádio Simon Bolívar, no modesto bairro Tembladerani, expressa muito bem o estágio de popularização alcançado pelo futebol paceño. Para meu azar, o clube Bolívar disputou duas partidas fora da cidade durante minha estadia.

Vista do estádio Simon Bolívar e de seu entorno suburbano a partir do teleférico. Foto: Gilmar Mascarenhas.

Até o ano de 1977, o estádio de Miraflores persistia com apenas um anel de arquibancada, reflexo da lenta evolução do futebol na cidade e mesmo no país, cuja população rural somente foi sobrepujada pela urbana na virada dos anos 1990. Por aqui também foi tardia a profissionalização dos jogadores, nos anos 1950, década que também acompanha a consolidação do futebol entre as camadas populares e sua difusão rumo às zonas rurais, no contexto da Revolução de 1952, conforme apreendemos no livro “Otro fútbol: ritualidad, organización institucional y competência en un siglo de fútbol popular em Bolívia (1896-2014)”, organizado pelos pesquisadores Juliane Müller e Mario Murillo. Com este último, sociólogo e professor da UMSA, tive a oportunidade de conversar pessoalmente em La Paz, em longo e agradável café.

A duplicação da arquibancada do Hernandes Siles se fez visando os Jogos Bolivianos de 1978, e não por acaso, no contexto de um governo ditatorial, do general Hugo Banzer, alcançando a assim capacidade para acolher 55 mil assistentes, aproximadamente. Mais tarde, o encadeiramento (ou melhor, a instalação de assentos sem recosto, as chamadas “butacas”) reduziu para quarenta mil a capacidade de público do maior estádio do país, que lota apenas no clássico capitalino: The Strongest x Bolívar. Interessante notar que no período democrático, e apesar do reconhecido “boom” de crescimento econômico recente, a estrutura geral dos estádios bolivianos permanece a mesma. Ao que parece, as benesses do progresso econômico têm sido mais bem orientadas para o desenvolvimento social e conquistas no âmbito do direito à cidade, conforme o formidável sistema de teleféricos, pujante serviço impulsionado por verbas federais (proporcionadas pelo grande aumento do poder de investimento governamental desde 2006, com a política de nacionalização dos hidrocarbonetos), do que para eventual modernização dos estádios.

Alguns outros aspectos singularizam a experiência vivida no estádio Hernando Siles. Situado no bairro Miraflores, zona de classe média que se verticalizou nos últimos trinta anos, o estádio foi inteiramente envolvido pela massa de construções, constituindo um ótimo exemplo de “inner city stadium” (John Bale, 1993), isto é, estádio que se “encaixa” no espaço urbano sem quebrar o continuum do espaço edificado, tal como São Januário, Bombonera e Caio Martins. O que se observa no entorno do estádio é uma relação de intimidade com a vizinhança. Não se notam sinais de típica arquitetura defensiva contra eventuais distúrbios. E o equipamento (de portões abertos, facilmente visitável) acolhe usos populares (comércio informal) em suas paredes externas, entre uma e outra porta de acesso a modestas academias de luta ou de musculação.

Uma reflexão geográfica: se o bairro se verticalizou e se valorizou, como o estádio permaneceu ali, com as funções que tem? No Rio de Janeiro, estádios de zonas nobres como Gávea, Botafogo e Laranjeiras foram desativados, o mesmo aconteceu com Caio Martins no bairro de Icaraí, em Niterói. E continuam impedidos de reativação, mediante leis de uso do solo e pressões dos moradores que rejeitam distúrbios eventuais e complicações no tráfego. O caso de “inércia espacial” (diria Milton Santos) do estádio de Miraflores pode ser explicada por um conjunto de fatores. Destacamos, por um lado, a relativa debilidade da economia do futebol boliviano, se comparado com outras nações vizinhas, o que inibe a projeção de novos estádios (sustentados basicamente pelos contratos televisivos, os clubes apresentam receitas ínfimas). Por outro lado, a cidade de La Paz, com seu relevo espetacular, carece de amplas áreas planas, exceto em zonas de expansão enobrecida (bairros como Cota Cota e Los Pinos) que certamente não desejam estádio de futebol. Por fim, o verdadeiro dinamismo econômico metropolitano encontra-se no altiplano, em “El Alto”, periferia paceña que explodiu demograficamente nas últimas décadas. Ali há espaço e pujança para um novo estádio, não obstante a altitude agressiva para atividades atléticas.

Cidade notadamente indígena (sobretudo aimara), a municipalidade de El Alto inaugurou em 2017 um estádio com capacidade para 25 mil pessoas. O clube paceño Always Ready logo passou a mandar seus jogos ali, com boa afluência de público. Evo Morales esteve presente na inauguração, que de alguma forma simboliza o empoderamento desta cidade periférica e mais um capítulo da afirmação dos povos originários, eixo central de sua política de transformação social.

Em Oruro, estive para conhecer seu famoso carnaval e assistir ao duelo entre o “time do santo” San José e o Flamengo, pela Libertadores da América. Fiquei decepcionado com o público presente, bem como com sua animação. A “torcida do Santo” não correspondeu ao esperado. Por um lado o valor elevado dos ingressos (cem pesos bolivianos em média, e 150 para os visitantes), por outro a imensa ressaca do carnaval, evento que mobiliza toda a cidade como principal acontecimento do ano. Muitos ainda envolvidos em trabalho pesado com o desmonte das estruturas que dominam a paisagem urbana. Os próprios moradores organizam e bancam os desfiles, atuando como “bailarinos”, percorrendo quatro quilômetros de pista, num evento que tem forte conotações religiosas: trata-se, no fundo, de uma homenagem à Virgem do Socavón. É diante deste santuário católico, com estátua maior que a do Cristo Redentor no Rio de Janeiro, que termina o desfile de cada um dos 38 conjuntos “folclóricos”.

Estádio Jesús Bermúdez. Foto: Gilmar Mascarenhas.

O estádio Jesús Bermúdez, inaugurado em 1955, precisamente (e não por acaso) na supracitada década “revolucionária”, localiza-se junto à parte nobre da cidade, ao norte, aos fundos desta. Surpreende, na chegada, pelo pequeno porte, lembrando a Ressacada em Floripa (vide esta coluna do mês de janeiro 2019) ou mesmo o Bento de Freitas em Pelotas (que aguarda sua vez nesta coluna), todos com um único anel de arquibancada. Alguns torcedores do Flamengo contaram no dia seguinte que chegaram duas horas antes e puderam adentrar o campo de jogo. Acredito, tamanha a informalidade reinante. Aliás, chamou atenção a dinâmica social do entorno, completamente indiferente à partida: vizinhos passeando tranquilamente junto aos muros do estádio, crianças em folia (atirando água nos transeuntes, como em nosso antigo entrudo), jovens jogando basquete na quadra vizinha, cenário inusitado para realidades outras em nosso continente (lembrei de minhas experiências na Libertadores de 2017, em Montevidéu e Medellin: entorno dos estádios com alto controle territorial).

Foto: Gilmar Mascarenhas.

Serviço de alimentação no interior do estádio, oferecido pelas tradicionais cholas, em cena comum nas cidades bolivianas. Foto: Gilmar Mascarenhas.

 

O medíocre San José ocupava o meio da tabela no Torneo Apertura, e estava desfalcado do zagueiro, destaque do time. Como sua torcida, entrou em campo resignado: ao menos 4 ou 5 jogadores do Flamengo tem valor de mercado muito superior a todo o plantel do clube orurense. Desequilíbrio que tende a aumentar no contexto da nova economia do futebol. Ademais, avanços científicos também atuam na redução dos efeitos da altitude, reduzindo ainda mais as já escassas possibilidades de êxito dos clubes bolivianos (país mais montanhoso do continente) nos certames internacionais. O placar foi um magro 1 x 0 para os visitantes, que contaram ainda com atuação exuberante de seu goleiro. Em outros tempos seria bem mais difícil vencer aqui.

Foto: Gilmar Mascarenhas.

Mais que em La Paz, obviamente, prevalece a rusticidade (placar eletrônico desativado, invadido por faixas da torcida) e acanhada publicidade no estádio. Sujeira e trechos em ruínas ou abandonados, retrato da própria cidade. Sem cadeiras na Curva Sul, por mim escolhida, junto à torcida organizada: mais uma “antiarena”.

Minha breve passagem por terras bolivianas foi quase uma viagem no tempo, revisitando o período “pré-arenização” dos estádios. Que bom que a globalização, como dizia Milton Santos, não é tão onipresente. E que bom que o povo boliviano apoia um governo que investe muito mais na redução da pobreza e em políticas sociais (como a infraestrutura de mobilidade urbana) do que em modernizar seus estádios. Conforme ponderou Fernando Ferreira, autentico colaborador desta coluna, o último grande evento futebolístico ocorrido na Bolívia foi a Copa America de 1997, quando a arenização não era ainda uma “imposição”. Reitera ainda o colega que as constantes ameaças por parte da FIFA em restringir jogos internacionais em altitudes muito elevadas pode também contribuir para reduzir ou mesmo frear qualquer intento de modernização mais custosa de seus estádios.

Neste sentido, no Rio Janeiro, foi muito triste acompanhar anos seguidos de imensos investimentos estatais na opulenta reforma do Maracanã, enquanto seu vizinho imediato, uma das principais universidades do país (a UERJ), mergulhava em inédito e muito grave abandono. A Bolívia está na contramão disso.